Nos primeiros dias de 2014 eu estava no Rio de Janeiro com meus primos e primas num bar da Lapa que eu adoro. O dono, que estava próximo a nós, foi abordado por militantes LGBT que o acusavam de não tolerar homossexuais em seu bar. A resposta foi: "Não discrimino, eles podem vir à vontade. Mas se começarem a se beijar eu peço para maneirar, e se continuarem eu mando se retirar. Isso é um bar de família. Duvido que eles façam isso nas salas de suas casas". Engoli a ânsia de vômito, tomei a saideira e fui embora.
Ontem fiquei sabendo que um professor da universidade onde trabalho andou fazendo postagens de teor parecido, mas mais agressivas, no facebook. Você pode conferir aqui: http://educacao.uol.com.br/noticias/2014/01/14/professor-da-ufrpe-gera-polemica-com-comentarios-considerados-homofobicos.htm . O colega que envergonha nossa classe parece achar que vivemos uma ditadura gay, na qual héteros são oprimidos e em que gays tem a cara de pau de ostentarem sua orientação sexual e atrapalharem palestras alheias (claro: nunca pessoas hétero tem comportamentos inadequados. Ninguém nunca viu isso acontecer).
Cheguei hoje emputecido à universidade, e toquei no assunto no começo de uma aula. Para minha surpresa ainda tive de ouvir alunos de HISTÓRIA (supostamente um viveiro de esquerdistas empedernidos, ao menos nas fantasias da direita) dizendo coisas como "ah, mas pra que ficar falando por aí que é gay? Alguém fica falando por aí que é hétero? Tem camisetas dizendo 'sou hétero'?". Bem, incrível, mas esse tipo de coisa parece estar em todo lugar, mesmo que desafie qualquer lógica.
Pessoas não agem no sentido de mostrar que são héteros? Quantas milhares de mesas de bar neste exato momento estão ocupadas por caras falando de carro, mulher e futebol enquanto tomam cerveja? Isso não é dizer que é hétero (Gays podem fazer essas coisas, claro, mas qualquer homem hétero sabe muito bem que esse tipo de conversa é parte essencial da "sociabilidade masculina hétero". Gays podem fazer essas coisas, e muitos fazem, mas normalmente isso é um marcador social de heterossexualidade masculina) ?
(Nem vamos nos aprofundar dos inúmeros obstáculos e sofrimentos que os homossexuais vivenciam antes, durante e depois de se assumirem. Não me sinto em condições de falar de algo tão sério sem ter vivido isso. É ocioso também, para qualquer pessoa sensata, ficar falando na discriminação que essa categoria sofre, incluindo o risco de morte. Só lunáticos são capazes de ignorar isso).
E nem falo na perspectiva esquerdista. Tento aqui visualizar a opinião de um liberal sobre o assunto. Imagino essa pessoa pensando: "beijar a pessoa amada em público, usar uma camisa dizendo 'sou gay', ter uma postura afeminada ou usar roupas espalhafatosas. Se isso faz alguém feliz, e de fato não causa nenhum transtorno a ninguém, qual o problema? Democracia e liberdade é isso". Bem, ao menos para quem não vive na Idade Média, parece algo óbvio, não?
O que se pode concluir disso tudo é que não falta quem sequer tenha compreendido o que é viver num mundo racionalista. Pior que as explicações clássicas não dão conta do fenômeno. O professor em questão é doutor, então não é falta de estudo ou acesso à informação. Quem me passou, indignado, o link que compartilhei, é um protestante, então não é questão de religião. Ao que parece vivemos num mundo repleto de trevas e ignorância em um nível que ainda não conseguimos avaliar.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
domingo, 29 de dezembro de 2013
De esquerda. Mas só se for com o dinheiro dos outros
Estou há uns 10 dias em um giro pelo sudeste do Brasil. Aproveitei o recesso natalino para visitar pessoas queridas. Já passei por São Paulo/SP, Piracicaba/SP, São José dos Campos/SP, Volta Redonda/RJ, Ipatinga/MG, hoje vou para Timóteo/MG e ainda passo pelo Rio e mais uma vez por São Paulo antes de voltar ao batente. Desnecessário dizer o quanto a viagem tem sido agradável: amigos, família, comilança, maratonas etílicas, etc.
