sábado, 26 de dezembro de 2015

As delicias de ser um direitista sulamericano


Em alguns dias de mandato o novo presidente argentino já mostrou a que veio. O peso sofreu uma desvalorização, subsídios foram cortados, afetando toda a população, principalmente os que mais precisam, produtos de primeira necessidade dobraram de preço e juizes da Suprema Corte foram nomeados por decreto. Eu sei, você sabe, todo mundo sabe, que qualquer uma dessas coisas causaria escândalo continental se ocorressem em governos como Dilma, Cristina Kirchner ou Nicolas Maduro. Mas seu autor é Maurício Macri. Ex-prefeito de Buenos Aires, direitista e amigo dos poderosos e da imprensa local. Assim, tudo isso passa batido ou recebe deliciosos eufemismos ("adequação do câmbio" ao invés de "desvalorização", etc.).

Na verdade nada disso é vagamente surpreendente. É uma história que conhecemos de longa data e que se aprofundou terrivelmente com as seguidas vitórias de candidatos progressistas em nosso continente. Desacostumada a ser oposição, a direita partiu para o ataque, o que seria plenamente democrático, se não envolvesse a repetição infinita de coisas completamente absurdas, como se referir a esses governos como ditaduras comunista. E curiosamente, alguns dos argumentos para provar essa aberração são ações que presidentes de centro ou direita também cometeram, sem gerar nenhuma queixa dessas mesmas pessoas.

Para dar um exemplo absolutamente óbvio. Os dois maiores países sulamericanos tiveram nos anos 90 presidentes de linhagem neoliberal. Ambos modificaram a Constituição de seus países para ter direito a se reeleger. Algo francamente absurdo, já que se mudou a regra com o jogo em andamento: Menem em 1989 e FHC em 1994 foram eleitos para um mandato de quatro anos sem reeleição. Poderia ser inserida a reeleição, desde que só passasse a valer a partir do próximo presidente. Mas não: tais manobras, obviamente casuísticas, foram levadas à frente (no caso brasileiro incluindo uma comprovada compra de votos de deputados que votaram a favor da emenda) sem que ninguém falasse em ditadura ou autoritarismo. Na verdade FHC foi considerado um grande democrata por não ter tentado um terceiro mandato. Pense bem!

Agora tente imaginar o seguinte: Hugo Chávez mudando a Constituição venezuelana para se reeleger. Na verdade ele fez isso. Gritaria geral no continente, com a imprensa vendo aí a prova das intenções autoritárias do chavismo. Aliás você deve lembrar que já em 2010 o PSDB e seus amigos alertaram que uma vitória de Dilma seria perigosa para a democracia, pois levaria a 12 anos de governo de um mesmo partido, sendo que a alternância de poder é essencial para a manutenção das instituições democráticas. Claro que não se importam com o mesmo grupo direitista estar no poder na Colômbia desde sempre. Nem com o próprio PSDB marchar para 24 anos de governo em São Paulo. O problema é a esquerda ganhar. Isso fica patente nas vitórias chavistas na Venezuela, que para essas pessoas provam que as eleições foram fraudadas, mesmo tendo sido avalizadas por todos os observadores internacionais. O problema dessa gente é que a esquerda não pode ganhar eleições. Se ganhar isso prova que não há democracia. Que conceito de democracia, não? Só é democracia se a direita ganhar todas as eleições. Legal.

Outro exemplo interessante são as reações à ex presidente argentina Cristina Kirchner ter sido casada com Nestor Kirchner, presidente anterior. Para toda a imprensa e direita continentais isso é um personalismo inaceitável. Mas ao vermos a lista dos candidatos opositores à reeleição de Cristina em 2011 nos deparamos com um filho de ex presidente (Ricardo Alfonsín) e o irmão de outro ex presidente (Adolfo Rodriguez Sáa). Você viu alguém reclamando? Nem eu. Nas últimas eleições uruguaias a oposição apresentou dois candidatos, ambos filhos de ex presidentes: Pedro Bordaberry e Lacalle Pou. No Brasil os candidatos originais da oposição eram dois netos de políticos importantes, Aécio Neves e Eduardo Campos. Em nenhum desses casos me lembro de ter visto queixas sobre personalismo. No máximo se mencionava pomposamente as "linhagens de políticos" às quais esses candidatos pertenciam.

