Dia desses um ex-zagueiro da seleção norte-americana de futebol chegou ao Brasil para atuar como comentarista na copa. Tuitou que gostou do aeroporto do Galeão, que pareceu a ele melhor que a maioria dos congêneres de seu país. Um pouco depois fez graça dizendo que estava no Rio há algumas horas e não tinha tido nenhum órgão roubado, evidentemente rindo dos temores de muitos de seus compatriotas que acham que vivemos num mundo de caos e anarquia. Vi esses tuites, ri muito, desejei que o Galeão realmente esteja como ele diz (nas últimas vezes que estive lá achei horrível) e segui a vida.
Para minha surpresa, os tuites de Alexi Lalas viraram tema de debate. Defensores da copa e do governo federal usaram seus comentários sobre o Galeão como prova irrefutável de que o Brasil está uma maravilha e que o evento será ótimo. Oposicionistas e babacas que queriam ser parisienses leram correndo o outro tuíte e bradaram: OLHA O QUE O MUNDO PENSA DO BRASIL.Uma discussão idiota que eu não devia estranhar. Ela acontece aqui o tempo todo.
Não faz muito tempo o segundo grupo exultou com o que um jornalista dinamarquês postou, criticando o país e a copa. O primeiro compartilhou insanamente um e-mai de um suposto holandês que achou o Brasil uma maravilha. Oposicionistas compartilham nas redes sociais um hoax com conselhos que os governantes chineses teriam dado ao Brasil (logo a China, uma ditadura pretensamente socialista, ou seja, tudo o que eles dizem odiar mas endossam quando é de seu interesse), enquanto os governistas compartilham palavras de economistas estrangeiros dizendo que o Brasil é um modelo.
Tudo isso parece conflitante, mas não é. No fundo é a mesmíssima coisa. Tudo isso tem algo em comum: a submissão ao estrangeiro. A superhipervalorização da palavra de quem vive em países desenvolvidos. A premissa de que nada melhor para validar um argumento do que uma citação de alguém que vive num oásis de civilização, bem longe da selvageria tropical. É o que há meio século Nelson Rodrigues chamou de "complexo de vira-latas", sem tirar nem por.
Claro que um olhar de fora pode ser interessante. Os pernambucanos vivem se surpreendendo quando indico peculiaridades da vida local que na opinião deles são "normais". É mais do que razoável apreciar que um outsider desnaturalize algo que para nós é óbvio. Até aí maravilha. Mas na boa: precisar do endosso de gente que mal conhece nosso país para teses sobre quem somos é demais. Chega a ser ofensivo que alguém que nasceu e passou sua vida toda no Brasil ache que sua opinião sobre o país só se torna válida quando corroborada por alguém que mal sabe onde vivemos.
Não é uma questão de direita e esquerda, governo e oposição. É questão de reconhecer que somos mais que habilitados a ter opinião sobre o país em que nascemos e vivemos sem precisar da legitimação de quem mal nos conhece. Sejamos governistas, oposicionistas, direitistas, esquerdistas, o que quisermos. Mas por favor: nenhuma dessas posições necessita ser corroborada por estrangeiros. Quem conhece o país somos nós. Trabalhemos para que a pergunta "o que os estrangeiros vão pensar?" um dia seja tão arcaica como o código de hamurabi.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
sábado, 31 de maio de 2014
Sobre o Estelita (ou: porque não se render ao ultrapragmatismo do capital)
(Primeiro um esclarecimento para os leitores que não conhecem Recife. O Cais José Estelita se situa na parte histórica da cidade. Como infelizmente é comum, a área está razoavelmente degradada, ainda que em seus arredores haja uma significativa área comercial frequentada por muita gente. Pois para resolver o problema da degradação da área, a prefeitura conta com a "ajuda" de um "consórcio novo recife", formado pelas maiores construtoras da região. Que quer derrubar os antigos armazens e construir em seu lugar um catatau de torres de luxo, residenciais e comerciais - é o monstrengo da foto acima).
Me surpreendo ao ver tanta gente boa e esclarecida bradando contra o movimento "ocupe estelita", que visa impedir a transformação de uma área histórica da cidade em uma zona particular para o conforto de pessoas com dinheiro. Essas pessoas acham que a solução para o fato de uma região tão importante e bem localizada ter sido deixada abandonada pelo poder público é destruí-la e entregá-la ao capital privado. Simples assim. Dizem "aquilo está horroroso mesmo, melhor deixar as construtoras reformarem, vai ficar lindo e vamos poder andar lá em segurança".
Para essas pessoas, quem é contra o projeto é um bando de românticos desocupados que nunca se preocupou com isso e agora resolveu bancar o ativista. O que é muita desinformação: o movimento existe há anos. Essas pessoas acham que nasceu agora porque elas é que não estavam acompanhando o processo. E a coisa de chamar os militantes de "desocupados que agora querem bancar os ativistas" é um troço tão reaça que eu nem sei como responder.
Na verdade me parece que essas pessoas não estão captando o que há de mais importante. O que está acontecendo é uma tentativa de gentrificar aquela região. Algo que já aconteceu em muitas cidades do mundo. Pega-se uma parte antiga, histórica e abandonada da cidade, se entrega na mão da iniciativa privada, que destrói tudo e constrói lindos prédios. Num primeiro momento a sensação é ótima: prédios novinhos e uma área segura onde todos podem caminhar a vontade. Quem é contra é visto como tolo e romântico. Aí quando você se dá conta, uma área histórica e bem localizada foi privatizada, entregue de graça para desfrute exclusivo dos que tem mais dinheiro. Essa é a cidade que queremos?
