segunda-feira, 26 de maio de 2014

Comunista pode ter iPhone?. Ou: os malefícios da preguiça mental

Falei algumas vezes nos últimos dias sobre o Fla-Flu ideológico que tomou conta da política brasileira recentemente. Situação e oposição se combatem com uma fúria poucas vezes vista em termos democráticos. Pior que não há como escapar da situação. Ela se expõe com todo o vigor na rua, nos ambientes de trabalho, nas redes sociais, na blogsfera, e assim por diante. E tanto direita como esquerda tem seus "provedores de argumentos". O que é absolutamente necessário, já que para ver o mundo de forma tão simples (Bem x Mal), não se pode gostar de usar o cérebro. Assim, há inúmeros sites e blogs para abastecer os sabichões de todas as tendências.

Cada tendência política tem sua particularidade nesse contexto. O arco direitista tem dois elementos que me desagradam em particular. O primeiro é sua agenda 100% negativa. Ninguém sabe o que essas pessoas querem, só sabemos que todos os problemas do país são culpa do PT. Só sabem falar disso. Projeto de país NUNCA aparece. Não se tem ideia do que essas pessoas gostariam que fosse feito do país. Mas sabemos muito bem que elas odeiam profundamente o governo. Só isso.

A outra questão me irrita bem mais, já que invade minha seara profissional. Muitos desses "pensadores" estão convencidos de que existe uma ditadura cultural esquerdista no país, e que eles serão nossos salvadores. Por algum motivo, essas pessoas, 99% das quais não tem treinamento ou experiência para isso, querem reescrever a história do universo. Não se importam por chegarem a conclusões que nenhum profissional da área está de acordo. Usam um argumento autovalidatório: quem os critica é por fazer parte da ditadura esquerdista que domina o pensamento brasileiro (argumento nada intelectual, evidentemente).

Como felizmente não parece haver muita gente à venda nas universidades brasileiras, para dar respeitabilidade a seus argumentos (tipo Marco ANtonio Villa ou Demetrio Magnoli), eles próprios colocam a mão na massa. Aí começam os totais absurdos. Tipo o Ali Kamel jogar décadas de pesquisa de alta qualidade no lixo para dizer que não existe preconceito racial no Brasil. Sem dados. Não existe porque ele não quer. Ponto final. E quem discordar é porque é comunista. Ou as tolices do Narloch, que inclusive é acusado de falsificar citações (teria feito isso para associar Allende ao nazismo nos anos 30, mas sinceramente é algo que me falaram, eu não tenho como saber se é isso mesmo ou não).

E aí se chega ao grau máximo de loucura que se pode imaginar, que são as associações entre o PT e o comunismo. Qualquer pessoa minimamente culta (nem precisa ter feito história ou ciências sociais) sabe que o PT nasceu justamente contra o comunismo. Nunca teve nenhum projeto concreto nesse sentido. Todo o discurso do partido é a favor do desenvolvimentismo com redução da desigualdade, algo que não tem nada a ver com comunismo. O Brasil é um país com imprensa livre para criticar o governo e os caras falam que é ditadura. O PT nunca mencionou o fim da propriedade privada dos meios de produção, que é o fundamento básico do socialismo, mas não interessa. Os caras ou são muito ignorantes ou confiam demais na ignorância alheia (o que, vamos combinar, costuma dar certo).

Aí a linha que separa a idiotice do ridículo é ultrapassada com gosto quando se começa com argumentos assim: "meu Deus, olha essa foto dos caras do MST no Mc Donald's? nessa hora eles gostam do capitalismo, né?". Ou "comunista mas tem iphone. poser. hipócrita". E dá-lhe hashtags indignadas #mensaleiros #petralhas #barbosapresidente #vamoraremcuba etc. Não vou me alongar: você sabe do que estou falando. Seu facebook é cheio de gente assim. Como vários são pessoas que você gosta e que postam coisas legais sobre outros assuntos, quando topa com uma dessas engole, finge que não viu e segue em frente.

Pois esse argumento é a coisa mais ridícula que pode existir. Não conheço um único teórico seja do socialismo, seja do capitalismo, que pense que pessoas que vivem num regime que não concordam, não possam desfrutar aquilo que conseguirem. E isso é uma invenção desse novo contexto. Duvido que em 1971 alguém ouvisse "diz que não gosta da ditadura mas compra um fusca se aproveitando do milagre econômico, né, seu hipócrita?". E é fácil imaginar porque nenhum teórico disse algo que dê base a isso: esse raciocínio é uma das coisas mais idiotas que se possa imaginar.

O "pensamento" (vamos chamar assim) que sustenta esse tipo de coisa é algo tipo "iphone foi inventado no capitalismo, então se você é comunista não pode usar". Bem, então essa pessoa só pode comer comida crua, pois o fogo foi inventado pelo homem das cavernas. Tem de defender o fim das armas de fogo, já que a pólvora foi inventada pelos chineses. Bem, isso seria muita idiotice, não? Pois é o argumento desses reaças caga-regra de hoje em dia.