Note que sequer estou falando da flagrante diferença de critérios de avaliação para esses governos todos (Dilma com desemprego de 9%: catástrofe histórica; FHC com 20% de desemprego: é, a situação mundial está dificil. PT governa com o PMDB: está andando de mãos dadas com corruptos. PSDB governa com o PMDB: governabilidade. Etc. etc.). Nem das mentiras puras e simples que abundam na mídia e no discurso político e chegam ás raias da insanidade nas redes sociais. Estou falando de fatos facilmente verificáveis aos quais não cabe contestação. O fato é: ser da direita sulamericana é um paraíso. Não basta ter muito mais dinheiro, todo o apoio da imprensa e dos poderosos. Ainda por cima pode criticar histericamente a esquerda por coisas exatamente iguais às que eles fazem sem serem desmascarados. Uma beleza.

PS: tendo em vista os absurdos equívocos interpretativos que vi a respeito de comentários políticos meus em tempos de tanta gente tão nervosa e que lê tudo de forma tão apressada, quero ressaltar que:

1) Não estou dizendo que esses governos todos da esquerda são ótimos e muito menos que eles não erram. Mas que o que eles fazem é avaliado por uma régua completamente diferente dos governos de direita. Só isso.

2) Corolário: isso não é "justificar um erro por outro". Primeiro porque o texto não é sobre acertos e erros, mas sobre formas de avaliação de governos. Segundo, porque há coisas que apresentei que na verdade são traços gerais da cultura política latinoamericana, como o personalismo e a dificuldade de renovar quadros, algo que ocorre em todo o espectro político. Não é esse o objetivo do texto.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

"Ideologia de gênero" mostrando como 2015 foi um ano de ouro

Qualquer pessoa que tenha lido Simone de Beauvoir ou saiba o que é gênero sabe que ninguém defende que não existem homens e mulheres, meninos e meninas. Simone disse algo que hoje soa absolutamente trivial. Que eu nasci com meus órgãos sexuais masculinos, mas que foi a sociedade que me ensinou que esses órgãos significavam que eu deveria gostar de futebol e não de bonecas, por exemplo. Qualquer pessoa com QI minimamente defensável consegue entender isso.

Mas muita gente não entendeu. E não apenas retardados mentais: muita gente boa não conseguiu ver essa obviedade. Pra eles o texto de Simone significa que não existem meninos e meninas, homens e mulheres, que há alguma coisa como uma "ideologia de genero" (aahhahahahahahahah) que diz que homens e mulheres são aberrações da natureza. Algo tão flagrantemente imbecil que deve nos levar à reflexão. Por que tanta gente com cérebro se mostra disposta a acreditar em algo tão idiota?

Tem uma certa coisa de achar que o governo petista é comunista e quer acabar com a família brasileira. Isso é imbecil demais e eu tenho preguiça de discutir. Prefiro falar de outra coisa.

O que existe de fato é um sentimento de que coisas que sempre existiram e são "naturais" estão sendo solapadas. Essa parte eu consigo entender. Todo dia na faculdade vejo alunos meus exibindo sua orientação, outros questionando a dominação masculina, ouço discursos contra a visão de mundo branca, contra a hegemonia do eixo Rio-SP e por aí vai. Não é sempre fácil lidar com tudo isso de uma vez só.

Temos duas opções. A primeira é assumirmos que somos privilegiados e tentarmos entender essa molecada e o que eles querem dizer. Não é um caminho fácil. Fomos jovens e sabemos como gente nova pode ser agressiva e impaciente. Mas eles tem algo que nenhum de nós tem: uma genuína vontade de mudar o mundo. Por mais que sejam às vezes inconsequentes e contraditórios, são os jovens que levam o mundo à frente. Não vou negar que há momentos em que minha filha e meus alunos me fazem sentir no meio de uma avalanche. Mas se alguém vai mudar o mundo, é gente como eles.

A outra opção é nos aferrarmos aos nossos privilégios. Nos agarrarmos a quem odeia todas essas demandas. A quem é e sempre foi privilegiado mas agora resolveu bancar a vítima. Homens brancos heteros carnívoros se sentindo sitiados por mulheres, negros, homossexuais, vegetarianos, e considerando que o que há a fazer é ficar por aí dizendo "tadinho de mim" enquanto endossam ideias que só fazem perpetuar desigualdades.