Note: ninguém quer que as coisas fiquem como estão. A questão é que essa não é a única alternativa. Ao invés de entregar aquela região para as construtoras, a prefeitura poderia perfeitamente iniciar programas de revitalização da área. O que não é caro, não dispensa a iniciativa privada e nem seria tão difícil, já que é uma parte da cidade com intensa vida comercial durante o dia. Há inúmeras experiências bem sucedidas nesse sentido em todo o planeta. Basta ter vontade de fazer. Mas claro que é mais fácil entregar o problema para as construtoras. Parece um jogo em que todos ganham: o capital engorda, os ricos ganham uma área super bem localizada para viver e trabalhar e os políticos envolvidos ganham doações milionárias para suas campanhas. "Só" quem perde é quem não tem dinheiro para morar lá. Tipo uns 90% da cidade. Para não falar no crime contra o patrimônio histórico, claro.
Logo se vê que não é uma questão do destino dos armazéns. É muito mais que isso. É um momento crucial para decidirmos em que cidade queremos viver. Se a lógica do "está ruim? entrega para os ricos que fica bonito" prevalecer, daqui a pouco arrasaremos toda a parte central da cidade e a transformaremos em parque privado de diversões para a elite. Podemos também aproveitar e aplicar a mesma lógica à educação, saúde, transportes, etc. Pega escolas e hospitais públicos, entrega na mão dos grandes empresários e aposto que vão ficar lindos. Só uma minoria vai poder usar, mas pelo jeito esse pessoal não se preocupa com isso.
Vale ainda uma lembrança. Anos atrás duas torres enormes foram construídas na mesma região, justificada por argumentos razoavelmente semelhantes a esses. A cidade continuou exatamente igual, e nada mudou na vida de ninguém, exceto os moradores do "empreendimento". Para o resto da população a cidade ficou exatamente igual, só que enfeiadíssima por dois monstrengos horrorosos. Não há motivo para achar que agora será diferente. A cidade será a mesma, exceto para os que sempre se dão bem: elite, políticos e capital.
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Copa, manifestações, política: está tudo muito confuso
Passei a quarta-feira toda na universidade em que trabalho. Cheguei em casa e me inteirei que as novidades do dia eram as seguintes. Professores universitários historicamente associados à esquerda assinando um manifesto contra "excessos" nas manifestações, pedindo que elas sejam ordeiras. Direitistas delirando porque um indígena atirou uma flecha numa manifestação, tentando pegar carona no episódio e resolvendo subitamente que são defensores desse grupo. Francamente, isso confunde qualquer um. Entendo completamente quem se sente perdido em um contexto assim.
Historicamente, a esquerda nunca teve o poder. Então se acostumou a ver a rua como um palco onde se sentia a vontade. Na rua a esquerda sempre se sentiu em casa, com sua militância empolgada, e a possibilidade de se manifestar à vontade, já que não conseguia controlar o Estado. Hoje é exatamente o oposto. Vemos um governo com muito medo das ruas, e uma agressiva militância que busca desqualificar toda e qualquer manifestação de desagrado como ilegítima. Por vezes apelando para um discurso nacionalista até, do tipo "pessoas assim não gostam do Brasil". Postura e discurso classicamente associados à direita.
Por seu lado, a direita sempre foi poder. Sempre se sentiu confortável nesse papel. Em todos os momentos desconfiou e hostilizou as manifestações de rua. É barbaramente contra as lutas das minorias. Vê indígenas como empecilhos absolutamente desagradáveis ao desenvolvimento e à livre iniciativa. E de repente, os vemos achando o máximo ver pessoas protestando contra o governo na rua. Nas redes sociais conclamam o "povo" (?) a reclamar contra o que está errado no país. E subitamente somos informados que acham indígenas o supra sumo da autenticidade dos protestos.
Para piorar a confusão, temos a oposição à esquerda. Que, não sem motivos, condena o governo por suas alianças espúrias com políticos da pior espécie, a ausência de avanços em campos importantes como aborto, direitos civis dos homossexuais, etc. Mas quando você vai ouvir o que eles dizem sobre essa situação, nota que estão perigosamente perto da oposição à direita. Criticam a corrupção, os gastos com a copa, exaltam os direitos dos indígenas, etc.
Quem, em sã consciência, consegue condenar quem se sinta perdido nessa situação? De fato tudo está muito complicado. Nos parágrafos que se seguem vai a minha leitura da situação.
De um lado temos um governo que eu acho que foi o melhor que tivemos, e que teve realizações que qualquer pessoa sensata tem de agradecer. Mas que é profundamente lamentável em termos político-ideológicos. Vamos combinar: após 12 anos de PT no poder, o Brasil é tão conservador quanto antes. Nossa política é tão viciada como era em 2002. Então o governo Dilma simplesmente não consegue ver outra maneira de lidar com a situação que não seja utilizar a retórica e as práticas consagradas pela direita. Ao invés de botar sua própria militância na rua, o PT prefere desqualificar a militância alheia. Nega toda a sua história. Lamentável.
Por outro lado, temos o oportunismo absurdo e descontrolado da oposição a direita. Que não tem UM MÍSERO PROJETO para o Brasil. Abra seu facebook ou os sites desse pessoal. Só sabem odiar o governo. Não fazem a menor ideia do que querem. Nem estão preocupados com isso. Sua pauta para 2014 é convencer as pessoas de que o Brasil tem como problemas centrais o mensalão e a copa. Não se importam vagamente com as condições de vida da população, não têm nenhuma ideia sobre como fazer a economia melhorar e vão manter os mesmos vícios da política que já conhecemos. São oportunistas que se agarram a qualquer chance de criticar o governo. Teve um indígena dando flechada em manifestação? Viremos todos defensores dos direitos deles, pois é o que dá IBOPE hoje. Nem sabem o vocabulário para fazer isso (vi gente falando "até índio protesta, fora Dilma". Tipo "até índio"? Oi?). O que importa é aproveitar o tema do dia para lucrar.