Mas uma coisa me chamou muita atenção aqui no "sudeste maravilha": a explosão do discurso "classe média sofre" e suas variantes. Eu sei que essa conversa sempre existiu, e eu a escuto desde 1972, quando vim parar neste planeta. Mas me surpreendeu muito ver várias pessoas com um impecável histórico esquerdista (que eu mesmo posso atestar)adotando essa linha argumentativa. Aí fica uma coisa meio assim: "legais as políticas sociais do governo. mas a gente que tem de pagar?".
Exatamente: é a gente que tem de pagar, porra! Se não for a gente quem vai? Lamento informar, mas sem nossos impostos nenhuma das ações governamentais que melhoraram a vida de tanta gente teria existido. Naturalmente existe uma opção: maneirar nos impostos e também nas políticas sociais, acreditando que os mais pobres conseguirão se virar assim mesmo. Tudo bem, maior apoio. Mas essa é a visão da direita, né? Não dá pra defender algo assim e se dizer sequer progressista, o que dirá de esquerda.
A propósito, podemos começar a parar de repetir aquela tolice de que ninguém paga mais impostos que o brasileiro. Simplesmente não é verdade. Essa ideia repetida acriticamente por tanta gente, nada mais é do que uma manipulação estatística (veja aqui http://novascartaspersas.wordpress.com/2013/12/27/mitos-economicos-brasileiros-mito-2-o-brasil-tem-uma-carga-tributaria-muito-elevada/). Na verdade o Brasil fica lá pela metade do ranking dos países com maior carga tributária líquida.
Isso posto, achei excelente o aumento do IOF anunciado ontem. Viajar para o exterior não é necessidade, é uma opção para os que podem mais. Taxar essas pessoas é uma política de esquerda. Assim como a proposta de Fernando Haddad de aumentar o IPTU dos que tem mais e diminuir para os que tem menos. Tudo isso parte de um princípio consagrado da esquerda: usar o dinheiro dos que tem mais para financiar os que tem menos.
Claro que a direita odeia esse tipo de coisa, que vai contra tudo o que ela acredita. Direita não quer saber de imposto justamente porque odeia distribuição de renda. Sua postura nesse quesito é coerente. Agora, se você é de classe média, se diz de esquerda e é contra esse tipo de política, só vejo duas opções: 1) você não entendeu NADA; 2) Voce gosta de políticas sociais, mas só se elas forem pagas por outros, que eu não faço ideia de quem poderiam ser.
Mas uma coisa me chamou muita atenção aqui no "sudeste maravilha": a explosão do discurso "classe média sofre" e suas variantes. Eu sei que essa conversa sempre existiu, e eu a escuto desde 1972, quando vim parar neste planeta. Mas me surpreendeu muito ver várias pessoas com um impecável histórico esquerdista (que eu mesmo posso atestar)adotando essa linha argumentativa. Aí fica uma coisa meio assim: "legais as políticas sociais do governo. mas a gente que tem de pagar?".
Exatamente: é a gente que tem de pagar, porra! Se não for a gente quem vai? Lamento informar, mas sem nossos impostos nenhuma das ações governamentais que melhoraram a vida de tanta gente teria existido. Naturalmente existe uma opção: maneirar nos impostos e também nas políticas sociais, acreditando que os mais pobres conseguirão se virar assim mesmo. Tudo bem, maior apoio. Mas essa é a visão da direita, né? Não dá pra defender algo assim e se dizer sequer progressista, o que dirá de esquerda.
A propósito, podemos começar a parar de repetir aquela tolice de que ninguém paga mais impostos que o brasileiro. Simplesmente não é verdade. Essa ideia repetida acriticamente por tanta gente, nada mais é do que uma manipulação estatística (veja aqui http://novascartaspersas.wordpress.com/2013/12/27/mitos-economicos-brasileiros-mito-2-o-brasil-tem-uma-carga-tributaria-muito-elevada/). Na verdade o Brasil fica lá pela metade do ranking dos países com maior carga tributária líquida.