2015 foi um ano chave. Nele muita gente mostrou sua cara. Gente que passou a vida posando de gente boa teve de sair da casca e berrar em alto e bom som que se sentia coitado por ser privilegiado questionado por quem sempre se ferrou. Quem nunca teve voz falou mais que nunca. Quem sempre falou sozinho se sentiu ofendido. Me digam outro ano em que isso aconteceu com tanta intensidade.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Democracia e participação no Brasil

Há tempos queria escrever sobre um tema em que a história pode ajudar a entender o momento que vivemos. Hoje acordei me sentindo mal, passei o dia dormindo e consequentemente estou aqui insone avançando na madrugada. Resolvi aproveitar para tentar fazer algo útil.

Seja qual for sua área de atuação profissional, você já deve ter escutado que a Independência do Brasil foi feita através de um pacto interno da família real portuguesa, que a responsável pela abolição da escravidão foi a Princesa Isabel e que a Proclamação da República foi apenas uma quartelada. Um caso curioso mas não propriamente raro: teses criadas com uma finalidade e seguem vivas mas com outro sentido. Todas essas ideias foram construções da elite do século XIX, que não queria ouvir falar em participação popular. Então era politicamente conveniente contar histórias assim, em que o povo não era protagonista da nossa história.

O tempo passou, e essas explicações continuam a ser oferecidas diaramente aos nossos alunos na escola, e são praticamente consensuais para os que não são profissionais da área. Motivo: algumas décadas atrás essas teses passaram a ser muito convenientes para uma certa história que se pretende crítica. Você deve ter tido professores assim na escola: são aqueles progressistas mas mal informados que fazem toda a história do Brasil parecer um lixo. Esse tipo de profissional acha que desmerecendo a história do Brasil, fazendo-a absolutamente desinteressante perto daquela de outros países, estão denunciando uma elite perversa que nunca permitiu ao povo participar da vida democrática. Não percebem que apenas estão dando uma outra roupagem á velha tese elitista de que "o povo assistiu bestializado" a nossa história acontecer.

Ora, que nossa elite preferia que a população fosse mesmo tão passiva não resta dúvida. E não só a nossa, aliás, todas as demais também gostariam disso. Mas dizer que a população se conformou à inércia é outra coisa muito diferente. Muito sangue correu na Independência, inclusive de negros, pobres e escravos (em especial na Bahia). Como demonstrou fartamente a historiografia brasileira dos últimos 30 anos, os escravos foram absolutos protagonistas na luta pela sua liberdade. Inclusive vale lembrar que o Brasil não era uma monarquia absoluta: a Princesa Isabel apenas sancionou uma lei aprovada no Congresso com apenas 9 votos em contrário (8 deles da província do RJ, onde a escravidão estava muito arraigada).

O caso mais delicado é o da República. Em grande medida pela produção de José Murilo de Carvalho, em especial pelo seu livro Bestializados, um dos mais influentes escritos em nossa área dos últimos 30 anos. Nele, Carvalho contesta a versão republicana que havia dominado os 100 anos anteriores, que via apenas um Império ineficaz caindo por seu próprio arcaísmo para que o Brasil pudesse se modernizar. Até aí tudo bem. O problema foi trocar isso por uma visão irreal de uma família imperial super popular sendo apeada do poder por um golpe militar elitista. E aqui chegamos ao ponto que eu queria discutir: a única maneira de participar de algo é pegando em armas ou ao menos indo às ruas?

No caso citado, por exemplo, é fato que os protagonistas do 15 de novembro foram os militares. O que, convenhamos, é muitíssimo comum em todas as quebras de regime, em especial na América Latina, onde o intervencionismo militar é um dado permanente da história nossa e dos vizinhos. Em toda a história latinoamericana o exército sempre foi um elemento desestabilizador. Sendo assim, não há absolutamente nada de incomum que os militares tenham sido os agentes da queda do Império. E o que esses autores monarquistas convenientemente esquecem, é que o único evento com defensores da restauração monárquica digno de nota também foi protagonizado por militares, a Revolta da Armada. E de resto, vale perguntar porque uma família real tão amada e idolatrada não encontrou ninguém disposto a defendê-la do golpe ou sequer se despedir dela no porto.

Chegamos ao ponto central: não é apenas pegando em armas ou carregando cartazes que se participa de eventos assim. É muito difícil imaginar que alguém vá tentar dar um golpe ou derrubar um regime se não se sentir autorizado por parte significativa da população. A ideia de um regime que se impõe apenas pela força é indefensável no médio prazo. Ninguém aguenta algo assim por muito tempo. Os líderes republicanos previram que a população os autorizava a fazer aquilo. E previram corretamente: não houve um mísero levante não militar contra o novo regime. Sem essa legitimidade a República provavelmente nem teria existido.

