terça-feira, 8 de novembro de 2011

A USP e a "tropadeelitização" do Brasil



Ao contrário da maior parte das pessoas que vivem à minha volta, não me aborreci com a visão de mundo exposta no primeiro Tropa de Elite. Não que eu tenha concordado com ela. Claro que aquela visão é absurda. Pra começar, aquela visão da universidade não corresponde a nada que eu tenha visto nos meus 20 anos de vida acadêmica. Nunca ouvi, por exemplo, alguém dizer que traficantes são caras legais, com consciência social. E que dizer da idéia que se os estudantes pararem de fumar maconha o crime organizado acaba? Supondo que TODAS as drogas do mundo fossem consumidas por estudantes: se eles parassem os traficantes iriam virar honestos trabalhadores, tipo motoristas de ônibus ou balconista de padaria? Ou iriam se dedicar à outra atividade criminosa? (Sei lá, traficar armas, por exemplo).
Mas tem uma coisa: o filme expressa uma visão muito comum na nossa sociedade, incluindo nossos policiais. Eles acham mesmo que todo mundo ama bandido. Não entendem que o que queremos é apenas que eles cumpram a lei. Que achamos que se os policiais não cumprem a lei, nada os separa de bandidos. Não queremos criminosos soltos, nem os achamos legais. Apenas queremos que a lei seja cumprida: que sejam presos e submetidos a julgamento dentro da lei. Nada mais.
E tem mais: o filme foi muito honesto. Inteiramente narrado em primeira pessoa, esse narrador se mostra desde o começo, e é um capitão do BOPE. No filme, o tal BOPE é maravilhoso e perfeito, uma ilha de lucidez e honestidade num mundo de idiotas e corruptos. Mas veja: o filme te diz o tempo todo que isso é a visão do próprio BOPE. Você dá o desconto que quiser a essa visão e curte o filme (que é muito bom!).
No entanto, aparentemente as pessoas não são lá tão espertas. Muitas viram o filme como se ele "contasse a verdade" (hã?). Estudantes passaram a ser vistos como os grandes responsáveis por todos os males do mundo, "bandidos" (palavrinha duca, hein?) devem ser assassinados, e a polícia veio para nos resgatar da violência, que só existe por causa de traficantes escrotos e alunos babacas.
Agora a USP. Não sei muito bem o que acontece por lá. Qualquer coisa que eu disser será leviano. No entanto, gente que sabe ainda menos do que eu (ou seja, nada) decidiu comprar a idéia de que tudo aquilo é porque os caras querem fumar maconha. Estudantes estão armando aquela confusão toda para fumar maconha? Sério? Será mesmo que nossa universidade é tão maravilhosa e perfeita que a única coisa que um estudante pode se queixar é que não pode fumar maconha à vontade? Quem pode achar uma coisa dessas? O tipo que cola aquela imagem lá de cima no facebook. O que inclui muitos (mas muitos mesmo!) dos meus amigos.
Não sei muito do que ocorre na USP, mas o pouco que sei não me faz simpatizar muito com o que acontece. Mas me agrada muitíssimo menos ver que a sociedade sequer tentou entender o que estava acontecendo. Embarcou gostosamente na lógica "tropa de elite", decidiu que eles só queriam fumar maconha e pronto. Os desmandos dos nossos governos com a universidade pública, a escrotidão do reitor, tudo isso passa tranquilo.
Quem diz isso tudo, não liga para a educação, não quer entender nada. Só quer que o filme se transforme em realidade, e a polícia tenha o direito de sair enchendo quem quiser de porrada. Acham que isso vai fazer um mundo mais seguro, pois nessa visão a culpa da violência é toda de quem quer que a lei seja cumprida e de estudantes que fumam maconha.
A propósito: claro que a culpa de nada disso é do filme em si. Ele apenas contou uma história a partir de um ponto de vista definido muito honestamente. Tropa de Elite apenas serviu como catalisador de idéias que as pessoas já tinham. E ao dizer que estudantes merecem apanhar porque "só querem fumar maconha mesmo", essas pessoas nada mais fazem do que tentar realizar as fantasias de serem o capitão nascimento do mundo real e acabar com a violência no mundo. Quanta fantasia recalcada, hein?

6 comentários:

  1. CONCORDO, CONCORDO, CONCORDO!!!
    Venho acompanhando, lendo uma coisa aqui e outra ali, mas estou com uma preguiça de me manifestar devido aos diversos pontos de vista patéticos citados a cima.
    Parabéns pelo post.