Isso posto, achei excelente o aumento do IOF anunciado ontem. Viajar para o exterior não é necessidade, é uma opção para os que podem mais. Taxar essas pessoas é uma política de esquerda. Assim como a proposta de Fernando Haddad de aumentar o IPTU dos que tem mais e diminuir para os que tem menos. Tudo isso parte de um princípio consagrado da esquerda: usar o dinheiro dos que tem mais para financiar os que tem menos.
Claro que a direita odeia esse tipo de coisa, que vai contra tudo o que ela acredita. Direita não quer saber de imposto justamente porque odeia distribuição de renda. Sua postura nesse quesito é coerente. Agora, se você é de classe média, se diz de esquerda e é contra esse tipo de política, só vejo duas opções: 1) você não entendeu NADA; 2) Voce gosta de políticas sociais, mas só se elas forem pagas por outros, que eu não faço ideia de quem poderiam ser.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Mandela x Mandela x Mandela...
A morte de Nelson Mandela provocou uma onda de luto mundo afora. Ou ao menos no Brasil. Ou ao menos no meu facebook. Pelo que entendi, salvo um par de idiotas que a Veja mantém na sua folha de pagamento para gerar pageviews, comentários e compartilhamentos graças a seus textos patéticos, todo mundo parece amar Mandela e lamentar a sua morte.
É algo que merece reflexão. Com meus melhores professores da universidade aprendi algo que levarei pelo resto da vida: não existe unanimidade. No máximo existem falsas unanimidades. Que consistem em milhões de pessoas falando a mesma coisa, mas pensando em coisas totalmente diferentes. É exatamente o que vejo no caso em questão.
Meus amigos de direita estão tristes com a morte do Mandela. Que para eles é alguém que passou décadas na prisão de forma injusta (nem uma palavra sobre como ele foi parar lá) lutando por um valor que, teoricamente, deveria ser universal (a luta contra o racismo), e ao chegar ao poder promoveu uma grande conciliação entre brancos e negros. Como sabemos, a direita adora consensos. Para ela, Mandela é um herói consensual. Talvez seja por isso que não falam das suas controversas políticas de cunho neoliberal. Melhor ficar naquilo com que todos podem se identificar.
O Mandela pelo qual a esquerda chora é outro. É um líder armado de um povo oprimido por razões absurdas, vítima de um sistema de dominação, deplorado até o fim por gente como Reagan e Thatcher. E simpático a outros líderes da esquerda terceiro mundista, como Fidel Castro. O Mandela da esquerda não tem nada de conciliador, sendo muito mais um insurgente contra os privilégios.
Vou ser sincero: reconheço tranquilamente os dois Mandelas em questão. Ambos existiram. Simpatizo muito mais com o segundo, mas o primeiro não tem nada de falso, muito pelo contrário. O que nos lembra mais uma vez o mantra dos meus melhores professores: a unanimidade não é burra. Simplesmente porque ela não existe. Por mais que as aparências tendam a mostrar que sim, o mundo real grita que não.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Direita e esquerda
Este post é motivado por debates com meus alunos. Sempre eles. Sempre me incomodando com perguntas. Sempre me fazendo pensar e aprender. Num minuto estou falando do processo de modernização latino-americano no século XIX. No outro estou num debate puxado pelos alunos sobre o que é ser de direita e esquerda na América Latina de hoje...
O que disse a eles foi: só é difícil definir direita e esquerda se você tiver a cabeça fixa num manual. Aí fica dificil mesmo. Aí a América Latina não tem direita, centro, esquerda, liberalismo, neoliberalismo, social-democracia nem nada. Na verdade é exatamente isso o que pensam os bobões que gostam de babar pelo primeiro mundo. Como nenhuma dessas coisas existe aqui do mesmo jeito que no Atlântico Norte, acham simplesmente que estamos errados, que somos gentinha, etc. etc.