O mesmo vale para 1964. Hoje temos acesso a pesquisas do Ibope que mostram que João Goulart tinha taxa de aprovação popular alta e boas chances de se eleger presidente em 1965 caso conseguisse registrar sua candidatura. Mas havia despertado ódio visceral de boa parcela da população, que incluía a imprensa, a Igreja, o empresariado e os EUA (muitos depois recontaram sua história com sucesso, e entraram nela como opositores ao regime). Sem esses apoios é impossível imaginar os militares deixando os quartéis para tomar o poder naquele primeiro de abril. Eles se sentiam legitimados pelo apoio que tinham.

E chegamos ao dia de hoje. Eduardo Cunha é a pessoa perfeita para ser odiada. Corrupto, abjetamente reacionário, usa a religião para fins políticos, enfim, o que há de pior na política brasileira. No entanto é preciso ter calma. Ele não faz nada sozinho. Por mais poder que tenha, ele é um deputado em um grupo de 513. Se ele aprova o que quer é porque tem o voto da maioria dos deputados. E essa maioria se compõe de dois grupos absolutamente representativos da sociedade brasileira.

De um lado o PSDB e seus amigos. Pra eles qualquer coisa que seja contra o governo está bom. Qualquer coisa que for contra o PT serve. Infelizmente temos de aceitar isso. O que um dia foi um partido solidamente liberal e centrista, com certos tons mais progressistas, se transformou em porta voz de pessoas que odeiam o governo com todas as forças, inclusive (muitas vezes principalmente) pelo que ele tem de bom, enquanto vociferam contra uma corrupção da qual também são praticantes. Mas gostemos ou não, o fato é que esse discurso é muito representativo. Todo mundo conhece um monte de gente assim. E essas pessoas se sentem representadas. Topam ver PM sentar porrada em professor e estudante, fechar escola, ficar sem água em casa desde que isso seja feito por alguém que critique o PT.

Outra parte é um "Brasil profundo" que fizemos tudo para ignorar mas que explodiu na nossa cara nas últimas eleições parlamentares. Nessa eleição foram eleitos (vários com votação consagradora) deputados com a simples missão de cumprir uma agenda ultra reacionária. Para eles o mundo é dos homens brancos héteros cristãos e todo o resto não merece direitos. Curiosamente se consideram vitimas se defendendo da hostilidade dos outros grupos. São parlamentares que representam um tipo de gente tão mesquinha e egoísta que sequer é capaz de se colocar por 1 segundo no lugar dos outros. E quer que todo mundo que não é como ele se exploda. Se possível, que a PM extermine a todos. Essa gente infelizmente é muito mais numerosa que imaginávamos. Para eles, oprimir minorias é um ato heróico de coragem.

Eduardo Cunha não é, como muitos parecem crer, uma anomalia política criada em Brasília. É fruto de percepções e da visão de mundo de uma grande parte da população brasileira. Ele e seus aliados não fazem o que fazem manobrando nas sombras. Fazem porque sabem que possuem apoio popular para isso. Inclusive se for feito uma pesquisa, aposto que há uma parcela nada desprezível dos eleitores de Lula e Dilma que concorda com boa parte dessas pautas grotestas que Cunha vinha aprovando até se atolar na própria lama. Essa enorme base de apoio não é uma anomalia. Quem pensa isso está voltando àquela ideia que descrevi no começo, da população brasileira inerte e vítima de uma elite inescrupulosa. É uma história muito conveniente mas falsa. Parte significativa da população elegeu essas pessoas sabendo que elas eram assim e estão muito felizes com isso tudo. Os Cunhas, Bolsonaros e Felicianos agem se sentindo legitimados por seus eleitores. E têm razão. É com enorme dor no coração que digo isso: o pior é que eles têm razão nesse ponto.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

#meuamigosecreto. Ou: artificios para sacanear uma causa

Nos últimos dias nas redes sociais (ao menos no meu caso, principalmente no facebook) muitas mulheres usaram a hastag #meuamigosecreto para iniciar frases em que lembravam histórias, experiências de machismo, misoginia, etc. Ao menos que eu tenha notado, em alguns casos eram experiências específicas, em outros estavam mais para condensados de todo um conjunto de vivências ligadas ao tema.

