domingo, 8 de setembro de 2013

Conhecendo o Brasil

No último fim de semana conheci o interior de Pernambuco pela primeira vez. E conheci com força: passei o fim de semana sem TV a cabo, internet, celular. Aqui vai o que concluí dessa experiência. Nada que eu não pensasse antes. Mas ver ao vivo, sentir na pele, vivenciar, é outra coisa.
Há quem veja essa gente como preguiçosa e indolente. Pessoas que fazem filhos a vontade para se esbaldarem no bolsa família. Imbecis analfabetos que votam no PT pela falta de estudos. São burros, não tem capacidade de pensar, e tomam decisões baseados em instintos. Em suma: animais domesticados.
Não foi nada disso que eu vi. Me deparei com pessoas que eu morro de orgulho de serem meus compatriotas. Gente que trabalha muito, mesmo enfrentando todas as adversidades que se possa imaginar. No interior do nordeste chove pouco, a terra não é boa e o Estado nunca ajudou. Celular não tem sinal., não há fornecimento de água, bancos nem sonham em chegar perto.Viver em lugares assim não é fácil. Estudar é muito dificil, não há oportunidade de se desenvolver profissionalmente.
Passei a ter mais ódio do que nunca de quem vive em cidade grande, e no conforto do ar condicionado, e despreza essa gente. Para eles, dificuldade é não poder viajar para onde quer nas férias. Quando não conseguem comprar suas passagens para ir desfrutar a Europa culpam os imbecis do interior, os idiotas que se vendem por um bolsa familia. Detestam pagar impostos. Acham que sustentam preguiçosos.
Imagine que voce vive no interior do nordeste. Que gasta uma hora para andar alguns quilometros, pois as estradas são horrorosas. Sem ter água encanada em casa. Falar em celular é um sonho. O Estado nunca fez nada de bom para você. O pouco que você tem, foi conquistado na raça.
Bolsa família, Vale Gás. Cisternas, Luz Para todos. Para você, privilegiado, pode ser esmola que compra voto. Para os beneficiados, é a diferença entre a vida e a morte. Caros privilegiados, vocês nunca vão entender nem uma palavra deste post.
Mas quem mora no interior do nordeste sabe muito bem. Grande abraço ao Seu João e a Dona Severina. Vocês me deram a melhor aula sobre o Brasil. E nem desconfiam disso. E quem acha que nordestinos votam no PT no estilo voto de cabresto nunca saberão que vocês existem. Azar deles.
PS: Relendo o post me dei conta de uma generalização indevida. Claro que nem todos os que vivem no interior nordestino têm a experiencia de vida à qual me referi. Há experiências bem diferentes. Quis me referir a um tipo de estilo de vida, infelizmente muito comum.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Brasil 191