O que também ajuda a confundir é que termos como direita e esquerda mudam dependendo do contexto. Há as agendas específicas de um país ou região. Há as épocas também. E os contextos políticos: as mesmíssimas politicas sociais do governo FHC (cotas, benefícios para os mais pobres) foram ampliadas no governo do PT e hoje são odiados pela direita brasileira. Sem falar que também há equívocos conceituais muito difundidos, como achar que esquerda e socialismo são sinônimos.
Eu vejo esse tema da seguinte forma: direita e esquerda não existem no vácuo. Pelo contrário, se definem em termos relacionais. Ou seja, só se é de direita e de esquerda em relação a alguma coisa em algum determinado contexto. Por exemplo: se voce for alinhar as forças políticas existentes no Brasil de hoje, Dilma e o PT estarão do lado esquerdo. Então são de esquerda nesse cenário.
Pode parecer simples. E é mesmo. Mas quais são as alternativas? A principal, e infelizmente muito comum, é se manter preso a definições abstratas que nunca existiram em lugar nenhum. Aí fica assim: como Margaret Tatcher nasceu na Inglaterra não existe direita nem neoliberalismo no Brasil. Como Marx e Lenin também não nasceram aqui, não temos esquerda. Não temos nada, somos um país de merda, tudo isso por não nos encaixarmos em manuais que foram feitos pensando em outros países. Aí é dose.
O que disse a eles foi: só é difícil definir direita e esquerda se você tiver a cabeça fixa num manual. Aí fica dificil mesmo. Aí a América Latina não tem direita, centro, esquerda, liberalismo, neoliberalismo, social-democracia nem nada. Na verdade é exatamente isso o que pensam os bobões que gostam de babar pelo primeiro mundo. Como nenhuma dessas coisas existe aqui do mesmo jeito que no Atlântico Norte, acham simplesmente que estamos errados, que somos gentinha, etc. etc.
O que também ajuda a confundir é que termos como direita e esquerda mudam dependendo do contexto. Há as agendas específicas de um país ou região. Há as épocas também. E os contextos políticos: as mesmíssimas politicas sociais do governo FHC (cotas, benefícios para os mais pobres) foram ampliadas no governo do PT e hoje são odiados pela direita brasileira. Sem falar que também há equívocos conceituais muito difundidos, como achar que esquerda e socialismo são sinônimos.
Eu vejo esse tema da seguinte forma: direita e esquerda não existem no vácuo. Pelo contrário, se definem em termos relacionais. Ou seja, só se é de direita e de esquerda em relação a alguma coisa em algum determinado contexto. Por exemplo: se voce for alinhar as forças políticas existentes no Brasil de hoje, Dilma e o PT estarão do lado esquerdo. Então são de esquerda nesse cenário.
Pode parecer simples. E é mesmo. Mas quais são as alternativas? A principal, e infelizmente muito comum, é se manter preso a definições abstratas que nunca existiram em lugar nenhum. Aí fica assim: como Margaret Tatcher nasceu na Inglaterra não existe direita nem neoliberalismo no Brasil. Como Marx e Lenin também não nasceram aqui, não temos esquerda. Não temos nada, somos um país de merda, tudo isso por não nos encaixarmos em manuais que foram feitos pensando em outros países. Aí é dose.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Aprendendo a ter amigos
Este post, diferente do padrão geral do blog, não é sobre temas públicos, principalmente política. É algo bem pessoal. Quem não tiver nenhum interesse em saber o que penso sobre esse tipo de coisa, fique a vontade para não perder tempo. Para quem quiser seguir lendo aviso que os protagonistas do post estão na foto, tirada em 1990, quando íamos dançar valsa na festa de 15 anos (ai, ai, ai) na festa de uma querida amiga. Estou no centro. Zé, de óculos, à esquerda da foto. Brexola à direita.
