Ontem o Presidente da Câmara levou na testa duas grandes derrotas. Não foram aprovadas as emendas do distritão e do financiamento empresarial de campanhas, dois monstrengos que tornariam ainda pior o que já é muito ruim, o sistema de escolha de parlamentares no Brasil. Uma grande vitória concreta, e maior ainda no plano simbólico. Eduardo Cunha talvez tenha entendido que não é um super homem que tem o poder de aprovar qualquer pacote de maldades que queira. Vamos comemorar, que é justo. Mas vale uma reflexão: como chegamos a isso?
Eduardo Cunha representa tudo o que há de pior no Brasil. E tem super poderes. Por que? Vamos pensar: ele é deputado federal, eleito pelo Rio de Janeiro. Não sei quantos votos ele teve, mas certamente foram muitos, pois trata-se de um dos estados com maior colégio eleitoral no país. Uma vez deputado, se elegeu presidente da Câmara. E consegue aprovar insanidades como a redução da maioridade penal. Ou seja: há centenas de pessoas eleitas pela população que o vêem como alguém desejável ou ao menos útil. Então vamos combinar: ele não é uma coisa isolada. Tem a ver com o país que temos.
Pra começar, tem a ver com uma mega crise de representatividade que vivemos. Esse foi o grande legado das manifestações de 2013. Gostemos ou não, elas mostraram que há uma enorme quantidade de pessoas que não se sente representada por PT e PSDB, que monopolizam as eleições presidenciais desde 1994. E muitas das pessoas que votaram, por motivos variados, em candidatos presidenciais desses partidos, são bem mais conservadoras que eles. Basta ver o gigantesco apoio da população à redução da maioridade penal, uma medida criminosa, contrária a todos os estudos a respeito e que não tem qualquer eficácia no combate à criminalidade. Trata-se apenas de uma demonstração de ódio e vontade de vingança. E é apoiada pela grande maioria da população.
Também tem a ver com uma completa ausência de projeto da oposição à direita. Ela não tem idéias, conceitos ou teses. Só sabe que é contra o PT. Apóia qualquer coisa que for contra o governo. Pessoas que nunca tinham visto médico na vida sendo atendidas? Horrível, já que foi o PT que fez. Redução drástica na fome e na pobreza extrema? Odeio isso, já que foi o PT que fez. Eduardo Cunha é contra o PT? Manda. Qualquer coisa contra o PT serve. Que seja contra o país, dane-se, sendo contra o PT está valendo. Se na próxima eleição o segundo turno for alguém do PT contra alguém que defenda o estupro de crianças bora violar os pequenos, pois tudo vale se for contra o PT.
Mas o PT tampouco está isento de culpa. O partido tem a presidente da república e maioria parlamentar. Mas está completamente perdido e entregue aos seus aliados vampiros. Lula e FHC também lidaram com o mesmo problema (os aliados eram os mesmos, aliás), mas com suas imensas habilidades políticas e popularidade em alta conseguiram sobreviver. Não é o caso de Dilma, que não tem tino político e, em um momento de crise, se viu em um papel de quem deveria entregar a vida a aliados não confiáveis. O que abriu espaço para as manobras peemedebistas. Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Michel Temer e seus amigos estão fazendo a festa.
Então concluimos que o contexto político favoreceu o fortalecimento de um imbecil desses. Mas a culpa é só dos políticos? Nós não temos nada a ver com isso?
Esse é o ponto em que eu queria chegar. E vou partir do meu caso pessoal. Passei 4 anos defendendo insanamente o governo Dilma. Fiz campanha para ela de forma insana ano passado. Participei ativamente da campanha e organizei evento de apoio a ela. Me surpreende que eu ainda tenha amigos tucanos, aos quais eu aproveito para agradecer pela imensa paciência comigo. Só um amigo de verdade me aguentaria o tempo todo defendendo algo radicalmente oposto ao que eles acreditam. Em suma, sou governista, amo a Dilma. Mas e quanto aos deputados?
Aí que a porca torce o rabo. Vou confessar a vocês. A uma semana do primeiro turno me dei conta de que não tinha ideia de quem eu ia votar pra deputado federal e estadual. Pedi indicações a pessoas confiáveis, verifiquei o histórico de algumas pessoas, os posicionamentos, e fiz minhas escolhas. Votei em Luciana Santos para deputada federal e Tereza Leitão para estadual. Acho que votei bem, e pelo que tenho acompanhado ambas andam se comportando de forma que eu aprovo nas votações importantes. Mas o fato é: só fui pensar no assunto a dias da eleição. E não me julgue: você sabe muito bem que a maioria faz ainda pior que isso. Vota no vizinho gente boa, em alguém que um amigo indica, etc.
E notem que isso não quer dizer que somos um povo inconsciente e alienado. Nos engajamos barbaramente na última eleição presidencial. Todo mundo se posicionou, relações foram desfeitas, outras foram fortalecidas, enfim, fomos com tudo para a eleição. Mas a de presidente. Isso sim diz muito sobre nós. O velho personalismo que é parte central da política latino-americana se fez presente outra vez. Somos meio messiânicos: achamos que um presidente vai resolver todos os problemas ou estragar tudo. Achamos que tudo de bom e de ruim que existe no país é por causa da Dilma. Passagem de ônibus em Recife é barata. Parabéns Dilma. Os ônibus vivem lotados. Porra, Dilma. Que não tem nada a ver com nenhuma das coisas. Mas é assim que pensamos. Somos sebastianistas. Esperamos o comandante que nos redimirá de todos os pecados (tem um componente católico aí, mas deixemos isso para outra hora).
O fato é: somos personalistas e achamos que a presidencia da república é quem vai resolver tudo. Nisso, nem lembramos em quem votamos para o congresso, e não temos a mais vaga ideia do que os congressistas ficam fazendo. Isso explica muita coisa no nosso país. O fato de os congressistas legislarem para os que financiam suas campanhas e não para seus eleitores. As leis esdrúxulas que são aprovadas sem que a gente sequer fique sabendo. E a existência do Eduardo Cunha. Ela tem a ver com nosso sistema político sim. Mas também se deve em grande medida à maneira pela qual vemos a política, sempre vendo apenas o papel do executivo, enquanto deixamos legislativo e judiciário livres para fazerem o que quiserem. Queiramos nós ou não, a verdade é que Eduardo Cunha nos representa.
terça-feira, 26 de maio de 2015
quinta-feira, 7 de maio de 2015
O governo do medo
Nesta semana tivemos programa do PT na TV. A reação contrária foi uma bateção de panelas de uma parcela bem minoritária da população em alguns bairros de elite em um punhado de cidades grandes brasileiras. Um grupo bem pequeno da população que sequer foi eleitor do PT algum dia em sua maioria. Gente que grita por educação mas vota em partido que governa estados com greves de professores, um dos quais tem governador que faliu o estado mandando a PM massacrar professores. Gente que diz defender os direitos dos trabalhadores, mas votam em partido que votou maciçamente na terceirização. Ou seja, pouca gente, histérica e hipócrita. Em termos políticos, pouco mais que nada.
