quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A falta que faz uma direita de verdade



Uma das maiores catástrofes latino-americanas é a ausência de uma direita digna do nome. Sim, amigos, eu sou de esquerda. Mas sou um democrata. Acho que uma democracia forte precisa de representantes fortes de todos os setores da sociedade. E é inequívoco: há muitas pessoas de direita. No Brasil, na América Latina, em qualquer lugar. E se elas não tiverem representantes a democracia terá um grave problema.
Infelizmente a direita latino-americana não está acostumada a lidar com o debate público. Sempre teve o que quis sem precisar correr atrás. Armas de coronéis, dinheiro norte-americano e patrocínio escancarado da imprensa sempre resolveram o problema. Nem que fosse com ditadura.
Aí o que aconteceu? No fim dos anos 90 todo o continente ficou de saco cheio do neoliberalismo e começou a eleger governantes de outras tendencias, geralmente um pouco mais à esquerda. A direita ficou perdida. Não dá mais pra usar jagunços, a guerra fria acabou, levando junto a histeria anticomunista, e toda a pressão da mídia não está ajudando muito. E agora?
Agora é hora de lutar pelo voto. Esgrimir argumentos. Abrir o peito no debate público. E o negócio ficou feio. Na Argentina Cristina Kirchner se reelegeu como quis, pelo simples fato de que a oposição era tão ridícula, mas tão ridícula, que nem podia ser levada em conta. Em agosto, quando estive pela última vez por lá, a frase que mais escutei foi: "claro que vou votar em Cristina. A oposição não nos dá escolha".
E no Brasil? Aqui se vê um absurdo vazio de idéias na direita. Aécio Neves, que deveria ser seu líder em uma nova etapa, não conseguiu ainda assumir esse papel. Por uma razão simples: não tem nada o que dizer. Quem mora em Minas (morei lá em todo o seu primeiro mandato e na primeira metade do segundo) sabe do que estou falando. É um coronel ao velho estilo com aparência moderna. Cala a imprensa o tempo todo, intimida adversários, e é só imagem, sem nenhuma substância.
Mas o mais deprimente é ver a postura de gente como José Serra e Roberto Freire. Esses caras são experientes e qualificados. Deveriam ser os grandes porta-vozes da oposição para discutir as questões nacionais. Mas siga os dois no twitter. Ficam o dia inteiro caçando polemiquinha de esquina. Coisa de candidato a vereador mesmo. E geralmente com tom moralista, um negócio horroroso, dá vontade de vomitar até.
E sabe o pior de tudo? Nesse deserto de idéias que é a direita brasileira, quem está ganhando espaço é a direita mais podre e escrota. Porque ao contrário dos citados acima, esses sabem muito bem o que querem, e reivindicam agressivamente seus objetivos. E lentamente o campo mais conservador vai ficando cada vez mais parecido com Jair Bolsonaro e Silas Malafaia do que com FHC e Mário Covas. Inevitável: tucanos estão cagando de medo de criticar as grandes linhas do governo, pois sabem que elas são populares, e ficam pegando no pé de coisinhas miúdas. E a direita reacionária bota a boca no trombone. Se mostra como uma opositora mais viável e explícita.
E nisso tudo o Brasil sai perdendo. Uma oposição inteligente e questionadora é indispensável para uma democracia. Uma oposição que mistura gente sem idéias com idiotas reacionários é um mal terrível. Não demora e a grande força de oposição ao PT vão ser os evangélicos de ultra-direita. Aí voces vão concordar comigo sobre a necessidade de uma direita sensata e responsável.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Educação: hipocrisia nacional

Vi hoje o resultado de mais uma pesquisa que coloca o Brasil em posição constrangedora no campo da educação. Apenas para dar uma idéia: somos o terceiro país do mundo que paga o pior salário para professores. E enquanto apenas 21% dos professores primários brasileiros têm curso superior, esse número é de 94% no Chile (não da Dinamarca ou na Holanda, mas em outro país latino-americano).
Aí o cidadão posta um link para essa pesquisa no facebook. Comenta algo tipo: "nossos políticos são uma droga", "malditos petistas", "malditos tucanos", e por aí vai. Só besteira. Comentários assim são o típico resultado de uma educação de merda. Porque a culpa disso não é dos políticos não, meus amigos. A culpa é TODA nossa.
Primeiro: você conhece alguém que votou em algum candidato pelo que ele fez pela educação? Que tenha procurado saber o que ele fez nesse campo nas funções que desempenhou em sua vida pública? Eu NUNCA escutei ninguém mencionando isso. Repito: em 39 anos de vida nunca vi alguém escolher um candidato priorizando minimamente o que ele fez pela educação. Votamos em FHC porque ele acabou com a inflação e votamos em Lula porque ele trouxe crescimento. O resto não tem importancia. Fingimos acreditar naqueles dados que mostram que eles fizeram maravilhas pela educação (embora saibamos muito bem que no máximo eles ampliaram o número de pessoas que recebem uma educação porcaria, mas nem tentaram mudar o fato de que essa educação é uma porcaria) e ficamos por aí mesmo.
Vamos falar então de algo que não tem nada a ver com política. Quantas pessoas voce conhece que sabem o salário dos professores de seus filhos? Que conhecem o projeto pedagógico da escola deles? Que deram uma folheada no livro didático no início do ano? Que vão à escola reclamar quando acham que seu filho está recebendo uma educação abaixo da critica?
E não estou falando de escola pública não. Falo de escola particular mesmo. Já contei aqui dos 400 mangos mensais que paguei para meu herdeiro aprender lixo, mesmo que eu fosse reclamar o ano inteiro. Os outros pais só reclamavam quando algo afetava a ELES, e não às crianças (tipo o numero altíssimo daquelas festas insuportáveis que não servem pra nada, os gastos envolvidos nelas, coisas assim). A professora imbecil de história não era problema.
Então vamos combinar assim. O Brasil tem uma educação de merda, isso ferra o país criando cidadãos de merda desde o princípio e matando qualquer chance de futuro para nossa nação. E a culpa disso é de cada um de nós. E renovamos nosso compromisso com um país de merda a cada minuto em que continuamos sem fazer nada além de repetir frases bonitas sobre o assunto nas redes sociais. Combinado então?
PS: se alguém me acha amargo demais nesse campo, faça uma coisa. te passo uma lista de ex-alunos meus, rapazes e moças entusiasmados, brilhantes e esforçados, que me encontram e me contam com os olhos brilhando que estão dando aula, cheios de orgulho por ajudar de alguma forma o país. Aí a certa altura começam a falar das dificuldades, baixam os olhos, e se mostram resignados, sabendo que não vai mudar. Esse pessoal me mata de orgulho. Mas me mata de raiva também saber que eles mereciam um país que valorizasse minimamente o esforço deles.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Dilma, ano I



Nenhum governo pode ser avaliado seriamente ao final de seu primeiro ano. Afinal, nada que vá ter influencia realmente duradoura pode ser construído num período tão exíguo. Normalmente o primeiro ano é marcado pelos grandes gestos para dizer a que veio o novo governo. E como Dilma foi eleita basicamente sob a promessa de continuar o governo anterior, aí que seria difícil mesmo esperar novidades. O que vejo como dignas de nota nesses primeiros 365 dias são basicamente duas coisas.
A primeira: as denúncias que derrubaram ministros sequer arranharam sua imagem. A galerinha governista disse que ela não tinha nada a ver, os oposicionistas de sempre viram ali mais uma prova de que o PT é formado por lunáticos comunistas que só sabem roubar. Analistas políticos falaram em tom pedante sobre uma "crise no governo". E a esmagadora maioria da população fez a leitura mais correta de todas: nada daquilo tem qualquer importância real. Saíram ministros, substituídos por outros do mesmo partido, indicados pelas mesmas pessoas, e tudo seguiu como antes.
Na verdade as denúncias acabaram fortalecendo Dilma. Como aconteceram muito no começo do mandato, se referiram a ações prévias ao governo dela, o que tornou óbvio que ela não estava ligada às ações em questão. E tem algo que me chama muita atenção: TODOS os ministros que caíram foram pessoas que ela jamais teria escolhido se tivesse total liberdade para isso. Alguns são daqueles partidos que vivem pendurados em todos os governos desde 1500 e tem a corrupção como ideologia. Outros (Palocci, Orlando Silva, Lupi) ela teve de aceitar, mas não eram de seu agrado.
Assim as denúncias foram até boas para ela. Pois além de se livrar de auxiliares que não queria, podendo ter um pouco mais de margem de manobra na escolha dos sucessores, ainda ficou na cabeça da população como uma espécie de caçadora de corruptos. E (agora chego à segunda observação que eu tinha a fazer) lenta e imperceptivelmente ela conseguiu se ajustar bem ao posto. Vi seu pronunciamento no dia do natal, e fiquei impressionado como ela vestiu o traje de "presidenta".
E conseguiu muito rápido encontrar seu estilo. Nada das bravatas colloridas, do jeitão atrapalhado e simpático de Itamar, do tom professoral de FHC ou da irresistível fanfarronice lulista. Dilma se encontrou no traje "autêntica, séria e incorruptível". Daquele que você até perdoa a falta de carisma, pois isso até funciona como uma prova a mais de que ela não é "apenas mais um político mentiroso". O povão, que já estava louco pra gostar dela, a adotou de vez como maezona durona mas justa.
Ao fim Dilma teve um grande 2011. Mostrou que tem força para lidar com opositores e aliados pouco confiáveis, vestiu de fato o traje presidencial e estabeleceu uma conexão com a massa. E o ano terminou com uma desaceleração econômica, mas perto do que vive a maior parte do mundo, o Brasil até está bem. E ainda teve a notícia, na reta final do ano, que chegamos ao posto de sexta economia do mundo. O que não significa grande coisa, mas é o tipo de notícia que as pessoas amam ouvir.
Enfim, a presidenta superou muito bem aquele que deveria ter sido seu ano mais difícil. Agora será a hora de imprimir sua marca pessoal na administração. É o capítulo que mais me interessa. Tudo o que falei acima é importante no sentido de estratégia política. Mas quero ver como será a administração de Dilma Rouseff. Que venha 2012 então.



sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

É possível não ser preconceituoso?

