quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Volta Redonda, 1988: uma história para não ser esquecida


Um sinal que você está ficando velho é a existência de referenciais essenciais na sua vida que não fazem nenhum sentido para pessoas mais jovens que você. Esse é um desafio da minha profissão. Coisas que foram determinantes para a minha geração sequer são conhecidas pelos meus alunos. Um exemplo é a greve dos metalúrgicos de Volta Redonda.

Vivíamos um clima atribulado. Passamos anos tentando por fim a uma ditadura que ninguém aguentava mais. Ela acabou, mas muito dela seguia vivo. Para começar, o presidente Sarney havia nascido, crescido e engordado apoiando o odioso regime. Aquela segunda metade dos anos 80 de fato não agradava a ninguém.

Nesse contexto veio a greve dos metalúrgicos da Companhia Siderúrgica Nacional em 1988. Quem viveu aqueles anos nunca vai esquecer. Quem vivia em Volta Redonda ainda menos. Liderada pelo inesquecível Juarez Antunes, àquela altura um deputado federal constituinte, a categoria entrou em greve. Com o apoio da diretoria da empresa, Sarney mandou o exército "resolver o problema".

Mas era um período de extrema politização. A cidade inteira era simpática à causa dos metalúrgicos. Ao exército só sobrou uma alternativa: mandar bala. Mataram três trabalhadores. Não podíamos acreditar. Aqueles caras eram gente como a gente. Um deles tinha a minha idade. Pegava ônibus comigo para ir à escola, já que morava num bairro vizinho. Era inaceitável. Após 21 anos de ditadura vinha o exército matar nossos conterrâneos pelo simples fato de fazerem greve.

Foi algo tão absurdo que o Brasil inteiro deu seu recado dias depois. A 15/11/1988 a esquerda obteve vitórias retumbantes nas eleições para prefeito. Luiza Erundina conseguiu uma virada espetacular em São Paulo, e fatos semelhantes ocorriam pelo país afora. Aquela prática ditatorial em pleno processo de redemocratização parecia inaceitável a todos nós. E as urnas disseram isso. Ponto para nós.

Para o Brasil a história terminou aí. Para nós, voltarredondenses, a coisa iria mais longe. Naquele 15 de novembro elegemos Juarez Antunes para prefeito com uma votação absolutamente fora de propósito. Choramos sua morte em fevereiro do ano seguinte, num acidente de carro. E no 1o de maio seguinte fomos testemunhar a inauguração de um monumento, projetado por Oscar Niemeyer, em homenagem aos mortos da greve. E na madrugada seguinte o monumento explodiu. Ninguém sabe quem foi o responsável.

Em suma. Não bastava que nossa cidade tenha sido construída sobre a opressão dos nossos antepassados. Não é suficiente que o sindicato dos trabalhadores tenha sido calado pela ditadura. Foi pouco que o exército tenha aberto fogo sobre a população civil. A morte de três conterrâneos nossos que pecaram apenas por estar ao lado da greve não era o suficiente. Tinham de arrasar até a memória do que aconteceu.

E assim foi. Hoje Volta Redonda é apenas uma cidade do sul do estado do Rio de Janeiro. E a memória do que aconteceu há 25 anos é apenas uma vaguíssima lembrança. Afinal, a história é contada pelos vencedores. E como em TODOS os setores hegemônicos da nossa política há gente que apoiou aquela infâmia, melhor não lembrar de certas coisas.

3 comentários:

  1. É estamos ficando velhos! Tiago ... definitivamente!

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  2. Obrigado Tiago! por ter escrito sobre este momento da história do Brasil e de Volta Redonda, uma cidade cunhada sob as mãos de ditador patriota e idealista, que construiu uma cidade inteira sob ótica de um país soberano e independente... Ideais políticos a muito tempo esquecidos...

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