Mas foi o medo disso que fez com que Dilma não falasse como devia no primero de maio. Como todos os presidentes que eu me lembro fizeram, independente do clima político. Dilma podia ter aberto cadeia nacional, mostrado como seu governo melhorou a vida de quem trabalha. Partindo para uma atitude ativa. Mas não. Preferiu gravar um video qualquer solto durante o dia. Com medo do panelaço hipotético. Desprezou a massa de nordestinos, trabalhadores, eleitores da esquerda que a apóiam. Tomou sua decisão baseada num punhado de oposicionistas. Que iriam ganhar destaque na mídia, claro. Mas é isso que a grande imprensa faz. Ataca o governo. Se é pra ter medo dessa gente melhor nem tentar governar.
Essa história é apenas uma ilustração do medo que estrutura as ações desse governo. Que se entregou ao PMDB com medo de ser destituída pelo... PMDB! Pois afinal de contas é o que o partido faz desde o governo Sarney. A tática do morde e assopra. Alguns mordem, e outros assopram pedindo cargos para calar os primeiros. Fizeram isso com Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula. Mas com Dilma funciona mais que nunca.
Funciona assim. O maior líder que a oposição tem hoje é Eduardo Cunha. Que é do PMDB. Aí outros membros do partido, como Michel Temer e Renan Calheiros, se oferecem para resolver o problema. Em troca de cargos polpudos, claro. De preferência ministérios com orçamento bem gordo. A velha estratégia de criar problemas para vender soluções. O PMDB faz isso com sucesso há 30 anos. E vampiros assim sentem cheiro de sangue. Percebem que o governo se guia pelo medo. Mordem mais que nunca, para vender mais caro os que assopram. Resultado: estamos nós aqui rezando para Renan Calheiros segurar a medida da terceirização no senado. Entederam? Estamos nas mãos de RENAN CALHEIROS. Precisa falar mais?
Tudo isso tem a ver com o medo. O segundo governo Dilma desistiu completamente de qualquer agenda propositiva. Quer apenas se salvar. E lida com um congresso horrorosamente conservador. Então ao invés de dizer o que pensa e debater com o outro lado, apenas pensa em como acalmar os conservadores. Esse grupo sempre foi muito forte, mas hoje se sente dominante e poderoso. Ter uma presidente se curvando a qualquer demanda para sobreviver politicamente lhes fortalece. Os vampiros sentem cheiro de sangue em um governo que está em pânico e aproveitam.
E tem a questão do "ajuste". Qualquer pessoa com um mínimo de entendimento sabia que seja lá quem fosse o governo eleito, isso teria de acontecer. Dilma teve a péssima ideia de entregar credito na mão de grandes empresários, imaginando que eles gerariam empregos, mas eles apenas usaram a grana para jogar na bolsa em busca de lucro rápido. Essa política equivocada gerou excesso de gastos, e isso teria de ser de alguma forma resolvido no segundo mandato.
Mas a solução foi inacreditável. Ao invés de taxar os mais ricos, quem pagou o pato foram a educação e os trabalhadores. Algo que um governo de esquerda jamais poderia fazer. Mas é exatamente o que está sendo feito. Aí fica assim. Os ricos, aqueles que batem panela e reclamam até a morte, continuam sendo privilegiados. Mas meus alunos recebem bolsas com atraso. Chega o dia de pagar as contas e o dinheiro não caiu na conta. Algo esperado num governo de direita, tipo o que Aécio faria, mas inimaginável num governo petista.
O que nos leva a outro ponto horrendo que é a coordenação política. Pelo que me informa gente muito próxima ao planalto, Dilma é muito honesta, mas detesta políticos. Se vê no papel de quem precisa de ajuda para lidar com congressistas, por exemplo. E está muito mal assessorada. Muito. Não é Lula, não tem apoio de gente como Zé Dirceu ou Palocci. Articulação política faz falta. E aí cria-se um vácuo em que a agenda conservadora não pára de crescer e se desenvolver. Sem que haja contraponto.
Em suma, temos um governo com medo, na defensiva e agindo como se só tivesse como solução dar de mão beijada tudo o que os vampiros pedem. E isso fica ainda mais claro em um momento em que a situação é muito favorável: impeachment sumiu da pauta, PSDB completamente enrolado com a violencia e incompetencia do governo paranaense, greve dos professores em SP, Aécio sem ter o que dizer. PMDB apenas querendo o de sempre: cargos. Mesmo assim o governo se mantém na defensiva e sofre com ausência de coordenação política. Junte a isso o congresso que está lá e fica fácil concluir: a situação não é boa. Não para o governo, mas para o país.
Mas foi o medo disso que fez com que Dilma não falasse como devia no primero de maio. Como todos os presidentes que eu me lembro fizeram, independente do clima político. Dilma podia ter aberto cadeia nacional, mostrado como seu governo melhorou a vida de quem trabalha. Partindo para uma atitude ativa. Mas não. Preferiu gravar um video qualquer solto durante o dia. Com medo do panelaço hipotético. Desprezou a massa de nordestinos, trabalhadores, eleitores da esquerda que a apóiam. Tomou sua decisão baseada num punhado de oposicionistas. Que iriam ganhar destaque na mídia, claro. Mas é isso que a grande imprensa faz. Ataca o governo. Se é pra ter medo dessa gente melhor nem tentar governar.
Essa história é apenas uma ilustração do medo que estrutura as ações desse governo. Que se entregou ao PMDB com medo de ser destituída pelo... PMDB! Pois afinal de contas é o que o partido faz desde o governo Sarney. A tática do morde e assopra. Alguns mordem, e outros assopram pedindo cargos para calar os primeiros. Fizeram isso com Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula. Mas com Dilma funciona mais que nunca.
Funciona assim. O maior líder que a oposição tem hoje é Eduardo Cunha. Que é do PMDB. Aí outros membros do partido, como Michel Temer e Renan Calheiros, se oferecem para resolver o problema. Em troca de cargos polpudos, claro. De preferência ministérios com orçamento bem gordo. A velha estratégia de criar problemas para vender soluções. O PMDB faz isso com sucesso há 30 anos. E vampiros assim sentem cheiro de sangue. Percebem que o governo se guia pelo medo. Mordem mais que nunca, para vender mais caro os que assopram. Resultado: estamos nós aqui rezando para Renan Calheiros segurar a medida da terceirização no senado. Entederam? Estamos nas mãos de RENAN CALHEIROS. Precisa falar mais?
Tudo isso tem a ver com o medo. O segundo governo Dilma desistiu completamente de qualquer agenda propositiva. Quer apenas se salvar. E lida com um congresso horrorosamente conservador. Então ao invés de dizer o que pensa e debater com o outro lado, apenas pensa em como acalmar os conservadores. Esse grupo sempre foi muito forte, mas hoje se sente dominante e poderoso. Ter uma presidente se curvando a qualquer demanda para sobreviver politicamente lhes fortalece. Os vampiros sentem cheiro de sangue em um governo que está em pânico e aproveitam.
E tem a questão do "ajuste". Qualquer pessoa com um mínimo de entendimento sabia que seja lá quem fosse o governo eleito, isso teria de acontecer. Dilma teve a péssima ideia de entregar credito na mão de grandes empresários, imaginando que eles gerariam empregos, mas eles apenas usaram a grana para jogar na bolsa em busca de lucro rápido. Essa política equivocada gerou excesso de gastos, e isso teria de ser de alguma forma resolvido no segundo mandato.