O tema veio por uma sequencia de fatos. Os mais recentes: 1) Ontem jantei com meu velho amigo Zé, que não via ha alguns anos; 2) Acordei e vi esse texto absolutamente maravilhoso (http://anivelde.org/sorryperiferia/2013/11/25/andre.htm) sobre a morte de um amigo do autor. No auge da vida. O que evidentemente remeteu ao jantar de ontem, pois foi aí que me dei conta de que havia um sujeito oculto em toda a conversa: nosso amigo Brexola, com quem compunhamos o trio mais infernal e inseparável da Volta Redonda oitentista.
Brexola caiu morto no meio da rua em 2008. Não tinha nada. Estava com 35 anos, assim como eu. Recebi a noticia lá pelas 10 da noite. Minha lembrança seguinte é estar sentado nua rua a dois bairros de distancia do meu. Isso já eram mais de 7 da manhã. Ou seja: tive um black-out, o único da minha vida que não tinha relação com o consumo de álcool. Compreensível: aquilo era tão inaceitável que meu cérebro simplesmente não conseguia processar.
Ainda não conseguiu, na verdade. Nunca mais consegui conviver com as pessoas do grupo que fazíamos parte, que me acompanhou dos 6 aos 19 anos em absolutamente tudo. Caras que cresceram comigo, que vivenciaram comigo toda a experiência formativa para a vida adulta, os melhores amigos do universo. Não consegui manter contato com eles. Sem o Brexola não dava. Ir a Volta Redonda visitar minha família já é duro demais. Na casa dos meus pais eu vejo a rua em que brincávamos. Vejo o portão da casa dele, onde ele estava quando trocamos o primeiro olhar, ainda na década de 70. Não dá. Simplesmente não dá.
Mas ao que parece a vida está tentando dar um jeito de me fazer entender que é possível seguir em frente. Tenho tido a oportunidade de reencontrar pessoas de outras épocas que nem eram tão próximas, mas que após uma conversa viram amigas. O tempo nesses casos foi bem legal conosco: fez pequenas implicâncias parecerem tolas (o que sempre foram) e ressalta o que há em comum, até porque são pessoas que conheço há muito tempo, o que gera mais confiança. Houve até um caso de mudança radical. Uma conversa fez a pessoa que conheço há décadas simplesmente parecer outra. Em suma, perdemos pessoas mas ganhamos também. Até novos/velhos amigos aparecem.
Aí ontem saí com o Zé. Está em Recife para resolver alguns problemas e só tinha a oportunidade de um jantar comigo. Saímos, e na verdade conversamos bem pouco. Conheci a mulher e o filho dele, e dei mais atenção a eles. Ao chegar em casa entendi o que tinha acontecido. Quando voce está com quem é seu melhor amigo há mais de trinta anos, a conversa é completamente irrelevante. Não importam os anos sem se ver, onde você está, não importa nada. Importa a incomparável sensação de estar ao lado de alguém a quem você entregaria sua vida sem nenhum medo. Aquela sensação e tranquilidade e conforto que ninguém no mundo vai conseguir proporcionar.
Amigos vão e vem. Mas tem os que sempre estiveram e sempre estarão. Só falta providenciar um jeito de os membros de todas essas categorias de amigos não morrerem nunca.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Passando a régua: a prisão dos mensaleiros
Há uma semana quatro envolvidos no chamado mensalão foram mandados para a cadeia. Era um feriado de sexta-feira. Muita gente com tempo livre para postar o que quisesse. O facebook virou uma guerra. De um lado os que achavam que uma nova era começava. De outro, os que viam o domínio das trevas. E o clima se polarizou de tal maneira que eu sequer consegui postar nada no blog. Vamos tentar recomeçar.
Podemos começar pelo seguinte: houve crimes cometidos? Obviamente que sim. Ninguém em sã consciencia vai negar a culpa de gente como Delubio e Marcos Valério. E só os mais fanáticos defensores do governo vão negar que isso foi feito de forma institucional. A coisa aconteceu, e o fato de governos anteriores terem feito o mesmo não é desculpa.