Gosto muito de iniciativas deste tipo. Elas abrem um espaço extra para que mulheres possam compartilhar essas situações. Suponho que deve existir muita gente que não tinha coragem de se posicionar mas em situações como essa se sentiu mais forte ao perceber que era parte de uma coletividade. Mas também é muito boa para que os homens tenham um entendimento um pouquinho melhor do que é a experiência concreta de ser mulher, algo que jamais teremos, por motivos óbvios. Sentir empatia é necessário, mas não é a mesma coisa que viver na pele, e nunca vai ser.

Mais aí começam os artifícios que de mil formas diferentes tentam corroer a luta. Uma que vi algumas vezes foi a chatura do coitadismo. Vi vários caras numa assim: "#meuamigosecreto é mulher, feminista mas fica generalizando como se todos os homens do mundo fossem misóginos e estupradores". Bem, pra começar o grau de egoísmo de quem faz isso é inacreditável. A pessoa acha que a campanha é para atacar os homens. Caras, acordem: feminismo não é sobre homens. É sobre as mulheres. Não importa o que vocês ouviram da mamãe, vocês não são o centro do universo. Aceitem. Aí o cara vem "ay o feminismo não devia ser desse jeito porque aí eu fico magoado e histérico". Uma campanha para dar voz as mulheres sobre a desigualdade de gênero vira uma campanha mundial para machucar o coração de um pobre coitado.

Claro que choca ler certas postagens falando como se todo homem fosse um estuprador em potencial. Mas meus pobres amiguinhos coitados: aproveitem a campanha e leiam com atenção o que elas estão contando. Só que as histórias que eu li quase sem exceção não são fatos isolados. São coisas que elas vivem diariamente, em todos os lugares, não há pra onde escapar. O que inclui o medo do estupro. Pode ser que a pessoa que postou isso inclusive tenha sofrido algum tipo de abuso, algo mais comum do que se possa imaginar. Quem pode saber o que levou essa pessoa a dizer isso? Que homem sabe que tipo de experiência pode construir uma visão dessas? Mais importante que tudo, o que faz do mundo um lugar melhor: 1) uma mulher berrar para o mundo uma mágoa que tem e tentar lidar melhor com ela enquanto nós nos chocamos num primeiro momento mas sabemos que nunca fizemos nada com ela e não levamos para o lado pessoal; 2) a mulher continuar sofrendo em silêncio para não machucar o coração de quem não consegue se deslocar um centímetro para entender o outro?

Um outro ponto mais sutil mas que vai na mesma direção: homens (real ou supostamente) aliados do feminismo que começam a postar coisas tipo "#meuamigosecreto é um vizinho que paga de moralista mas estuprou as filhas", sei lá, algo assim. Quando vejo isso penso em particular nas minhas amigas historiadoras. Além da experiência concreta de ser mulher num mundo machista, elas ainda tem o adicional de saber perfeitamente bem o quanto homens sempre falaram em nome das mulheres. Aí depois de décadas de luta a coisa melhora (ainda está longe do ideal, mas melhorou), e quando a pessoa abre sua rede social vê um bando de homens pretendendo falar em nome das mulheres em 2015.

CARAS, AS MULHERES SABEM FALAR. Elas não precisam que falemos por elas. Aliás a campanha tem justamente a ver com isso. Com mulheres falando do que vivem. Assumindo o protagonismo. O nosso papel é apoiar, aplaudir e PRINCIPALMENTE ouvir com atenção o que elas têm a dizer para tentar melhorar nosso comportamento. Nossa função aqui não é falarmos como se fossemos uma delas. Isso foi feito por MILÊNIOS e ainda é feito. Parem de tentar roubar a fala delas. Apenas parem.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Por que precisamos do dia da consciência negra

Quem conhece alguma coisa sobre meu trabalho acadêmico sabe a importância que o tema do racismo tem para mim. Não é dificil entender por que. Cresci numa cidade com muitos negros, tive muitos amigos negros a vida toda. Mas nasci em 1972. Fui criado em um mundo em que se achava que fazer piada racista era normal. E quando falo "piada racista" estou falando em coisas absolutamente escancaradas tipo "por que o mundo é redondo? para os pretos não cagarem nos cantinhos". Meus amigos negros de infância tinham apelidos como "sombra", "nublado", etc. Cansei, mas cansei, de chamar gente de macaco e ver outros fazendo o mesmo. Ao mesmo tempo dizíamos que não havia racismo, que tudo isso era brincadeira e tal.

