Como argumentei no post anterior, existe no Brasil atual uma série de gurus (?) intelectuais (??) da direita que abastece a militancia oposicionista com argumentos (???) pretensamente sérios. Em alguns casos a coisa é tão caricatural que nem merece discussão, como "Mandela era terrorista" e "Hitler era socialista". Talvez mais perigosos sejam argumentos, nada originais, já que pescados da guerra fria, que visam caracterizar o liberalismo como única plataforma que garante a liberdade humana, tacando a pecha de "comunistas assassinos" em todos os que se opõem a ele.
A coisa já começa muito mal, pois pretende desenhar o governo petista como "comunista", o que (infelizmente pra mim) nem chega vagamente perto de ser verdade. Mas vira uma idiotice total quando vemos o grau de descontextualização histórica presente nele. Afinal, a comparação presume que todos os regimes capitalistas foram lindamente democráticos. Proponho então uma comparação bem simples. O regime dito socialista que mais tempo durou foi o soviético: 74 anos. Onde será que estavam os regimes liberais após esse período?
Se tomarmos os EUA a partir da Declaração de Independência, isso nos levaria a 1850. Quando metade do país aceitava (e defendia ardorosamente) a escravidão. Na verdade o país só se libertou de vez da desigualdade de direitos após 190 anos, com o triunfo do movimento pelos direitos civis. Até ali, queimar e castrar negros era algo que se podia fazer a vontade em parte substantiva do país.
Vamos à Inglaterra. Se tomamos como base 1770, ano que a maioria dos historiadores considera o início da Revolução Industrial, chegamos ao ano de 1844. Nesse ano exato Friedrich Engels publicava seu seminal A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, em que pinta um retrato devastador das condições de vida da classe trabalhadora. Na qual era comum morrer aos 30 anos e ver um filho a cada três chegar à idade adulta. Tá, você não acredita no que diz um comunista. Então vamos a um dado. Em 1832, sob gigantesca pressão da opinião pública, um parlamento muito relutante havia aprovado uma reforma eleitoral. Que "expandiu" o direito de voto a 1 em cada 6 homens adultos. 800 mil pessoas estavam aptas a votar num país de 15 milhões de pessoas.
Atravessemos o canal da mancha e vejamos a situação da França. O país tem o ano de 1789 como marco, o que nos leva a 1863. Naquele tempo o país vivia uma monarquia absoluta e obscurantista comandada por Napoleão III. Na verdade, 74 anos após a Revolução Francesa, o país vivia um regime que, em termos políticos, diferia pouco ou nada em relação àquele derrubado pelos "enfants de la patrie" ainda no século XVIII.
Na verdade, quando pensamos em Inglaterra e França a coisa fica muito pior se pensamos que esses foram os mais importantes países imperialistas. Essas colônias eram território pertencente aos impérios. E se formos aos anos que marcaram o desmoronamento desses impérios chegaremos a 1947, quando a Índia ficou independente, 177 anos após o início da Revolução Industrial, e 1962, quando a Argélia se livrou do domínio francês, 173 anos após a queda da bastilha.
Em suma, a história nos mostra que, mesmo nos países onde foi gerado, o capitalismo só pôde se orgulhar de ostentar uma liberdade juridica 170-190 anos depois de aparecer. Nem falemos de outras grandes bandeiras do liberalismo que sequer chegamos perto de conhecer. Ou você seria capaz de nomear uma única fração do planeta em que exista algo vagamente parecido com a igualdade de oportunidades?
Eu não me identifico minimamente com o que aconteceu nos regimes ditos socialistas. Acho que alguns deles tiveram méritos sim, mas no todo fracassaram de forma evidente. Não defendo, e nem conheço quem defenda, os expurgos de Stalin ou o grande salto para a frente de Mao. Isso não me tira o sono nem por um minuto. Podem falar deles a vontade. Aconteceram, foram lamentáveis e não fazem parte de nada que eu defenda. Aliás, quem quer que tenha lido Marx sabe que o socialismo para ele era a libertação do homem, e não a tirania. Se esses regimes cometeram o que cometeram em seu nome, problema deles, estão completamente errados.
Mas aí vale lembrar duas coisas. Quem lê Marx vê que o socialismo soviético ou chinês é muito diferente do que ele imaginava. Mas quem consegue reconhecer o mundo em que vivemos nos escritos de John Locke ou Adam Smith? O capitalismo e o liberalismo pretenderam desde o começo eliminar os privilégios de nascimento. De forma jurídica conseguiram, felizmente, foi uma grande conquista. Mas na prática eles desapareceram? Há algo minimamente parecido com igualdade de oportunidades no mundo em que vivemos ou quem nasce no andar de cima tem chance enorme de continuar por lá? Pensando assim, parece que as coisas não acontecem como nos conta a lenda dourada do capitalismo, né?
Mais que isso. O capitalismo e o liberalismo espalharam ditaduras pelo mundo afora, e mataram loucamente. Ainda fazem isso. Mas de fato trazem liberdade a uma parte do planeta. Só que isso não aconteceu instantaneamente. Mesmo os países que os geraram levaram quase dois séculos para ao menos juridicamente conseguir a igualdade de direitos. Porque diabos então tirar conclusões tão absolutamente definitivas sobre um projeto a partir de uns poucos países que o experimentaram por pouco tempo e de forma tão afastada da teoria original?
Nada do que falei é uma crítica ao capitalismo. Se o sistema levou quase 200 anos para conquistar (em seus países mais avançados) uma de suas mais básicas propostas, a igualdade jurídica, isso aconteceu por um motivo compreensível. As ideias são postas em práticas em contextos específicos por seres humanos. A prática sempre vai fazer com que as coisas sejam diferentes. O capitalismo lidou com situações muito concretas e não previstas por seus idealizadores. Por isso demorou tanto para consolidar algumas de suas ideias mais básicas e hoje o mundo é tão diferente do que seus teóricos imaginaram. A questão é: por que não permitir ao socialismo viver essa mesma experiência e jogá-lo na lata de lixo da história tendo tido um período tão curto, em países tão pobres, para se afirmar?
Bem, se você ainda vive na guerra fria, certamente sabe a resposta. Para você só existe o bem e o mal, um sistema que liberta e outro que oprime. O mesmo vale se você tem preguiça de pensar e prefere se guiar por gente que só sabe gritar coisas simples sobre temas complexos. Mas se você tem um mínimo de curiosidade intelectual e não quer só se envolver em uma briga histérica, arremessando questões políticas do Brasil de 2014 na cabeça de um passado que nada tem a ver com isso, sabe que o mundo é complicado demais para ser simplificado de forma tão bisonha.
terça-feira, 20 de maio de 2014
domingo, 18 de maio de 2014
Quando a direita perdeu todos os argumentos
As pessoas que não conhecem história certamente acharão isso surpreendente. Mas houve um tempo, nem tão distante, em que a direita era bem diferente. Tinha pensadores inteligentes, com bons argumentos. Tinha políticos que tentavam conquistar os corações e mentes da classe trabalhadora. Se podia discordar a vontade, como acontece com qualquer pessoa. Mas eles estavam lá, apresentando suas ideias, discutindo, tentando convencer. Enfim, estavam no jogo.