Mas a solução foi inacreditável. Ao invés de taxar os mais ricos, quem pagou o pato foram a educação e os trabalhadores. Algo que um governo de esquerda jamais poderia fazer. Mas é exatamente o que está sendo feito. Aí fica assim. Os ricos, aqueles que batem panela e reclamam até a morte, continuam sendo privilegiados. Mas meus alunos recebem bolsas com atraso. Chega o dia de pagar as contas e o dinheiro não caiu na conta. Algo esperado num governo de direita, tipo o que Aécio faria, mas inimaginável num governo petista.
O que nos leva a outro ponto horrendo que é a coordenação política. Pelo que me informa gente muito próxima ao planalto, Dilma é muito honesta, mas detesta políticos. Se vê no papel de quem precisa de ajuda para lidar com congressistas, por exemplo. E está muito mal assessorada. Muito. Não é Lula, não tem apoio de gente como Zé Dirceu ou Palocci. Articulação política faz falta. E aí cria-se um vácuo em que a agenda conservadora não pára de crescer e se desenvolver. Sem que haja contraponto.
Em suma, temos um governo com medo, na defensiva e agindo como se só tivesse como solução dar de mão beijada tudo o que os vampiros pedem. E isso fica ainda mais claro em um momento em que a situação é muito favorável: impeachment sumiu da pauta, PSDB completamente enrolado com a violencia e incompetencia do governo paranaense, greve dos professores em SP, Aécio sem ter o que dizer. PMDB apenas querendo o de sempre: cargos. Mesmo assim o governo se mantém na defensiva e sofre com ausência de coordenação política. Junte a isso o congresso que está lá e fica fácil concluir: a situação não é boa. Não para o governo, mas para o país.
quarta-feira, 29 de abril de 2015
O gigante que acordou era muito mais feio que pensávamos
Como qualquer pessoa que tenha algum coração e não esteja completamente cego pelo clima de ódio que se disseminou no debate político brasileiro, estou estarrecido com o que aconteceu ontem no Paraná. E claro, sendo alguém da área da educação isso me toca pessoalmente. Dói pensar que ajudei a formar centenas de professores e pensar que meus ex-alunos, muitos dos quais são excelentes profissionais, poderiam estar ali. Dói também pensar em como isso mostra como a educação é tratada neste país. Sem falar na absurda hipocrisia: todo mundo diz que professores não têm condições dignas de trabalho, mas quando eles vão reclamar acontece aquilo e muita gente ainda diz que são vândalos, etc.
Mas o post não é sobre nada disso. Um pouco por eu imaginar que quem me lê já sabe de tudo isso, um pouco por achar o que aconteceu tão inaceitável que não consigo encarar mais o tema. Também não aproveitarei para falar da hipocrisia dos eleitores do PSDB, que dia desses estavam super indignados com o "descalabro da educação no governo do PT" e simplesmente desapareceram hoje (não foram todos, mas muitos se encaixam na descrição). E também não vou entrar no tema "PSDB filho da puta". Inclusive porque o PT tem lá seus esqueletos no armário nesse campo. Não faz muito tempo a PM baiana assassinou uma dúzia de adolescentes desarmados e foi parabenizada pelo governador petista. Beto Richa é tucano, é um puta de um escroto, mas esse não será o tema do post.
Quero falar do seguinte. Políticos têm um instinto de sobrevivência gigante. E ninguém chega a ser governador de um estado como o Paraná sendo um burro. Se Beto Richa fez o que fez, foi porque se sentiu autorizado. Foi por ter certeza que isso não o deixaria indisposto com seu eleitorado. O mesmo vale para todos os outros governantes que jogam a PM em cima de grevistas, sindicalistas, favelados desarmados, etc. Políticos que fazem isso são filhos da puta sim. Mas vamos combinar: eles foram eleitos. Por pessoas que certamente sabiam quem eram eles. E os reelegem muitas vezes com votações consagradoras. Natural que se sintam autorizados a esse tipo de coisa.
A verdade é: estamos nos especializando na arte do auto engano. PT e PSDB monopolizam as eleições presidenciais há 20 anos. Como vivemos em um país em que achamos que tudo de bom e de ruim deve ser colocado na conta do executivo (não esqueçamos: nos matamos militando nas eleições presidenciais, sem atentar vagamente para o fato que se gerava o congresso mais grotesco da história do país), achamos que o país está dividido entre o liberalismo tucano e a social democracia petista. O que é um equívoco total. A grande verdade é: grande parte das pessoas que votaram em Dilma e Aécio são conservadoras. Por motivos variados petistas e tucanos tem protagonizado as eleições presidenciais, mas no Brasil real o buraco é bem mais embaixo.
O que estou tentando dizer é: o Brasil é um país super conservador. Morrendo de medo dessas forças conservadoras, nem PT nem PSDB fizeram nada para mudar o cenário. Se contentaram em fazer concessões aos políticos direitistas para ganhar seus apoios, arquivar agendas progressistas (casamento gay, aborto, drogas, etc.) em nome disso e pronto. Nenhum dos dois partidos parece vagamente interessado em mudar o cenário conservador em que vivemos. Pensam simplesmente que voto de conservador vale o mesmo que os outros então bora agradar esse eleitorado e os políticos que os representam em nome das vitórias eleitorais e da governabilidade.
E o pior é que a gente tenta não ver isso. Tentamos sinceramente achar que a coisa não é tão feia, que esse congresso esdrúxulo não é sinal seguro de que vivemos num país conservador, nos matamos com os tucanos, os dois lados achando que isso é o que importa, vamos tentando levar a vida. Aí chega o dia em que a realidade te dá um soco na cara. Ontem foi um dia assim. Xinguei muito o Beto Richa, mas na verdade o que lamentei mesmo não foi isso. Foi ver o oportunismo de gente que se diz preocupada com a educação sumindo, mostrando toda a sua hipocrisia. Foi ver gente se referindo aos professores como bandidos que tiveram o que mereciam. Ficou impossível não encarar de frente a hipocrisia e o conservadorismo do país em que vivemos.
Desde o ocaso do brizolismo me converti em eleitor do PT. Me engalfinhei em debates infinitos com os tucanos. Hoje tenho, mais claro que nunca, que os dois grupos estão completamente equivocados nessa estratégia. Hoje, mais do que nunca, vejo que essa é uma questão importante, mas que não pode esconder outras, tão ou mais importantes. Como o fato de vivermos num país autoritário e conservador em todos os sentidos. E com PT e PSDB, os únicos que poderiam fazer algo para mudar isso, acomodados com a situação e sem a menor vontade de mexer em vespeiro, o cenário não é animador.
Mas o post não é sobre nada disso. Um pouco por eu imaginar que quem me lê já sabe de tudo isso, um pouco por achar o que aconteceu tão inaceitável que não consigo encarar mais o tema. Também não aproveitarei para falar da hipocrisia dos eleitores do PSDB, que dia desses estavam super indignados com o "descalabro da educação no governo do PT" e simplesmente desapareceram hoje (não foram todos, mas muitos se encaixam na descrição). E também não vou entrar no tema "PSDB filho da puta". Inclusive porque o PT tem lá seus esqueletos no armário nesse campo. Não faz muito tempo a PM baiana assassinou uma dúzia de adolescentes desarmados e foi parabenizada pelo governador petista. Beto Richa é tucano, é um puta de um escroto, mas esse não será o tema do post.