Se me perguntassem qual foi a questão mais dificil que um aluno já me colocou eu não teria duvida. Foi uma pergunta muito simples, com mais sentimento do que elaboração teórica. "Como eu faço para saber que não estou sendo preconceituoso com alguém?", me perguntou certa vez um aluno.
A pergunta era tão boa, tão simples e complexa, que acabou mudando o rumo daquela disciplina, que era História e Cultura Afro-Brasileira. Anos depois ainda penso nela. Aqui vão os itens que me parecem importantes. Sei que serão incompletos. Mas dá uma idéia do meu ponto de vista sobre o assunto.
Uma bem óbvia: voce tem dúvidas se um comentário será visto como preconceituoso? Não o faça. Pode ser bobeira sua. Mas também pode ser sua intuição te avisando que não é boa idéia. Na dúvida, melhor não falar nada.
Outra que é mais difícil seguir: nunca, mas nunca, em hipótese alguma, ache que alguém está sendo demasiado sensível por sentir-se estereotipado, em especial se você não faz parte daquele grupo. Só quem é alguma coisa sabe o que é vivenciar aquilo. Nenhum hetero faz idéia do que é ser gay, nenhum branco sabe o que é ser negro, e assim por diante. Se alguém se mostrar insatisfeito com algo, melhor tentar entender o ponto de vista do que pensar que é "viadagem".
Uma parte muito difícil da coisa toda: muitas vezes o problema não é o que é dito, mas quem diz, para quem diz e como diz. Nordestinos adoram se representar como sertanejos. Lá tudo o que é "típico" é "sertanejo". Mas eles odeiam que pessoas de fora os representem dessa forma. Acham que é estereótipo. Pode parecer absurdo mas não é. Uma coisa é representar-se assim, sabendo que é apenas uma imagem, e não um estereótipo. Outra coisa bem distinta é ver a mesma representação ser expressa por quem pode não entender direito a situação, e achar que de fato todo nordestino é um sertanejo esquálido.
Outro exemplo, mais geral. Todos nós concordamos que o Brasil é um país corrupto, onde há "jeitinho" para tudo. Mas vá ouvir um estrangeiro dizendo isso. Ficamos doentes de raiva. Há um pouco de hipocrisia nisso sim. Mas também há a legítima insatisfação por sabermos que quem diz isso supõe que isso pode significar que sejamos todos ladrões, o que efetivamente não é verdade.
Lembrei muito disso recentemente. Fui homenageado por uma turma de formandos na qual há um aluno homossexual. Ele é muitíssimo querido pela turma, com todos os motivos, pois é um rapaz da melhor qualidade. E entre as muitas formas da turma mostrar carinho por ele está o grito padrão: "ei ei ei, fulano é nosso rei!". O "r" de rei é propositadamente pronunciado de forma ambígua, óbvia referencia à orientação sexual do rapaz. Mas ele adora. Obviamente não há homofobia aí. Há muito afeto por alguém de quem todos gostam, e a homossexualidade aparece como uma característica peculiar dele, assim como outro é rastafari, e assim por diante. "Gay" aí não é ataque. Mas outra pessoa dizendo a ele de forma agressiva "seu gay!" em outro contexto seria diferente, né?
Enfim, nisso tudo há outra questão supercomplicada. Por um lado, a pessoa tem orgulho de ser o que é, e não quer que isso seja escondido, como se fosse um defeito. Por outro, ela também não quer que isso apareça o tempo todo, fora de contexto, como se a pessoa não fosse nada além daquilo (tipo: "enquanto negro, o que voce acha do aumento de salário dos vereadores?"). Não é difícil?
É e não é. Se dentro de voce não há preconceito, ou ao menos há a vontade de mantê-lo controlado, tenho certeza de que saberá agir corretamente. E os membros de grupos alvos de preconceito saberão reconhecer isso. Pois viver em um mundo que te estigmatiza te faz farejar de longe quem tem boas intenções ou não.
Minha postura é: quando é o caso menciono o assunto abertamente. Várias vezes já fiz perguntas a amigos do tipo "você não acha meio desagradavel esse negócio de barba encostando em barba não?" ou "é verdade que negros tem aquela característica que todo mundo fala?". Faço esse tipo de pergunta a amigos que sabem que não estou de sacanagem. Às vezes eles nao gostam. E dizem que não gostam. Mas acho que eles preferem lidar com alguém de forma assim direta, negociando o que é permitido ou proibido, do que enfrentar o preconceito silencioso ou a pura e simples expressão de ódio.
Mas posso estar errado. Esse assunto é dificil mesmo.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Como funciona a difusão de informação no Brasil



Nesta terça-feira, um grupo de agentes da polícia federal argentina foi à sede do poderoso grupo Clarín cumprir uma ordem judicial. Uma juíza de Mendoza atendeu ao pedido dos empresários Daniel Vila e José Luiz Manzano, que solicitavam que uma empresa do grupo, a operadora de TV a cabo Cablevisión, fosse investigada por concorrência desleal. A apreensão de documentos e computadores foi o resultado da decisão da juíza de investigar a denúncia de Vila e Manzano, arquirrivais do Clarín na luta por ser o maior grupo de comunicações do país (e também proprietários de uma operadora de TV a cabo, a Supercanal).
Naturalmente o fato foi o tema da terça-feira no país. E evidentemente o Clarín e os demais grupos que atacam violentamente o kirchnerismo viram um dedo do governo na operação. Disseram que Vila e Manzano agiram como aliados de Cristina Kirchner. O que dificilmente seria verdade, já que o canal dos denunciantes, a TV America, não ataca de forma radical o governo (como fazem veículos como o jornal La Nacion e o grupo Clarín), mas é majoritariamente crítico a ele. Por exemplo, nas noites de domingo o canal exibe o programa La Cornisa, comandado por Luis Majul, crítico feroz do governo.
Em suma, a princípio foi apenas o cumprimento de uma decisão judicial. Investigações posteriores podem até apontar que de alguma forma o governo esteve envolvido na história. Mas até agora há apenas acusações sem elementos concretos. É o que se encontra nos veículos do Clarín e dos demais opositores radicais. Apenas uma inferência: como governo e Clarín vivem em guerra, isso só pode ser mais uma tentativa do governo de atacar o maior grupo de mídia do país.
Agora o que saiu em todos os veículos brasileiros que vi: "Governo argentino envia Exército para invadir sede do maior grupo de comunicação da Argentina e apreender documentos". Ou seja, o que era uma acusação da oposição feroz foi noticiado aqui como um fato consumado. Na verdade a imprensa brasileira foi até mais longe que o grupo Clarín, que acusou o governo de agir através de intermediários, enquanto o que saiu aqui foi que o governo interviu diretamente na empresa sem intermediários ou motivos, apenas porque não gosta do que eles publicam.
Evidentemente aí se misturam alguns elementos. Primeiro, a antipatia de uma imprensa conservadora perante um governo que não se alinha com o neoliberalismo. Segundo, a preguiça de apuração: apareceu uma versão pronta em importantes veículos da imprensa argentina, e essa versão se casa perfeitamente com a opinião que essas empresas jornalísticas tem do governo argentino. Não havia necessidade de apurar, havia? Vamos repetir logo essa versão que nos pareceu tão boa, certo? Ah, não tem espaço para uma matéria longa sobre Argentina? Vamos cortar os detalhes, e transformar uma questão controversa e cheia de pontos obscuros em uma frase que apresente o governo argentino como uma ditadura.
É, amigo, as pessoas que são responsáveis por informar a população brasileira agem assim. Depois querem que a gente acredite que, ao contrário da internet, os órgãos tradicionais de imprensa tem cuidado, apuram cuidadosamente tudo antes de publicar e são o espaço da pluralidade democrática. Quando o que fizeram neste caso foi simplesmente pegar uma única voz (a oposição mais radical ao governo argentino), transformá-la em algo ainda mais feroz que a versão original e publicar como se fosse um relatório factual. Beleza, né?

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A Privataria da Informação






Finalmente consegui ler o tal livro sobre a "privataria tucana". E confesso que terminei a leitura sem saber exatamente o que pensar. Afinal, é bem claro que o autor centra a sua argumentação em duas idéias:


1) o modelo das privatizações brasileiras fez com que o país pagasse por elas, pois o que o governo pagou saneando as empresas antes da venda mais as moedas podres que aceitou como pagamento por elas somam mais do que o valor recebido nas vendas. Ou seja, teríamos pago para entregar empresas hoje altamente lucrativas.


2) Membros do alto escalão do governo teriam embolsado fortunas de forma ilícita nesse processo.


Nenhuma das idéias é nova, e ambas remontam à década de 1990. A novidade é que o autor não apenas "argumenta": ele apresenta toneladas de documentos que provariam o que ele diz. E aí vem o problema: não sou advogado, contador ou coisa do gênero. Não tenho condições de entender se aqueles documentos mostrados no livro de fato provam o que o autor está dizendo.


Bem, nada que um saudável debate não ajudasse a resolver, não é mesmo?


Aí que o problema começa. Os defensores do governo agiram como se esperava, e inundaram as redes sociais comemorando o fato de estar demonstrada a roubalheira tucana (quantos por cento devem ter lido o livro?). Até aí vá lá: não é diferente do que os militantes da oposição fazem quando aparece qualquer denúncia contra o governo.


Os alvos da denúncia adotaram uma postura realmente impressionante: não falam sobre o assunto. O que realmente faz com que eu tenda a acreditar que eles não estão limpos nessa história, ainda que possa simplesmente ser fruto da velha arrogância tucana de achar que quem não concorda com eles é por ser ignorante ou débil mental, tão burros que nem vale a pena tentar explicar.


Sobra a imprensa, que deveria repercutir as denúncias, nem que seja para mostrar que elas não fazem sentido. Mas isso não aconteceu. O assunto praticamente não foi mencionado, e não teve nenhum destaque. Qualquer declaração de parlamentar oposicionista contra o governo ganhou muito mais atenção do que um livro lotado de documentos pretendendo demonstrar que as privatizações do governo FHC foram foco de corrupção.


Veja: ao contrário de muitos, eu não queria que a imprensa aproveitasse o livro para descer a lenha nos tucanos. Não tenho interesse nisso, como também não tenho interesse quando eles destroem o governo baseado na palavra de algum criminoso. Eu queria coisas muito simples. Tipo: sentar com um punhado de especialistas em fraudes, ou algo do tipo, mostrar o livro e perguntar: de fato está provado no livro que os tucanos se lambuzaram na corrupção? Provou? Não provou, e o livro é uma fraude? Há indícios a serem investigados mas ainda sem 100% de certeza? Isso o que eu queria: informação e análise. Foi tudo o que não encontrei.