Entre os anos 70 e 80 isso mudou. Por dois motivos. O primeiro foi a ascensão do neoliberalismo. Ainda que isso não fizesse parte do escopo teórico do neoliberalismo, seus políticos acabaram adotando uma postura de antagonizar a classe trabalhadora. Faz parte da visão de mundo dessas pessoas que quem faz o mundo andar são os empresários. Acham que sindicatos não são agrupações a serem conquistadas ou convencidas, mas sim destruídas, pois nada mais são do que empecilhos à livre iniciativa. Assim, atacaram vigorosamente os direitos trabalhistas, e perderam todas as conexões que a direita pudesse ter com a classe trabalhadora.
O segundo é específico da América Latina. Tivemos ditaduras absolutamente anti-intelectuais por aqui. Diferente dos regimes autoritários dos anos 1930, as ditaduras latino-americanas dos 60/70 não queriam saber de gente pensando. Achavam isso perigoso demais. Sonhavam com um mundo em que ninguém pensaria em política, ninguém refletiria sobre nada. Não estimularam uma produção intelectual que construísse uma visão de mundo favorável a esses regimes. Desconfiavam de todo esforço de reflexão.
O resultado foi uma direita que simplesmente não sabe argumentar. Após décadas detestando qualquer pessoa que pensasse, perdeu toda a sua capacidade reflexiva. Basta ver o quanto odeiam a universidade. O quanto difundiram o mito de que na universidade brasileira só existe gente perdendo tempo com pesquisas inúteis, guerras de egos e doutrinação ideológica. E depois de tantos anos desconfiando severamente das pessoas que vivem do trabalho, não sabe mais como estabelecer diálogo com essa gente.
O resultado foi devastador. A direita sofreu uma sequência de derrotas eleitorais sem precedentes. Perdeu quase toda a América Latina. Sofre na Europa. E tenta recuperar o terreno perdido em ambas as frentes. Mas ficou difícil. Passou décadas sem formar quadros intelectuais nem tentando se inserir nos movimentos sociais. O que faz agora?
A questão do diálogo com os movimentos sociais é uma causa perdida a curto prazo. Os políticos da oposição simplesmente não sabem dizer o que podem fazer para que a vida da população possa melhorar. Quem olha o grau de melhoria dos índices sociais sob governos como o nosso, o kirchnerista, o frenteamplista uruguaio, o da concertación chilena, os bolivarianos do norte do continente, vê claramente que não há muito o que argumentar. A vida das pessoas mais pobres é muito melhor hoje do que era há 20 anos. Oferecer melhoras sociais é dizer "nunca fizemos nada por vocês, mas agora vamos". Ninguém vai acreditar.
O que sobra é a gritaria. Você sabe o que estou dizendo. Todo mundo conhece gente que berra MENSALÃO DITADURA COMUNISTA TERRORISTAS com as veias do pescoço sobressaltadas (as caixas de comentários dos sites de notícias então... qualquer notinha sobre vendedores de tapioca gera dezenas de comentários assim, sempre em caixa alta). Essas pessoas genuinamente acreditam que a vida era melhor antes do PT. Têm certeza de que não havia corrupção, o salário mínimo era alto, e todos eram felizes. Infelizmente não têm argumentos que dêem sustentação a isso. Então só resta gritar. Berrar. Vai que falando mais alto a coisa fica mais convincente?
Isso fica evidente quando se lê os "gurus" intelectuais da direita. São ignorantes a ponto de chamar Mandela de terrorista e dizer que Hitler era socialista. O grau de incapacidade argumentativa é inacreditável. Mas não importa. Dão elementos para os "indignados" gritarem. Não interessam os gráficos, os números, os dados. Eles estão aí gritando. Se juntam em confortabilíssimas salas de jantar e compartilham seu ódio. Sem argumentos concretos. Mas pelo jeito isso é irrelevante.
Entre os anos 70 e 80 isso mudou. Por dois motivos. O primeiro foi a ascensão do neoliberalismo. Ainda que isso não fizesse parte do escopo teórico do neoliberalismo, seus políticos acabaram adotando uma postura de antagonizar a classe trabalhadora. Faz parte da visão de mundo dessas pessoas que quem faz o mundo andar são os empresários. Acham que sindicatos não são agrupações a serem conquistadas ou convencidas, mas sim destruídas, pois nada mais são do que empecilhos à livre iniciativa. Assim, atacaram vigorosamente os direitos trabalhistas, e perderam todas as conexões que a direita pudesse ter com a classe trabalhadora.
O segundo é específico da América Latina. Tivemos ditaduras absolutamente anti-intelectuais por aqui. Diferente dos regimes autoritários dos anos 1930, as ditaduras latino-americanas dos 60/70 não queriam saber de gente pensando. Achavam isso perigoso demais. Sonhavam com um mundo em que ninguém pensaria em política, ninguém refletiria sobre nada. Não estimularam uma produção intelectual que construísse uma visão de mundo favorável a esses regimes. Desconfiavam de todo esforço de reflexão.
O resultado foi uma direita que simplesmente não sabe argumentar. Após décadas detestando qualquer pessoa que pensasse, perdeu toda a sua capacidade reflexiva. Basta ver o quanto odeiam a universidade. O quanto difundiram o mito de que na universidade brasileira só existe gente perdendo tempo com pesquisas inúteis, guerras de egos e doutrinação ideológica. E depois de tantos anos desconfiando severamente das pessoas que vivem do trabalho, não sabe mais como estabelecer diálogo com essa gente.
O resultado foi devastador. A direita sofreu uma sequência de derrotas eleitorais sem precedentes. Perdeu quase toda a América Latina. Sofre na Europa. E tenta recuperar o terreno perdido em ambas as frentes. Mas ficou difícil. Passou décadas sem formar quadros intelectuais nem tentando se inserir nos movimentos sociais. O que faz agora?
A questão do diálogo com os movimentos sociais é uma causa perdida a curto prazo. Os políticos da oposição simplesmente não sabem dizer o que podem fazer para que a vida da população possa melhorar. Quem olha o grau de melhoria dos índices sociais sob governos como o nosso, o kirchnerista, o frenteamplista uruguaio, o da concertación chilena, os bolivarianos do norte do continente, vê claramente que não há muito o que argumentar. A vida das pessoas mais pobres é muito melhor hoje do que era há 20 anos. Oferecer melhoras sociais é dizer "nunca fizemos nada por vocês, mas agora vamos". Ninguém vai acreditar.
O que sobra é a gritaria. Você sabe o que estou dizendo. Todo mundo conhece gente que berra MENSALÃO DITADURA COMUNISTA TERRORISTAS com as veias do pescoço sobressaltadas (as caixas de comentários dos sites de notícias então... qualquer notinha sobre vendedores de tapioca gera dezenas de comentários assim, sempre em caixa alta). Essas pessoas genuinamente acreditam que a vida era melhor antes do PT. Têm certeza de que não havia corrupção, o salário mínimo era alto, e todos eram felizes. Infelizmente não têm argumentos que dêem sustentação a isso. Então só resta gritar. Berrar. Vai que falando mais alto a coisa fica mais convincente?