Quero falar do seguinte. Políticos têm um instinto de sobrevivência gigante. E ninguém chega a ser governador de um estado como o Paraná sendo um burro. Se Beto Richa fez o que fez, foi porque se sentiu autorizado. Foi por ter certeza que isso não o deixaria indisposto com seu eleitorado. O mesmo vale para todos os outros governantes que jogam a PM em cima de grevistas, sindicalistas, favelados desarmados, etc. Políticos que fazem isso são filhos da puta sim. Mas vamos combinar: eles foram eleitos. Por pessoas que certamente sabiam quem eram eles. E os reelegem muitas vezes com votações consagradoras. Natural que se sintam autorizados a esse tipo de coisa.
A verdade é: estamos nos especializando na arte do auto engano. PT e PSDB monopolizam as eleições presidenciais há 20 anos. Como vivemos em um país em que achamos que tudo de bom e de ruim deve ser colocado na conta do executivo (não esqueçamos: nos matamos militando nas eleições presidenciais, sem atentar vagamente para o fato que se gerava o congresso mais grotesco da história do país), achamos que o país está dividido entre o liberalismo tucano e a social democracia petista. O que é um equívoco total. A grande verdade é: grande parte das pessoas que votaram em Dilma e Aécio são conservadoras. Por motivos variados petistas e tucanos tem protagonizado as eleições presidenciais, mas no Brasil real o buraco é bem mais embaixo.
O que estou tentando dizer é: o Brasil é um país super conservador. Morrendo de medo dessas forças conservadoras, nem PT nem PSDB fizeram nada para mudar o cenário. Se contentaram em fazer concessões aos políticos direitistas para ganhar seus apoios, arquivar agendas progressistas (casamento gay, aborto, drogas, etc.) em nome disso e pronto. Nenhum dos dois partidos parece vagamente interessado em mudar o cenário conservador em que vivemos. Pensam simplesmente que voto de conservador vale o mesmo que os outros então bora agradar esse eleitorado e os políticos que os representam em nome das vitórias eleitorais e da governabilidade.
E o pior é que a gente tenta não ver isso. Tentamos sinceramente achar que a coisa não é tão feia, que esse congresso esdrúxulo não é sinal seguro de que vivemos num país conservador, nos matamos com os tucanos, os dois lados achando que isso é o que importa, vamos tentando levar a vida. Aí chega o dia em que a realidade te dá um soco na cara. Ontem foi um dia assim. Xinguei muito o Beto Richa, mas na verdade o que lamentei mesmo não foi isso. Foi ver o oportunismo de gente que se diz preocupada com a educação sumindo, mostrando toda a sua hipocrisia. Foi ver gente se referindo aos professores como bandidos que tiveram o que mereciam. Ficou impossível não encarar de frente a hipocrisia e o conservadorismo do país em que vivemos.
Desde o ocaso do brizolismo me converti em eleitor do PT. Me engalfinhei em debates infinitos com os tucanos. Hoje tenho, mais claro que nunca, que os dois grupos estão completamente equivocados nessa estratégia. Hoje, mais do que nunca, vejo que essa é uma questão importante, mas que não pode esconder outras, tão ou mais importantes. Como o fato de vivermos num país autoritário e conservador em todos os sentidos. E com PT e PSDB, os únicos que poderiam fazer algo para mudar isso, acomodados com a situação e sem a menor vontade de mexer em vespeiro, o cenário não é animador.
O anarcoliberalismo. Ou: tem pouca idiotice no mundo. Precisamos de mais
Uma das certezas que tenho nesta vida é: a humanidade nunca cansa de nos surpreender, e geralmente no mau sentido. Um exemplo é algo que é provavelmente uma contribuição do século XXI ao pensamento (?) político: o anarcoliberalismo. Que consiste basicamente em uma mistura absolutamente indigesta de duas visões de mundo que estão em campos absolutamente opostos desde o século XIX.
A visão anarcoliberal do mundo é estruturada pelo liberalismo, especialmente em sua formulação que é mais conhecida como "neoliberalismo". Desconfiam profundamente do Estado, que vêem como lento, ineficiente e ineficaz, optando por glorificar a iniciativa privada, que de seu ponto de vista é a saída para todos os males, já que cultuam o Deus Mercado. Até aí tudo bem. Não compartilho minimamente essa visão, mas posso reconhecer como algo legítimo e defensável. O pensamento liberal tem mais de dois séculos e inclusive produziu pensadores altamente qualificados. Não concordo mas acho que faz parte do jogo. Sem problemas.
Mas aí tem um problema. Os anarcoliberais forçam os limites do liberalismo clássico, já que não gostam da agenda que se impôs no século XXI. Falo de temas como drogas, aborto, homossexualidade, cotas, diversidade cultural, etc. O escopo do liberalismo clássico é receptivo a isso tudo. Para dar um exemplo doméstico, não consigo imaginar Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas vendo essas coisas com ódio. Poderiam discordar, mas sem dúvidas seriam debatedores inteligentes. Basta ver as coisas que FHC diz a respeito. E lembrar sua abertura ao tema das cotas e sua conversão recente ao debate da descriminalização das drogas (amigos de esquerda vêem isso como atitude oportunista, já que não fez nada a respeito quando presidente, mas eu tendo mais a achar que como octogenário que não pretende mais concorrer a nada ele tenha se sentido mais livre para expressar o que sempre pensou. e convenhamos, o PT também não é nenhum modelo nesse campo)
Aí é a hora de colocar o anarquismo em campo. Mas na verdade não é o anarquismo de Bakunin ou Kropotkin. Nem o libertarianismo foucaultiano. É apenas uma apropriação extremamente oportunista da negação anarquista em relação ao Estado como forma de garantir a perpetuação das desigualdades. Na verdade, é um "anarquismo" (com todas as haspas que se puder colocar) que serve aos dominantes de sempre. Um "anarquismo" autoritário e babaquíssimo que simplesmente não reconhece o direito dos excluídos de lutar. Ou seja, não tem nada de anarquismo.
Em sua versão mais primária, esse "anarquismo" ou "libertarianismo" é assim. A pessoa diz algo contra algum grupo excluído e subalterno, pode ser gay, mulher, nordestino, negro, índio, tanto faz. Aí naturalmente isso revolta muita gente, e há uma repercussão negativa. Aí advinha? A pessoa posa de perseguido. Meu Deus, não posso mais dar minha opinião. Sou um mártir da liberdade de expressão, incompreendido neste mundo opressor. Ninguém quer me deixar falar.
Esse é aquele ponto em que cinismo e ignorância ficam difíceis de distinguir. Pois a pessoa se diz liberal. E um pilar básico do liberalismo, na verdade uma de suas maiores contribuições à humanidade, foi a liberdade de expressão. Mas desafio quem usa esse discurso a encontrar quem diga que liberdade de expressão implica na ausência do contraditório. Liberdade de expressão é para TODOS. Você diz o que quiser. E todos dizem o que quiserem a respeito do que você disse. Que você é gênio, que você é idiota, tanto faz. E se alguém se sentir ofendido, procure a justiça. Isso é direito garantido em todos os países democráticos de todas as épocas. Baseado em um princípio simples: com a liberdade vem a responsabilidade. Diga o que quiser e arque com as consequências. Isso é liberalismo básico.