"Vocês brasileiros são muito engraçados. Acham que são os melhores ou os piores do mundo em tudo. Não há meio termo". Assim me falava um grande amigo, nascido fora daqui, mas morando por essas terras há muitos anos. O pior é que ele tinha toda a razão: somos assim mesmo.
Somos os mais simpáticos, os mais animados, os mais divertidos, temos o melhor futebol, a melhor música, o melhor carnaval, a melhor natureza, as praias mais lindas, as mulheres mais perfeitas, a maior diversidade, a melhor comida. Também temos a pior elite, a maior desigualdade, a classe média mais fascista, a pior educação, e assim vai. É um tipo muito particular de megalomania. Não somos os 33os, os 78os ou os 112os em nada. Somos os melhores ou os piores.
Isso vale, claro, para nossa Independência. Em nossa cabeça, todos os países do planeta que um dia foram colônias se libertaram após uma genuína e heróica luta popular, enquanto nós recorremos a um pacífico e chinfrim arranjo interno da família real portuguesa. Pior ainda, isso ainda seria uma espécie de pecado original. Olhamos para esse fato como se ali estivesse contido tudo o que viria a acontecer depois. A origem de tudo o que deu errado depois estaria naquele arranjo entre a alta elite, sem nenhuma participação popular, como mostra o mítico quadro de Pedro Américo.
Infelizmente nossa história vive uma fase em que impera o mais ridículo revisionismo, em que livros são escritos para o grande público tentando mostrar como a história do Brasil é ridícula e absurda. Escritos por historiadores e jornalistas de direita, esses livros vendem horrores, contando uma história descontextualizada, que só tem como objetivo vender a ideia de que temos a classe política mais patética que já existiu na humanidade. O que é uma forma de bater indiretamente no atual governo, claro.
Se esse revisionismo estivesse genuinamente interessado em rever pra valer a história do Brasil, deveria se voltar para a Independência. Se fizessem isso, notariam que a grande especificidade da nossa independência foi uma só: ao contrário de todas as outras, que cultuam até hoje uma memória heroica e combativa dos libertadores, nós sempre fizemos questão de apresentar a nossa como isenta de conflitos. Em suma, a diferença é essencialmente no campo da memória, mais que na história.
A verdade é que muito sangue rolou no nosso processo de independência. Ao contrário do que diz a lenda, a coisa não se resumiu a uma espada no ar e um grito às margens do Ipiranga. Dali para frente houve muita luta, que só terminaria em julho seguinte. Se quiséssemos ser justos, deveríamos comemorar nossa data magna em 2 de julho, quando os portugueses foram expulsos da Bahia. Mas aí teríamos de contar uma história em que negros, escravos e pobres deram sua vida pela luta libertadora, o que, francamente, nunca interessou a muita gente. Sempre pareceu mais seguro aos dominantes mostrar um processo em que o protagonismo coube exclusivamente a eles, enquanto o povo ficava ali no cantinho, olhando aterrorizado.
Mas não é só isso. No resto do continente, os governantes do século XIX utilizavam com gosto a memória das lutas pela independência como forma de se legitimar. Aqui isso causaria um mal-estar: éramos um império governado primeiro pelo filho e depois pelo neto do rei português quando da separação. Depois que se proclamou a república então, nem pensar em celebrar uma luta liderada por um imperador.
Deixemos de viralatismo. Nossa independência foi na mesma linha das outras. Liderada pela elite local, desejosa de se auto-governar, e com muito sangue subalterno derramando. Não há vergonha nisso. É o procedimento padrão, infelizmente. Não é a história mais perfeita do mundo, mas não é pior que a de ninguém. E nem melhor também. É nossa história. Celebremos o 7 de setembro. Sem culpa, sem senso de superioridade, e muito menos de viralatismo.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A Surpresa em relação a Obama se justifica?


Vejo um crescente aborrecimento mundial em relação à política externa do presidente Obama. Claro, me refiro aos setores progressistas. Guantánamo está lá como sempre, violando os mais básicos direitos humanos, dissidentes que expõem as entranhas do sistema são caçados mundo afora, e estamos perto de ver a invasão de um país que nada fez contra os EUA. O tipo de coisa que se esperaria de Bush, mas não de Obama.
Ou será que deveríamos esperar isso mesmo? Analisemos aquelas que me parecem ser os fundamentos da ideia de que a política externa de Obama seria diferente.
1) Obama é democrata.
De fato democratas são mais progressistas que republicanos, e os partidos possuem divergências históricas em inúmeras questões. Democratas sobrevivem dos votos de operários, mulheres, intelectuais e minorias. Republicanos se refastelam no voto de fazendeiros, empresários, conservadores, religiosos e racistas. Ou seja, são partidos diferentes sim. Mas isso necessariamente levaria a uma política externa diferente?
A história não dá suporte a essa esperança. Presidências democratas se mostram historicamente intervencionistas e patrocinadoras de brutalidades e quebras da democracia. Harry Truman foi o único ser humano na história humana a ordenar o lançamento de bombas atômicas em alvos humanos. John Kennedy tentou invadir Cuba, criou o embargo contra o país e lançou o mundo na crise dos mísseis, que por um triz não chegou à 3a guerra. Lyndon Johnson patrocinou diversas quebras democráticas na América Latina, como as derrubadas dos presidentes João Goulart (Brasil/64) e Arturo Illia (Argentina/66).
2) OK, os democratas não são essa maravilha em política externa, mas esperava-se mais de Obama.
Esperava-se mais por que, exatamente? Porque Obama era jovem, negro, sorridente e carismático, prometendo ser a renovação que os EUA precisavam após os pavorosos anos Bush. Aqueles anos foram miseráveis para qualquer ser pensante, que nós respiramos aliviados com a chegada de Obama. E exatamente aí me parece estar o ponto para refletir.
Será viável esperar que algum presidente norte-americano (qualquer um) não seja intervencionista, não se meta onde não foi chamado, que, em suma, respeite sempre a soberania dos demais países?
Pra começar, deixemos de ingenuidade. Todos os países se metem onde podem. O Brasil se mete nos assuntos internos dos países vizinhos sempre que acredita ser conveniente. Ajudamos a derrubar, restaurar e colocar no poder governantes na nossa vizinhança um incontável número de vezes. No mundo real, essa é a lógica. E os EUA são a maior potência mundial. Então sempre haverá a tendência a intervir, independendo do nome e filiação partidária do governante de plantão.
E qualquer pessoa medianamente bem informada sabe: a cultura política norte-americana inclui a crença de que eles são os responsáveis supremos para garantir a democracia e a liberdade no mundo. Além do que, é um país com interesses econômicos espalhados pelo globo e a maior força militar do planeta.
Tendo em vista isso tudo, me parece que é muita ingenuidade esperar que um governante norte-americano não vá fazer coisas como as que Obama faz. A questão não é ele. A questão é entender que no mundo real as coisas funcionam sob uma lógica muito diferente daquela que gostaríamos.