Isso fica evidente quando se lê os "gurus" intelectuais da direita. São ignorantes a ponto de chamar Mandela de terrorista e dizer que Hitler era socialista. O grau de incapacidade argumentativa é inacreditável. Mas não importa. Dão elementos para os "indignados" gritarem. Não interessam os gráficos, os números, os dados. Eles estão aí gritando. Se juntam em confortabilíssimas salas de jantar e compartilham seu ódio. Sem argumentos concretos. Mas pelo jeito isso é irrelevante.
terça-feira, 13 de maio de 2014
Vai ter copa
Começo este post dizendo o seguinte: fui contra a realização da copa no Brasil desde que a ideia apareceu. Pelos motivos óbvios: me parecia absurdo gastar dinheiro público em estádios de futebol. Um negócio que inclusive lembrava os estádios que a ditadura espalhou pelo país afora. Sem falar que era impossível não achar que isso ia gerar muita corrupção. Quando a coisa se concretizou, pensei que ao menos de repente poderíamos ter um legado de obras nas cidades-sede.
A realidade foi ainda pior que eu imaginava. O lado ruim se confirmou. Estádios que serão elefantes brancos, outros que serão utilizados, mas cobrando preços que a maioria da população não pode pagar, tudo com dinheiro público. A FIFA mandando e desmandando, suspeitas altamente fundamentadas de corrupção. E as obras para melhorar a vida dos habitantes das cidades-sede claramente não vieram, ou, na melhor das hipóteses, foram ultra tímidas (falo das cidades que conheço mais e/ou visitei recentemente: Recife, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre)
E, passando agora para algo mais subjetivo: quem mora em cidade-sede tem todos os motivos para estar de saco cheio. Moro no Recife, numa avenida super importante. Faz uns dois anos que começou uma obra de mobilidade urbana nessa avenida. A obra avança a passos de tartaruga, não vai ficar pronta a tempo, e o trânsito nela está INSUPORTÁVEL. As obras não avançam, os problemas de sempre continuam iguais, mas o maldito estádio no fim do mundo está lá, prontinho, lindo e maravilhoso. Quem pode recriminar o recifense que se enfurece com esse cenário? Ninguém.
Em suma: sempre fui contra a copa no Brasil, e a cada dia tenho mais certeza de que eu tinha razão. Só que eu acho que há algumas ponderações a fazer. Pois há muita gente que, seja por ingenuidade ou má fé, está semeando confusão.
Pra começar, eu vejo que muita gente debita todos esses problemas na conta do governo federal. Que não construiu ou reformou arena nenhuma. Até onde sei, nove estádios foram construídos/reconstruídos pelos governos estaduais, e três são particulares. Mais uma vez, até onde sei (não estou tão bem informado, se alguém tem informação que me contradiga, fique à vontade), a participação do governo federal na construção dessas arenas (bleargh!) foi tão somente na forma de empréstimos, que serão pagos. Ou seja, não há dinheiro federal envolvido nisso (pela terceira vez: até onde sei, ao menos, confesso que posso estar enganado).
Nesse sentido, me parece totalmente equivocado atacar Dilma por isso. Não gostei nem um pouco da postura dos governos Lula e Dilma em relação a copa. Nem um pouco mesmo. Mas os governos estaduais, que foram os que meteram a mão na massa, não foram diferentes, e na verdade sequer conheço gente que tente argumentar nesse sentido. Sejam governos petistas (como o da Bahia), sejam aliados do governo federal (como o do Rio), sejam oposicionistas (como Minas e Pernambuco, tendo à frente os dois candidatos da oposição à presidência), todo mundo seguiu o mesmo roteiro lamentável de gastos de dinheiro público com estádios e subserviência à FIFA. Botar isso na conta da Dilma me parece inaceitável.
Um segundo ponto se refere às críticas a gastos que poderiam ser melhor empregados em áreas prioritárias. Nenhuma pessoa com um mínimo de bom senso pode discordar disso. Voltando à cidade onde moro. A educação pública é um terror, os professores ganham esmolas, a saúde pública é um lixo, a cidade fica debaixo dágua com qualquer chuva mais forte, as ruas são esburacadas e o transporte público é desumano, para ficar apenas no mais básico. Lógico que é obsceno que o governo do estado tenha como prioridade um estádio de futebol num contexto desses.
Mas outra coisa muito, mas muito diferente, é achar que esses problemas seriam melhorados se o dinheiro da Arena Pernambuco tivesse sido investido nisso. Pelo que li, foram gastos algo como 7 bilhões de reais em estádios para a copa, em 12 sedes. O que dá uns 600 milhões por cidade-sede. É pouco? Não. Mas se esse dinheiro fosse empregado em educação, saúde e transporte público isso faria essas cidades estarem numa situação realmente melhor? Não também. Em termos absolutos é muito dinheiro, ainda mais para se gastar em estádio. Mas em termos relativos não é lá essas coisas. Todos os governos (o federal e os estaduais) gastam bem mais que isso em saúde e educação.
Não vou comentar aqui o pessoal que acha, sinceramente, que pode impedir a realização da copa. Nem os que usam argumentos relativos à "imagem do Brasil no exterior", seja para atacar ou defender a copa. Os primeiros vivem em um mundo irreal, fora do universo que pode ser alcançado por argumentos racionais. Os do segundo tipo são ainda piores. Ou sua imagem da África do Sul mudou depois da última copa? E, caso tenha mudado: e daí?
Sigo achando a copa um despropósito. Mas principalmente por motivos simbólicos. Me parece um escárnio que num país com os problemas que temos haja quem considere correto gastar o que gastamos para termos um mundial. Acho inaceitável. Mas concretamente a copa não vai trazer grandes consequencias. O dinheiro gasto em estádios é muito mais do que deveria existir (pra mim, qualquer coisa acima de zero é mais do que deveria), mas francamente, não é por causa da copa que nossos problemas estão no pé que estão. Já estavam mal e estariam assim, com copa ou não.
Criticar a copa sim, é altamente válido. Eu estou nessa também. Mas vamos com calma. Para ser crítico, é necessário ser crítico com todos. Inclusive com os críticos. Critiquemos o governo federal pela sua postura, dividamos a responsabilidade dele com os 12 governos estaduais envolvidos, mas também reconheçamos que não é a copa que fez com que o Brasil tenha os problemas que tem. Achar que a copa é a culpada por tudo é fazer o jogo de alguém, da mesma maneira que ser acrítico com ela é fazer o jogo de outro alguém.
A realidade foi ainda pior que eu imaginava. O lado ruim se confirmou. Estádios que serão elefantes brancos, outros que serão utilizados, mas cobrando preços que a maioria da população não pode pagar, tudo com dinheiro público. A FIFA mandando e desmandando, suspeitas altamente fundamentadas de corrupção. E as obras para melhorar a vida dos habitantes das cidades-sede claramente não vieram, ou, na melhor das hipóteses, foram ultra tímidas (falo das cidades que conheço mais e/ou visitei recentemente: Recife, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre)
E, passando agora para algo mais subjetivo: quem mora em cidade-sede tem todos os motivos para estar de saco cheio. Moro no Recife, numa avenida super importante. Faz uns dois anos que começou uma obra de mobilidade urbana nessa avenida. A obra avança a passos de tartaruga, não vai ficar pronta a tempo, e o trânsito nela está INSUPORTÁVEL. As obras não avançam, os problemas de sempre continuam iguais, mas o maldito estádio no fim do mundo está lá, prontinho, lindo e maravilhoso. Quem pode recriminar o recifense que se enfurece com esse cenário? Ninguém.