Mas como essas pessoas não querem arcar com as consequencias, e querem apenas expressar o ódio por quem não gostam, apelam para um argumento pretensamente libertário. Dizem, IMAGINEM, que processar alguém por algo que a pessoa disse é CENSURA e vai contra a liberdade de expressão. Ouvi ontem: "absurdo querer que o Estado tome suas dores". Ou seja, um argumento absolutamente autoritário ("falo o que quiser e ninguém pode discordar") travestido de libertarianismo de verniz foucaultiano ("você está fazendo o Estado entrar onde não deve"). Em suma: uma cachoeira de lixo.
Pra mim quem pensa isso não é liberal. Não é anarquista. Nem entendeu minimamente o que são essas duas coisas. É apenas gente que quer que homossexuais sejam mortos por sua orientação, que negros tenham suas possibilidades barradas, que mulheres sigam sendo agredidas. Querem defender isso tudo, mas sem parecerem com o Bolsonaro. Aí adotam essa postura, pretensamente cultivada, que apenas é um verniz que visa esconder seu autoritarismo extremo. Fazem uma mistura louca de autores que nada tem em comum para se sentirem livres para dizer: "defendo os privilegiados de sempre, falo o que der na telha, e quem discordar de mim ou usar a constituição contra mim está me cerceando e é um inimigo da liberdade". Pois espíritos autoritários pensam exatamente assim. Não toleram o contraditório. Para eles, discordar deles é censurar seu pensamento.
Em suma, são pessoas que odeiam quem protesta contra o preconceito muito mais do que repudia os preconceituosos. Xingar negro, gay, nordestino, mulher, é liberdade de expressão, e xingar quem faz isso é tirania. Tudo bem, sejam autoritários fingindo ser liberais e libertários. Só não pensem que não percebemos como vocês são idiotas. Sejam babacas o quanto quiserem. Só não nos subestimem tanto.
A visão anarcoliberal do mundo é estruturada pelo liberalismo, especialmente em sua formulação que é mais conhecida como "neoliberalismo". Desconfiam profundamente do Estado, que vêem como lento, ineficiente e ineficaz, optando por glorificar a iniciativa privada, que de seu ponto de vista é a saída para todos os males, já que cultuam o Deus Mercado. Até aí tudo bem. Não compartilho minimamente essa visão, mas posso reconhecer como algo legítimo e defensável. O pensamento liberal tem mais de dois séculos e inclusive produziu pensadores altamente qualificados. Não concordo mas acho que faz parte do jogo. Sem problemas.
Mas aí tem um problema. Os anarcoliberais forçam os limites do liberalismo clássico, já que não gostam da agenda que se impôs no século XXI. Falo de temas como drogas, aborto, homossexualidade, cotas, diversidade cultural, etc. O escopo do liberalismo clássico é receptivo a isso tudo. Para dar um exemplo doméstico, não consigo imaginar Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas vendo essas coisas com ódio. Poderiam discordar, mas sem dúvidas seriam debatedores inteligentes. Basta ver as coisas que FHC diz a respeito. E lembrar sua abertura ao tema das cotas e sua conversão recente ao debate da descriminalização das drogas (amigos de esquerda vêem isso como atitude oportunista, já que não fez nada a respeito quando presidente, mas eu tendo mais a achar que como octogenário que não pretende mais concorrer a nada ele tenha se sentido mais livre para expressar o que sempre pensou. e convenhamos, o PT também não é nenhum modelo nesse campo)
Aí é a hora de colocar o anarquismo em campo. Mas na verdade não é o anarquismo de Bakunin ou Kropotkin. Nem o libertarianismo foucaultiano. É apenas uma apropriação extremamente oportunista da negação anarquista em relação ao Estado como forma de garantir a perpetuação das desigualdades. Na verdade, é um "anarquismo" (com todas as haspas que se puder colocar) que serve aos dominantes de sempre. Um "anarquismo" autoritário e babaquíssimo que simplesmente não reconhece o direito dos excluídos de lutar. Ou seja, não tem nada de anarquismo.
Em sua versão mais primária, esse "anarquismo" ou "libertarianismo" é assim. A pessoa diz algo contra algum grupo excluído e subalterno, pode ser gay, mulher, nordestino, negro, índio, tanto faz. Aí naturalmente isso revolta muita gente, e há uma repercussão negativa. Aí advinha? A pessoa posa de perseguido. Meu Deus, não posso mais dar minha opinião. Sou um mártir da liberdade de expressão, incompreendido neste mundo opressor. Ninguém quer me deixar falar.
Esse é aquele ponto em que cinismo e ignorância ficam difíceis de distinguir. Pois a pessoa se diz liberal. E um pilar básico do liberalismo, na verdade uma de suas maiores contribuições à humanidade, foi a liberdade de expressão. Mas desafio quem usa esse discurso a encontrar quem diga que liberdade de expressão implica na ausência do contraditório. Liberdade de expressão é para TODOS. Você diz o que quiser. E todos dizem o que quiserem a respeito do que você disse. Que você é gênio, que você é idiota, tanto faz. E se alguém se sentir ofendido, procure a justiça. Isso é direito garantido em todos os países democráticos de todas as épocas. Baseado em um princípio simples: com a liberdade vem a responsabilidade. Diga o que quiser e arque com as consequências. Isso é liberalismo básico.
Mas como essas pessoas não querem arcar com as consequencias, e querem apenas expressar o ódio por quem não gostam, apelam para um argumento pretensamente libertário. Dizem, IMAGINEM, que processar alguém por algo que a pessoa disse é CENSURA e vai contra a liberdade de expressão. Ouvi ontem: "absurdo querer que o Estado tome suas dores". Ou seja, um argumento absolutamente autoritário ("falo o que quiser e ninguém pode discordar") travestido de libertarianismo de verniz foucaultiano ("você está fazendo o Estado entrar onde não deve"). Em suma: uma cachoeira de lixo.
Pra mim quem pensa isso não é liberal. Não é anarquista. Nem entendeu minimamente o que são essas duas coisas. É apenas gente que quer que homossexuais sejam mortos por sua orientação, que negros tenham suas possibilidades barradas, que mulheres sigam sendo agredidas. Querem defender isso tudo, mas sem parecerem com o Bolsonaro. Aí adotam essa postura, pretensamente cultivada, que apenas é um verniz que visa esconder seu autoritarismo extremo. Fazem uma mistura louca de autores que nada tem em comum para se sentirem livres para dizer: "defendo os privilegiados de sempre, falo o que der na telha, e quem discordar de mim ou usar a constituição contra mim está me cerceando e é um inimigo da liberdade". Pois espíritos autoritários pensam exatamente assim. Não toleram o contraditório. Para eles, discordar deles é censurar seu pensamento.
Em suma, são pessoas que odeiam quem protesta contra o preconceito muito mais do que repudia os preconceituosos. Xingar negro, gay, nordestino, mulher, é liberdade de expressão, e xingar quem faz isso é tirania. Tudo bem, sejam autoritários fingindo ser liberais e libertários. Só não pensem que não percebemos como vocês são idiotas. Sejam babacas o quanto quiserem. Só não nos subestimem tanto.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Por que um homossexual do sexo oposto é um "desperdício"?