O que me diz o seguinte. Os veículos tradicionais de mídia estão em crise. Tentam se salvar com o argumento de que escolhem a dedo seus membros, ao contrário da internet, onde cada um escreve o que quer; são o espaço da pluralidade, ao contrário da internet, povoada de malucos raivosos que só lêem quem diz o que eles querem; fazem rigorosa apuração de tudo o que escrevem, ao contrário da rede mundial de computadores, onde se publica qualquer porcaria como sendo verdadeira.


Esse retrato mostra a imprensa que conhecemos? Não é o que vejo. Pra mim o que surge no retrato é uma mídia que faz questão absoluta de ser o tempo todo contrário a um governo amado pela população. Tentando fidelizar o último tipo de leitor que eles acreditam ainda ter: os reacionários da classe média e alta. Esse pequeno grupo será suficiente para carregar nas costas toda a imprensa brasileira?


Bem, isso não é problema meu. Há muito tempo deixei de usar prioritariamente os veículos tradicionais de imprensa para me informar. E agora deixei de vez. Concluo que gente como eu não está incluído no público alvo nem da mídia raivosa anti-governista nem dos amiguinhos do governo. Se não estão interessados em mim, só posso dar o que eles querem, e esquecer que eles existem.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Ditaduras e ditaduras






Hoje, após um final de semana particularmente etílico, li a notícia da morte do ditador norte-coreano, e a chegada ao poder de seu filho e sucessor. O tom das análises é o mesmo: morre uma figura lamentável, e chega ao poder outra sobre a qual nada se sabe e dificilmente se pode esperar que vá ser muito melhor.

Concordo plenamente. Mas o que chama a atenção é a diferença de tratamento entre ditaduras. Coréia do Norte, Irã, Cuba e Líbia são (ou eram, no caso da última) ditaduras monstruosas, e ficamos todos torcendo por seu fim. Alguns acham pouco e só ficam felizes se os ditadores forem espancados até a morte.


Por outro lado quanto ao Egito não foi bem assim. Ou melhor, o mundo ficou feliz com a queda de Mubarak, mas enquanto ele era ditador ninguém parecia preocupado com o assunto. O mesmo vale para vários outros regimes autoritários ou francamente ditatoriais do Oriente Médio, a começar pela Arábia Saudita. Ou você já ouviu os críticos aos regimes citados lá em cima falarem dos árabes como uma "monarquia anacrônica", o que evidentemente ela é?

Não, você não ouviu. Isso porque para muita gente, "democracia" é todo mundo que está do nosso lado. "Ditadura" é todo mundo que está contra nós. Os que seguem cegamente a visão de mundo norte-americana não se incomodam com as ditaduras árabes que estão do lado deles e ficam histéricos com as que estão contra eles. Aliás, nunca é demais lembrar: os EUA jamais se incomodaram com as ditaduras latino-americanas que estavam a seu lado. Para eles, Cuba era a única ditadura do continente.

Mas isso não é exclusividade norte-americana. Muitos dos veículos da imprensa latino-americana que apoiaram alegremente as ditaduras que assolaram o continente nos anos 70 hoje acusam os governantes de seus países de serem "autoritários" e atacarem a liberdade de imprensa. A foto que ilustra o post é da proprietária do Grupo Clarín brindando alegremente com o sanguinário Jorge Rafael Videla, condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade. Hoje seus veículos falam do kirchnerismo como se fosse uma ditadura assassina.
Do lado comunista a história se repete. Os regimes que adotaram a cartilha da foice e do martelo são vistos como as verdadeiras democracias pelos seus defensores, que dizem que todas as violações de direitos humanos que ocorrem nesses lugares são invenções norte-americanas. Os dissidentes são vistos como traidores que merecem a prisão.
Resumo da ópera: não importa o que digam os livros ou os empolados discursos oficiais. Democracia é quem está conosco. Ditadura é quem está contra nós. Ponto.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Feminismo Infantil








Houve um tempo mítico em que ser feminista era queimar sutiãs, exigir direitos iguais (como ao trabalho, por exemplo), defender a liberdade de escolha e falar que homem não prestava. Foi a infância do feminismo. Uma vez que a igualdade formal foi conquistada, seria de se esperar que o discurso entrasse em uma nova fase. Na qual se aceitasse de uma vez por todas que nada mais feminista que permitir que as mulheres escolham livremente como desejam viver sua vida. Inclusive serem donas de casa submissas, caso se sintam felizes assim. E lutar para que a igualdade de direitos se traduza em igualdade de fato.


Creio que em parte foi isso mesmo o que aconteceu. Felizmente conheço muita gente (inclusive muitos homens, aliás) que tem exatamente essa visão. No entanto, teve uma galerinha que ficou pra trás, seguindo um feminismo absolutamente infantil que só serve para banalizar o feminismo de verdade e causar confusão na cabeça dos desatentos.


Você conhece o tipo. É aquela figura que acha o máximo falar que homem não presta, não vale nada, só pensa em sacanear mulher (se ouve alguma história envolvendo problemas de um casal, presume que a culpa é toda do cara, já que "homem não vale nada"), mas não aceita que homens façam qualquer restrição às mulheres. Nem piada, na verdade. Esse tipo morre de rir com os trilhões de personagens tipo Homer Simpson, o homem bobão que só pensa em comida, cerveja e TV, mas fica absolutamente à beira de um colapso nervoso com qualquer piada no sentido oposto.


Vez por outra posto no facebook alguma do blog Testosterona, o tipo da coisa que eu gosto. As piadas deles são propositadamente anti-mulher num nível tão absurdo que evidentemente só pode ser piada. Não há como se achar que quando posto uma coisa daquelas estou defendendo coisas tipo "minha mulher pediu para ver as coisas do ponto de vista dela. dei uma olhada pela janela da cozinha". Ora, francamente, será possível que alguém (que me conhece, ainda por cima!) vá achar que eu penso isso DE VERDADE?


Sim, as feministas que pararam no tempo e entopem todo tipo de post como esse com comentários me xingando de machista. Na verdade isso pra mim nem é feminismo, é criancice mesmo. Que tal, ao invés de encher o saco de alguém como eu, ir reclamar dos publicitários e suas propagandas que só sabem tratar as mulheres como objetos de desejo ou chatas mandonas, aí sim, reforçando estereótipos?


Ou melhor ainda: lutar pela idéia (essa sim, libertária) de que homens e mulheres são seres plurais, múltiplos, impossíveis de serem aprisionados em um punhado de lugares-comuns. O feminismo com o qual me identifico é esse. Mas muita gente prefere achar que todo homem é safado e toda mulher é coitadinha. Deve ser tranquilizador viver num mundo tão organizado e cheio de certezas. Pra gente burra deve funcionar muito bem.

Milonga

Para minha surpresa o Vale do Aço mineiro amanheceu com um friozinho gostoso neste sabadão de dezembro. E nada combina mais com o frio do que escutar uma boa milonga.


No entanto é importante evitar confusões. Muitos brasileiros pensam que milonga é aquela versão mais alegrinha (ou menos deprê) do tango. Não amigos, isso é uma invencionice portenha, a chamada "milonga ciudadana". A milonga a qual me refiro é a campera, que reina no pampa que ignora as fronteiras entre Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina. É o fundo musical daquelas cenas características, com churrasco, cavalos, galpões e o pampa (evidentemente a imagem que ilustra o post é um exemplo).

A milonga a qual me refiro é a que foi acertadamente definida pelo gaúcho Vitor Ramil como "a estética do frio". Tem como base uma batida absolutamente inconfundível de violão. E, embora não seja obrigatório, normalmente transmite uma certa melancolia. Gosto mais na versão instrumental, ainda que também possa ser muito bem usufruída quando cantada. E como em todo o tipo de música folclórica, gosto muito de certas versões mais modernizadas, ainda que dê para escutar perfeitamente os clássicos. Enfim, amigos, uma boa pedida para dias frios é a tal da milonga. Abaixo, exemplos de várias de suas modalidades: instrumental, cantada, moderna, clássica. De alguma voce vai gostar. Curtam.









quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O País do Futuro






Me diga o que há de comum entre os seguintes fatos:



- Todas as cidades brasileiras vêem o trânsito piorar a cada dia. Ruas superlotadas de carros, ônibus porcaria transbordando de gente, motoqueiros ensandecidos. E não vejo ninguém tentando resolver o problema. Metrô? Nem pensar.



- A educação brasileira perde em qualidade para a de inúmeros países bem mais pobres da América Latina em todos os índices da Unesco. E tudo continua igual.



- Viajei ontem 200 km de carro de Belo Horizonte para uma região altamente industrializada do interior mineiro. Foram 4 horas de viagem. E dei sorte: o trajeto frequentemente leva 6 horas ou mais.



- Já começou a temporada das chuvas e das enchentes. Todo ano chove, todo ano tem enchente, pessoas desabrigadas, o Brasil se comove, aí no ano que vem começa tudo outra vez.






Vamos parar por aí. O que essas coisas tem em comum é: não há governantes dispostos a pensar o Brasil a longo prazo. Sob FHC e Lula o país melhorou, mas cada um a sua maneira os dois se preocuparam apenas em resolver os problemas momentâneos. Não houve nenhum planejamento de longo prazo.



E problemas como os citados precisam exatamente disso. O trânsito só vai melhorar no dia que alguém pensar "meu Deus, o trânsito só piora, onde isso vai parar? o que podemos fazer para que daqui a 20 anos isso esteja melhor? que reformas estruturais são necessárias para mudarmos isso?". O mesmo vale para a educação, estradas, prevenção às chuvas, etc. Todas essas coisas precisam de reformas profundas, várias das quais serão impopulares num primeiro momento, e em diversos casos os resultados não virão a tempo de dar votos na próxima eleição.



E não adianta culpar só os políticos. Quantas pessoas você conhece que levam em conta essas coisas na hora de votar. Na hora de escolher seu último candidato você se perguntou em que medida a escolha por cada um dos postulantes implicava em soluções diferentes para esses problemas, que são os problemas reais da sociedade? Porque nao adianta votar no cara mais legal, naquele que tem a propaganda que te emociona, no que tapou o buraco da tua rua ou no que pingou centavos na tua conta. Nada disso vai mudar o país em que vivemos.