Em suma: sempre fui contra a copa no Brasil, e a cada dia tenho mais certeza de que eu tinha razão. Só que eu acho que há algumas ponderações a fazer. Pois há muita gente que, seja por ingenuidade ou má fé, está semeando confusão.
Pra começar, eu vejo que muita gente debita todos esses problemas na conta do governo federal. Que não construiu ou reformou arena nenhuma. Até onde sei, nove estádios foram construídos/reconstruídos pelos governos estaduais, e três são particulares. Mais uma vez, até onde sei (não estou tão bem informado, se alguém tem informação que me contradiga, fique à vontade), a participação do governo federal na construção dessas arenas (bleargh!) foi tão somente na forma de empréstimos, que serão pagos. Ou seja, não há dinheiro federal envolvido nisso (pela terceira vez: até onde sei, ao menos, confesso que posso estar enganado).
Nesse sentido, me parece totalmente equivocado atacar Dilma por isso. Não gostei nem um pouco da postura dos governos Lula e Dilma em relação a copa. Nem um pouco mesmo. Mas os governos estaduais, que foram os que meteram a mão na massa, não foram diferentes, e na verdade sequer conheço gente que tente argumentar nesse sentido. Sejam governos petistas (como o da Bahia), sejam aliados do governo federal (como o do Rio), sejam oposicionistas (como Minas e Pernambuco, tendo à frente os dois candidatos da oposição à presidência), todo mundo seguiu o mesmo roteiro lamentável de gastos de dinheiro público com estádios e subserviência à FIFA. Botar isso na conta da Dilma me parece inaceitável.
Um segundo ponto se refere às críticas a gastos que poderiam ser melhor empregados em áreas prioritárias. Nenhuma pessoa com um mínimo de bom senso pode discordar disso. Voltando à cidade onde moro. A educação pública é um terror, os professores ganham esmolas, a saúde pública é um lixo, a cidade fica debaixo dágua com qualquer chuva mais forte, as ruas são esburacadas e o transporte público é desumano, para ficar apenas no mais básico. Lógico que é obsceno que o governo do estado tenha como prioridade um estádio de futebol num contexto desses.
Mas outra coisa muito, mas muito diferente, é achar que esses problemas seriam melhorados se o dinheiro da Arena Pernambuco tivesse sido investido nisso. Pelo que li, foram gastos algo como 7 bilhões de reais em estádios para a copa, em 12 sedes. O que dá uns 600 milhões por cidade-sede. É pouco? Não. Mas se esse dinheiro fosse empregado em educação, saúde e transporte público isso faria essas cidades estarem numa situação realmente melhor? Não também. Em termos absolutos é muito dinheiro, ainda mais para se gastar em estádio. Mas em termos relativos não é lá essas coisas. Todos os governos (o federal e os estaduais) gastam bem mais que isso em saúde e educação.
Não vou comentar aqui o pessoal que acha, sinceramente, que pode impedir a realização da copa. Nem os que usam argumentos relativos à "imagem do Brasil no exterior", seja para atacar ou defender a copa. Os primeiros vivem em um mundo irreal, fora do universo que pode ser alcançado por argumentos racionais. Os do segundo tipo são ainda piores. Ou sua imagem da África do Sul mudou depois da última copa? E, caso tenha mudado: e daí?
Sigo achando a copa um despropósito. Mas principalmente por motivos simbólicos. Me parece um escárnio que num país com os problemas que temos haja quem considere correto gastar o que gastamos para termos um mundial. Acho inaceitável. Mas concretamente a copa não vai trazer grandes consequencias. O dinheiro gasto em estádios é muito mais do que deveria existir (pra mim, qualquer coisa acima de zero é mais do que deveria), mas francamente, não é por causa da copa que nossos problemas estão no pé que estão. Já estavam mal e estariam assim, com copa ou não.
Criticar a copa sim, é altamente válido. Eu estou nessa também. Mas vamos com calma. Para ser crítico, é necessário ser crítico com todos. Inclusive com os críticos. Critiquemos o governo federal pela sua postura, dividamos a responsabilidade dele com os 12 governos estaduais envolvidos, mas também reconheçamos que não é a copa que fez com que o Brasil tenha os problemas que tem. Achar que a copa é a culpada por tudo é fazer o jogo de alguém, da mesma maneira que ser acrítico com ela é fazer o jogo de outro alguém.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Estamos jogando fora o melhor do liberalismo. E ficando só com a pior parte
Nós da esquerda temos uma visão muito ruim do liberalismo. O que, em linhas gerais, está correto. Especialmente em sua roupagem Reagan-Tatcher o liberalismo vai contra tudo em que acreditamos. Mas acho importante ressaltar que, especialmente em sua versão dos indepedentistas norte-americanos, o liberalismo trouxe contribuições essenciais. Vou citar duas.
1) Os três poderes. Executivo, Legislativo e Judiciário existindo de forma independente. Mecanismo básico e essencial da democracia. Garante que qualquer governante tenha limites ao seu poder, e que as decisões que realmente importam sejam divididas por grupos independentes. Presidente não pode eliminar parlamentar. Deputado ou senador não pode mudar decisão judiciária. Juiz do STF não pode influir no valor do salário mínimo. Poder dividido significando que há limites para a ação de todos, independente do cargo que ocupem.
2) Direitos individuais. A Constituição Norte-Americana e o Bill of Rights garantem que todos são inocentes até prova em contrário. Que só podemos ser condenados dentro de um processo que inclui todas as garantias de que o acusado teve um julgamento justo.
Óbvio: na prática essas coisas não funcionam tão lindamente como na teoria. Mas isso é normal. Na teoria tudo sempre é lindo, e, como dizem os jogadores de futebol, na prática a teoria é outra. Mas convenhamos: ao menos enquanto vivermos no capitalismo, esses fundamentos são o que podemos ter de melhor. Aí vem a pergunta chave: se as coisas não funcionam na prática tão bem como na teoria é melhor jogar a teoria fora ou tentar melhorar a prática?
Ao menos até onde entendo, escolhemos a primeira opção. Culpamos o presidente do Brasil por todos os males que existem ao sul do equador. Parlamentares corruptos, problemas na educação básica, absolvição de assassinos, é tudo culpa do presidente. Não existe legislativo, judiciário, governos estaduais ou municipais. Tudo é culpa do governo federal (hoje é Dilma, ontem era Lula, anteontem FHC, tanto faz quem está lá. a culpa de tudo é da presidência. como se não vivêssemos num sistema federativo que tem três poderes).