Este post começou a ser pensado há anos atrás. Eu tenho uma grande amiga, de quem gosto muito, que é extremamente bonita. Loira, sorrisão cativante, corpão perfeito, linda. E lésbica. E por isso passei anos ouvindo caras se referindo a ela como um "desperdício". Não tipo "poxa, se ela fosse hetero eu apresentaria minha candidatura". Não. "Desperdício" é a palavra permanentemente usada.
Isso sempre me incomodou pra caramba. Afinal todas as pessoas do mundo podem fazer uma lista gigante de pessoas que despertam seus desejos, que nunca serão concretizados. Eu, por exemplo, trocaria tudo o que tenho por uma relação com a Alessandra Negrini. Nunca vai acontecer, paciência. Frustrações fazem parte da vida. Mas a questão é: ninguém nunca diria "nossa, que desperdício" ao ver, digamos, a Alessandra Negrini com outro cara. Mas se fosse com outra mulher...
Sei que esse tipo de comentário não é intencionalmente escroto. Mas reflete claramente a ideia de que a homossexualidade é um desperdício sim. Ninguém que eu tenha conhecido nos meus 42 anos de vida se incomodou ao ver uma pessoa atraente do sexo oposto envolvida com uma relação hetero com alguém que não ela própria, a menos que tenha uma paixão realmente forte pela pessoa. Mas com os homossexuais é diferente. Um gay ou uma lésbica atraente é "desperdício". Desperdício de que, porra?
Pois esse é um ponto. A amiga em questão é realmente linda. Aí apareciam caras que nunca arranjavam NADA com esse discurso. "Nossa, que desperdício uma mulher assim ser lésbica". Dava vontade de responder: "gente boa, você não consegue nada com ninguém. Você acha mesmo que a única coisa que te separa dessa nega é o fato de ela ser lésbica? Por que você acha que se ela fosse hetero agiria diferente de todas as demais heteros que não querem nada contigo?"
Pior que no nosso meio esquerdista-acadêmico, esse discurso campeia livremente, de forma acrítica. Ouvimos toda hora mulheres solteiras falando que os únicos homens interessantes são gays. Um discurso pretensamente liberal. Que na verdade é super babaca. Pensam nos gays como um estereótipo de caras cheios de bom gosto que gostam de ir a shoppings fazer compras com elas. Como se uma orientação sexual definisse de forma absolutamente incontornável um conjunto de gostos e atitudes. Besteira pura.
Com as lésbicas é diferente, mas ao mesmo tempo é igual. O estereótipo é diferente, mas é estereótipo também. Ao menos nos cursos de humanas das universidades públicas é comun que mulheres experimentem em algum momento o sexo com mulheres. Então acabamos por cristalizar a ideia de que sexo entre mulheres é só uma brincadeira. Quando alguma assume o fato de que essa é a sua orientação não conseguimos levar totalmente a sério. Quando nos convencemos que é isso, não nos convencemos. Achamos que a lésbica gostosa pode a qualquer momento acordar e ver a "verdade". Talvez falte apenas um cara que faça ela ver que é disso que ela gosta. Se não, é desperdício.
Nisso tudo o que é desprezado, o que não é levado em conta, é a orientação da pessoa, a forma que ela se sente. Não nos perguntamos o que ela pensa quando é vista como objeto acessível a um gênero que não lhe interessa, muito menos o que a pessoa acha quando se vê enquadrada nas posturas citadas acima. Afinal, nisso tudo o outro não importa. Nenhuma das posturas citadas leva em consideração os sentimentos alheios. E nesse sentido são todas iguais.
Isso sempre me incomodou pra caramba. Afinal todas as pessoas do mundo podem fazer uma lista gigante de pessoas que despertam seus desejos, que nunca serão concretizados. Eu, por exemplo, trocaria tudo o que tenho por uma relação com a Alessandra Negrini. Nunca vai acontecer, paciência. Frustrações fazem parte da vida. Mas a questão é: ninguém nunca diria "nossa, que desperdício" ao ver, digamos, a Alessandra Negrini com outro cara. Mas se fosse com outra mulher...
Sei que esse tipo de comentário não é intencionalmente escroto. Mas reflete claramente a ideia de que a homossexualidade é um desperdício sim. Ninguém que eu tenha conhecido nos meus 42 anos de vida se incomodou ao ver uma pessoa atraente do sexo oposto envolvida com uma relação hetero com alguém que não ela própria, a menos que tenha uma paixão realmente forte pela pessoa. Mas com os homossexuais é diferente. Um gay ou uma lésbica atraente é "desperdício". Desperdício de que, porra?
Pois esse é um ponto. A amiga em questão é realmente linda. Aí apareciam caras que nunca arranjavam NADA com esse discurso. "Nossa, que desperdício uma mulher assim ser lésbica". Dava vontade de responder: "gente boa, você não consegue nada com ninguém. Você acha mesmo que a única coisa que te separa dessa nega é o fato de ela ser lésbica? Por que você acha que se ela fosse hetero agiria diferente de todas as demais heteros que não querem nada contigo?"
Pior que no nosso meio esquerdista-acadêmico, esse discurso campeia livremente, de forma acrítica. Ouvimos toda hora mulheres solteiras falando que os únicos homens interessantes são gays. Um discurso pretensamente liberal. Que na verdade é super babaca. Pensam nos gays como um estereótipo de caras cheios de bom gosto que gostam de ir a shoppings fazer compras com elas. Como se uma orientação sexual definisse de forma absolutamente incontornável um conjunto de gostos e atitudes. Besteira pura.
Com as lésbicas é diferente, mas ao mesmo tempo é igual. O estereótipo é diferente, mas é estereótipo também. Ao menos nos cursos de humanas das universidades públicas é comun que mulheres experimentem em algum momento o sexo com mulheres. Então acabamos por cristalizar a ideia de que sexo entre mulheres é só uma brincadeira. Quando alguma assume o fato de que essa é a sua orientação não conseguimos levar totalmente a sério. Quando nos convencemos que é isso, não nos convencemos. Achamos que a lésbica gostosa pode a qualquer momento acordar e ver a "verdade". Talvez falte apenas um cara que faça ela ver que é disso que ela gosta. Se não, é desperdício.
Nisso tudo o que é desprezado, o que não é levado em conta, é a orientação da pessoa, a forma que ela se sente. Não nos perguntamos o que ela pensa quando é vista como objeto acessível a um gênero que não lhe interessa, muito menos o que a pessoa acha quando se vê enquadrada nas posturas citadas acima. Afinal, nisso tudo o outro não importa. Nenhuma das posturas citadas leva em consideração os sentimentos alheios. E nesse sentido são todas iguais.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
O que Veronica Bolina diz sobre o Brasil

"Retrato de um país hipócrita". Ouvi isso sobre o episódio Veronica Bolina. Travesti negra agredida barbaramente por policiais sob a custódia do Estado após ser presa pelo trivialíssimo motivo de brigar com a vizinha. Todo santo dia vizinhos brigam. O simples fato de ela ter sido detida por isso já é absurdo. O que veio depois, então, é devastador. Inclui agressões e mutilação. Da parte de agentes do Estado. Dinheiro dos nossos impostos pagam para que pessoas façam com que a pessoa da esquerda seja violentada a ponto de se transformar na pessoa da direita.