E no fim temos a oposição à esquerda. Que é absolutamente brilhante, a meu ver, nas críticas que faz ao governo. Eu frequentemente me vejo com as mesmas insatisfações deles. Nada da histeria moralista que vemos na oposição direitista, mas muitas vezes fazem críticas serenas e racionais ao governo que eu compartilho. Mas na hora de dizer o que querem... não conseguem ir além de palavras de ordem genéricas. O que se reflete em seu papel nas manifestações. Criticam o governo com razão muitas vezes, mas... nada além disso.
No fim das contas o que me parece é o seguinte. Não acho errado estar em nenhum dos lados citados. É uma questão de consciência pessoal, ditada pela visão de mundo de qualquer um. Mas me parece otário quem: 1) Compra qualquer uma dessas visões de forma acrítica; 2) Decide seu voto baseado nessa situação. De boa? O buraco é bem mais embaixo.
Historicamente, a esquerda nunca teve o poder. Então se acostumou a ver a rua como um palco onde se sentia a vontade. Na rua a esquerda sempre se sentiu em casa, com sua militância empolgada, e a possibilidade de se manifestar à vontade, já que não conseguia controlar o Estado. Hoje é exatamente o oposto. Vemos um governo com muito medo das ruas, e uma agressiva militância que busca desqualificar toda e qualquer manifestação de desagrado como ilegítima. Por vezes apelando para um discurso nacionalista até, do tipo "pessoas assim não gostam do Brasil". Postura e discurso classicamente associados à direita.
Por seu lado, a direita sempre foi poder. Sempre se sentiu confortável nesse papel. Em todos os momentos desconfiou e hostilizou as manifestações de rua. É barbaramente contra as lutas das minorias. Vê indígenas como empecilhos absolutamente desagradáveis ao desenvolvimento e à livre iniciativa. E de repente, os vemos achando o máximo ver pessoas protestando contra o governo na rua. Nas redes sociais conclamam o "povo" (?) a reclamar contra o que está errado no país. E subitamente somos informados que acham indígenas o supra sumo da autenticidade dos protestos.
Para piorar a confusão, temos a oposição à esquerda. Que, não sem motivos, condena o governo por suas alianças espúrias com políticos da pior espécie, a ausência de avanços em campos importantes como aborto, direitos civis dos homossexuais, etc. Mas quando você vai ouvir o que eles dizem sobre essa situação, nota que estão perigosamente perto da oposição à direita. Criticam a corrupção, os gastos com a copa, exaltam os direitos dos indígenas, etc.
Quem, em sã consciência, consegue condenar quem se sinta perdido nessa situação? De fato tudo está muito complicado. Nos parágrafos que se seguem vai a minha leitura da situação.
De um lado temos um governo que eu acho que foi o melhor que tivemos, e que teve realizações que qualquer pessoa sensata tem de agradecer. Mas que é profundamente lamentável em termos político-ideológicos. Vamos combinar: após 12 anos de PT no poder, o Brasil é tão conservador quanto antes. Nossa política é tão viciada como era em 2002. Então o governo Dilma simplesmente não consegue ver outra maneira de lidar com a situação que não seja utilizar a retórica e as práticas consagradas pela direita. Ao invés de botar sua própria militância na rua, o PT prefere desqualificar a militância alheia. Nega toda a sua história. Lamentável.
Por outro lado, temos o oportunismo absurdo e descontrolado da oposição a direita. Que não tem UM MÍSERO PROJETO para o Brasil. Abra seu facebook ou os sites desse pessoal. Só sabem odiar o governo. Não fazem a menor ideia do que querem. Nem estão preocupados com isso. Sua pauta para 2014 é convencer as pessoas de que o Brasil tem como problemas centrais o mensalão e a copa. Não se importam vagamente com as condições de vida da população, não têm nenhuma ideia sobre como fazer a economia melhorar e vão manter os mesmos vícios da política que já conhecemos. São oportunistas que se agarram a qualquer chance de criticar o governo. Teve um indígena dando flechada em manifestação? Viremos todos defensores dos direitos deles, pois é o que dá IBOPE hoje. Nem sabem o vocabulário para fazer isso (vi gente falando "até índio protesta, fora Dilma". Tipo "até índio"? Oi?). O que importa é aproveitar o tema do dia para lucrar.
E no fim temos a oposição à esquerda. Que é absolutamente brilhante, a meu ver, nas críticas que faz ao governo. Eu frequentemente me vejo com as mesmas insatisfações deles. Nada da histeria moralista que vemos na oposição direitista, mas muitas vezes fazem críticas serenas e racionais ao governo que eu compartilho. Mas na hora de dizer o que querem... não conseguem ir além de palavras de ordem genéricas. O que se reflete em seu papel nas manifestações. Criticam o governo com razão muitas vezes, mas... nada além disso.
No fim das contas o que me parece é o seguinte. Não acho errado estar em nenhum dos lados citados. É uma questão de consciência pessoal, ditada pela visão de mundo de qualquer um. Mas me parece otário quem: 1) Compra qualquer uma dessas visões de forma acrítica; 2) Decide seu voto baseado nessa situação. De boa? O buraco é bem mais embaixo.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Comunista pode ter iPhone?. Ou: os malefícios da preguiça mental
Falei algumas vezes nos últimos dias sobre o Fla-Flu ideológico que tomou conta da política brasileira recentemente. Situação e oposição se combatem com uma fúria poucas vezes vista em termos democráticos. Pior que não há como escapar da situação. Ela se expõe com todo o vigor na rua, nos ambientes de trabalho, nas redes sociais, na blogsfera, e assim por diante. E tanto direita como esquerda tem seus "provedores de argumentos". O que é absolutamente necessário, já que para ver o mundo de forma tão simples (Bem x Mal), não se pode gostar de usar o cérebro. Assim, há inúmeros sites e blogs para abastecer os sabichões de todas as tendências.
Cada tendência política tem sua particularidade nesse contexto. O arco direitista tem dois elementos que me desagradam em particular. O primeiro é sua agenda 100% negativa. Ninguém sabe o que essas pessoas querem, só sabemos que todos os problemas do país são culpa do PT. Só sabem falar disso. Projeto de país NUNCA aparece. Não se tem ideia do que essas pessoas gostariam que fosse feito do país. Mas sabemos muito bem que elas odeiam profundamente o governo. Só isso.