Sobre os direitos individuais talvez seja melhor nem falar. Decidimos que isso é "defender direito humano para bandido". Simplesmente decidimos que é melhor sair matando gente na rua. Frequentemente isso significa que criminosos com ficha policial estão justiçando gente inocente. Mas não importa. A sociedade brasileira gosta disso. Se sente vingada por todos os males. Não adianta culpar a retardada do SBT. A culpa não é dela, ainda que suas declarações tenham servido como salvo-conduto. O problema é que a semente que ela soltou caiu em terra muito fértil. Somos um país que acredita na justiça feita pelas próprias mãos. Seja ela justa ou não. A verdade é: não ligamos para uma inocente sendo morta por uma turba sem ter feito nada. Ela é pobre. Não é gente. O que importa é a sensação de segurança que isso nos dá. Estou feliz porque amanhã se um pobre roubar meu cinzeiro será estraçalhado vivo por uma multidão de justiceiros que desfrutarão da doce impunidade.
Escolhemos ser liberais, de um jeito muito particular. Não gostamos de respeitar direitos humanos, não gostamos de justiça feita pela justiça, odiamos os três poderes, o sistema federativo e ansiamos por um presidente super homem que resolva todos os nossos problemas mesmo que atropelando a constituição. Do liberalismo retivemos apenas a naturalização das diferenças sociais e a certeza de que se alguém é pobre é porque fez por onde. Maravilha.
1) Os três poderes. Executivo, Legislativo e Judiciário existindo de forma independente. Mecanismo básico e essencial da democracia. Garante que qualquer governante tenha limites ao seu poder, e que as decisões que realmente importam sejam divididas por grupos independentes. Presidente não pode eliminar parlamentar. Deputado ou senador não pode mudar decisão judiciária. Juiz do STF não pode influir no valor do salário mínimo. Poder dividido significando que há limites para a ação de todos, independente do cargo que ocupem.
2) Direitos individuais. A Constituição Norte-Americana e o Bill of Rights garantem que todos são inocentes até prova em contrário. Que só podemos ser condenados dentro de um processo que inclui todas as garantias de que o acusado teve um julgamento justo.
Óbvio: na prática essas coisas não funcionam tão lindamente como na teoria. Mas isso é normal. Na teoria tudo sempre é lindo, e, como dizem os jogadores de futebol, na prática a teoria é outra. Mas convenhamos: ao menos enquanto vivermos no capitalismo, esses fundamentos são o que podemos ter de melhor. Aí vem a pergunta chave: se as coisas não funcionam na prática tão bem como na teoria é melhor jogar a teoria fora ou tentar melhorar a prática?
Ao menos até onde entendo, escolhemos a primeira opção. Culpamos o presidente do Brasil por todos os males que existem ao sul do equador. Parlamentares corruptos, problemas na educação básica, absolvição de assassinos, é tudo culpa do presidente. Não existe legislativo, judiciário, governos estaduais ou municipais. Tudo é culpa do governo federal (hoje é Dilma, ontem era Lula, anteontem FHC, tanto faz quem está lá. a culpa de tudo é da presidência. como se não vivêssemos num sistema federativo que tem três poderes).
Sobre os direitos individuais talvez seja melhor nem falar. Decidimos que isso é "defender direito humano para bandido". Simplesmente decidimos que é melhor sair matando gente na rua. Frequentemente isso significa que criminosos com ficha policial estão justiçando gente inocente. Mas não importa. A sociedade brasileira gosta disso. Se sente vingada por todos os males. Não adianta culpar a retardada do SBT. A culpa não é dela, ainda que suas declarações tenham servido como salvo-conduto. O problema é que a semente que ela soltou caiu em terra muito fértil. Somos um país que acredita na justiça feita pelas próprias mãos. Seja ela justa ou não. A verdade é: não ligamos para uma inocente sendo morta por uma turba sem ter feito nada. Ela é pobre. Não é gente. O que importa é a sensação de segurança que isso nos dá. Estou feliz porque amanhã se um pobre roubar meu cinzeiro será estraçalhado vivo por uma multidão de justiceiros que desfrutarão da doce impunidade.
Escolhemos ser liberais, de um jeito muito particular. Não gostamos de respeitar direitos humanos, não gostamos de justiça feita pela justiça, odiamos os três poderes, o sistema federativo e ansiamos por um presidente super homem que resolva todos os nossos problemas mesmo que atropelando a constituição. Do liberalismo retivemos apenas a naturalização das diferenças sociais e a certeza de que se alguém é pobre é porque fez por onde. Maravilha.
terça-feira, 29 de abril de 2014
Sobre cotas, racismo, etc.
Nasci em 1972, o que para meus alunos significa que eu convivi com dinossauros. Assim, cresci num país que tinha muitas diferenças em relação àquele em que vivemos hoje, ainda que muitos dos problemas sejam os mesmos daquela época. Uma notável diferença é a forma pela qual lidamos com a questão racial.
Seguimos sendo um país racista. Mas acredite: era pior. Chamar negros de crioulo, macaco, breu, noite, e coisas assim, era totalmente "normal". Todo mundo fazia isso (eu inclusive, devo tristemente confessar). Na TV negros eram motoristas e jogadores de futebol. Ou cachaceiros. Mulheres negras eram empregadas ou mulatas gostosas. Todo mundo achava a coisa mais normal do mundo que espaços de classe média e alta fossem inteiramente ocupados por brancos. Pessoas brancas que namorassem negros eram severamente reprimidas por seu círculo, sobretudo se fossem mulheres (sim, vi casos assim).
Mas, imaginem vocês, todos concordavam que não existia racismo no Brasil. Os apelidos? Brincadeira, imagina, tenho vários amigos negros. Não deixar a filha namorar negro? Veja, não é que eu seja racista, mas tenho o direito de não querer um neto mulato, né? Falar de racismo era coisa de comunista. O Brasil era um país cordial, em que a escravidão tinha sido branda e os negros haviam sido incorporados sem preconceito à sociedade. Sim, infelizmente eram mais pobres que nós. Mas não era racismo. Claro que não. Era um problema social. Infelizmente a escravidão os colocou na base da pirâmide social de um país pobre. Mas quando a pobreza acabar, isso será resolvido.
A partir de fins dos anos 80 isso começou a mudar. Lentamente as cotas deixaram de ser vistas como "coisa de americano, lá eles tiveram racismo, aqui só há um problema social". Timidamente as novelas começaram a mostrar pessoas negras em posições menos subalternas (sim, preferencialmente "mulatas gostosas", mas enfim...). Fernando Henrique Cardoso, autor de importantíssimo (ainda que hoje completamente superado) livro sobre escravidão, trouxe as cotas para o debate. Lula seguiu a toada. Hoje seguimos racistas, mas o avanço em alguns pontos nos últimos 20 anos é inegável.
E nesse período o mundo acadêmico deu sua contribuição. Começando com o grande Carlos Hasenbalg, pesquisadores puderam demonstrar, de forma clara e cristalina, sem espaço para refutação, que negros são discriminados sim. Esses autores jogaram por terra fantasias antigas como "na favela não existe racismo" ou "quando melhorarmos a educação pública os negros se igualarão aos brancos". Esses autores foram brilhantes ao PROVAR que dentro de uma mesma sala de aula de escola pública os alunos negros eram discriminados pelos seus professores e por seus colegas. O DEVASTADOR livro de Rita de Cássia Fazzi, O Drama Racial das Crianças Brasileiras, foi a última pá de cal em cima dos que ainda acham que brancos e negros numa mesma escola competem em condições iguais.