domingo, 1 de setembro de 2013

Sobre jornais e pedidos de desculpa


Causou um certo furor nas redes sociais o fato de o jornal O Globo ter publicado um pedido de desculpas por seu apoio ao golpe militar de 1964. Há alguns anos a Folha de São Paulo fez algo bem parecido. O texto é histórico, evidente. Mas certamente não por mostrar a maior rede de comunicação do país arrependida do que fez.
Pois é óbvio que não está arrependida de nada. Basta ler o texto para perceber isso. Há uma "contextualização" que visa minimizar o apoio aos militares, com críticas a Jango e a lembrança de que Roberto Marinho protegia jornalistas de esquerda, para dar a imagem de que o grupo de comunicação de alguma forma manteve a isenção. E há uma inacreditável pirotecnia que tenta convencer o leitor de que o jornal manteve seu compromisso com a legalidade e a democracia. Fica a pergunta: onde está o compromisso com a legalidade e a democracia quando se apoia a derrubada de um governo eleito e a instauração de uma ditadura que matou, prendeu e torturou quem quis, tudo com o apoio explícito da Globo?
Mas o pior de tudo, o que evidencia a farsa definitivamente, é a tentativa de caracterizar o apoio ao golpe como um leve escorregão em uma longa trajetória democrática. A "prova" seria a postura crítica do jornal em relação ao Estado Novo. Nem uma palavra sobre o apoio ao golpismo que levou Vargas ao suicídio. Ou sobre a tentativa de roubar as eleições de 1982, tirando a vitória de Leonel Brizola, eleito nas urnas pela população. Sobre a manipulação que fingia que não havia comicios pelo país afora, em 1984, pedindo eleições diretas para presidente.
Tampouco se mencionou o fato de as Organizações Globo terem engordado monumentalmente com a ditadura. Em 1964 Roberto Marinho possuía um jornal e uma rádio, salvo engano meu. Ambos tinham penetração na cidade do Rio, mas longe de liderar seus segmentos. Quando a ditadura acaba, a empresa possui dezenas de veículos em todos os seguimentos, a maioria líder de audiência. O principal, a TV Globo, iniciada com recursos estrangeiros, algo que fere a lei brasileira, com apoio dos militares. Veja só que engraçado: quando acontece o golpe militar, as Organizações Globo tinham quase 40 anos de vida. Em 20 de ditadura multiplicaram infinitamente sua abrangência e patrimônio. Não é engraçado? Bem, a empresa ter se beneficiado imensamente da ditadura não foi mencionado.
Então é evidente que o pedido de desculpas não mostra nenhum arrependimento. Até porque o jornal seguiu envolvido na tentativa de demolir os políticos que não lhe agradam do ponto de vista ideológico e não lhe tragam ganho econômico. Faz isso até hoje. Não há arrependimento de nada, ou alguem duvida que um golpe contra um governo petista seria apoiado por eles do mesmo jeito? (calma, claro que isso nao vai acontecer, mas se acontecesse...)
A grande notícia não é o arrependimento que não existiu. O texto é histórico porque mostra um órgão essencial do maior grupo de comunicação do Brasil, que sempre fez o que quis, ser obrigado, a evidente contragosto, a dar uma satisfação à sociedade. Isso sim é algo que precisamos tentar entender melhor.
É possível que o jornal tenha se sentido encurralado. Não pelos protestos em sua porta. Acho que isso foi só o empurrão final. Acho que a coisa é mais complexa. Uma coisa é voce apoiar governos ditatoriais ou atacar políticos polêmicos, com Brizola. Outra, bem diferente, é ser contra o governo mais popular da história, e ainda por cima concorrendo com internet. Ou seja, não adianta eles mentirem como sempre, pois sempre poderão ser desmentidos nas redes sociais.
Além disso, existe a crise mundial dos jornais, que sofrem com a concorrência da internet. Some-se tudo isso aos protestos e pronto. Vemos um periódico do maior grupo de comunicação do país ser obrigado a dizer coisas que não queria, para tentar salvar algo de sua influência. Para quem, como eu, cresceu vendo as Organizações Globo, mentirem impunemente para defender seus interesses, o texto é histórico por esse motivo.