A outra questão me irrita bem mais, já que invade minha seara profissional. Muitos desses "pensadores" estão convencidos de que existe uma ditadura cultural esquerdista no país, e que eles serão nossos salvadores. Por algum motivo, essas pessoas, 99% das quais não tem treinamento ou experiência para isso, querem reescrever a história do universo. Não se importam por chegarem a conclusões que nenhum profissional da área está de acordo. Usam um argumento autovalidatório: quem os critica é por fazer parte da ditadura esquerdista que domina o pensamento brasileiro (argumento nada intelectual, evidentemente).
Como felizmente não parece haver muita gente à venda nas universidades brasileiras, para dar respeitabilidade a seus argumentos (tipo Marco ANtonio Villa ou Demetrio Magnoli), eles próprios colocam a mão na massa. Aí começam os totais absurdos. Tipo o Ali Kamel jogar décadas de pesquisa de alta qualidade no lixo para dizer que não existe preconceito racial no Brasil. Sem dados. Não existe porque ele não quer. Ponto final. E quem discordar é porque é comunista. Ou as tolices do Narloch, que inclusive é acusado de falsificar citações (teria feito isso para associar Allende ao nazismo nos anos 30, mas sinceramente é algo que me falaram, eu não tenho como saber se é isso mesmo ou não).
E aí se chega ao grau máximo de loucura que se pode imaginar, que são as associações entre o PT e o comunismo. Qualquer pessoa minimamente culta (nem precisa ter feito história ou ciências sociais) sabe que o PT nasceu justamente contra o comunismo. Nunca teve nenhum projeto concreto nesse sentido. Todo o discurso do partido é a favor do desenvolvimentismo com redução da desigualdade, algo que não tem nada a ver com comunismo. O Brasil é um país com imprensa livre para criticar o governo e os caras falam que é ditadura. O PT nunca mencionou o fim da propriedade privada dos meios de produção, que é o fundamento básico do socialismo, mas não interessa. Os caras ou são muito ignorantes ou confiam demais na ignorância alheia (o que, vamos combinar, costuma dar certo).
Aí a linha que separa a idiotice do ridículo é ultrapassada com gosto quando se começa com argumentos assim: "meu Deus, olha essa foto dos caras do MST no Mc Donald's? nessa hora eles gostam do capitalismo, né?". Ou "comunista mas tem iphone. poser. hipócrita". E dá-lhe hashtags indignadas #mensaleiros #petralhas #barbosapresidente #vamoraremcuba etc. Não vou me alongar: você sabe do que estou falando. Seu facebook é cheio de gente assim. Como vários são pessoas que você gosta e que postam coisas legais sobre outros assuntos, quando topa com uma dessas engole, finge que não viu e segue em frente.
Pois esse argumento é a coisa mais ridícula que pode existir. Não conheço um único teórico seja do socialismo, seja do capitalismo, que pense que pessoas que vivem num regime que não concordam, não possam desfrutar aquilo que conseguirem. E isso é uma invenção desse novo contexto. Duvido que em 1971 alguém ouvisse "diz que não gosta da ditadura mas compra um fusca se aproveitando do milagre econômico, né, seu hipócrita?". E é fácil imaginar porque nenhum teórico disse algo que dê base a isso: esse raciocínio é uma das coisas mais idiotas que se possa imaginar.
O "pensamento" (vamos chamar assim) que sustenta esse tipo de coisa é algo tipo "iphone foi inventado no capitalismo, então se você é comunista não pode usar". Bem, então essa pessoa só pode comer comida crua, pois o fogo foi inventado pelo homem das cavernas. Tem de defender o fim das armas de fogo, já que a pólvora foi inventada pelos chineses. Bem, isso seria muita idiotice, não? Pois é o argumento desses reaças caga-regra de hoje em dia.
Só que no debate político atual a maioria está tão preocupada em gritar seus argumentos nos ouvidos alheios que sequer pára para pensar se está dizendo algo que ao menos faça sentido (não é privilégio da direita, basta pensar naquele seu amigo que acha que o Zé Dirceu é um mártir ou aquele outro que acha os black-blocks superlegais e prestes a acabar com a tirania humana). Isso já é uma droga. Mas quando começa a esse tipo de coisa virar base para argumentos pretensamente históricos ou sociológicos, aí já dá vontade de estourar os miolos.
Cada tendência política tem sua particularidade nesse contexto. O arco direitista tem dois elementos que me desagradam em particular. O primeiro é sua agenda 100% negativa. Ninguém sabe o que essas pessoas querem, só sabemos que todos os problemas do país são culpa do PT. Só sabem falar disso. Projeto de país NUNCA aparece. Não se tem ideia do que essas pessoas gostariam que fosse feito do país. Mas sabemos muito bem que elas odeiam profundamente o governo. Só isso.
A outra questão me irrita bem mais, já que invade minha seara profissional. Muitos desses "pensadores" estão convencidos de que existe uma ditadura cultural esquerdista no país, e que eles serão nossos salvadores. Por algum motivo, essas pessoas, 99% das quais não tem treinamento ou experiência para isso, querem reescrever a história do universo. Não se importam por chegarem a conclusões que nenhum profissional da área está de acordo. Usam um argumento autovalidatório: quem os critica é por fazer parte da ditadura esquerdista que domina o pensamento brasileiro (argumento nada intelectual, evidentemente).