O Brasil pode até ser o país do futuro mesmo. Mas só se tivermos gente com coragem e visão para mudar profundamente elementos estruturais que impedem que nossa vida melhore de fato. Gente que entenda que não adianta tapar buraco, mas reconstruir a estrada inteira. Vai custar caro, trazer transtorno, pessoas vão reclamar. Mas no longo prazo o problema será resolvido. Sem isso, o tal futuro não vai chegar nunca.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O Brasil x Argentina que me interessa


Em algum momento ser brasileiro passou a ser definido pelo ódio à Argentina. Querer ganhar dos vizinhos no futebol passou a ser um traço essencial da nossa nacionalidade. Me dou mal nessa: não apenas não dou a mínima para isso como vou sempre à Argentina e tenho otimos amigos nesse país.
Mas ao contrário do que pode parecer, odeio perder para a Argentina. Odeio ser goleado por eles. E o pior é que tomamos sovas absurdas deles todo santo dia:
- IDH: eles são os 45o do mundo, e nós somos os 78o.
- 13,4 por mil crianças argentinas morrem antes do primeiro ano de vida, contra 19,3 das nossas.
- 97,6% dos argentinos sabem ler e escrever, contra 90,4% dos brasileiros.
- A expectativa de vida de um argentino é 75,3 anos, contra 73,5 dos brazucas.
- Nosso PIB per capita é 11.3oo dólares, contra 14.332 deles.
- Lá todas as pessoas tem os mesmos direitos em relação ao casamento e adoção. Aqui os gays não existem para esses assuntos.
Gosta de odiar a Argentina? Acha que ser brasileiro é odiar o país vizinho? Tá. Então odeie perder para eles nesses quesitos. Uma derrota no futebol é ruim mas dá pra aguentar. Mas essa goleada nos indices sociais deveria fazer quem odeia a Argentina querer vomitar. Mas não: a derrota que faz eles se importarem é só a futebolística mesmo. Que nosso povo morra. A vitória no futebol é o que importa a essa gente. Bela definição de patriotismo.

Flamengo, 30 anos depois


Há 30 anos o Flamengo vivia o dia mais importante de sua história, ao atropelar o Liverpool por 3 a 0 e ser campeão mundial. Time de maior torcida do país, o rubro-negro é particularmente querido por boa parte de nossa imprensa, que tem relembrado a data de forma acrítica e laudatória. Se eu tivesse a idade dos meus alunos não iria acreditar em nada do que estão falando. Afinal, não dá pra acreditar que um time seja tão perfeito.
Mas não espere que eu vá dizer que o time era ruim. A questão é que essa visão acrítica acaba escondendo inclusive coisas boas que o time tinha. Por exemplo: a garotada de 20/25 anos se acostumou com o futebol que viram a vida toda. Ou seja, sem meio de campo, apenas 2 volantes que só sabem dar porrada e 2 meias que só atacam. Nunca viram um grande camisa 8 à moda antiga, daqueles que atuavam de uma intermediária à outra, capazes de marcar e armar o jogo com a mesma competencia.
Pois bem, o Flamengo tinha DOIS desses no time titular: Andrade e Adílio. Não sábíamos, mas era o fim de uma linhagem maravilhosa, que nos havia dado gente como Didi, Gérson e Rivelino. Andrade e Adílio foram maravilhosos camisas 8, que jogavam juntos num mesmo time, aquele Flamengo. Na época não dávamos tanto valor a eles, já que eram comtemporâneos dos monstros chamados Falcão e Cerezo, mas após 25 anos sem termos jogadores assim, essa dupla do Flamengo parece uma coisa que não dá pra explicar.
Mas por outro lado, acho que falta contextualizar melhor aquele time no cenário em que ele estava. Aquela foi uma das maiores gerações da história do futebol brasileiro, a rigor nossa última verdadeira geração de ouro. E como não havia nada parecido com a atual facilidade de vender jogadores para o exterior, esses caras jogavam aqui, voce podia vê-los o tempo todo.
O que significa o seguinte: o Flamengo era um timaço, mas não em um nivel que desequilibrasse os campeonatos. Aquele era o melhor time em um cenário com outras grandes equipes. Por exemplo, aquele rubro-negro teve 3 titulares na seleção de 82 (Zico, Leandro e Junior), mas o São Paulo e o Atlético/MG tambem (Valdir Peres, Oscar e Serginho/Luisinho, Cerezo e Éder). O mais comum era o Flamengo vencer esses outros grandes times, mas não era nada anormal quando perdia.
Lembrando: a final do Brasileirão de 1980 foi resolvida nos critérios de desempate com o Atlético/MG, já que cada equipe venceu uma partida por um gol (o ultimo jogo, 3 a 2 para o Flamengo, certamente um dos maiores jogos da história). Em 1981 o Botafogo, que não era nada demais, despachou o rubro-negro em um sensacional 3 a 1, com dois gols marcados nos últimos minutos, sendo o terceiro um verdadeiro golaço, em que o ótimo Mendonça simplesmente humilhou Junior. E também naquele 81, o Vasco venceu 2 dos três jogos da final do carioca, perdendo o título apenas na terceira partida (o Flamengo tinha o direito de perder 2 das 3 pela melhor campanha)



E o Flamengo quase sempre vencia esses jogos tão equilibrados não apenas porque era melhor, mas também porque era comum uma ajudinha do juiz. Por exemplo, a famosa partida-desempate do Serra Dourada pela Libertadores de 81, em que José Roberto Wright acabou com o jogo ao expulsar cinco jogadores do Galo. A final do Brasileirão de 82, quando Andrade tirou com as mãos uma bola de dentro do gol, e o juiz mandou o jogo seguir.
E a imprensa tem sido tão acrítica em relação a isso tudo, que o jornalista Eduardo Monsanto, da ESPN Brasil, quando perguntado sobre o jogo do Serra Dourada, respondeu, de forma inacreditável, que "o juiz ajudou sim, mas não fez nenhuma diferença, o Flamengo ia ganhar mesmo". O juiz expulsar CINCO jogadores não fez diferença?
Esse é o problema dessa visão acrítica. Faz parecer que aquele timaço passeava sobre os adversários. Não era assim. Aquele era o melhor time em um universo cheio de grandes times. Não há nada a acrescentar em relação ao fato de que o Flamengo era um timaço, cheio de craques. Era mesmo. Também era o melhor time do Brasil, e provavelmente do mundo. Mas desenhar um cenário no qual esse timaço saía por aí atropelando quem aparecesse pela frente não tem nada a ver.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Liberdade e Qualidade de Vida: é possível ter tudo?


Li agora há pouco que segundo a Unicef, Cuba é o único país latino-americano onde não existe subnutrição infantil. Algo absolutamente espantoso para um país pequeno e pobre, além de vítima de um embargo norte-americano há cinco décadas. Mas não chega a ser surpreendente, pois Cuba sempre aparece como o país latino-americano melhor colocado em todos os indicadores sociais, disputando com a Argentina e Uruguai. O Brasil, coitado, fica muito atrás sempre.
Exemplos: Brasil tem 11.300 de PIB per capita, enquanto Cuba nao passa dos 4.500. Mas eles estão mais de 30 posições à nossa frente no IDH. A mortalidade infantil é quatro vezes menor. A alfabetização é de 99,8%, contra 90,4%. A expectativa de vida é 5 anos maior.
Há duas abordagens possíveis: a primeira é dizer que isso prova o sucesso do socialismo real e a impossibilidade do capitalismo cuidar das pessoas. O segundo, é que isso não é a única coisa que importa, e outros países, como o Brasil, tem a liberdade, algo que os cubanos nem sonham em ter.
Aí os primeiros vão dizer: grande porcaria, ser o pai de uma criança subnutrida mas poder reclamar a vontade disso. Talvez lembrem que essa liberdade não é lá essas coisas, já que a mídia nem vai mencionar esse dado, deixando de propósito os brasileiros na ignorancia desse fato. Enquanto isso os segundos vão dizer: os maiores IDH do mundo são capitalistas, e mesmo na América Latina, países como Argentina e Uruguai tem índices muito próximos aos cubanos sem abandonarem o capitalismo.
Na verdade é uma discussão que nasce inteiramente viciada. Não há relação entre um país ser democracia ou não e sua população ter uma boa qualidade de vida ou não. Cuba não é um país com altos indicadores sociais por ser uma ditadura, nem o Brasil tem péssimos indicadores por podermos reclamar do governo em paz.
A rigor o que Cuba nos mostra é uma outra coisa. Se um governo tiver vontade de melhorar a vida de sua população, ele o conseguirá. Sem demora nem investimentos espetaculares. Um país tão pobre conseguiu melhorar espetacularmente seus indicadores sociais em um período curto de tempo. O Brasil avança muito mais devagar. É inadmissível.
Não vou discutir aqui por que não andamos rápido como poderíamos nisso. Só vou dizer uma coisa. Cuba ter indices como os que tem e o Brasil ter outros muito piores só mostra uma coisa: que nós deveríamos nos envergonhar o dia inteiro por termos essa situação. Não importa que diabos somos nós. Estarmos assim é intolerável. Só não acho que muita gente se importe.