Por outro lado, qualquer um que acredite na ideia dos tres poderes sabe que houve extrapolações absurdas nesse caso. José Genoíno jamais deveria ir para regime fechado, por motivos médicos que são indiscutíveis. José Dirceu foi condenado sem provas, baseado numa teoria que normalmente visa absolver gente que normalmente seria condenada (a "teoria do domínio do fato"), mas que foi utilizada no sentido oposto, como mostrou a Folha ( a Folha!) hoje. Não digo que ele é inocente, e acho que ele não é. Mas condenar alguém sem provas conclusivas é inaceitável.
O grande problema nisso tudo é aquilo que se pode descrever como uma completa loucura coletiva. Os que comemoram as prisões fazem isso baseados numa visão que poderia justificar linchamentos na luz do dia. Não gosto dessa gente do PT, todos são ladrões, cadeia neles. Quem é governista vai pelo outro lado: o Brasil vive uma ditadura midiática, da qual Dirceu e Genoíno foram parte, e viraram presos políticos (uma ditadura em que se vai para a cadeia por apoiar o governo? alo?)
O Brasil em que eu quero viver é um país em que criminosos vão para a cadeia. Não um em que corruptos tenham mão livre para roubar. Muito menos um em que acusações sejam sinal de culpa. Quero justiça, apenas isso. Pelo jeito, é pedir demais.
Podemos começar pelo seguinte: houve crimes cometidos? Obviamente que sim. Ninguém em sã consciencia vai negar a culpa de gente como Delubio e Marcos Valério. E só os mais fanáticos defensores do governo vão negar que isso foi feito de forma institucional. A coisa aconteceu, e o fato de governos anteriores terem feito o mesmo não é desculpa.
Por outro lado, qualquer um que acredite na ideia dos tres poderes sabe que houve extrapolações absurdas nesse caso. José Genoíno jamais deveria ir para regime fechado, por motivos médicos que são indiscutíveis. José Dirceu foi condenado sem provas, baseado numa teoria que normalmente visa absolver gente que normalmente seria condenada (a "teoria do domínio do fato"), mas que foi utilizada no sentido oposto, como mostrou a Folha ( a Folha!) hoje. Não digo que ele é inocente, e acho que ele não é. Mas condenar alguém sem provas conclusivas é inaceitável.
O grande problema nisso tudo é aquilo que se pode descrever como uma completa loucura coletiva. Os que comemoram as prisões fazem isso baseados numa visão que poderia justificar linchamentos na luz do dia. Não gosto dessa gente do PT, todos são ladrões, cadeia neles. Quem é governista vai pelo outro lado: o Brasil vive uma ditadura midiática, da qual Dirceu e Genoíno foram parte, e viraram presos políticos (uma ditadura em que se vai para a cadeia por apoiar o governo? alo?)
O Brasil em que eu quero viver é um país em que criminosos vão para a cadeia. Não um em que corruptos tenham mão livre para roubar. Muito menos um em que acusações sejam sinal de culpa. Quero justiça, apenas isso. Pelo jeito, é pedir demais.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
O que significa a prisão dos "mensaleiros"?
Muita gente comemorou a prisão de alguns dos principais envolvidos no chamado "mensalão". Se me perguntarem o que acho disso, minha resposta é: depende do que você está comemorando.
Se estamos comemorando o fato de pessoas envolvidas em ilegalidades serem presas, ok, nada a discutir. Não entendo lhufas de direito nem conheço o caso a fundo, mas tudo indica que eles eram culpados mesmo. Discutir isso é tolice.
Mas para por aí. Fora isso, não há nada a comemorar. Vi gente feliz achando que a indignação gerada pelo episódio indica algo como uma "tomada de consciência" da sociedade brasileira. Tolice. 99% das pessoas "indignadas" não passam de oposicionistas que estão se lixando para as roubalheiras de seu próprio partido. Ficam desesperados querendo a condenação dos mensaleiros, mas rezam para que ninguém fale nada sobre privataria, propinoduto e mensalão mineiro. Oportunismo puro. E tenho certeza de que 99% dos apoiadores do governo adotaria a mesma atitude numa situação inversa. Então esqueça: somos a mesma merda de sempre.