Como felizmente não parece haver muita gente à venda nas universidades brasileiras, para dar respeitabilidade a seus argumentos (tipo Marco ANtonio Villa ou Demetrio Magnoli), eles próprios colocam a mão na massa. Aí começam os totais absurdos. Tipo o Ali Kamel jogar décadas de pesquisa de alta qualidade no lixo para dizer que não existe preconceito racial no Brasil. Sem dados. Não existe porque ele não quer. Ponto final. E quem discordar é porque é comunista. Ou as tolices do Narloch, que inclusive é acusado de falsificar citações (teria feito isso para associar Allende ao nazismo nos anos 30, mas sinceramente é algo que me falaram, eu não tenho como saber se é isso mesmo ou não).
E aí se chega ao grau máximo de loucura que se pode imaginar, que são as associações entre o PT e o comunismo. Qualquer pessoa minimamente culta (nem precisa ter feito história ou ciências sociais) sabe que o PT nasceu justamente contra o comunismo. Nunca teve nenhum projeto concreto nesse sentido. Todo o discurso do partido é a favor do desenvolvimentismo com redução da desigualdade, algo que não tem nada a ver com comunismo. O Brasil é um país com imprensa livre para criticar o governo e os caras falam que é ditadura. O PT nunca mencionou o fim da propriedade privada dos meios de produção, que é o fundamento básico do socialismo, mas não interessa. Os caras ou são muito ignorantes ou confiam demais na ignorância alheia (o que, vamos combinar, costuma dar certo).
Aí a linha que separa a idiotice do ridículo é ultrapassada com gosto quando se começa com argumentos assim: "meu Deus, olha essa foto dos caras do MST no Mc Donald's? nessa hora eles gostam do capitalismo, né?". Ou "comunista mas tem iphone. poser. hipócrita". E dá-lhe hashtags indignadas #mensaleiros #petralhas #barbosapresidente #vamoraremcuba etc. Não vou me alongar: você sabe do que estou falando. Seu facebook é cheio de gente assim. Como vários são pessoas que você gosta e que postam coisas legais sobre outros assuntos, quando topa com uma dessas engole, finge que não viu e segue em frente.
Pois esse argumento é a coisa mais ridícula que pode existir. Não conheço um único teórico seja do socialismo, seja do capitalismo, que pense que pessoas que vivem num regime que não concordam, não possam desfrutar aquilo que conseguirem. E isso é uma invenção desse novo contexto. Duvido que em 1971 alguém ouvisse "diz que não gosta da ditadura mas compra um fusca se aproveitando do milagre econômico, né, seu hipócrita?". E é fácil imaginar porque nenhum teórico disse algo que dê base a isso: esse raciocínio é uma das coisas mais idiotas que se possa imaginar.
O "pensamento" (vamos chamar assim) que sustenta esse tipo de coisa é algo tipo "iphone foi inventado no capitalismo, então se você é comunista não pode usar". Bem, então essa pessoa só pode comer comida crua, pois o fogo foi inventado pelo homem das cavernas. Tem de defender o fim das armas de fogo, já que a pólvora foi inventada pelos chineses. Bem, isso seria muita idiotice, não? Pois é o argumento desses reaças caga-regra de hoje em dia.
Só que no debate político atual a maioria está tão preocupada em gritar seus argumentos nos ouvidos alheios que sequer pára para pensar se está dizendo algo que ao menos faça sentido (não é privilégio da direita, basta pensar naquele seu amigo que acha que o Zé Dirceu é um mártir ou aquele outro que acha os black-blocks superlegais e prestes a acabar com a tirania humana). Isso já é uma droga. Mas quando começa a esse tipo de coisa virar base para argumentos pretensamente históricos ou sociológicos, aí já dá vontade de estourar os miolos.
Ser depressivo: um depoimento
Começo contando uma lembrança das mais fortes que tenho da minha infância. Ouvi uma pessoa de idade falando de suas saudades de outros tempos. Eu pensei: "engraçado, tenho essa mesma nostalgia, tenho muitas saudades, e isso me deixa triste. Mas como pode ser assim, se sou tão novo?". Hoje me parece claro. Aquela criança definiu de forma genial o que era ser uma pessoa com depressão: carregar dentro de si uma tristeza, uma angústia, um "não sei o que" permanente. Que te corrói por dentro, mesmo que você não tenha a menor compreensão do que se trata.
Meu diagnóstico de depressão veio muito depois. Um dia não consegui levantar da cama. Simplesmente não consegui. Eu era um funcionário exemplar, e meus chefes desconfiaram da minha ausência no trabalho. Foram até minha casa, a TV estava ligada, o ventilador também. Chamaram a polícia, que arrombou a porta. Lá estava eu, vivo, com o organismo funcionando perfeitamente. Mas a mente simplesmente o impedia de se mexer. Não havia motivo para sair do lugar.
Minha melhor amiga me levou ao psiquiatra, que finalmente diagnosticou: eu tinha uma forma crônica de depressão, que num contexto muito ruim tinha se acentuado. Me deu remédios. Não adiantou nada: tomei mais de 80 antidepressivos e ansiolíticos de uma vez pra acabar com tudo. Mas a genética e meu passado de atleta impediram a consumação do meu plano. Horas de soro e eu estava em casa. Até trabalhei nesse dia. Dei aula e ninguém desconfiou. Eu tinha 34 anos.
Escutei muitos "diagnósticos". Difícil dizer qual o mais devastador. Para alguns, era falta do que fazer, como se eu não trabalhasse insanamente. Falavam, com todas as boas intenções, que uma enxada resolveria tudo. Outros vinham com conversa religiosa. O que faltava na minha vida era Deus, como se eu não tivesse minha religião.E como se isso não viesse da minha infância em escola religiosa. Mas tem o pior de todos: "não se deixe levar por isso". Como se algo que nasceu contigo fosse na verdade fruto de uma escolha sua. O que na verdade é culpar você por uma doença. Qualquer depressivo sabe: amigos bem intencionados com conselhos idiotas podem ser seu pior inimigo.