PS: para quem não leu, o pedido de desculpas se encontra no link http://oglobo.globo.com/pais/apoio-editorial-ao-golpe-de-64-foi-um-erro-9771604

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A oposição que eu queria


Queria muito que houvesse uma oposição decente ao governo que está aí. Que ela reconhecesse tudo de bom que aconteceu sob os governos recentes que tivemos, e apontasse para um futuro em que teríamos asseguradas as conquistas dos últimos 20 anos, mostrando as limitações desses governos, e como seria possível ir mais longe.
Mas a oposição que temos não se parece vagamente com isso. Quem se diz oposição à esquerda não tem nenhum projeto para o país, e são incapazes de dizer exatamente como fariam melhor do que quem está aí. Criticam o governo, e não poucas vezes com razão. Mas o que pretendem fazer caso cheguem ao poder? Ou antes: como pretendem chegar lá? Ou a idéia é passar o resto da vida lançando candidatura para "marcar posição"?
Sim, pois do jeito que está até parece que eles não sabem que discurso que só sabe dizer o que está ruim e, quando perguntado sobre os seus projetos, repete coisas genéricas como "igualdade" ou "socialismo", é coisa inconsequente de estudantes de 20 anos. Isso nunca será plataforma política para ninguém. Ou ao menos de ninguém que sonhe em chegar ao poder e governar um país. Em suma: estão condenados a fazer um discurso radical que vai fazer barulho nas redes sociais sem nenhuma penetração eleitoral.
A oposição de direita tinha muitos caminhos a seguir. Poderiam dizer que as bases da politica social do governo petista foram estabelecidas nos anos FHC. Poderiam dizer isso e explicar como fariam melhor que o governo atual, caso estivessem no poder. Poderiam dizer: "as bases das melhorias foram lançadas por nós, e garantiremos tudo o que foi conquistado, mas faremos melhor desta e daquela maneira". Seria um discurso muito respeitável, e viável eleitoralmente.
Mas por serem imbecis, não fazem nada disso. Só sabem inventar subterfúgios para mostrar o tamanho do ódio que sentem por verem os pobres brasileiros terem coisas que nunca tiveram. Só sabem ser contra o bolsa familia, o mais médicos e outros programas que incluíram na sociedade pessoas que jamais tiveram qualquer assistência do Estado.
Poderiam estar no debate político. Mas preferiram ser odiados por todos os que querem mudar o Brasil. Poderiam ter proposto algo. Mas preferiram ser derrotados em todas as eleições com os votos de quem viu sua vida ser mudada pelas políticas do governo.
Fiquem por aí chorando e lendo a Veja. Estamos mudando nosso país.Não tanto quanto queríamos e gostaríamos. Sabemos que esse governo não é o dos nossos sonhos. Mas convenhamos: com essa oposição que está aí. até que estamos bem. Fizemos o que podíamos.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Mais médicos


