segunda-feira, 19 de março de 2012

As Trevas da Libertadores



Onde o conhecimento não existe ele é substituído pelo estereótipo. Taí algo que eu considero indiscutível. A existencia do conhecimento não impede o estereótipo, mas aonde o conhecimento não existe o estereótipo toma conta. A maior prova disso é ver a abordagem que brasileiros têm da Libertadores.
O incrível é que essa ignorância sobre os vizinhos faz com que eles sejam ao mesmo tempo subestimados e superestimados. Subestimados porque, mesmo sem sequer saber o nome dos jogadores desses times, as pessoas supõem que só tem porcaria, que são todos horrorosos e que qualquer clube brasileiro de quinta pode atropelar qualquer um com facilidade.
Por outro lado se superestima as artimanhas que esses clubes podem utilizar para ganhar uma partida. Como se fossem mágicos capazes de tirar coelhos da cartola a qualquer momento. Aí qualquer empate fora de casa contra um time pequeno fica uma coisa épica. E nem falo do Boca Juniors. Se os outros clubes são subestimados, o Boca passou a ser visto pelos brasileiros com pavor. A ponto do Fluminense se mobilizar para mandar milhares de torcedores para uma partida de primeira fase, e ter passado a considerar que se venceu esse time mais ou menos do Boca de hoje, é porque pode vencer qualquer um (como se alguns dias depois o mesmo Boca não tivesse perdido em casa para um Independiente horroroso, inclusive levando 5 gols).
Semana passada dois treinadores brasileiros fizeram declarações que mostram bem isso:
1) O Fluminense jogou em casa contra um time horrendo, o Zamora, que na rodada anterior havia levado de 3 a 0 do medíocre Arsenal, que luta contra o rebaixamento no campeonato argentino. Mas segundo o treinador Abel Braga: "1 a 0 em Libertadores é goleada".
2) O Flamengo jogou melhor contra o Olimpia por 75 minutos, abriu 3 a 0, mas no fim cochilou e deixou empatar. O Olímpia não tem nada demais mas é um time decente, e com muita tradição em Libertadores (muito mais que o próprio Flamengo). Diagnóstico do técnico: "faltou maladragem".
Se o Fluminense ganhasse de 1 a 0 em casa de um medíocre time brasileiro, o consenso seria: jogou mal, tem de abrir os olhos, mas ao menos valeu pelos 3 pontos. Contra um medíocre time venezuelano a coisa ganha tons dramáticos. Se um time está ganhando em casa de 3 a 0 de um time tradicional e leva o empate, o diagnóstico seria óbvio: faltou concentração, levar o jogo a sério até o fim. Se é na Libertadores, faltou malandragem.
O que falta para os brasileiros entenderem a Libertadores não é nada mirabolante. É um torneio de futebol como qualquer outro. E como qualquer torneio tem lá suas peculiaridades. Entre elas estão times com poder econômico inferior ao dos brasileiros, países com suas próprias tradições futebolísticas, jogos em campos que nem sempre são bons, viagens longas, e por aí vai.
Mas são peculiaridades que não mudam o fato de que é um campeonato de futebol. Qualquer torneio de futebol tem suas peculiaridades, e a Libertadores também. O que não muda o fato de que a receita para vencê-la é a mesma que vale para qualquer campeonato: montar o melhor time possível, analisar os adversários e entender o torneio. Em suma, tentar ser melhor que os outros, e não mais experiente, malandro, velhaco ou catimbeiro.
Acompanho fanaticamente a Libertadores há 32 anos. E cansei de ver times brasileiros entrando em campo querendo ser machos, catimbeiros e valentes, enquanto o adversário jogava bola e ganhava os jogos. Me lembro de um Corinthians x River em que os argentinos simplesmente atropelaram o timão. Enquanto o belo time do River jogava bola, Geninho mandava seus jogadores baterem, um deles acertou um argentino sem nenhuma necessidade, foi expulso e o narrador desconsolado dizia "que pena, o Corinthians caiu na catimba argentina".
O mesmo vale para o grande time do Boca da década passada. Me lembro de ver jornalistas e treinadores discutindo inúmeras vezes as razões do sucesso daquele time. O tópico menos discutido de todos era o fato de que era um timaço, um dos maiores da história de seu país, cheio de grandes craques, capaz de enfrentar um Milan e Real Madrid sem precisar ter medo de uma goleada.
Os brasileiros melhoraram muito seu desempenho na Libertadores. Nossos clubes disputaram todas as finais desde 2005. Imagine o dia em que saírem da idade das trevas, se despirem dessa mescla louca de complexo de superioridade e de inferioridade e passarem a ver a Libertadores como um torneio de futebol.

2 comentários:

  1. Concordo plenamente. Grupos da morte são medidos por "quantidade de argentinos". Por exemplo, o grupo do Fluminense é considerado por muitos como o da morte

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  2. Douglas Muniz da Silva19 de março de 2012 às 19:02

    Engraçado quando muitos times encaram como guerra e catimba, sendo que no futebol brasileiro, nos campeonatos nacionais, também há catimba, pressão psicológica ao oponente, tal qual fazem os nossos vizinhos. Falta mais maturidade da imprensa sobre como se portar quando falar dos times estrangeiros, acaba sendo uma cobertura superficial, sem a devida atenção a que o time joga, como ele joga, vira uma espécie de lenda, como se todo time estrangeiro apenas e tão somente catimbe não jogue bola...

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