Cristina Kirchner - 2o tempo


Ontem Cristina Fernandez de Kirchner tomou posse de seu segundo mandato presidencial. E previsivelmente o festival de tolices costumeiras tomou conta da imprensa brasileira. Li até em um conceituado site esportivo brasileiro (o Trivela) que o projeto de descentralização futebolística que o país viu nos últimos anos se deve ao fato de a presidenta ter enormes dificuldades políticas na província de Buenos Aires (veja o tamanho da tolice: ela teve nessa província 56% dos votos nas eleições deste ano, contra uma média de 53% no país como um todo).
Na verdade os brasileiros, incluindo aí alguns que posam de "especialistas em Argentina", não entendem direito o que se passa por lá. Aí fazem um raciocínio assim: Mussolini = Vargas = Perón = Kirchner. Ou seja, o kirchnerismo é um fascismo 2.0. Aí faz sentido reorganizar o futebol do país por pura vendetta contra uma província que "vota contra ela" (aí outra confusão: Mauricio Macri, da oposição, se reelegeu prefeito de Buenos Aires com uma votação avassaladora. Daí confundiram cidade e província e presumiram que se a cidade de 2 milhões de pessoas votou em Macri então a província inteira de 13 milhões a odeia.Vejam o nível do argumento!).
Eu entendo o kirchnerismo da seguinte maneira: o equivalente argentino do lulo-petismo. Quando digo "equivalente" não digo "igual". Significa que ocupa um espaço relativamente semelhante no espectro político e tem mais ou menos o mesmo tipo de eleitor. E é atacado por uma oposição relativamente semelhante com o mesmo tipo de argumento. Claro que sendo países distintos, com características distintas e tradições políticas distintas, são movimentos que enfrentam questões distintas de forma distinta.
Mas note que o lulo-petismo e o kirchnerismo são muito fortes entre os movimentos organizados e a população pobre urbana, sendo avassaladores nas regiões de seus países que mais precisam do estado (o Norte-Nordeste brasileiro e o norte e o sul da Argentina). Têm muitas dificuldades eleitorais nas regiões agro-exportadoras (províncias de Santa Fé, Córdoba e Mendoza na Argentina, Sul e Centro-Oeste do Brasil), onde é arraigada a idéia de que o Estado deve deixá-los em paz para seguir com seus negócios, ao invés de roubar seu dinheiro para dar aos que não conseguiram se estabelecer (também aparece eventualmente uma postura elitista meio enojada com políticos cheios de arroubos que são idolatrados por gente pobre e faminta).
Ambos enfrentam uma oposição encarniçada, com os mesmos atores: empresários e grande mídia, com o mesmo discurso que mistura moralismo, liberalismo e reacionarismo. Essa mídia, que apoiava alegremente os regimes militares de seus países, hoje acusa lulo-petistas e kirchneristas de terem posturas ditatoriais, enquando a massa idolatra esses governos por acreditar que finalmente a democracia social chegou para eles.
As diferenças são mais ligadas aos contextos do que propriamente à essencia dos movimentos. A Argentina tem uma tradição fortíssima de radicalização política, então tanto governo quanto oposição apostam mais solidamente na estratégia do confronto aberto, que frequentemente se torna estritamente pessoal. Na tradição de acomodação da política brasileira, o lulo-petismo concede mais à direita e também não é tão violentamente atacado (na verdade, perto da violentíssima política argentina, a brasileira parece uma alegre festa de fim de ano).
Resumo da ópera: eu entendo que brasileiros de direita ataquem o governo argentino com o mesmo argumento que usam para o nosso governo. Entendo que pessoas da esquerda mais radical torçam o nariz. Mas as pessoas de tons mais progressistas que gostam do lulo-petismo xingarem tanto o kirchnerismo é apenas desinformação. E tratar Cristina como se fosse um Mussolini 2.0, o que também é muitíssimo comum, é o cúmulo da ignorancia.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O Monstro Gal Costa


A maior prova de que a música brasileira é insuperável é sua capacidade eterna de nos surpreender. A gente acha que conhece bem a produção musical do nosso país, e aí de repente, do nada, aparece algo que a gente não conhecia, e não entende como pôde sobreviver sem isso.
Sempre tive Gal Costa na conta de uma grande cantora do ponto de vista técnico. Pra mim, ainda que uma grande cantora, ela não podia sonhar em reivindicar um posto entre os monstros sagrados da nossa história musical. Afinal, não me parecia alguém capaz de transmitir emoções, algo essencial para quem vive da voz.
Aí, do nada, meu velho amigo Waltencir, meu colega de república dos tempos de Unicamp, e professor da UFPR, me apresenta as músicas que ela gravou há uns 40 anos. Sinceramente, não sei se o odeio por não ter feito isso há 20 anos, quando dividíamos o mesmo teto, ou se o amo por ter feito isso agora. Acho que vou ficar com a segunda opção.
Anuncio ao mundo: Gal Costa foi a maior cantora que já existiu neste país. E só lamento que ela tenha resolvido fazer outras coisas em outros momentos de sua carreira. Mas felizmente houve o momento em que ela fez o que devia: cantou com muita emoção e sentimento músicas de forma perfeita. A trilha sonora dos céus. Viva a música brasileira.





quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Liberdade de expreÇão


Uma das novidades que mais me aborrece no mundo atual é a banalização e a distorção absurda que têm vitimado termos como "liberdade de expressão" e "censura". Na nossa pobre América do Sul, essa discussão é historicamente um patrimônio dos grupos mais progressistas, que normalmente estiveram sempre na oposição e muitas vezes na cadeia. Mas agora essa temática tem sido usado como arma por uma direita ultra-reacionária para defender práticas abusivas. Cito dois exemplos.
1) Os tais "politicamente incorretos", mais popularmente conhecidos como "escrotos reacionários". Pessoas que ofendem grupos minoritários ou subalternos (mulheres, negros, nordestinos, homossexuais, estupradas, indígenas, etc.) e não toleram ser chamadas de preconceituosas. Quando isso acontece, evocam a "liberdade de expressão" e dizem que estão sendo "censuradas".
2) Na maioria dos países sul-americanos (exceção a Chile e Colômbia), os governantes não seguem a cartilha neoliberal. São governos muito distintos, mas têm essa característica em comum. Todos esses governos são alvo de ataques violentíssimos na imprensa de seus países. Mas essa imprensa acredita que os governos e seus partidários (normalmente a MAIORIA da população) não pode reclamar disso. Reclamações desse tipo são imediatamente repelidas como "censura".
Escrotos e membros da grande imprensa são muito diferentes mas tem uma coisa em comum. Como diria o velho Brizola, ambos engordaram durante as ditaduras sul-americanas. Gostavam delas. Ficavam felizes quando aqueles que hoje lhes parecem "censores" eram mortos e torturados. São autoritários até o último fio de cabelo. Só sabem falar sozinhos. O que eles chamam de "censura" é algo que qualquer pessoa civilizada chama de "diálogo" e considera muito saudável e democrático.
Mas eles não são assim. Implantaram ditaduras para defender a "democracia", o que mostra bem o conceito deles de "liberdade". Para eles, democracia é quando eles tem a liberdade de falarem sozinhos, sem sequer terem de escutar opiniões contrárias.
Por isso os machistas, racistas e homofóbicos vivem evocando o direito à "liberdade de expressão", mesmo quando ninguém quer censurá-los. Liberdade para eles é todos repetirem o que eles dizem. Se alguém tem opinião diferente eles ficam loucos, pois nunca tiveram de lidar com isso. Se sentem acuados. E chamam de ditadura aquilo que é um simples debate entre argumentos distintos.
O mesmo vale para os grandes veículos de imprensa do continente. A maioria esmagadora defendia alegremente as ditaduras militares que dominaram a América do Sul nos anos 60/70/80. Engordaram com elas. Jamais as criticaram, exceto quando já estavam à beira do colapso. Mas hoje, quando alguém reclama de suas posturas políticas, reclamam por estarem sendo "censuradas". É assim: ela pode criticar quem quiser, pois isso é liberdade de expressão. Os outros a criticarem é ditadura.
Absurdo? Para mim e provavelmente para voce sim. Mas para quem se acostumou a falar sozinho a vida inteira, com os discordantes sendo presos ou mortos, isso faz sentido. Para eles, contradição e discordância sempre foram crimes. Não podem falar isso em voz alta hoje em dia. Mas é evidente que continuam pensando assim.

O que mata um professor

Nunca fui filiado a nenhum sindicato de professores. Isso se dá por muitas razões que não vêm ao caso agora. Mas uma delas é que normalmente nossos sindicatos (como os das outras classes também, aliás) concentram sua ação em defender nossos interesses materiais. O que eu acho muito errado. Isso deveria ser uma parte de sua luta, uma parte importante, mas não a única.
Pois em todos esses anos de docência, o que vejo é que não é o dinheiro o que mais torna a nossa profissão algo tão degradante. O que sinto, e acho que não é só comigo, é que a pior parte é ver que vivemos numa sociedade que não nos respeita. E o resultado, como não poderia deixar de ser, é que não recebemos qualquer respeito nem mesmo da parte dos nossos alunos.
Tente entender. Professores são humanos. Têm família, contas a pagar, problemas pessoais, enfrentamos trânsito, violência, ficamos doentes, etc. Como todo mundo. Só que nossa profissão nos obriga a deixar tudo pra lá, entrarmos numa sala e fazer um esforço sobre-humano perante duas ou três dúzias de pessoas para criar um clima agradável. Você pode estar morto por dentro, corroído pelos piores problemas pessoais, mas se mata para tentar não deixar que aquilo interfira, e que aquelas pessoas, cujo futuro é em parte responsabilidade sua, possam ver apenas o melhor de você.
Não acho que as pessoas devem nos aplaudir na rua por fazermos isso por elas: foi a profissão que escolhemos. Mas acho que merecíamos ao menos algum reconhecimento e gratidão. Que quando você está querendo morrer mas toma um remédio tarja preta para se equilibrar, entra na sala e tenta dar uma aula leve e agradável, os alunos não pensem “oba, esse aí é todo alegrinho, vamos aproveitar dele. Não vamos fazer porra nenhuma e depois no fim do ano/semestre a gente aplica um golpe qualquer”.
Em suma, o mínimo que se espera é que nos tratem como humanos. Não gostamos de ser interrompidos quando estamos falando algo sério por alguém que está falando mal da gente (e alto ainda por cima) na nossa frente. Não podemos querer ouvir alguém que faltou 80% das aulas dizer que a reprovação é culpa nossa, por fazer a chamada sempre que a pessoa sai de sala. E sobretudo: não gostamos que alguém entre em sala dizendo "porra, vou ter de assistir essa aula chata porque estou cheio de faltas"
Você vai dizer que isso é porque essas pessoas são babacas (e é bom que se diga, estão longe de ser a maioria). Sim, elas são babacas. Mas o fato de se sentirem tão livres para serem babacas à vontade na frente de quantas testemunhas quiserem mostra bem o nível de respeito que nossa classe desfruta na nossa sociedade.
E ninguém parece ligar para nada disso. Sentamos entre nós, reclamamos disso tudo, tomamos um café, respiramos fundo, e recomeçamos o esforço de tentar deixar todas as amarguras para fora da sala de aula, mesmo sabendo o que vamos encontrar pela frente. E ainda querem que a gente se orgulhe do que faz.
Aí voce descobre que a mídia só dá espaço para a educação quando é para o Dimenstein falar que o maior problema da educação brasileira é a falta de computadores, ou o cara da Veja que acha que se voltar a reprovação todos os problemas se resolvem. Aí você senta e chora.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