Isso tudo me deixa a seguinte questão: o que fez essas pessoas se sentirem autorizadas a fazerem isso? Pra mim essa é a questão. Por pior que sejam esses humanos, eles jamais fariam isso se não achassem que poderiam. Exemplificando: todos nós conhecemos pessoas que adorariam torturar, agredir e matar quem pensa diferente delas. Mas como sabem que não podem, se aguentam. As pessoas que fizeram o que fizeram com Veronica de alguma forma se sentiram autorizadas. Em algum nível acreditaram que vivem em uma sociedade que aceita coisas assim.
Aí você olha para o congresso nacional. Pensa que lixos humanos tipo Bolsonaros e Felicianos tiveram recordes de votos pregando a opressão aos oprimidos como forma de defender a sociedade do mal. Aí você começa a pensar que o problema nem são essas pessoas, mas os eleitores delas. E se lembra que todo santo dia escuta discurso escroto, filho da puta, racista, homofóbico. Não há um mísero dia que você não escute piadinha sobre o "viadinho" que a pessoa e você conhecem. Não há mísero dia em que por algum grupo do whatsapp você não receba uma "maravilhosa" piada sobre algum grupo subalterno. E se você se sentir ofendido o desgraçado que mandou ainda banca o perseguido: "nossa, desculpa se te ofendi", fazendo parecer que você é que é sensível.
Quantas pessoas você conhece que dizem "não voto no Bolsonaro mas admiro sua coragem"? Ou "tem coisas dele que não concordo, mas ele fala umas coisas importantes"? Isso é muito sério. Pois esses lixos defendem que tá pouca opressão aos subalternos. Tem mesmo é de aumentar. Estamos matando poucos gays, estamos discriminando pouco os negros, há poucos maridos matando suas esposas, foi pouca gente morta e torturada no regime militar. Tem de aumentar. Tudo em nome da família e dos bons costumes, claro.
Também tem a versão pretensamente religiosa da coisa. Os filhos da puta lêem Jesus Cristo falando de amor e compreensão e saem por aí odiando todo mundo que não concorda com eles. Pegam partes descontextualizadas de textos escritos há milhares de anos e usam isso para disseminar o ódio. Fazem isso considerando que estão defendendo o mundo cristão. Duvido muito que os felicianos da vida acreditem nisso. Pra mim são apenas picaretas mesmo. Mas não falta gente ignorante para espalhar o ódio em nome de Jesus. O que por si só é um contra senso gigante.
Tudo isso nós vemos todo santo dia. Esse é o mundo em que vivemos. Logo, nada mais natural que um bando de policiais tenha achado super de boas prender um travesti negro por conta de uma briga com uma vizinha. Acharam normal torturar, mutilar e desfigurar essa pessoa. Lógico que eles acharam que a sociedade à sua volta permitiria que isso acontecesse. Essa é a pior parte: eles tinham toda a razão em achar isso. Esse é o país em que vivemos. Um país machista, racista, homofóbico, que cultiva com gosto esses preconceitos e vota em quem os defende. O problema não é a polícia. O problema é seu. Você, que de alguma forma compactua com as posturas descritas, é tão culpado pelo que aconteceu quanto os que torturaram Veronica.
terça-feira, 14 de abril de 2015
Sobre o verde-amarelismo
O uso do verde e amarelo nessas manifestações a favor do impeachment me irrita muito. Por vários motivos. Aqui vão alguns.
Para começar, essas pessoas tem a miserável atitude de associar patriotismo à seleção brasileira e à camisa que a Nike fez para ela. Sério, caras? Estamos em 1970? Ou vocês simplesmente querem mostrar que têm dinheiro para comprar uma camisa oficial da seleção, e assim assumir nas entrelinhas o que vocês não querem dizer, ou seja, que essas manifestações são exclusivas para a elite? Sim, por que não sair na rua com uma camisa amarela e uma bermuda verde, algo assim, que custa barato? Precisa mostrar que fazem parte dos grupos privilegiados, né? (nem vamos falar do tamanho do ridículo que é alguém protestar contra a corrupção usando a camisa de uma das entidades mais corruptas do país, a CBF, isso é evidente demais para justificar esforço argumentando nesse sentido)
Motivo numero 2: a raiva que sinto em relação ao argumento secular de que ser de direita é "normal" e ser de esquerda é ser "ideológico". Direita usa verde e amarelo, esquerda usa vermelho. Direita ama o Brasil, esquerda quer fazer uma Cuba gigante por aqui. Um conjunto de argumentos absurdos, que por sinal eram usados a torto e a direito pelo regime militar. Como se ser de direita, antipetista e liberal não fosse uma ideologia. É ideologia também. Pode ser respeitável, mas é ideologia sim. Tem de ser burro demais para não ver isso.
Na verdade essa é uma característica histórica da direita. Adoram se comportar como se estivessem preocupados com o bem de todos, enquanto a esquerda supostamente só se preocupa com luta de classes, pobres, etc. E dá-lhe "classe média sofre". Na verdade historicamente a direita usa o nacionalismo como forma de criar consensos e escantear conflitos. Isso é um clássico direitista: a ditadura mesmo adorava tudo o que sugerisse essa versão patrioteira do nacionalismo, como seleção brasileira, desfiles de 7 de setembro, etc. Tudo para que essa patriotada toda fosse um ponto de união e consenso, escondendo todos os conflitos e desigualdades que eles tanto queriam que ninguém percebesse.
Um argumento a mais, derivado do anterior. Não é difícil de entender; há mil formas diferentes de ser nacionalista. Eu mesmo sou um. Amo o Brasil. Tive oportunidades profissionais para sair daqui. Mas não saio. Não consigo me imaginar vivendo em qualquer outro país. Quero lutar pelo Brasil. Pelo projeto de Brasil em que acredito. Outras pessoas têm outros projetos para o país e outras visões sobre o que é ser nacionalista. Tudo bem. Não acho que exista uma maneira "certa" e outra "errada" de ser brasileiro. Mas se assim é, que me deixem ser nacionalista como eu quiser. O que significa sim uma luta pelos mais pobres, e o uso do vermelho como símbolo do que acredito ser melhor para todos nós. Discorda? Ok, graças a Deus e a muita gente que lutou e sofreu por isso, somos uma democracia. Todos os projetos nacionalistas podem conviver. Mas isso de "sou mais brasileiro que você" é super autoritário, né? Ainda mais na boca de quem tem Miami como aspiração.
Mas o que mais me irrita não é nada disso. A pior parte é outra. Tivemos eleições em outubro. A maioria dos brasileiros votou pela continuidade de Dilma Rousseff. Que alguém não goste disso, ok, entendo, cansei de perder eleições. Que muitos não se sintam representados pela vitória petista me parece super hiper mega aceitável. Até aí tudo bem. Mas aqui vou citar um político importante uruguaio que não é José Mujica, mas seu opositor direitista Lacalle Pou, logo após perder as eleições presidenciais de novembro passado: "eleições se ganham e se perdem. o que importa é a vontade do povo".
