quarta-feira, 29 de abril de 2015

O anarcoliberalismo. Ou: tem pouca idiotice no mundo. Precisamos de mais

Uma das certezas que tenho nesta vida é: a humanidade nunca cansa de nos surpreender, e geralmente no mau sentido. Um exemplo é algo que é provavelmente uma contribuição do século XXI ao pensamento (?) político: o anarcoliberalismo. Que consiste basicamente em uma mistura absolutamente indigesta de duas visões de mundo que estão em campos absolutamente opostos desde o século XIX.

A visão anarcoliberal do mundo é estruturada pelo liberalismo, especialmente em sua formulação que é mais conhecida como "neoliberalismo". Desconfiam profundamente do Estado, que vêem como lento, ineficiente e ineficaz, optando por glorificar a iniciativa privada, que de seu ponto de vista é a saída para todos os males, já que cultuam o Deus Mercado. Até aí tudo bem. Não compartilho minimamente essa visão, mas posso reconhecer como algo legítimo e defensável. O pensamento liberal tem mais de dois séculos e inclusive produziu pensadores altamente qualificados. Não concordo mas acho que faz parte do jogo. Sem problemas.

Mas aí tem um problema. Os anarcoliberais forçam os limites do liberalismo clássico, já que não gostam da agenda que se impôs no século XXI. Falo de temas como drogas, aborto, homossexualidade, cotas, diversidade cultural, etc. O escopo do liberalismo clássico é receptivo a isso tudo. Para dar um exemplo doméstico, não consigo imaginar Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas vendo essas coisas com ódio. Poderiam discordar, mas sem dúvidas seriam debatedores inteligentes. Basta ver as coisas que FHC diz a respeito. E lembrar sua abertura ao tema das cotas e sua conversão recente ao debate da descriminalização das drogas (amigos de esquerda vêem isso como atitude oportunista, já que não fez nada a respeito quando presidente, mas eu tendo mais a achar que como octogenário que não pretende mais concorrer a nada ele tenha se sentido mais livre para expressar o que sempre pensou. e convenhamos, o PT também não é nenhum modelo nesse campo)

Aí é a hora de colocar o anarquismo em campo. Mas na verdade não é o anarquismo de Bakunin ou Kropotkin. Nem o libertarianismo foucaultiano. É apenas uma apropriação extremamente oportunista da negação anarquista em relação ao Estado como forma de garantir a perpetuação das desigualdades. Na verdade, é um "anarquismo" (com todas as haspas que se puder colocar) que serve aos dominantes de sempre. Um "anarquismo" autoritário e babaquíssimo que simplesmente não reconhece o direito dos excluídos de lutar. Ou seja, não tem nada de anarquismo.

Em sua versão mais primária, esse "anarquismo" ou "libertarianismo" é assim. A pessoa diz algo contra algum grupo excluído e subalterno, pode ser gay, mulher, nordestino, negro, índio, tanto faz. Aí naturalmente isso revolta muita gente, e há uma repercussão negativa. Aí advinha? A pessoa posa de perseguido. Meu Deus, não posso mais dar minha opinião. Sou um mártir da liberdade de expressão, incompreendido neste mundo opressor. Ninguém quer me deixar falar.

Esse é aquele ponto em que cinismo e ignorância ficam difíceis de distinguir. Pois a pessoa se diz liberal. E um pilar básico do liberalismo, na verdade uma de suas maiores contribuições à humanidade, foi a liberdade de expressão. Mas desafio quem usa esse discurso a encontrar quem diga que liberdade de expressão implica na ausência do contraditório. Liberdade de expressão é para TODOS. Você diz o que quiser. E todos dizem o que quiserem a respeito do que você disse. Que você é gênio, que você é idiota, tanto faz. E se alguém se sentir ofendido, procure a justiça. Isso é direito garantido em todos os países democráticos de todas as épocas. Baseado em um princípio simples: com a liberdade vem a responsabilidade. Diga o que quiser e arque com as consequências. Isso é liberalismo básico.

Mas como essas pessoas não querem arcar com as consequencias, e querem apenas expressar o ódio por quem não gostam, apelam para um argumento pretensamente libertário. Dizem, IMAGINEM, que processar alguém por algo que a pessoa disse é CENSURA e vai contra a liberdade de expressão. Ouvi ontem: "absurdo querer que o Estado tome suas dores". Ou seja, um argumento absolutamente autoritário ("falo o que quiser e ninguém pode discordar") travestido de libertarianismo de verniz foucaultiano ("você está fazendo o Estado entrar onde não deve"). Em suma: uma cachoeira de lixo.

Pra mim quem pensa isso não é liberal. Não é anarquista. Nem entendeu minimamente o que são essas duas coisas. É apenas gente que quer que homossexuais sejam mortos por sua orientação, que negros tenham suas possibilidades barradas, que mulheres sigam sendo agredidas. Querem defender isso tudo, mas sem parecerem com o Bolsonaro. Aí adotam essa postura, pretensamente cultivada, que apenas é um verniz que visa esconder seu autoritarismo extremo. Fazem uma mistura louca de autores que nada tem em comum para se sentirem livres para dizer: "defendo os privilegiados de sempre, falo o que der na telha, e quem discordar de mim ou usar a constituição contra mim está me cerceando e é um inimigo da liberdade". Pois espíritos autoritários pensam exatamente assim. Não toleram o contraditório. Para eles, discordar deles é censurar seu pensamento.

Em suma, são pessoas que odeiam quem protesta contra o preconceito muito mais do que repudia os preconceituosos. Xingar negro, gay, nordestino, mulher, é liberdade de expressão, e xingar quem faz isso é tirania. Tudo bem, sejam autoritários fingindo ser liberais e libertários. Só não pensem que não percebemos como vocês são idiotas. Sejam babacas o quanto quiserem. Só não nos subestimem tanto.

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