Também ouvi gente falando que a condenação mudaria o jeito de fazer política no Brasil. Aí, meu velho, o grau de ingenuidade atinge níveis estratosféricos. Significa que a pessoa não tem a mais vaga ideia de como funcionam as relações governo-congresso neste país.
Comecemos pelo seguinte. Nós, latino-americanos, temos uma visão extremamente personalista da política. Assim, achamos que presidentes, governadores e prefeitos são tudo o que importa. Nas eleições legislativas, votamos de qualquer jeito. Desafio qualquer quarentão a lembrar todos os seus votos em eleições parlamentares. Na verdade, sequer nos damos ao trabalho de tentar entender como funciona o sistema proporcional de escolha dos legisladores. Em suma: votamos de qualquer jeito.
Votando de qualquer jeito, elegemos todo o tipo de porcaria para o congresso. E como nem prestamos atenção no que eles fazem, os caras ficam livres. Uns dois terços dos deputados não tem ideologia ou projetos. Só quer levar algo em troca de apoiar o governo, seja ele qual for. Vale dizer: TODOS os governos pós-ditadura compraram maioria no congresso. TODOS. E não é porque sejam malvados. Simplesmente não havia opção.
Então é o seguinte: super válido comemorar o fato de os caras irem em cana. Mas se a gente não entender a importância do voto para deputado, estaremos produzindo uma infinidade de mensalões. O fim desse tipo de coisa não depende nem do STF nem de quem está no governo. Depende do nosso voto.
Se estamos comemorando o fato de pessoas envolvidas em ilegalidades serem presas, ok, nada a discutir. Não entendo lhufas de direito nem conheço o caso a fundo, mas tudo indica que eles eram culpados mesmo. Discutir isso é tolice.
Mas para por aí. Fora isso, não há nada a comemorar. Vi gente feliz achando que a indignação gerada pelo episódio indica algo como uma "tomada de consciência" da sociedade brasileira. Tolice. 99% das pessoas "indignadas" não passam de oposicionistas que estão se lixando para as roubalheiras de seu próprio partido. Ficam desesperados querendo a condenação dos mensaleiros, mas rezam para que ninguém fale nada sobre privataria, propinoduto e mensalão mineiro. Oportunismo puro. E tenho certeza de que 99% dos apoiadores do governo adotaria a mesma atitude numa situação inversa. Então esqueça: somos a mesma merda de sempre.
Também ouvi gente falando que a condenação mudaria o jeito de fazer política no Brasil. Aí, meu velho, o grau de ingenuidade atinge níveis estratosféricos. Significa que a pessoa não tem a mais vaga ideia de como funcionam as relações governo-congresso neste país.
Comecemos pelo seguinte. Nós, latino-americanos, temos uma visão extremamente personalista da política. Assim, achamos que presidentes, governadores e prefeitos são tudo o que importa. Nas eleições legislativas, votamos de qualquer jeito. Desafio qualquer quarentão a lembrar todos os seus votos em eleições parlamentares. Na verdade, sequer nos damos ao trabalho de tentar entender como funciona o sistema proporcional de escolha dos legisladores. Em suma: votamos de qualquer jeito.
Votando de qualquer jeito, elegemos todo o tipo de porcaria para o congresso. E como nem prestamos atenção no que eles fazem, os caras ficam livres. Uns dois terços dos deputados não tem ideologia ou projetos. Só quer levar algo em troca de apoiar o governo, seja ele qual for. Vale dizer: TODOS os governos pós-ditadura compraram maioria no congresso. TODOS. E não é porque sejam malvados. Simplesmente não havia opção.
Então é o seguinte: super válido comemorar o fato de os caras irem em cana. Mas se a gente não entender a importância do voto para deputado, estaremos produzindo uma infinidade de mensalões. O fim desse tipo de coisa não depende nem do STF nem de quem está no governo. Depende do nosso voto.
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