The Awful Truth: rock é música de velho


Li uma matéria na Folha de hoje que me deprimiu completamente. O texto ia empilhando dados sobre o Brasil e o mundo para argumentar o seguinte: os jovens não gostam mais de rock. O argumento era convicente, e eu tentando procurar furos na reportagem, sem encontrar nenhum. A certa altura resolvem entrevistar os "sobreviventes do rock": Pitty e J. Quest. Por favor, me matem. Se isso é o que restou de rock, desisto.
O pior é que a matéria escancara algo que eu intuía há algum tempo mas preferia não ver. Meus alunos mesmo se dividem entre os "bregas" e os "alternativos" (Mc Sheldon x Chico Science). Rock não tem (aliás não tem nada que não seja de Pernambuco, por sinal). Tudo bem que o mundo acadêmico nunca foi exatamente a casa do rock, sempre foi mais MPB. Mas passei inesquecíveis tardes na cantina do IFCH-Unicamp discutindo rock por horas e horas tendo ao centro uma garrafa com uns dois dedos de cerveja quente (e a gente sem dinheiro pra mandar descer outra). Nunca fomos majoritários no mundo acadêmico, mas sempre tivemos nosso espaço.
E mesmo fora da universidade não vejo nada acontecendo em termos de rock. O mundo deve ter ficado tão bom, tão legal, tão maravilhoso, que ninguém tem mais nada para reclamar, a ponto de mesmo adolescentes só terem ouvido para música mela-cueca. Não deve haver mais motivo para berrar de ódio contra um mundo escroto.
Veja, não acho que ninguém seja obrigado a gostar de rock, e eu mesmo gosto de tantos generos que daria uns 10 posts só pra falar de todos eles. Só acho que um gênero como esse, que sempre foi um canal poderoso para expressar a rebeldia e insatisfação tem um lugar muito importante. E me preocupa viver em um mundo onde jovens não vêem qualquer afinidade com algo assim.
É, amigo, rock agora é coisa de velho. Bem, pelo menos o envelhecimento finalmente trouxe algum motivo de orgulho.






domingo, 4 de dezembro de 2011

Sócrates Brasileiro


Nasci em 1972, mas minhas lembranças do mundo começam basicamente em 1979. É curioso, antes desse ano praticamente só tenho lembranças vaguíssimas, mas a partir dali lembro de tudo. Tome-se como exemplo o futebol: não lembro de nada do brasileirão de 1978, e me recordo de tudo do campeonato de 1979. E isso vale para a seleção: não tenho qualquer memória do mundial da Argentina, mas me lembro de cada detalhe da Copa América de 1979. E foi ali que me apaixonei pela seleção brasileira.
Naquela época o torneio não tinha sede fixa. Brasil, Argentina e Bolívia estavam numa chave de jogos todos contra todos ida e volta, em que o melhor se classificava para as semifinais. Os bolivianos começaram vencendo os dois gigantes na altitude de La Paz (aliás, boa lembrança para uns malas que dizem que "antigamente não tinha esse negócio de altitude"). Assim, o encontro entre brasileiros e argentinos no Monumental de Nuñez valia a sobrevivência no torneio. Aos 7 anos sucumbi ao sono e não vi o jogo contra a Bolívia. Então meu primeiro jogo da seleção foi aquele.
Aos 7 anos eu entendi perfeitamente como aquele jogo já era um clássico. Como sempre o jogo foi disputado, e terminou 2 a 2. Sócrates marcou os dois gols do Brasil, Leão falhou nos dois gols da Argentina. Naquele dia nasceu meu vínculo com a seleção brasileira. E graças principalmente ao Magrão, esse vínculo começou com muito orgulho.



Ao longo dos três anos seguintes vi Telê Santana montar a maior seleção de futebol que eu vi na minha vida. E quando finalmente chegou minha primeira copa do mundo eu mal me aguentava para ver aquele timaço atropelar todo mundo. E no dia 14 de junho de 1982, morrendo de ansiedade, sentei para ver a estréia da seleção, contra a URSS.
E deu TUDO errado. Valdir Peres engoliu um franco, os soviéticos saíram na frente logo de cara. o Brasil atacava, atacava, mas mal levava perigo. A defesa soviética era ótima, se retrancava, o goleirão pegava tudo. E os caras ainda contra-atacavam, e se não fosse o juiz amigo, teríamos levado outro gol, de pênalti.
Eu me desesperava, achava que íamos perder, que a vida era uma droga. Nos meus 10 anos não conseguia pensar em nada pior do que aquilo. Não havia explicação para tamanha desgraça. Até que a uns 15 minutos do fim ele, Sócrates, acertou uma cacetada do meio da rua e empatou. Foi um dos momentos mais alegres da minha vida. E só de ouvir a fenomenal narração do Luciano do Valle para os dois gols da vitória brasileira volto a ser o garoto de 10 anos que não conseguia conceber a idéia de que pudesse haver na vida algo mais importante do que a seleção brasileira em uma copa do mundo.




Quatro anos depois a seleção voltava ao mundial, a última chance daquela geração de ouro, a última grande geração do nosso futebol. Na nossa cabeça, era questão de vida ou morte aquele título. E a estréia foi tão ou mais tensa que a outra. A Espanha era um time excelente, cheio de bons jogadores, e (convenhamos) o Brasil não era mais o mesmo. Zico, lesionado, entrava na reta final dos jogos. Cerezo, Leandro e Éder não estavam lá, outros não eram mais os mesmos. O jogo era ótimo, lá e cá, o apito amigo ajudou de novo (Michel marcou um gol não assinalado pelo juiz), e a tensão era total.
Até que finalmente o Brasil conseguiu fazer o gol, que seria o da vitória. De novo ele, Sócrates.




Três das mais maravilhosas alegrias que o futebol me deu vieram através de Sócrates. Um super craque, daqueles que deixam lembranças eternas. A morte dele hoje me deixou numa tristeza imensa. Deu uma saudade incrível de um tempo que não vai voltar, um tempo em que a Globo não precisava forjar uma ligação artificial do torcedor com a seleção, pois nós éramos mesmo apaixonados por ela. Afinal, era de fato uma geração de craques, de um tipo que voce amava dentro e fora do campo. Sócrates era um baita símbolo de um tempo maravilhoso do nosso futebol.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Mídia e governo petista


Nas últimas semanas dois veículos líderes do seu segmento de mídia (Veja e TV Globo) fizeram mudanças importantes em postos de comando. Segundo gente que entende do assunto, isso teria relação direta com uma mudança nas relações da grande imprensa com o governo, mudança que estaria já em andamento.
Segundo esse argumento, Dilma e a grande mídia teriam concordado que é hora de acabar com a postura histéricamente anti-governista de alguns desses veículos. As denúncias contra os ministros seriam parte da boa convivência, pois graças às denúncias Dilma se livrou de ministros que não gostava e não escolheu, e ainda passou a ser vista pelo povão como incorruptível, alguém que "não dá moleza pra ladrão". Deixou de ser "a sucessora escolhida pelo Lula" e passou a ser Dilma Rousseff.
Não sei se é verdade. Mas bem que faz sentido. Na verdade, a postura anti-governista de alguns desses veículos sempre me pareceu absurda. O governo Lula não fez mal nenhum aos empresários, muito pelo contrário: o PT virou um partido cujos defensores comemoram os recordes de lucro dos bancos e se vangloriam de terem feito a burguesia ganhar mais dinheiro do que nunca. Além disso, gostemos ou não, Lula foi o presidente mais popular da história. Qual o sentido de se posicionar francamente contra um governo que fez tudo o que eles gostam e ainda é querido?
O caso da Veja me parece simples cálculo. Em um momento em que a imprensa escrita perde terreno para a internet, a revista conseguiu de fato se tornar uma voz importantíssima no debate político. Ela é a bíblia da direita e o que os governistas lêem para saber do que têm de se defender. De resto, uma revista semanal pode supor que sobreviverá apenas com um público de reacionários com dinheiro no bolso. Mas e o canal de TV líder de audiência, que precisa da audiência de uma população que ama o governo?
A bem da verdade, quem se lembra da Globo nos anos 80 sabe que ela pega relativamente leve com o governo. O que ela fez com Brizola, por exemplo, ou com o próprio Lula em 89 faz a postura atual parecer delicada. Mas de toda forma, as organizações Globo como um todo (bem como vários outros veículos, como o Estadão e a Folha, agora transformada em um jornal de tom direitista) se posicionam de forma incompreensível, como se Lula tivesse tentado transformar o Brasil em um país socialista. Só posso imaginar que isso seja resquício das brigas do passado, estupidamente ainda nao superadas.
Mas digo o seguinte: graças a deus existe a internet. Que me proporciona praticamente não ler jornais e revistas nem ver TV aberta para me informar. Pois estou de saco cheio desse quadro em que alguns veículos de mídia só pensam em atacar o governo e outros só querem defendê-lo. E quem quer informação e análise fica perdido.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A ditadura e as surpresas da memória


Esta semana dei uma das aulas mais divertidas da minha vida. O tema era o Brasil dos anos 1980. A diversão residia no fato de que muitas pessoas e instituições daquele tempo estão vivas hoje, só que muito diferentes, representando coisas totalmente distintas daquele tempo. Nem minha autoridade de professor, historiador e testemunha ocular dos fatos fez com que eles conseguissem acreditar que Silvio Santos foi candidato a presidente, que o PMDB era um partido muito respeitado e partidos como PT e PC do B se definiam verdadeiramente como esquerdistas. Nos olhos deles eu via claramente a situação: queriam acreditar em um professor que eles respeitam, mas simplesmente não conseguiam imaginar aquilo tudo