Só que no debate político atual a maioria está tão preocupada em gritar seus argumentos nos ouvidos alheios que sequer pára para pensar se está dizendo algo que ao menos faça sentido (não é privilégio da direita, basta pensar naquele seu amigo que acha que o Zé Dirceu é um mártir ou aquele outro que acha os black-blocks superlegais e prestes a acabar com a tirania humana). Isso já é uma droga. Mas quando começa a esse tipo de coisa virar base para argumentos pretensamente históricos ou sociológicos, aí já dá vontade de estourar os miolos.

4 comentários:

  1. Você não entendeu a lógica do argumento. O iPhone é uma invenção capitalista. Uma empresa privada, a Apple criou e projetou ele durante anos, APENAS para vender e ganhar dinheiro, encher seus cofres, capital, ou seja, se o comunista é tão contra esse sistema, por qual motivo ele colabora com isso? E outra, tecnologias como essas só poderiam ser inventadas graças ao livre mercado, não foi o trabalhador, operário ou mecânico que projetou todo o hardware e software do aparelho, foram engenheiros, técnicos de informática e etc... E mais.. Marx disse que a mercadoria era o fetiche da burguesia, ué.

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  4. E o índio, amigo, só pode andar pelado e de arco e flecha? kkk por favor, existe uma falsa relação entre ser de esquerda e ter que fazer voto de pobreza. Todo mundo que realmente já leu e entendeu sabe que Karl Marx nunca falou isso. Isso é só indigência política daqueles egocêntricos que acreditam que uma pessoa não pode advogar se não for em causa própria. . Em vez de promover uma apologia à pobreza, a esquerda reivindica a distribuição de riqueza e o direito a abundância, que é gerada tanto pelo trabalho coletivo tanto pela própria natureza. Portanto por que socialistas ou comunistas não podem ter direito a usufruir de tudo que o mundo moderno tem a oferecer de melhor? Só porque são críticos do capitalismo? Não fala asneira, eles foram os primeiros a viajarem pelo espaço, Iuri Gagarin, além de que o primeiro telefone celular deste mundo foi inventado por outro comunista russo, um famoso engenheiro, conhecido por suas revolucionárias invenções na área de comunicação, chamado de Leonid Ivanovich Kupriyanovich. Talvez os capitalistas de carteira assinada não saibam, mas muitos de seus dispositivos foram inicialmente empregados pelo mundo médico, em hospitais e depois por taxis no país. O sistema foi usado em países do Leste Europeu como Bulgária e exibido na exposição internacional Inforga-65. Como bem prova sua patente.
    Então esses argumentos escatológicos são facilmente refutados com investigação e real leitura, com o conhecimento dos clássicos do marxismo-leninismo, que revelam que seus mestre sempre se mostraram favoráveis à tecnologia. Karl Marx escreveu na “Crítica ao programa de Gotha” que era necessário que os trabalhadores desfrutassem de conforto material no socialismo. Marx e Engels eram entusiastas do progresso industrial, mas condenavam os métodos pelos quais foi alcançado. Lenin era um entusiasta da tecnologia, e em sua obra política enfatiza que o comunismo dependeria do poder soviético mais a eletrificação de todo o país (a eletricidade era, então, talvez a mais avançada forma de tecnologia humana em sua época).
    Enfim o imaginário da esquerda “franciscana” é totalmente equivocado porque vai de encontro ao o próprio princípio da luta de classes: de que é preciso encontrar um equilíbrio entre os poucos que têm muito e os muitos que têm pouco. O direito ao prazer deve ser uma bandeira central no socialismo também porque isso vai contra a cultura cristã ocidental que valoriza o sofrimento, a punição e a culpa, resultando na subordinação do mundo material ao imaterial. A luta é pela possibilidade de corpos mais livres, por experiências sensoriais diversas e por menos biopoder. O problema, portanto, não é – nem deve ser – o desfrute da vida, dos sabores, dos cheiros, das texturas, dos lugares. O problema é justamente a privatização dos prazeres.
    E não corta essa de meritocracia. Pois não existe meritocracia. Todo mérito individual é socialmente construído. Essa historia de que quem é de esquerda tem que fazer voto de caridade não tem nada a ver! O fato crucial é que capitalistas procuram o bem estar de forma egoísta, individualista. Eles pensam: se eu tenho, foi com meu esforço, e se os outros não têm, se fode, problema é deles, só podem ser vagabundos preguiçosos. Dão grande importância à famosa “meritocracia” como meio de obter as coisas, mesmo que ela não passe de um engodo teórico do pensamento consumista. Ou você realmente acha que a sociedade capitalista oferece exatamente as mesmas oportunidades de sucesso nesse mundo para você e o filho do Eike Batista, por exemplo? Ou que um dedicado trabalhador assalariado desse Brasil afora seja tão bem remunerado quanto um magnata especulador da Bolsa? Parece que o “mérito” não tem muito a ver com trabalho no sistema capitalista é só mais uma obsolescência programada. Abraço!

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