Nesse contexto foram implantadas as cotas. Quem tem mais de 30 anos se lembra: se dizia que o nível da universidade baixaria, com tantos alunos incapazes (isso não é racismo, claro), que os alunos cotistas não conseguiriam acompanhar o ritmo e deixariam a universidade (outro argumento super democrático) e que isso criaria um ódio racial por parte dos alunos brancos. Enfim, se argumentava, imaginem, que as cotas seriam ruins para os negros. Mas elas foram implantadas e nada disso aconteceu. Não vimos linchamentos nas universidades e os alunos cotistas mantém regularmente índices de aprovação e evasão tão bons ou melhores que os alunos "normais".
Mas, por incrível que pareça, ainda tem gente que é contra. Não é um argumento partidário: PT, PSDB e vários outros partidos implantaram as cotas raciais em seus governos. Não é baseado em argumentos técnicos, que inexistem, até onde sei. Até onde posso perceber, é apenas uma incapacidade que muitos têm de reconhecer um dado simples e óbvio: o Brasil é um país racista. Nenhum de nós acha estranho entrar num hospital e só ver médicos brancos. Chegar a um escritório de advocacia e ver um advogado branco. Sabemos que é assim. Sabemos que isso não é fruto da escravidão, que já acabou há mais de 125 anos. Mas ainda tem quem se negue a ver o que explode na sua cara. Paciência. Que fiquem morrendo de raiva ao ver negros desempenhando funções que não estamos acostumados a ver. Quem acredita na democracia só tem o que comemorar. Quem não gosta... que volte ao século XIX.
Seguimos sendo um país racista. Mas acredite: era pior. Chamar negros de crioulo, macaco, breu, noite, e coisas assim, era totalmente "normal". Todo mundo fazia isso (eu inclusive, devo tristemente confessar). Na TV negros eram motoristas e jogadores de futebol. Ou cachaceiros. Mulheres negras eram empregadas ou mulatas gostosas. Todo mundo achava a coisa mais normal do mundo que espaços de classe média e alta fossem inteiramente ocupados por brancos. Pessoas brancas que namorassem negros eram severamente reprimidas por seu círculo, sobretudo se fossem mulheres (sim, vi casos assim).
Mas, imaginem vocês, todos concordavam que não existia racismo no Brasil. Os apelidos? Brincadeira, imagina, tenho vários amigos negros. Não deixar a filha namorar negro? Veja, não é que eu seja racista, mas tenho o direito de não querer um neto mulato, né? Falar de racismo era coisa de comunista. O Brasil era um país cordial, em que a escravidão tinha sido branda e os negros haviam sido incorporados sem preconceito à sociedade. Sim, infelizmente eram mais pobres que nós. Mas não era racismo. Claro que não. Era um problema social. Infelizmente a escravidão os colocou na base da pirâmide social de um país pobre. Mas quando a pobreza acabar, isso será resolvido.
A partir de fins dos anos 80 isso começou a mudar. Lentamente as cotas deixaram de ser vistas como "coisa de americano, lá eles tiveram racismo, aqui só há um problema social". Timidamente as novelas começaram a mostrar pessoas negras em posições menos subalternas (sim, preferencialmente "mulatas gostosas", mas enfim...). Fernando Henrique Cardoso, autor de importantíssimo (ainda que hoje completamente superado) livro sobre escravidão, trouxe as cotas para o debate. Lula seguiu a toada. Hoje seguimos racistas, mas o avanço em alguns pontos nos últimos 20 anos é inegável.
E nesse período o mundo acadêmico deu sua contribuição. Começando com o grande Carlos Hasenbalg, pesquisadores puderam demonstrar, de forma clara e cristalina, sem espaço para refutação, que negros são discriminados sim. Esses autores jogaram por terra fantasias antigas como "na favela não existe racismo" ou "quando melhorarmos a educação pública os negros se igualarão aos brancos". Esses autores foram brilhantes ao PROVAR que dentro de uma mesma sala de aula de escola pública os alunos negros eram discriminados pelos seus professores e por seus colegas. O DEVASTADOR livro de Rita de Cássia Fazzi, O Drama Racial das Crianças Brasileiras, foi a última pá de cal em cima dos que ainda acham que brancos e negros numa mesma escola competem em condições iguais.
Nesse contexto foram implantadas as cotas. Quem tem mais de 30 anos se lembra: se dizia que o nível da universidade baixaria, com tantos alunos incapazes (isso não é racismo, claro), que os alunos cotistas não conseguiriam acompanhar o ritmo e deixariam a universidade (outro argumento super democrático) e que isso criaria um ódio racial por parte dos alunos brancos. Enfim, se argumentava, imaginem, que as cotas seriam ruins para os negros. Mas elas foram implantadas e nada disso aconteceu. Não vimos linchamentos nas universidades e os alunos cotistas mantém regularmente índices de aprovação e evasão tão bons ou melhores que os alunos "normais".
Mas, por incrível que pareça, ainda tem gente que é contra. Não é um argumento partidário: PT, PSDB e vários outros partidos implantaram as cotas raciais em seus governos. Não é baseado em argumentos técnicos, que inexistem, até onde sei. Até onde posso perceber, é apenas uma incapacidade que muitos têm de reconhecer um dado simples e óbvio: o Brasil é um país racista. Nenhum de nós acha estranho entrar num hospital e só ver médicos brancos. Chegar a um escritório de advocacia e ver um advogado branco. Sabemos que é assim. Sabemos que isso não é fruto da escravidão, que já acabou há mais de 125 anos. Mas ainda tem quem se negue a ver o que explode na sua cara. Paciência. Que fiquem morrendo de raiva ao ver negros desempenhando funções que não estamos acostumados a ver. Quem acredita na democracia só tem o que comemorar. Quem não gosta... que volte ao século XIX.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Investimentos petistas e tucanos na educação: números
Quantas vezes ouvimos pessoas criticando o governo federal pela falta de investimentos na educação? O tempo todo, né? Qualquer ação governamental que a pessoa não goste, lá vem "olha aí, dinheiro que poderia ser investido em educação, este país é uma vergonha!". Se você olhar os comentários das notícias na internet então, aí é uma festa. Só falta dizer que a Dilma ao invés de comer deveria jejuar e doar o dinheiro da feira para a educação.
Quando ouço isso de uma pessoa razoável eu tento debater. Argumento que a constituição prevê que a educação básica é obrigação de estados e municípios. Algumas pessoas começam a apelar falando de mensalão e coisas do tipo. Outras me devolvem um argumento que eu acho razoável até um certo ponto: que o governo poderia fazer mais, ainda que não seja o responsável principal pelo assunto. Acho o argumento válido. Poderia mesmo. O "até certo ponto" se justifica apenas porque normalmente isso é uma tentativa de desviar o foco das críticas a prefeitos e governadores, os reais responsáveis pelo assunto.