Mas o mais inacreditável pra eles foi quando disse que naquele tempo ninguém queria mais saber de ditadura. Metade da aula acabou sendo consumida por esse tópico, tamanha a incredulidade que essa afirmação despertou nos bravíssimos rapazes e moças que assistiam com atenção aquilo tudo. E eu entendo eles. O choque das minhas lembranças com o que eles escutam por aí mostra bem como a memória é um negócio complicado.
Antes de tudo é bom explicar uma coisa: ninguém queria saber de ditadura naquele momento não porque todos se converteram à esquerda. A questão é que, após um auge de popularidade no governo Médici, nos últimos 10 anos o regime militar foi um fracasso total. A inflação subia, os salários eram achatados, as greves explodiam, assim como os pedidos de redemocratização. O governo de João Figueiredo desde o primeiro dia estava destinado a ser o último dos militares. Não havia a menor condição: direita ou esquerda, ninguém mais queria aquilo. O Brasil estava no chão, culminando com o setembro negro em 1982, em que fomos à falência total, sendo salvos do caos pelo FMI. A maioria não era contra a ditadura por ideologia, mas pela simples constatação de que o regime na sua segunda metade era um fracasso total. Qualquer pessoa que fosse viva na época se lembra disso.
Meus alunos, que nem eram nascidos nesse tempo, não entendem que tenha sido dessa maneira porque escutam pessoas dizendo que no tempo da ditadura tudo era melhor. Mas a questão é que essa percepção é quase inteiramente uma construção a posteriori. Procure nas fontes da época, jornais, vídeos, etc., voce não vai achar ninguém dizendo que a ditadura tinha sido uma coisa boa. Por que muitos dizem isso hoje?
Talvez a grande causa seja precisamente a memória. Claro que ninguém acha que o Brasil é o que deveria ser. Pessoas mais conservadoras tem muito aborrecimento em particular com violência e corrupção (embora não com pobreza e desigualdade). E aí lhes parece que no tempo da ditadura essas coisas não existiam. Grande tolice, claro. Corrupção em regimes ditatoriais sempre é pior que em regimes democráticos, com a ausência de fiscalização. E sobre a violência, vale lembrar que apenas um ano depois do fim da ditadura, Moreira Franco se elegeu governador do Rio prometendo acabar com o domínio que o tráfico havia estabelecido no estado.
Em suma, tudo isso são reconstruções posteriores. Na época ninguém achava que a ditadura era uma coisa boa. E simplesmente não havia como achar isso. Noves fora as prisões, torturas e assassinatos, os militares entregaram um país horrível aos civis. A economia ia mal, o poder de compra do trabalhador estava aniquilado, a inflação estava lá em cima (a inflação mensal era infinitamente superior à anual de hoje), e a sociedade como um todo não aguentava mais aquele ar irrespirável depois de 20 anos de mordaça.
Ditadura boa é ditadura no passado distante. Na época mesmo, ninguém mais queria saber daquilo. O resto vai pra conta da memória traiçoeira.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Construção 40 anos


Muita gente acha que não gosto de Chico Buarque. Mas isso é fruto de um mal-entendido. Eu detesto sim certos tipos de fãs dele. Os que o colocam num pedestal de santo que ele nunca pediu para estar. Os que o tem como "bom moço" sem que ele jamais tenha dado motivo para isso (convenhamos: cachaceiro, mulherengo, opositor da ditadura, que raio de "bom moço" é esse?). E os que tem vergonha de gostarem de algo visto como sem valor simbólico e querem dar uma de intelectualizados (ou seja: "eu gosto de Chico Buarque" = "me deixem entrar para o clube do pessoal cabeça?").
Detesto isso tudo. Mas o artista não tem culpa de nada disso. É apenas um músico fazendo o melhor que pode, sem encher o saco de ninguém. E o melhor que pode é muito, mas muito mesmo. Nos primeiros 15 anos de carreira seus discos são todos absolutamente excelentes. Claro, isso até a primeira metade dos anos 80, quando ele e toda a sua geração parecem ter esgotado a criatividade e começaram a repetir-se (ou coisa pior), enquanto eram cristalizados como deuses inquestionáveis do panteão dessa xaropada chamada MPB.
E no meio desse monte de discos totalmente excelentes está Construção, a meu ver o melhor deles. O disco, que completa 40 anos este ano, é um dos melhores de sua brilhante geração. Tem músicas que eu simplesmente não aguento mais ouvir, mas que são efetivamente geniais ("Construção", "Cotidiano", "Minha História", "Valsinha", "Acalanto"), e outras coisas muitíssimo boas, como "Deus Lhe Pague" e "Samba de Orly". Um disco daqueles que só se consegue fazer uma vez na vida. Mesmo que voce for um Chico Buarque.





Marcelinho Paraíba, ou: a culpa de tudo NÃO é dos políticos


Pra quem não vive no Recife, informo que o jogador Marcelinho Paraíba está sendo acusado de estupro em sua cidade natal. Foi preso e responderá pelo crime. As informações são mínimas até agora. Há apenas alguns rumores.
No entanto a cidade não fala de outra coisa. Todo mundo que é Sport defende o jogador. Diz que a garota é fresca, que o cara só quis tirar uma casquinha, esse tipo de coisa que infelizmente a gente conhece bem. Os torcedores dos outros times da cidade estão aproveitando: o fato do jogador ser um criminoso prova que o time só tem torcedores assassinos e ganha todos os jogos na base do apito.
Veja como nós somos. Uma denúncia que nem tem 24 horas já gerou tantas certezas. Baseado apenas no que é melhor para o time que torce, uma parte da cidade decidiu que o cara é inocente (esgrimindo argumentos asquerosos, por sinal) e a outra parte já decidiu que ele é culpado. Um assunto tão delicado como estupro para essas pessoas é algo a ser resolvido baseado no que é melhor para seu time. Que se foda a lei, que se dane o que é certo, que vá pro espaço a justiça. Só importa uma coisa: meu time se dar bem.
Mas peralá: essa não é a mesma lógica da conveniência, da "ética do momento", do "se eu me der bem o resto que se dane" que a gente tanto condena nos políticos? É, exatamente, é ela mesma. Não tenha dúvidas que essas mesmas pessoas que condenam ou absolvem um acusado de estupro baseado no time pelo qual torcem vivem metendo o pau em políticos que fazem coisas semelhantes.
Não é acaso. Quem elege esses políticos somos nós. Uma das coisas que estou de saco cheio é essa coisa de contrapor um "povo honesto e trabalhador" a "políticos corruptos". Nada disso, amigo. Quem elege esses políticos somos nós. Fomos nós que reelegemos FHC depois da compra de votos da reeleição porque estávamos felizes com o fim da inflação. Fomos nós que reelegemos Lula com mensalão e tudo porque tínhamos grana no bolso.
Votamos em político ladrão sabendo que é ladrão desde que isso faça a gente se dar bem. Reclamamos de corrupção desde que seja algo que nos convém (uma graninha pro guarda nos liberar da multa, ou comprar um recibo pra sonegar imposto tudo bem, ne?) e nossa ética é totalmente baseada nas nossas conveniências. Quem disse que somos diferentes dos nossos políticos?

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A Maravilha Suprema do Capitalismo


Hoje é dia de brincarmos de senso comum. Vamos nessa?
O capitalismo é um sistema criado por humanos há uns 250 anos. Começou a se tornar uma realidade para a maior parte do globo há uns 100. Se tornou o sistema totalmente hegemônico no planeta há 20 (em termos históricos, uma fração de segundo, portanto).
Como foi criado por humanos, o capitalismo é um sistema que tem coisas boas e ruins. Às vezes funciona melhor, em outros pior. Não cuida de todas as pessoas, e nem se propõe a isso. É o responsável por avanços incríveis que mesmo seus piores inimigos reconhecem. Tem defeitos intrínsecos terríveis que mesmo seus maiores defensores lamentam.
Ou seja, o capitalismo é uma criação humana como outras. Excepcionalmente bem sucedido, mas criado e mantido por humanos. Como qualquer outra coisa que exista no planeta terra (não só as criadas por humanos, mas principalmente elas), está fadado a terminar um dia.
Tudo muito óbvio. Mas imagine: há pessoas que acham que ele vai durar para sempre. Veja bem: PARA SEMPRE. As rochas terão deixado de existir, as espécies animais e vegetais que conhecemos hoje estarão extintas, mas daqui a, sei lá, um milhão de anos o capitalismo vai continuar existindo.
Imagine: há uns 50 mil anos, o antepassado da minuscula, doce e inofensiva cadelinha que tenho agora em meu colo era um lobo selvagem e feroz. Uma espécie assassina, que convivia com tigres dentes de sabre e mamutes se transformou nisso. Mas há quem imagine que em milhões de anos o capitalismo ainda vai existir, certamente praticado por seres que nem imaginamos quem sejam, já que certamente nós não existiremos mais daqui a tanto tempo.
E acredite: eu tenho um monte de alunos que acham isso. Sempre escuto isso nas minhas aulas de história contemporânea. Historiadores, pessoas especializadas na explicação do fato elementar de que as sociedades sempre mudam, e essa mudança nunca vai parar, formados por uma universidade federal, numa grande e evoluída cidade brasileira pensam isso.
Taí a grande demonstração de força do capitalismo. Se essas pessoas podem acreditar em algo que desafia a lógica mais elementar, eu me convenço de que realmente nada no mundo pode com o capitalismo. Me convenci: pode ser que daqui a 3948 trilhões de anos ele ainda exista. Depois dessa não duvido de mais nada.

Paixão e futebol


A uma rodada do fim do brasileirão, e com o fim da série B, a vontade de falar de futebol fica maior que tudo. E é legal porque é a hora em que dá pra ver muito fácil quem gosta de futebol e quem gosta de um time específico.
São coisas distintas. Podem aparecer juntas numa mesma pessoa. Mas a maioria não gosta de futebol: gosta só do seu clube. Não entende nada de tática, não sabe quem joga nos outros times, e tem total certeza de que se seu time perdeu foi por azar ou porque foi roubado ou por alguma outra coisa desse tipo. Um tipo assim não gosta de futebol. É só um bobalhão que usa o futebol para dar vazão ao seu cérebro de minhoca.
Gostar de futebol é outra coisa. É admirar um grande jogador, mesmo que ele não jogue no seu time (ou seja, esse pessoal que insiste, contra todos os fatos, que Messi ou Cristiano Ronaldo não jogam nada não podem dizer que gostam de futebol). É vibrar com figuras interessantes do mundo do futebol, um Loco Abreu, com sua mentalidade vencedora, ou um Ronaldo, com sua quase infinita capacidade de renascer quando ninguém mais esperava.
Quem gosta de futebol vê a beleza das torcidas adversárias. Quando seu time vai mal reclama de sua diretoria, e não da imprensa ou do árbitro. Quem gosta de futebol sabe até onde seu time pode ir, e não tem exigências irreais, que quase sempre terminam em vaias descabidas a um time que nada mais fez do que ir até onde pôde.
Não conheço muitas pessoas que gostem de futebol. A maioria esmagadora só sabe falar sobre o próprio time, e desmerecer todas as conquistas dos outros (até porque em geral são tão ignorantes sobre o que não envolve o proprio time que nem conseguem dimensionar as conquistas alheias). E claro, ter aquela insuportável postura bipolar com seu time. Num momento, o time é perfeito, e se alguém disser outra coisa é porque é burro, imbecil, mal intencionado e torce pra outro time. No momento seguinte, todos os jogadores são horríveis, o técnico é um débil mental e a diretoria não vale nada.
Frequentemente vejo pessoas reclamando que a Globo só passa jogos do Corinthians e do Flamengo. E, na cegueira de quem só entende o futebol pela paixão clubistica, dizem que é porque a emissora "torce" para esses times. Amigo: empresa não torce. Empresa quer dinheiro. Se os brasileiros gostassem de futebol, ela sempre passaria o melhor jogo. A Globo passa jogos desses times apenas porque os brasileiros só querem ver jogo do seu time. Não gostam de futebol: gostam só do seu time. E a maioria das pessoas que reclama disso não tem direito de reclamar, já que eles próprios só querem ver seu time também. Então a queixa não é sobre o criterio de escolha dos jogos, pois eles proprios se pudessem escolheriam só ver jogo do seu time. A queixa fica vazia.
Quem só gosta de seu time se comporta como criança mimada: não sabe ganhar nem perder. Se perde inventa conspirações idiotas para explicar o óbvio. Se ganha, age feito um idiota, parecendo de fato acreditar que só o seu time é capaz de coisas como aquela ("olha nossa torcida comemorando, nenhuma outra do mundo faria isso!" hã?). Quem gosta de futebol sabe que é um esporte em que se ganha e se perde. Parece óbvio, mas repare quantas pessoas que voce conhece são capazes de reconhecer isso.
Quem gosta de um time mal vê os jogos, pois esta sempre nervoso, ensaiando um discurso absurdo, ilógico e irracional para justificar qualquer derrota. Quem gosta de futebol desfruta o jogo, aproveitando os momentos mágicos que só esse esporte pode proporcionar. Afinal, nós que gostamos do futebol conhecemos a sabedoria daquela velha frase: "futebol não é tudo na vida. é muito mais do que isso".