Na Unicamp ouvi, em meados dos anos 90, um professor, historiador bem famoso, falar assim: "ah, gente, disciplinar negro não dá, né?". Veja o quão recente é o racismo aberto em qualquer lugar. Pra quem não sabe: a Unicamp é referência nacional na área de escravidão, talvez seja a grande especialidade daquele grupo de professores. E há 20 anos se podia ouvir isso de um autor nacionalmente reconhecido perante a complacência de quase toda a turma, inclusive eu. Esse foi o mundo em que me criei. Então não tem essa de "tenho amigos negros" não. Fui criado num mundo extremamente racista. Querer dizer que fiquei imune à isso seria me considerar alguém acima do mundo em que vive.

Sei que há gente de bom coração que acredita genuinamente que não é racista. As entendo, mas infelizmente elas estão erradas. Ter amigos negros e amar a todos não quer dizer que você não é racista. O cara que mata a esposa pode amar a mãe, a irmã, etc. e nem por isso deixa de ser machista. Possivelmente na cabeça dele ele ame até a esposa que matou. Tem pesquisa inclusive mostrando que o racismo é particularmente violento em familias em que coexistem brancos e negros. Um ponto em que a militância negra tem muita razão é justamente em denunciar o caráter "discreto" do nosso racismo. Tem uma pesquisa que mostra que a imensa maioria dos brasileiros acredita que há racismo no país mas não se julgam racistas. Racista sempre é o outro.

Justamente por isso não acho que o alvo das campanhas devam ser essa facção lunática de religiosos que sai por ai invadindo terreiro e quebrando imagem de divindades de religiões afro-brasileiras. Essas pessoas são lunáticas. São tema para policiais e psiquiatras. Não vão ser convencidas de nada. Talvez devam ser estudadas pela medicina para se descobrir como viver sem cérebro. Acho que o tema é outro: que as pessoas entendam que por mais que sejam bem intencionadas e gostem genuinamente de alguns negros são racistas assim mesmo. Aprendam a reconhecer isso e ajam tentando mudar.

Aqui vai uma historinha real. Minha irmã é mais morena que eu e se casou com um negro. Sendo assim, tiveram uma filha negra, que hoje tem, se não me engano, seis anos (a senilidade precoce não ajuda a guardar esse tipo de coisa). Segundo ela, quando leva a filha pra brincar na pracinha as crianças brancas se afastam com ajuda das mães. Uma linda menina inocente que inunda qualquer espaço em que esteja de alegria e vida tendo de passar por isso. Quando penso nisso e no que mais ela terá de passar tenho vontade de sair por aí dando porrada em todo mundo. Infelizmente não é específico dela. Há vasta bibliografia sobre isso, que mostra inclusive que crianças muito novas já discriminam barbaramente os coleguinhas negros. Professores também.


Claro que nada disso deveria existir. E há exemplos disso. Minha sobrinha tem dois irmãos, um casal de gêmeos filhos da minha irmã de um relacionamento anterior. São muito brancos e já chegaram na adolescência. Todo mundo pergunta a eles como podem ter uma irmã negra. Eles não entendem. Pra eles essa categorização racial simplesmente não faz sentido. Na cabeça deles não é "somos brancos, minha mãe também, e temos uma irmã negra como o marido da minha mãe". Essa não é uma questão pra eles e ponto final. Deveríamos viver em um mundo só com pessoas assim.

Mas não vivemos. E uma das coisas que aprendi com a história é que privilegiados nunca concedem direitos. Eles têm de ser arrancados à fórceps pelos subalternos. Tudo o que os negros conseguiram melhorar nos últimos 120 anos foi devido à luta deles. Então tem de ter dia da consciência negra sim. Só não pode virar festa, dia de branco ir ver espetáculo de samba, capoeira, maracatu, etc. para se sentir descolado e galeroso. Tem de ser dia de luta. De esfregar o racismo na cara da sociedade. Fazer com que todos sejam obrigados a encarar aquilo que muita gente quer varrer pra baixo do tapete, por escrotidão, visão privilegiada de mundo ou falta de reflexão e conhecimento. Tem de ir pro confronto. Não há outra solução possível.


domingo, 15 de novembro de 2015

Muçulmanos

Profissionais que estudam temas culturais sabem muito bem que identidades se constroem pelo contraste. Ou seja, sempre privilegiaremos o que nos diferencia do outro na hora de construirmos nosso lugar no mundo. Um exemplo simples: o arroz com feijão é consumido em larga escala de norte a sul do país. Mas justamente por isso não é marcador de identidade regional de nenhum lugar do Brasil, pois não serve como diferenciador. Se usam coisas bem menos consumidas (bode aqui no nordeste, churrasco no RS, etc.) mas que cumprem esse papel diferenciador.