Resolvi então ver mais de perto a questão. Fui ver o investimento dos governos de São Paulo e Minas Gerais nesse campo. O motivo é claro: são governos tucanos de longo prazo, nos dois estados com maior orçamento do país e celeiro dos principais nomes do partido, incluindo Aécio Neves, candidato do partido à presidência. Fui ver ainda quanto o governo federal destinou a esses estados através do Fundeb, recursos destinados apenas à educação básica. Vejamos então os dados do ano passado (apenas dados oficiais).
Em 2013 o governo do estado de São Paulo afirma ter destinado à secretaria de educação um total de 24,25 bilhões.Já o governo federal, através do Fundeb, enviou 28,65 bilhões para o estado mais rico da federação utilizar em educação básica. 52,7% desse valor foi entregue nas mãos do governador Geraldo Alckmin, o restante repartido entre prefeituras. Ou seja, mesmo o governo estadual sendo o responsável constitucional pela educação, quem mais investiu nas crianças paulistas foi o governo federal.
Vamos então às alterosas. Em 2013 o governo Antonio Anastasia destinou 9,3 bilhões de reais à secretaria de educação. No mesmo ano o Fundeb enviou para Minas Gerais 9,98 bilhões de reais. Desse valor, 54,83% foi para as mãos do governador, e o restante ficou com as prefeituras do estado.
Passando a régua. Nos dois estados mais populosos da federação, o PSDB gastou em 2013 um total de 33,5 bilhões, enquanto o governo federal enviou para os mesmos estados (contando apenas o Fundeb) 38,63 bilhões para a educação básica. Mesmo considerando, e jamais esqueçamos isso, que os responsáveis pela educação básica, segundo a constituição, são estados e municípios. O dinheiro federal deveria ser apenas um complemento. Mas supera a mixaria investida pelos governos tucanos.
Algo muito parecido ocorre em Pernambuco, estado governado pelo outro candidato oposicionista. Em 2013 o orçamento da secretaria de educação foi de 3,09 bilhões. Por seu lado, o Fundeb enviou para o estado 4,1 bilhões, 40% para o governo e 60% para prefeituras. Uma diferença percentual ainda maior que no caso dos governos tucanos.
Antes que os mais exaltados comecem a me xingar escutem o seguinte: em nenhum momento foi dito ou sugerido aqui que estamos bem em educação ou que o PT fez o que deveria. Eu seria um completo idiota se sonhasse em dizer coisas como essas. A educação continua ruim, e é evidente que um partido com a história do PT poderia ter feito mais nesse campo. Não há como discutir essas coisas.
Mas teremos uma eleição. Paulo Freire não será candidato. Darcy Ribeiro também não. Muito menos Anísio Teixeira. Se queremos uma educação melhor, temos de pensar nos que se apresentam como possibilidades concretas e reais. E os números mostram um cenário muito claro. Com todos os seus problemas nessa área, o governo federal gastou mais com a educação básica do que os partidos que se apresentam como soluções. A cada 100 reais que o governo Dilma investiu na educação das crianças paulistas e mineiras, o PSDB gastou 87. A cada 100 reais enviados para a educação pernambucana, Eduardo Campos investiu 75. Isso porque, nunca esqueçamos, eles são os responsáveis principais pela educação em seus estados. Não é uma opinião minha. Está na constituição.
No fundo o que me irrita é outra coisa. É a mistura de ignorância e má fé que vemos por aí. O Brasil é uma federação. E utiliza o sistema dos três poderes. A constituição determina claramente as obrigações de cada um. Mas todos os problemas do Brasil, reais ou imaginários, são debitados na conta do governo federal. Nem ao trabalho de pesquisar as pessoas se dão (os dados apresentados aqui foram recolhidos em 15 minutos, são oficiais, facilmente achados no google). Ouvem qualquer idiotice e passam pra frente. Não se informam, não pensam, não analisam, apenas repassam lixo que escutaram. Posando de críticos ainda por cima.
Quando ouço isso de uma pessoa razoável eu tento debater. Argumento que a constituição prevê que a educação básica é obrigação de estados e municípios. Algumas pessoas começam a apelar falando de mensalão e coisas do tipo. Outras me devolvem um argumento que eu acho razoável até um certo ponto: que o governo poderia fazer mais, ainda que não seja o responsável principal pelo assunto. Acho o argumento válido. Poderia mesmo. O "até certo ponto" se justifica apenas porque normalmente isso é uma tentativa de desviar o foco das críticas a prefeitos e governadores, os reais responsáveis pelo assunto.
Resolvi então ver mais de perto a questão. Fui ver o investimento dos governos de São Paulo e Minas Gerais nesse campo. O motivo é claro: são governos tucanos de longo prazo, nos dois estados com maior orçamento do país e celeiro dos principais nomes do partido, incluindo Aécio Neves, candidato do partido à presidência. Fui ver ainda quanto o governo federal destinou a esses estados através do Fundeb, recursos destinados apenas à educação básica. Vejamos então os dados do ano passado (apenas dados oficiais).
Em 2013 o governo do estado de São Paulo afirma ter destinado à secretaria de educação um total de 24,25 bilhões.Já o governo federal, através do Fundeb, enviou 28,65 bilhões para o estado mais rico da federação utilizar em educação básica. 52,7% desse valor foi entregue nas mãos do governador Geraldo Alckmin, o restante repartido entre prefeituras. Ou seja, mesmo o governo estadual sendo o responsável constitucional pela educação, quem mais investiu nas crianças paulistas foi o governo federal.
Vamos então às alterosas. Em 2013 o governo Antonio Anastasia destinou 9,3 bilhões de reais à secretaria de educação. No mesmo ano o Fundeb enviou para Minas Gerais 9,98 bilhões de reais. Desse valor, 54,83% foi para as mãos do governador, e o restante ficou com as prefeituras do estado.
Passando a régua. Nos dois estados mais populosos da federação, o PSDB gastou em 2013 um total de 33,5 bilhões, enquanto o governo federal enviou para os mesmos estados (contando apenas o Fundeb) 38,63 bilhões para a educação básica. Mesmo considerando, e jamais esqueçamos isso, que os responsáveis pela educação básica, segundo a constituição, são estados e municípios. O dinheiro federal deveria ser apenas um complemento. Mas supera a mixaria investida pelos governos tucanos.
Algo muito parecido ocorre em Pernambuco, estado governado pelo outro candidato oposicionista. Em 2013 o orçamento da secretaria de educação foi de 3,09 bilhões. Por seu lado, o Fundeb enviou para o estado 4,1 bilhões, 40% para o governo e 60% para prefeituras. Uma diferença percentual ainda maior que no caso dos governos tucanos.
Antes que os mais exaltados comecem a me xingar escutem o seguinte: em nenhum momento foi dito ou sugerido aqui que estamos bem em educação ou que o PT fez o que deveria. Eu seria um completo idiota se sonhasse em dizer coisas como essas. A educação continua ruim, e é evidente que um partido com a história do PT poderia ter feito mais nesse campo. Não há como discutir essas coisas.