Depressão é uma doença. Como tantas outras. Mas como é uma enfermidade mental, muitos a vêem como frescura. Quase ninguém consegue identificar um. Nos piores momentos acordamos, não conseguimos nos levantar, ficamos lá, mas quando saímos ninguém imagina o gigantesco peso que carregamos nas costas. Em geral, criamos personagens públicos, que a maioria compra, sem desconfiar a dor interna que estamos sentindo. Mas claro, há momentos melhores, em que a vida segue normalmente. Somos sempre azedos, mas soa como estilo ou personalidade. Somos vistos como críticos demais, enjoados ou até arrogantes, e bola pra frente.
Com o tempo você se acostuma com muita coisa. Em algum momento você aceita que vai viver para sempre com um bicho te roendo por dentro. Sabe que nunca vai ser como os outros. Percebe que vai chorar à toa, que vai ter limitações físicas e emocionais. Provavelmente o pior de tudo: descobre da pior maneira possível que muita gente não vai entender isso. Você acaba vendo que no fim vai ter de eliminar da sua vida gente que até é legal, mas que não tem capacidade de entender o que é viver uma vida com tantas limitações.
Não é que sejamos coitadinhos. Não somos. Detesto a auto-vitimização e não a aplicaria nunca a mim. Mas é uma condição que gera sofrimento. Ao qual acabamos tendo que nos acostumar, ou ao menos aprender a lidar. Mas a gente consegue. Estar vivo é uma dádiva para todos nós. Não há dia em que eu não olhe pela janela sem pensar em me jogar. Mas fico aqui. E sobrevivo. Cada dia é uma vitória. E seguimos na luta.
Meu diagnóstico de depressão veio muito depois. Um dia não consegui levantar da cama. Simplesmente não consegui. Eu era um funcionário exemplar, e meus chefes desconfiaram da minha ausência no trabalho. Foram até minha casa, a TV estava ligada, o ventilador também. Chamaram a polícia, que arrombou a porta. Lá estava eu, vivo, com o organismo funcionando perfeitamente. Mas a mente simplesmente o impedia de se mexer. Não havia motivo para sair do lugar.
Minha melhor amiga me levou ao psiquiatra, que finalmente diagnosticou: eu tinha uma forma crônica de depressão, que num contexto muito ruim tinha se acentuado. Me deu remédios. Não adiantou nada: tomei mais de 80 antidepressivos e ansiolíticos de uma vez pra acabar com tudo. Mas a genética e meu passado de atleta impediram a consumação do meu plano. Horas de soro e eu estava em casa. Até trabalhei nesse dia. Dei aula e ninguém desconfiou. Eu tinha 34 anos.
Escutei muitos "diagnósticos". Difícil dizer qual o mais devastador. Para alguns, era falta do que fazer, como se eu não trabalhasse insanamente. Falavam, com todas as boas intenções, que uma enxada resolveria tudo. Outros vinham com conversa religiosa. O que faltava na minha vida era Deus, como se eu não tivesse minha religião.E como se isso não viesse da minha infância em escola religiosa. Mas tem o pior de todos: "não se deixe levar por isso". Como se algo que nasceu contigo fosse na verdade fruto de uma escolha sua. O que na verdade é culpar você por uma doença. Qualquer depressivo sabe: amigos bem intencionados com conselhos idiotas podem ser seu pior inimigo.
Depressão é uma doença. Como tantas outras. Mas como é uma enfermidade mental, muitos a vêem como frescura. Quase ninguém consegue identificar um. Nos piores momentos acordamos, não conseguimos nos levantar, ficamos lá, mas quando saímos ninguém imagina o gigantesco peso que carregamos nas costas. Em geral, criamos personagens públicos, que a maioria compra, sem desconfiar a dor interna que estamos sentindo. Mas claro, há momentos melhores, em que a vida segue normalmente. Somos sempre azedos, mas soa como estilo ou personalidade. Somos vistos como críticos demais, enjoados ou até arrogantes, e bola pra frente.
Com o tempo você se acostuma com muita coisa. Em algum momento você aceita que vai viver para sempre com um bicho te roendo por dentro. Sabe que nunca vai ser como os outros. Percebe que vai chorar à toa, que vai ter limitações físicas e emocionais. Provavelmente o pior de tudo: descobre da pior maneira possível que muita gente não vai entender isso. Você acaba vendo que no fim vai ter de eliminar da sua vida gente que até é legal, mas que não tem capacidade de entender o que é viver uma vida com tantas limitações.
Não é que sejamos coitadinhos. Não somos. Detesto a auto-vitimização e não a aplicaria nunca a mim. Mas é uma condição que gera sofrimento. Ao qual acabamos tendo que nos acostumar, ou ao menos aprender a lidar. Mas a gente consegue. Estar vivo é uma dádiva para todos nós. Não há dia em que eu não olhe pela janela sem pensar em me jogar. Mas fico aqui. E sobrevivo. Cada dia é uma vitória. E seguimos na luta.
domingo, 25 de maio de 2014
Adianta alguma coisa torcer contra a seleção?
Sou esquerdista, filho de esquerdista, passei a vida cercado por esquerdistas. Ouvi inúmeras histórias da geração mais velha falando sobre o dilema moral que viveram em 1970. O Brasil tinha um time maravilhoso, sensacional, único, mas o país vivia o auge de uma ditadura violenta e que promovia a desigualdade. Queriam torcer contra o time, com medo que sua vitória fortalecesse a ditadura. Mas não conseguiam, já que o time era uma maravilha. E viveram com essa culpa. Ouvi coisas muito parecidas na Argentina em relação à copa de 1978.
Falo disso porque no meio das polêmicas sobre a copa surgiu um novo tipo. Não é que simplesmente a pessoa seja contra a copa, vá a protestos nesse sentido, etc. Há gente dizendo que vai torcer contra a seleção. Acham que uma vitória canarinho turbinará o governo, e que uma vitória, digamos, da Argentina aumentaria as chances de vitória oposicionista em outubro. De fato é uma crença generalizada a de que vitórias esportivas ajudam governos, que as capitalizam. Mas será que é o que a história mostra?