O Ocidente pretende se diferenciar do resto do mundo por uma narrativa da modernidade que teria, entre seus traços particulares, o respeito e a tolerância pelas diferenças. Supostamente seríamos os únicos com essa capacidade. O que significa que seríamos uma ilha de racionalidade em um planeta de bárbaros. Uma definição identitária como essa demanda desesperadamente por um Outro bárbaro, incivilizado e intolerante. Os muçulmanos acabaram assumindo esse papel em nosso imaginário. Dizia para meus alunos semana passada: criamos um combo que associa islamismo, árabes, fanatismo e intolerância. Algo completamente irracional que visa justificar a imagem de que somos os únicos racionais.

Talvez não seja demais esclarecer que quando digo que essa é uma concepção irracional não quero dizer que não existam aquelas coisas. Mas são generalizações francamente abusivas. Há centenas de milhões de muçulmanos que não são árabes (iranianos e indonésios, por exemplo), e a ideia de que todos islâmicos são jihadistas é de chorar. 23% da população mundial (mais de 1,5 bilhão de pessoas) são muçulmanas. Se todas fossem terroristas o mundo nem existiria mais.

Tão ruim quanto isso é a nossa auto imagem. Acreditamos sinceramente que somos uma civilização tolerante. Criamos o nazismo, matamos judeus e muçulmanos, temos pena de morte, somos racistas, machistas e homofóbicos, mas embora vejamos isso diariamente achamos que os muçulmanos são piores. Que eles não são humanos como nós, não têm compaixão, não enterram seus mortos e não amam seus filhos. Eles não são humanos como nós. Por isso, se muçulmanos matam um de nós podemos matar um milhão deles como vingança. Eles não são como nós.

Por tudo isso a questão dos refugiados de guerra da Síria gerou tanto alarde. Muita gente, inclusive na esquerda, se disse temerosa com medo de uma invasão de muçulmanos homofóbicos e machistas. Como se pessoas que votam em Berlusconi e Le Pen precisasse de alguém que os ensinasse essas coisas. Como se a Síria não fosse um dos países mais laicos da região. O fato de serem muçulmanos dispensa maiores explicações: só podem ser machistas, homofóbicos, homens-bomba e gente que não possui a nossa humanidade.

Só tive uma experiência limitada com muçulmanos, na semana que passei em Istambul. Antes de ir falei com duas pessoas. Uma brasileira que mora lá me disse que Istambul era tranquilo, que eu não me preocupasse com nada diferente do que eu precisava me cuidar no Brasil. Uma turca que era vizinha da minha então namorada italiana avisou que não havia nada de muito diferente, exceto não existir porco ou Cristo, uma definição que me fez rir muito, mas se mostrou real: muçulmanos não comem carne de porco mesmo. Mas fazem o capeta com cordeiro, então tudo bem.

Tinham me falado maravilhas de Istambul. Mas não achei essa coisa toda. Gostei muito, mas achei superestimada. A parte histórica é infartante. Para um brasileiro, conhecer construções do século VI é mais que um sonho. Comida também é excelente. Nada que soe exótico pra nós. Diferente da nossa, bem temperada, mas nada que nos faça pensar que estamos em outro planeta. A cerveja também é muito decente.

As pessoas são um capítulo à parte. Istambul é parte européia e parte asiática. É um ponto de convergência. No aeroporto já fiquei fascinado por nunca ter visto gente de tantos tipos, cores e tamanhos diferentes. No painel de chegadas e partidas tinha vôo de tudo que é lugar do mundo. Impossível achar que quem vive num lugar assim seja esse mar de intolerância, pois simplesmente não há como. Cheguei, o aeroporto estava uma zona (havia caído um temporal master, impedindo os vôos de pousar, e quando acabou todos pousaram de uma vez), mostrei meu passaporte para o fiscal da imigração, ele viu de onde eu era, perguntou "e o 7 a 1, hein?", riu, carimbou o passaporte e fui atrás de um táxi. Tudo bem comum.