Não dá pra entender racionalmente que alguém seja contra o programa Mais Médicos. Claro que é plenamente aceitável discutir aspectos tanto do projeto como de sua implementação. Mas a má vontade que tanta gente tem demostrado, incluindo em certos casos tons nitidamente preconceituosos, é algo que chama a atenção. Por que se aborrecer com o fato de que médicos estrangeiros se destinem a postos que nenhum médico brasileiro quis ocupar? Como um programa que traz médicos para cuidar de pessoas que não tem médico nenhum pode ser visto de forma negativa? Pelo que vejo, há três conjuntos de motivos, que podem aparecer juntos ou separados.
O primeiro, muito comum nas manifestações de médicos, é o corporativismo.Os profissionais da área sabem (ou ao menos intuem) que o programa pode interferir em suas carreiras. Afinal, a falta de médicos os beneficia tremendamente. Podem ocupar diversos empregos públicos, não trabalhar de verdade em nenhum, ganhando fortunas e sendo visto como semideuses (atenção, não estou generalizando: estou dizendo que é uma possibilidade, e todos sabemos que há gente que vive assim mesmo). Ou alguém acha que esses lugares que receberão os médicos continuarão tentando laçar desesperadamente profissionais por altos salários e dando graças a deus se eles aparecerem para trabalhar uma vez por semana?
O segundo é um inacreditável resquício da guerra fria, que faz com que Cuba seja vista no Brasil de forma absolutamente irracional. O programa trará médicos de vários países, ainda que a maioria de fato seja cubana. Médicos cubanos trabalham em vários países em diversos tipos de programa, como Portugal, por exemplo. Mas não adianta: os caras veem algum tipo de associação entre um governo petista e o regime cubano e já pensam em socialismo, Che Guevara, revolução, etc. Diga-se, a esquerda embarca no mesmo tipo de irracionalidade, perdoando qualquer arbitrariedade do regime cubano em nome dos ideais políticos. Não dá pra entender em 2013 esse climão guerra fria torne uma ilha pequena, pobre e irrelevante em termos mundiais, alvo de tantas paixões.
A última, e talvez a mais triste de todas, é o elitismo indisfarçável de muitos desses argumentos. É óbvio que está sobrando gente achando que é um desperdício gastar tanto dinheiro com gente pobre. Como se, por terem sido abandonados por séculos pelo Estado, essa gente não precisasse de mais nada. Tipo "já estão acostumados com isso mesmo...". Sem falar na nossa inacreditável tendência a achar que médicos são superiores aos pobres mortais, tão patente nessa coisa de eu, doutor em história, ter obrigação de chamar um cara que só tem graduação de "doutor" para que ele fale comigo. Junte-se isso ao elitismo citado e chegamos à conclusão que ser médico é coisa para poucos, não é pra qualquer um. Não querem médico com "cara de empregada doméstica", como disse a jornalista da foto. Quem é negro e/ou pobre tem de ser empregada doméstica, motorista, etc. Médico, advogado, jornalista, tem de ser branquinho com cara de ator da Globo.
Agora, vejam que interessante: nenhum desses argumentos tem qualquer preocupação com a saúde das pessoas carentes e abandonadas que passarão a ser atendidas regularmente por um médico pela primeira vez na vida. Na verdade isso é o que menos surpreende. Não fosse a existência de tantos que pensam essas coisas, não haveria tanta gente desassistida em pleno 2013. Eles não toleram que pobre tenha direito. Tem medo de que se fortaleçam a ponto de competir em igualdade com eles. Infelizmente é assim. Mas a gente continua tentando mudar um pouco o cenário.