Exatamente isso. Democracia é quando temos eleições livres, os vencedores governam, e os perdedores vão para a oposição. Mas não é o que estamos vendo. Aqui vemos pessoas que não aceitaram a derrota, que acham que quem vota no PT é burro e ignorante, quando não vendido. Então cabe a eles, derrotados, membros da elite bronzeada, falar em nome dos que não sabem o que fazem. Essa é minha irritação: a certeza que essas pessoas têm de que estão certas, e que os que pensam diferente delas são um bando de pobres coitados. Então que resta mais do que sair para a rua usando verde e amarelo, as cores da pátria, falando em nome de todos, já que quem pensa diferente deles não sabe o que está fazendo?
No fundo é isso o que me aborrece. Eles usam verde e amarelo querendo dizer o mesmo que brancos que se acham os líderes da luta anti racista, só porque gostam da empregada doméstica e até dão peru pra ela no natal. São como heteros que acham que sabem o que os gays sofrem apenas porque acham super legal ostentar amigo homossexual por ai dizendo que "gays são legais". Quem vai para a rua protestar contra quem foi escolhido pela maioria da população pretendendo falar em nome desse bando de pobres coitados que não sabem votar estão fazendo a mesmíssima coisa: sendo condescendente com os subalternos e pretendendo falar em nome deles.
Essas pessoas que usam verde e amarelo querendo falar em nome dos outros não entenderam algo básico. Mulheres, gays, homossexuais, nordestinos e demais grupos subalternos sofrem pra caralho sim, mas sabem falar por si próprios. Não precisam de gente privilegiada falando por eles não. Eles são crescidos, vacinados e sabem o que querem. Se o que eles querem não é o que você quer, paciência. Resolva isso de forma simples: fale por você. Você tem todo o direito de ter opinião. Mas não precisa falar pelos outros. Eles sabem falar. E quando você acha que fala por eles está apenas eternizando a condescendência dos dominantes que acham que sabem o que os subalternos querem melhor que eles próprios.
Para começar, essas pessoas tem a miserável atitude de associar patriotismo à seleção brasileira e à camisa que a Nike fez para ela. Sério, caras? Estamos em 1970? Ou vocês simplesmente querem mostrar que têm dinheiro para comprar uma camisa oficial da seleção, e assim assumir nas entrelinhas o que vocês não querem dizer, ou seja, que essas manifestações são exclusivas para a elite? Sim, por que não sair na rua com uma camisa amarela e uma bermuda verde, algo assim, que custa barato? Precisa mostrar que fazem parte dos grupos privilegiados, né? (nem vamos falar do tamanho do ridículo que é alguém protestar contra a corrupção usando a camisa de uma das entidades mais corruptas do país, a CBF, isso é evidente demais para justificar esforço argumentando nesse sentido)
Motivo numero 2: a raiva que sinto em relação ao argumento secular de que ser de direita é "normal" e ser de esquerda é ser "ideológico". Direita usa verde e amarelo, esquerda usa vermelho. Direita ama o Brasil, esquerda quer fazer uma Cuba gigante por aqui. Um conjunto de argumentos absurdos, que por sinal eram usados a torto e a direito pelo regime militar. Como se ser de direita, antipetista e liberal não fosse uma ideologia. É ideologia também. Pode ser respeitável, mas é ideologia sim. Tem de ser burro demais para não ver isso.
Na verdade essa é uma característica histórica da direita. Adoram se comportar como se estivessem preocupados com o bem de todos, enquanto a esquerda supostamente só se preocupa com luta de classes, pobres, etc. E dá-lhe "classe média sofre". Na verdade historicamente a direita usa o nacionalismo como forma de criar consensos e escantear conflitos. Isso é um clássico direitista: a ditadura mesmo adorava tudo o que sugerisse essa versão patrioteira do nacionalismo, como seleção brasileira, desfiles de 7 de setembro, etc. Tudo para que essa patriotada toda fosse um ponto de união e consenso, escondendo todos os conflitos e desigualdades que eles tanto queriam que ninguém percebesse.
Um argumento a mais, derivado do anterior. Não é difícil de entender; há mil formas diferentes de ser nacionalista. Eu mesmo sou um. Amo o Brasil. Tive oportunidades profissionais para sair daqui. Mas não saio. Não consigo me imaginar vivendo em qualquer outro país. Quero lutar pelo Brasil. Pelo projeto de Brasil em que acredito. Outras pessoas têm outros projetos para o país e outras visões sobre o que é ser nacionalista. Tudo bem. Não acho que exista uma maneira "certa" e outra "errada" de ser brasileiro. Mas se assim é, que me deixem ser nacionalista como eu quiser. O que significa sim uma luta pelos mais pobres, e o uso do vermelho como símbolo do que acredito ser melhor para todos nós. Discorda? Ok, graças a Deus e a muita gente que lutou e sofreu por isso, somos uma democracia. Todos os projetos nacionalistas podem conviver. Mas isso de "sou mais brasileiro que você" é super autoritário, né? Ainda mais na boca de quem tem Miami como aspiração.
Mas o que mais me irrita não é nada disso. A pior parte é outra. Tivemos eleições em outubro. A maioria dos brasileiros votou pela continuidade de Dilma Rousseff. Que alguém não goste disso, ok, entendo, cansei de perder eleições. Que muitos não se sintam representados pela vitória petista me parece super hiper mega aceitável. Até aí tudo bem. Mas aqui vou citar um político importante uruguaio que não é José Mujica, mas seu opositor direitista Lacalle Pou, logo após perder as eleições presidenciais de novembro passado: "eleições se ganham e se perdem. o que importa é a vontade do povo".
Exatamente isso. Democracia é quando temos eleições livres, os vencedores governam, e os perdedores vão para a oposição. Mas não é o que estamos vendo. Aqui vemos pessoas que não aceitaram a derrota, que acham que quem vota no PT é burro e ignorante, quando não vendido. Então cabe a eles, derrotados, membros da elite bronzeada, falar em nome dos que não sabem o que fazem. Essa é minha irritação: a certeza que essas pessoas têm de que estão certas, e que os que pensam diferente delas são um bando de pobres coitados. Então que resta mais do que sair para a rua usando verde e amarelo, as cores da pátria, falando em nome de todos, já que quem pensa diferente deles não sabe o que está fazendo?
No fundo é isso o que me aborrece. Eles usam verde e amarelo querendo dizer o mesmo que brancos que se acham os líderes da luta anti racista, só porque gostam da empregada doméstica e até dão peru pra ela no natal. São como heteros que acham que sabem o que os gays sofrem apenas porque acham super legal ostentar amigo homossexual por ai dizendo que "gays são legais". Quem vai para a rua protestar contra quem foi escolhido pela maioria da população pretendendo falar em nome desse bando de pobres coitados que não sabem votar estão fazendo a mesmíssima coisa: sendo condescendente com os subalternos e pretendendo falar em nome deles.
Essas pessoas que usam verde e amarelo querendo falar em nome dos outros não entenderam algo básico. Mulheres, gays, homossexuais, nordestinos e demais grupos subalternos sofrem pra caralho sim, mas sabem falar por si próprios. Não precisam de gente privilegiada falando por eles não. Eles são crescidos, vacinados e sabem o que querem. Se o que eles querem não é o que você quer, paciência. Resolva isso de forma simples: fale por você. Você tem todo o direito de ter opinião. Mas não precisa falar pelos outros. Eles sabem falar. E quando você acha que fala por eles está apenas eternizando a condescendência dos dominantes que acham que sabem o que os subalternos querem melhor que eles próprios.
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