Nas ruas as mulheres usam vários tipos de roupas. Muitas com vestimentas que associamos ao islamismo, outras em trajes ocidentais. Porteiro do hotel me explicava que a Turquia é um país laico e eles têm muito orgulho dessa característica, que atribuem ao fundador do país, Mustafá Kemal, o "Ataturk", cuja foto está por todos os lugares. Se no Brasil o futebol é uma mania nacional, lá é muito mais que isso. Quando percebiam que eu era brasileiro, 11 a cada 10 pessoas vinham falar de futebol. Ronaldinho Gaúcho, em particular, era um tema da curiosidade e admiração.

Claro que não são pessoas perfeitas. Inclusive em várias coisas lembram os brasileiros, e sejam até piores. Tentar roubar na hora de dar o troco é uma doença nacional. Um dia pegamos um taxi, o cara fez um comentário super machista sobre mulheres dirigirem mal, minha então namorada italiana fez comentários indignados comigo e o taxista começou a passear só pra nos sacanear (pessoas de Istambul aparentemente sabem algo sobre todas as línguas do mundo). No mítico mercado público, do século XV, tentam se aproveitar de você de todas as maneiras possíveis (mas a visita vale demais assim mesmo).

Ao menos nessa viagem, o que vi foi que muçulmanos são gente como nós. Amam seus filhos, choram seus mortos, amam futebol, fazem uma comida ótima e são trambiqueiros. E comem aquelas coisas que a gente pensa que só existem na Biblia, tipo tâmaras. Ao menos pelo que vi a imagem ocidental não se sustenta por um segundo. Certamente deve haver intolerância, como também há de sobra no Ocidente. Em suma, não vi nada muito diferente do que conhecemos. No máximo diferenças culturais, como senti também na Itália, na Holanda ou em outras partes do Brasil, o que é completamente normal.

Termino este post com a sensação de só ter dito coisas óbvias. Mas vivemos em um mundo em que ver o óbvio virou uma virtude.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Fui um abusador

Difícil demais dizer isso. Mas é a verdade. Já fui alguém que abusou de mulheres. Nunca fiz nada fora da lei, nunca estuprei ou bati em mulher. Mas quando era mais novo fiz aquelas coisas que entre homens são tidas como "normais": encoxar, passar a mão, etc. Quando mais novo fiz tudo isso muitas vezes. E estive em grupos em que caras contavam uns aos outros essas coisas, sempre rindo muito.

Talvez a pior parte disso é que tudo aquilo era (e ainda é) socialmente aceito. Nós homens não somos treinados para encarar como relevante o desejo feminino. Somos ensinados que o mundo é nosso. Só isso pode explicar pessoas de bom coração (acredite, eu era) cometendo esse tipo de abusos achando sinceramente que era divertido.

Isso é algo tão forte que me lembro perfeitamente de, em plenos anos 90, fazendo História na Unicamp, colegas irem para festas exclusivamente com essa finalidade. Nessa época eu já encarava isso como algo que não fazia muito sentido, ainda que não tivesse elaborado nada mentalmente. Mas me lembro nitidamente de gente que inclusive hoje é historiador reconhecido contando vantagem de ter "alisado" a fulana, para inveja geral.

E naqueles mesmos anos eu tive contato mais direto com o feminismo pela primeira vez. De forma completamente imatura. Eu via minhas colegas de faculdade na militância mas ainda não conseguia me deslocar minimamente. Achávamos que elas eram um bando de chatas que criavam caso por nada. Era um olhar mais para condescendente. Não odiávamos elas por isso, várias eram nossas amigas, mas aquilo nos soava muito mimimi.

Precisei ter uma amiga ultrafeminista, minha parceira de trabalho, uma norte americana que segurou meu rosto e me mandou parar de agir como se fosse um imbecil. Foi ela que me mostrou o quanto as ações que eu achava normais reproduziam uma cultura que degradava as mulheres, ignorava seus desejos e as via como objetos a serem fruidos por nós. Imagino que para uma mulher isso deve ser ininteligível, mas fazendo doutorado em história eu ainda não tinha entendido isso. Pois não é o recado que recebemos. O que nos dizem o tempo todo é exatamente o oposto.

Claro que eu lamento muito isso tudo. Tenho plena consciência que nunca vou superar o fato de ter sido criado para acreditar que somos os donos do mundo. Na verdade não apenas eu: todos os homens recebem essa mensagem 24 horas por dia. Mas eu lamento ainda mais que muitos nunca consigam sequer problematizar isso. Gente velha que continua assumindo o papel de vítima perante o feminismo. Gente que inventa idiotices tipo "femismo", etc. Esses só conseguem ver seu próprio umbigo. Nem dá pra discutir.