domingo, 25 de agosto de 2013

Corrupção


O que começou como uma justíssima indignação contra uma série de problemas que afetam claramente nossas vidas terminou de forma muito estranha. O resultado dos protestos que tivemos em meados do ano foi a criação de um imaginário difuso que define a corrupção como o maior problema que o Brasil enfrenta.
Se indignar com a corrupção não é e nunca vai ser um problema. Cada centavo que escorre pelos ralos da roubalheira é parte da explicação para os problemas que temos. Discordar disso é brigar com os fatos. Corrupção sempre é ruim, e sempre deve ser combatida. Mas o que me aborrece não é isso. Meu aborrecimento tem outros motivos.
O primeiro: ser contra a corrupção não é, nunca foi e nunca será uma plataforma política. Para governar, é necessário ter políticas econômicas, sociais e culturais, bem como uma concepção de como se fazer política. Ser contra a corrupção não contribui minimamente para nada disso. Ser contra a corrupção é uma agenda negativa. Diz o que voce NÃO quer. Mas não diz nada sobre como você gostaria que o mundo fosse. Não dá para governar assim.
Outro problema é que esse ponto de vista faz com que governos passem a ser avaliados apenas baseado em um unico critério. O que não apenas leva a generalizações a partir de um aspecto específico, e por sinal, é super dificil de mensurar (como saber quanto de corrupção houve em um governo?), mas também faz com que ignoremos coisas muito importantes. Os governos Itamar-FHC acabaram com a inflação. Mas vamos achar que eles foram uma porcaria por conta da corrupção. Os governos Lula-Dilma tiveram avanços impressionantes na questão social. Mas o que importa é apenas a corrupção que aconteceu nesse intervalo de tempo. O Brasil melhorou muito nesses 20 anos, mas a gente acha isso irrelevante, já que esses governos tiveram episódios claros de corrupção.
Um problema adicional, e talvez o mais importante de todos, é que essa visão de mundo pode levar a um verdadeiro desastre. Normalmente o ódio à corrupção leva à constatação de que todo politico é ladrão. E a história nos ensina, da forma mais clara e cristalina possível, que normalmente isso leva à esperança de um outsider, não identificado à politica tradicional, que dê um jeito nisso tudo. Vejamos os exemplos recentes desse tipo de pensamento.
1960. Jânio se elegeu prometendo varrer a corrupção. Era de um partido pequeno, não queria se identificar com os politicos, que lhe pareciam viciados. Sem apoios e alianças, não conseguiu governar, renunciou e jogou o Brasil numa crise que culminou na ditadura.
1964. O golpe não foi especificamente voltado ao combate contra a corrupção, mas teve imenso apoio exatamente pela ideia de "acabar com essa baderna que os políticos criaram". O resultado foram 20 anos de ditadura, que terminaram com um país falido, dívida externa gigante e inflação em alta (nem vamos falar das violações aos direitos humanos, típica de qualquer ditadura).
1989. Cansado de corrupção, o Brasil elegeu como presidente um jovem, filiado a um partido pequeno. Esperando que ele desse um basta à "roubalheira". Estavam tão fixados na coisa da corrupção, tão maravilhados com a juventude e energia daquele que prometia ser um super-homem, que nem notaram que a seu lado, no palanque, estavam todos os que tinham colocado o Brasil naquela situação. Escolheram ignorar que elegiam um político criado pela ditadura, filho legítimo da oligarquia nordestina, esperando por algo diferente de tudo o que havia acontecido antes. Por um único motivo: a fama, cuidadosamente construída nos anos anteriores, de "caçador de marajás".
A triste constatação é: o Brasil está prontinho para repetir esses episódios. Politicas econômicas, sociais, culturais, nada disso importa. O que tanta gente quer é um super homem que apareça do nada dizendo que vai colocar um fim à roubalheira. Pode ter se criado nos partidos que estão aí. Pode ser apoiado pelos de sempre. Não importa. Basta se apresentar como "novidade", dizer que é portador de um "jeito novo de fazer política" e garantir que vai acabar com a corrupção. Se puder ter um verniz progressista então, perfeito.
O Brasil está pronto para um candidato que não tenha opinião sobre nada, não diga nada sobre nada, apenas se apresente como novo, mesmo que ninguém sabe o que ele pensa. Somos um bando de moralistas de direita querendo que alguém nos salve dessa bandalheira.
Marina Silva, o Brasil é seu. Tome posse logo.