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Quem precisa de heróis?


Ao contrário da maioria dos meus colegas historiadores, não achei que o sucesso desse livro aí de cima é algo a ser deixado pra lá. Compartilho com eles a certeza de que é um livro muito ruim, totalmente equivocado e por várias vezes de evidente má fé. Mas não acho que possamos simplesmente descartar seu sucesso como sendo fruto da ignorancia alheia. Temos de tentar entender a mensagem que seu gigantesco público está tentando nos passar.
Pra começar há uma mensagem para nós, historiadores acadêmicos. Não adianta a gente passar raiva com os pavorosos livros históricos escritos por jornalistas. O fato é que sequer tentamos nos comunicar com um público mais amplo. Dizer que as pessoas compram esses livros porque são burras é imbecilidade da nossa parte. Se um dia oferecermos outra opção a eles, e eles continuarem os comprando, aí é outra história. Por ora, o fato de comprarem Narloch, Eduardo Bueno e outros quer dizer apenas que há espaço para livros de história acessíveis ao público médio e que nós solenemente desprezamos a possibilidade de dialogar com essas pessoas.
Mas há algo mais: creio que há um recado para a história ensinada nas nossas escolas. Após décadas repetindo a "história dos heróis" (ou seja, a glorificação de Duque de Caxias, Pedro I, etc.), as escolas brasileiras resolveram mudar. O problema é que passaram a criar novos heróis: agora qualquer um que tenha sido contra os "heróis oficiais" são os heróis "de verdade".
Tomemos dois exemplos. O primeiro é Antônio Conselheiro, um evidente beato ultra-reacionário que tinha a idade média como mundo ideal. Ora, ele e seus seguidores foram absurdamente massacrados, mas denunciar isso não significa transformar em modelo alguém que simplesmente não aceitava as conquistas mais importantes do Iluminismo e da modernidade. Outro exemplo é Lampião, simples bandido transformado em ícone do "protesto social", à custa de negar os mais elementares indícios históricos.
Nada disso justifica o absurdo livro de Narloch. A questão é que temos de pensar em que medida nós abrimos um flanco para esse tipo de ataque ao simplesmente substituirmos um panteão de heróis clássico por um novo, alternativo. Esse é meu ponto: substituir Tiradentes e Princesa Isabel por Conselheiro e Lampião não me parece ajudar muito na formação de uma visão mais complexa sobre porque nosso país é o que é.
E a propósito: por que diabos precisamos tanto de heróis, "modelos"? Manter essa busca por guias para a ação, gênios que "estavam á frente de seu tempo" (expressão ridícula que nega a própria idéia de historicidade) não vai nos ajudar em nada. Que tal prescidirmos desses heróis e começarmos a procurar humanos que viveram sua vida da melhor maneira que puderam? O dia em que isso ocorrer, os Narlochs da vida terão menos espaço para falar tanta besteira.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Freddie Mercury



Há 20 anos eu escutava a notícia da morte de Freddie Mercury. Um baita pecado, que eu senti excepcionalmente porque aconteceu precisamente na época em que eu mais curtia o Queen em toda a minha vida.
Nos anos 80 eu achava Queen uma porcaria. Naqueles anos eles tinham virado uma bandinha pop insuportável, com canções altamente diluídas e shows para 100 mil pessoas. Ninguém merecia aquilo. Algumas pessoas (principalmente meus primos) tentavam me convencer que eles nem sempre tinham sido daquele jeito, e que valia a pena escutar os discos antigos. Mas a imagem do Freddie Mercury tinha virado de tal maneira um ícone do mundinho pop que eu nem conseguia imaginar que pudesse ter sido diferente um dia.
Claro que isso acabou no dia em que eu botei pra rodar o A Night at the Opera pela primeira vez. Aquela jóia repleta de grandes músicas ("Death on two Legs", "Prophet's Song", "I'm in Love with my car", a monstruosa "Bohemian Rapsody") me subjugou de imediato. Até a chatíssima "Love of my life" em sua versão original naquele disco era muitissimo boa, outra musica.
Aí eu entendi. O Queen tinha sido uma excelente banda, não exatamente rock'n'roll, mas uma mistura disso com pop, e sempre aberto a novas experiências. Aquela banda melosa que eu conhecia era apenas o lado B da historia, os ultimos 10 anos em que eles haviam desistido de ser bons. Havia o lado A, os primeiros 10 anos, cheios de coisas muito boas.
Claro: a diferença toda era Freddie Mercury. Os outros membros da banda faziam coisas boas, mas sem seu líder teriam sido mais uma daquelas milhões de bandas do mesmo estilo que havia na Inglaterra setentista. Não que Mercury fosse perfeito, e na verdade tecnicamente falando está longe de ser meu cantor favorito. Mas era único.
Pra começar, não tinha nenhum medo do ridículo. Em nenhum sentido. Usava qualquer roupa, cantava qualquer música, e soltava a voz do jeito que achava melhor. Sem dó nem piedade. Atacava qualquer música com paixão total, e magnetizava o ouvinte. Podia não acertar sempre (e errava muito; mesmo os melhores discos do Queen tem musicas chatíssimas), mas sempre experimentava algo diferente. Quem ouve os discos setentistas do Queen sempre se surpreende. E quando acertavam...
Não conheco uma banda de rock que tenha feito música calcada em sonoridades japonesas ou árabes. Mas o Queen fez: "Let us Cling Togheter" e "Mustapha", duas peças inacreditáveis. São apenas dois exemplos que mostram a capacidade da banda de sempre tentar expandir seus limites, se arriscar sem medo. Essa na verdade era a grande virtude do Queen, o que se perdeu a partir do pavoroso Hot Space, de 1982.
E evidentemente nada disso teria sido possível sem o monstro Freddie Mercury. Sem um cantor, compositor, líder e performista tão único, uma banda como o Queen jamais poderia ter existido.





terça-feira, 22 de novembro de 2011

MPB: o câncer da música brasileira


Antes de começar este post, permitam que eu diga o seguinte. Nada do que vier abaixo deve fazer com que se ache que eu não gosto de música brasileira. Pois não há quem não goste de música brasileira. Alguém que não goste de NADA na música brasileira tem sérios problemas. Junto com os EUA é a maior tradição músical da história humana. A existência de coisas maravilhosas em outros países (rock inglês, chanson francesa, musica folclorica latino-americana, candombe uruguaio) não muda isso. Assim como a existência de Eusébio, Bobby Charlton e Puskas não faz de Portugal, Inglaterra e Hungria países com mais tradição futebolística que o Brasil.
Isso posto, quero registrar o seguinte: detesto a idéia de "MPB". Mas detesto com muita força. Detesto há muito tempo: me lembro que há quase 15 anos eu e outro então jovem historiador discutíamos isso num congresso nacional da Anpuh. Eu mudei de assunto na minha carreira acadêmica, mas o cara, que se chama Marcos Napolitano, hoje é simplesmente o melhor historiador do brasil em termos de discussão sobre música. E desenvolvendo argumentos sobre esse assunto que eu compartilho até hoje.
Eu odeio o termo "MPB" por duas razões básicas:
1) O termo cria uma hierarquização que considero insuportável. Separa uma elite intelectual "culta" de uma massa "inculta" que curte musica popular brasileira "errada" e uma música "folclórica", que é propriedade dos mais pobres, coisa que a gente acha legal dizer que gosta, mas que na verdade não gosta. Em suma: se quiser ser "culto", "antenado" e "legal" basta dizer que curte Chico Buarque e sua turma. Basta para se diferenciar dos "burros" e dos "pobres".
2) Musicalmente o termo cria uma separação absolutamente inviável entre coisas que são parecidas. O exemplo clássico é entre a MPB e o rock. Qualquer pessoa que tenha escutado os baianos e os mineiros da "MPB" no fim dos 60 e inicio dos 70 sabe muito bem o que eles faziam: rock que dialogava com a música nacional. Sensacional! Mas como eles ao longo do tempo se consolidaram como "adultos" "responsáveis", mesmo aquela produção tão brilhante é tida como "MPB". Um saco. E uma violência ao mais básico senso comum.
Que fique claro: os ícones da MPB não tem grande responsabilidade nisso. O problema é dos que construiram a idéia de que rock é coisa de jovens irresponsáveis, música que toca na FM é para a massa inculta, música folclórica é para desdentado e a MPB é coisa isolada de todo o resto, sagrada e inegociável, sem nenhum diálogo com nada, pura e perfeita para adultos inteligentes e responsáveis.
Morte a isso tudo, a esse lixo careta. E todo meu respeito aos que fizeram rocks maravilhosos, e que ignoraram essa babaquice. Rockeiros que não esqueceram o país onde nasceram. Mitos.