Não. Para ficarmos nos exemplos citados. Em 1970 tivemos eleições para o parlamento. A grande estrela do pleito foi um macaco do zoológico do Rio de Janeiro, que teve dezenas de milhares de votos de pessoas que protestavam contra a situação daquele momento. Em 1978 no fim do ano o governo quase jogou o país numa guerra absurda contra o Chile por causa de um pedacinho de gelo na Terra do Fogo, numa tentativa desesperada de recuperar a popularidade que andava em baixa. Ou seja: esses regimes fizeram de tudo para capitalizar os títulos futebolísticos, mas os resultados foram bem escassos. A figura de Médici era popular por conta do milagre econômico e continuou sendo, independente do show brazuca no México.
Se seguimos os resultados eleitorais do Brasil, vemos também que não há relação nenhuma. Perdemos em 1982 e o governo teve um desempenho mediano nas eleições. Perdemos em 1986 e o governo teve uma vitória devastadora. Fomos péssimos em 1990, e o governo foi bem nas urnas. Ganhamos em 1994 e Itamar Franco fez seu sucessor. Perdemos em 1998 e FHC se reelegeu facilmente. Vencemos muito bem em 2002 e FHC não conseguiu fazer seu sucessor. Fomos mal em 2006 e 2010, e o PT se manteve no poder sem sofrer muito.
Olhando em conjunto, não surge nenhuma relação visível entre resultados futebolísticos e desempenho eleitoral do governo do momento. Nem brasileiros, nem pessoas de outro país, parecem levar em consideração questões esportivas na hora de decidir seu voto (no que, diga-se de passagem, fazem muito bem). Para arrematar falando de algo muito recente: a vitória do Brasil na Copa das Confederações aumentou a popularidade de Dilma? Não.
Claro que se Dilma for reeleita, os oposicionistas que não entenderam bem a democracia vão relacionar isso à copa, caso o Brasil a vença. Mas se ela vencer, será por motivos claríssimos, que qualquer pessoa razoável, independente de ideologia, consegue perceber com clareza: ela é conhecida do eleitorado, e seus opositores não; seu governo é bem avaliado pela população em todas as pesquisas; com reeleição, o presidente que está no poder tende a ser favorito (e isso não só no Brasil).
Cada um escolhe para quem torcer. Eu mesmo, embora brasileiro, torço pela seleção brasileira mas também vibro insanamente pela uruguaia. Escrevo para um site de futebol argentino, com amigos brasileiros que torcem pela Argentina por gostarem do futebol do país, mais que do brasileiro. Nada contra. Mas torcer contra por motivos políticos eu acho tolice. Até por não ser algo que historicamente seja relevante para influir em resultados eleitorais.
Falo disso porque no meio das polêmicas sobre a copa surgiu um novo tipo. Não é que simplesmente a pessoa seja contra a copa, vá a protestos nesse sentido, etc. Há gente dizendo que vai torcer contra a seleção. Acham que uma vitória canarinho turbinará o governo, e que uma vitória, digamos, da Argentina aumentaria as chances de vitória oposicionista em outubro. De fato é uma crença generalizada a de que vitórias esportivas ajudam governos, que as capitalizam. Mas será que é o que a história mostra?
Não. Para ficarmos nos exemplos citados. Em 1970 tivemos eleições para o parlamento. A grande estrela do pleito foi um macaco do zoológico do Rio de Janeiro, que teve dezenas de milhares de votos de pessoas que protestavam contra a situação daquele momento. Em 1978 no fim do ano o governo quase jogou o país numa guerra absurda contra o Chile por causa de um pedacinho de gelo na Terra do Fogo, numa tentativa desesperada de recuperar a popularidade que andava em baixa. Ou seja: esses regimes fizeram de tudo para capitalizar os títulos futebolísticos, mas os resultados foram bem escassos. A figura de Médici era popular por conta do milagre econômico e continuou sendo, independente do show brazuca no México.
Se seguimos os resultados eleitorais do Brasil, vemos também que não há relação nenhuma. Perdemos em 1982 e o governo teve um desempenho mediano nas eleições. Perdemos em 1986 e o governo teve uma vitória devastadora. Fomos péssimos em 1990, e o governo foi bem nas urnas. Ganhamos em 1994 e Itamar Franco fez seu sucessor. Perdemos em 1998 e FHC se reelegeu facilmente. Vencemos muito bem em 2002 e FHC não conseguiu fazer seu sucessor. Fomos mal em 2006 e 2010, e o PT se manteve no poder sem sofrer muito.
Olhando em conjunto, não surge nenhuma relação visível entre resultados futebolísticos e desempenho eleitoral do governo do momento. Nem brasileiros, nem pessoas de outro país, parecem levar em consideração questões esportivas na hora de decidir seu voto (no que, diga-se de passagem, fazem muito bem). Para arrematar falando de algo muito recente: a vitória do Brasil na Copa das Confederações aumentou a popularidade de Dilma? Não.
Claro que se Dilma for reeleita, os oposicionistas que não entenderam bem a democracia vão relacionar isso à copa, caso o Brasil a vença. Mas se ela vencer, será por motivos claríssimos, que qualquer pessoa razoável, independente de ideologia, consegue perceber com clareza: ela é conhecida do eleitorado, e seus opositores não; seu governo é bem avaliado pela população em todas as pesquisas; com reeleição, o presidente que está no poder tende a ser favorito (e isso não só no Brasil).