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  2. Eu ia na USP hoje, para ver a situação, e fui pego no meio do caminho com a notícia da invasão. Lástimável, temo que sejamos varridos por uma nova maré de extrema direita, como comentei contigo via Twitter

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  3. Mandou bem, Tiago! Acertou "na lata". Compartilho da sua opinião tanto em relação ao filme quanto à recepção da sociedade para os episódios ocorridos na USP. A questão é muito mais complexa que o "direito de fumar um". Infelizmente, a maior parte da mídia quer que acreditemos nisso, pois é a forma mais fácil de entender o caso. Para a administração da USP essa também é a forma mais fácil de desviar nossos olhares de um problema que é central: a gestão do atual reitor. O convênio com a PM só veio deixar as relações mais tensas. Mas as ações arbitrárias de uma minoria de pseudo-revolucionários só serviram, me parece, para corroborar os argumentos da administração central da universidade. Pelo que tenho visto, com certa distância, um grupo formado por basicamente três segmentos (LER-QI, MNN e PCO) da comunidade universitária tomou a dianteira numa demanda que é muito mais ampla e empreendeu as invasões da maneira mais despreparada possível. Os esforços da reitoria foram coroados com uma ação que foi um "sucesso" nessa madrugada, como não teria como não ser, dada a quantidade absurda de policiais que compareceram ao campus nessa manhã. Até nós que questionamos as implicações da presença da PM na USP ficamos pasmos e satisfeitos com os resultados da operação. Nossa preocupação é que as consequências seriam piores, dado o aval que a polícia tinha da sociedade (especialmente paulistana) de fazer o que quisesse com "aqueles maconheiros vagabundos". Frente à sociedade, tais desdobramentos só corroboram a tese de que a USP precisa da polícia militar. Entre a comunidade universitária, o movimento contrário a essa presença e as forças que se opunham ao atual reitor correm o sério risco de sair enfraquecidos. Ou seja, podemos ver um debate importante sobre os limites da autonomia universitária morrer antes de surgir.

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  4. Pois é, pegaste um bom ponto. Que a mídia, a direita, o governo do estado, são essa merda, a gente já sabe. O foda é que o movimento estudantil está nas mãos de gente totalmente despreparada, como voce disse. Dão argumentos para os babacas estigmatizarem qualquer pleito. Matam qualquer reivindicação decente com seus métodos. Mas quando falo isso me chamam de "reacionário", a única coisa que sabem fazer quando alguém discorda deles...

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  5. Olá, professor! Aqui em Pernambuco, no sertão do Estado, muitas quadrilhas ligadas ao tráfico de drogas(maconha) também praticam roubos a bancos. De fato, a criminalidade não será reduzida caso os usuários da droga decidam parar de compra-la. Mas é bem verdade que a compra de drogas ilegais é uma forma de financiar certos crimes,pois muitos homicídios em nosso Estado estão ligados ao envolvimento com drogas( o maior exemplo é o da dívida com o traficantes). Essa é uma das ideias que, pra mim, o filme quis passar.
    Quanto a situação na USP, os estudantes vinham reclamando das abordagens que vinham sofrendo. Não sei se a PM de lá estava excedendo na força( se estiver é um erro), mas uma abordagem policial, por mais constrangedor que seja, é uma prática que visa inibir a violência contra o cidadão.

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  6. Deixem as criancinhas fumarem a maconha deles. Amanhã eles compram um carro importado e saem atropelando qualquer um, inclusive pode ser eu e você que está lendo esse texto agora. Depois dizem que a extrema direita é má. Que eles não prestam disso eu já sei; agora, dar razão para que o projeto das privatizações dos centros acadêmicos saiam das gavetas é marcar muita bobeira. MAs a vida segue ,estamos no Brasil, onde, tudo , mas tudo mesmo,funciona dentro da morosidade gerada pela falha moral que me parece,o brasileiro tem de sobra.Já que existem outros pontos de vista, por que não mostram? Por que destruíram a reitoria da USP? Estão lutando pelo quê? Já sei, pelo direito inalienável de fumar maconha no campus. Parabéns aos gênios que promoveram esta ação de protesto. Da próxima devem pedir para baixar os preços das drogas.E o verdadeiro estudante é o único que sofre com toda esta bestialização.

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