Cada um escolhe para quem torcer. Eu mesmo, embora brasileiro, torço pela seleção brasileira mas também vibro insanamente pela uruguaia. Escrevo para um site de futebol argentino, com amigos brasileiros que torcem pela Argentina por gostarem do futebol do país, mais que do brasileiro. Nada contra. Mas torcer contra por motivos políticos eu acho tolice. Até por não ser algo que historicamente seja relevante para influir em resultados eleitorais.
sexta-feira, 23 de maio de 2014
O dia em que o macaco fui eu
Sou homem, branco, heterossexual, de classe média, professor universitário, nascido no Sul e criado no Sudeste do Brasil. Ou seja, não faço parte de nenhuma das categorias que são alvo mais frequente de discriminação em nosso país. Mas sempre simpatizei com esses grupos. Sempre achei odioso o preconceito (aberto ou subliminar) em relação a mulheres, negros, homossexuais, nordestinos ou qualquer outro que você pensar. E do fundo do coração eu tinha certeza que entendia a situação das pessoas que eram alvo de discriminação. Afinal, sentia tamanha empatia e compartilhava de tal maneira a raiva por esses preconceitos que tinha certeza que entendia o que elas sentiam.
Até que aconteceu comigo. Na Itália, ouvi, com toda a clareza possível, um casal de namorados se referindo a mim, a meu lado, como "macaco sul-americano", e rindo. Eles só tinham me visto falando em português e inglês, o que os fez achar que eu não sabia nada de italiano. De fato não falo, mas entendo decentemente. Fiz ver a eles que estava entendendo tudo, eles morreram de vergonha e o clima ficou horrível, como seria de se prever.
Sei muito bem que não existe A experiência de discriminação. Existem experiências variadas, múltiplas, plurais. Os grupos que sofrem mais têm em seu interior pessoas que sofreram formas diferentes. Uma vez participei de uma mesa sobre preconceito racial, na qual um dos componentes foi muito feliz ao comparar a experiência vivida por ele (negro, baiano, participante de religião afro-brasileira), com a dos outros componentes (uma negra e mulher, o outro, negro e africano). Não é a mesma coisa. Não dá pra presumir que a experiência de todos com a discriminação é igual.
Também varia infinitamente a forma que as pessoas lidam com isso. Há os que optam pela negação, os que internalizam o ódio, os que transformam a dor em combustível para lutar, e inclusive os que genuinamente não ligam. Não vejo como reprovar nenhuma dessas posturas, ou valorar uma mais que outra. Não estou no lugar dessas pessoas para saber o que elas devem fazer.
O que sei é que quando aconteceu comigo eu senti coisas conflitantes. Por um lado, eu tenho muito orgulho de ser brasileiro e sul-americano. Nada que nenhum italiano direitista falar vai mudar isso. Por outro, confesso que doeu muito ver que coisas que estão em mim, que eu não posso mudar, que eu não quero mudar, puderam me transformar em alvo de preconceito e troça. Por um lado, eu sei que em hipótese alguma eu deveria ligar para o que diz um jovem casal de direitistas que não sabem nada sobre o Brasil, pessoas que inclusive eu mal conheço. Por outro, vou confessar: doeu. Ponto final.
Se algum negro, mulher, homossexual, nordestino, etc. estiver lendo isso tem todo o direito de pensar "ah, cara, fichinha isso aí, um episódio besta em 41 anos de vida, você não faz ideia do que eu passo". Teria toda a razão. Pois foi exatamente o que eu pensei quando aconteceu. Se um evento me marcou dessa maneira, não faço ideia do que uma vida de discriminação faz a uma pessoa. Principalmente quando se está cercado de gente disposta a dizer "ah, não seja tão sensível, não foi nada, vocês vêem preconceito em todo lugar". Não faço ideia. Só lamento que seja assim.
Até que aconteceu comigo. Na Itália, ouvi, com toda a clareza possível, um casal de namorados se referindo a mim, a meu lado, como "macaco sul-americano", e rindo. Eles só tinham me visto falando em português e inglês, o que os fez achar que eu não sabia nada de italiano. De fato não falo, mas entendo decentemente. Fiz ver a eles que estava entendendo tudo, eles morreram de vergonha e o clima ficou horrível, como seria de se prever.
Sei muito bem que não existe A experiência de discriminação. Existem experiências variadas, múltiplas, plurais. Os grupos que sofrem mais têm em seu interior pessoas que sofreram formas diferentes. Uma vez participei de uma mesa sobre preconceito racial, na qual um dos componentes foi muito feliz ao comparar a experiência vivida por ele (negro, baiano, participante de religião afro-brasileira), com a dos outros componentes (uma negra e mulher, o outro, negro e africano). Não é a mesma coisa. Não dá pra presumir que a experiência de todos com a discriminação é igual.
Também varia infinitamente a forma que as pessoas lidam com isso. Há os que optam pela negação, os que internalizam o ódio, os que transformam a dor em combustível para lutar, e inclusive os que genuinamente não ligam. Não vejo como reprovar nenhuma dessas posturas, ou valorar uma mais que outra. Não estou no lugar dessas pessoas para saber o que elas devem fazer.
O que sei é que quando aconteceu comigo eu senti coisas conflitantes. Por um lado, eu tenho muito orgulho de ser brasileiro e sul-americano. Nada que nenhum italiano direitista falar vai mudar isso. Por outro, confesso que doeu muito ver que coisas que estão em mim, que eu não posso mudar, que eu não quero mudar, puderam me transformar em alvo de preconceito e troça. Por um lado, eu sei que em hipótese alguma eu deveria ligar para o que diz um jovem casal de direitistas que não sabem nada sobre o Brasil, pessoas que inclusive eu mal conheço. Por outro, vou confessar: doeu. Ponto final.
Se algum negro, mulher, homossexual, nordestino, etc. estiver lendo isso tem todo o direito de pensar "ah, cara, fichinha isso aí, um episódio besta em 41 anos de vida, você não faz ideia do que eu passo". Teria toda a razão. Pois foi exatamente o que eu pensei quando aconteceu. Se um evento me marcou dessa maneira, não faço ideia do que uma vida de discriminação faz a uma pessoa. Principalmente quando se está cercado de gente disposta a dizer "ah, não seja tão sensível, não foi nada, vocês vêem preconceito em todo lugar". Não faço ideia. Só lamento que seja assim.
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