Mas teremos uma eleição. Paulo Freire não será candidato. Darcy Ribeiro também não. Muito menos Anísio Teixeira. Se queremos uma educação melhor, temos de pensar nos que se apresentam como possibilidades concretas e reais. E os números mostram um cenário muito claro. Com todos os seus problemas nessa área, o governo federal gastou mais com a educação básica do que os partidos que se apresentam como soluções. A cada 100 reais que o governo Dilma investiu na educação das crianças paulistas e mineiras, o PSDB gastou 87. A cada 100 reais enviados para a educação pernambucana, Eduardo Campos investiu 75. Isso porque, nunca esqueçamos, eles são os responsáveis principais pela educação em seus estados. Não é uma opinião minha. Está na constituição.
No fundo o que me irrita é outra coisa. É a mistura de ignorância e má fé que vemos por aí. O Brasil é uma federação. E utiliza o sistema dos três poderes. A constituição determina claramente as obrigações de cada um. Mas todos os problemas do Brasil, reais ou imaginários, são debitados na conta do governo federal. Nem ao trabalho de pesquisar as pessoas se dão (os dados apresentados aqui foram recolhidos em 15 minutos, são oficiais, facilmente achados no google). Ouvem qualquer idiotice e passam pra frente. Não se informam, não pensam, não analisam, apenas repassam lixo que escutaram. Posando de críticos ainda por cima.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Sheherazade, democracia e liberdade
Sábado me deparei com a notícia de que a tal apresentadora do SBT tinha sido limada do canal. Caí na idiotice suprema de ler os comentários da notícia. Uns 90% falava asneiras tipo "ela tem a coragem de falar a verdade, por isso foi censurada por esses comunistas do governo". A parte da ditadura comunista é tão coisa de gente com problemas mentais que nem dá pra discutir. Vou me ater a dois pontos.
O primeiro é essa história de "coragem de dizer a verdade". Não sei se vocês notaram, mas tem uma vibe reaça super nojenta no ar. É tipo assim: faço algo super babaca e escroto humilhando oprimidos e ainda poso de "corajoso". Tipo fazer piada com mulheres estupradas e judeus executados em campo de concentração. Aplaudir quando pessoas lincham um negro pobre em plena luz do dia. Que "coragem" é preciso para isso? Desde quando atacar os oprimidos e derrotados e se colocar ao lado dos vencedores e opressores é um ato de coragem?
Isso nos leva ao segundo ponto, bem mais perigoso. O raciocínio que indiquei no parágrafo acima parte do pressuposto de que o mundo é dominado pela esquerda, pelos negros, pelos gays, etc. Eu sei, isso soa quase doentio, já que esses grupos são claramente oprimidos na nossa sociedade. Mas aí é que está: essas pessoas são tão babacas, tão escrotas, tão nojentas, que para elas os avanços (mesmo os menores deles) que esses grupos conseguiram, já parecem absolutamente intoleráveis. Tipo: um beijo gay em uma novela e pronto, vivemos numa ditadura gay em que é proibido ser hétero.
Chateia particularmente essas pessoas o fato de elas não poderem falar o que quiserem. Por elas, fariam piadinhas de negro, diriam que gays são perversões da natureza, que nordestino nasceu pra comer areia e morrer de sede, etc. Como não podem, imagine você, concluem que são as grandes oprimidas da sociedade. Vítimas cruéis de um mundo que deveria ser democrático. Mas não é. Não existe liberdade neste mundo cruel. Tadinhos de nós brancos, héteros, homens de classe média sulistas. Tudo é contra nós. Pelo menos temos a Sheherazade para dizer a verdade por nós... NÃO, PERA!
A questão toda é que, duzentos e tantos anos depois da Revolução Francesa e da Independência dos EUA essas pessoas ainda não entenderam minimamente o que é democracia. Desconheço qualquer pensador que tenha caracterizado a democracia como o sistema em que temos a liberdade de fazermos qualquer coisa que quisermos. Isso não existe. O nome disso não é democracia. É selvageria.
Na verdade os principais esforços dos criadores do liberalismo era exatamente: como garantir a liberdade sem cair na barbárie? Como um Estado poderia existir sem correr o risco de cair na tirania? Os melhores cérebros da época se dedicaram a essas delicadíssimas questões. Daí saiu o liberalismo político, regime sob o qual vivemos, gostemos disso ou não. Nele há uma espécie de contrato implícito: as leis colocam os limites à liberdade que a sociedade considera necessários, e o Estado garante seu cumprimento. Para além disso, somos livres para fazermos o que quisermos.
Ou seja, a criatura em questão não foi censurada. Ela perdeu seu emprego numa empresa privada, algo que acontece todos os dias. E é muito pouco, quase nada, perto do que ela fez. Ela cometeu um CRIME. Deveria estar respondendo na justiça por isso. Mas por incrível que pareça não falta quem ache que isso faz dela uma vítima. Pior ainda, talvez, acham que pessoas se mobilizarem para defender o que acreditam e lutarem para que ela seja punida pelo que fez é autoritarismo, quando isso nada mais é que um mecanismo clássico da democracia.
Incrível que a gente esteja conversando sobre isso em pleno 2014. Parece que estamos nos debates do século XIX, quando os fazendeiros achavam absurdo que quisesse tolher a liberdade deles de terem escravos. Sim, era exatamente dessa maneira. Por mais incrível que possa parecer, a abolição da escravidão era entendida por eles como um tolhimento injustificável à liberdade deles. Só a escravidão daria liberdade plena às pessoas. Imagine só.
Essa historinha ilumina bem o que temos hoje. Claro que quando essas pessoas falam em democracia e liberdade, estão pensando na liberdade DELAS fazerem o que quiserem, não importa as consequências que isso tenha para outras pessoas. Elas não querem que todos tenham os mesmos direitos. Estão preocupados só com a liberdade delas. Os outros que se danem. Ou seja: não entenderam NADA do que é democracia.
O primeiro é essa história de "coragem de dizer a verdade". Não sei se vocês notaram, mas tem uma vibe reaça super nojenta no ar. É tipo assim: faço algo super babaca e escroto humilhando oprimidos e ainda poso de "corajoso". Tipo fazer piada com mulheres estupradas e judeus executados em campo de concentração. Aplaudir quando pessoas lincham um negro pobre em plena luz do dia. Que "coragem" é preciso para isso? Desde quando atacar os oprimidos e derrotados e se colocar ao lado dos vencedores e opressores é um ato de coragem?
Isso nos leva ao segundo ponto, bem mais perigoso. O raciocínio que indiquei no parágrafo acima parte do pressuposto de que o mundo é dominado pela esquerda, pelos negros, pelos gays, etc. Eu sei, isso soa quase doentio, já que esses grupos são claramente oprimidos na nossa sociedade. Mas aí é que está: essas pessoas são tão babacas, tão escrotas, tão nojentas, que para elas os avanços (mesmo os menores deles) que esses grupos conseguiram, já parecem absolutamente intoleráveis. Tipo: um beijo gay em uma novela e pronto, vivemos numa ditadura gay em que é proibido ser hétero.
Chateia particularmente essas pessoas o fato de elas não poderem falar o que quiserem. Por elas, fariam piadinhas de negro, diriam que gays são perversões da natureza, que nordestino nasceu pra comer areia e morrer de sede, etc. Como não podem, imagine você, concluem que são as grandes oprimidas da sociedade. Vítimas cruéis de um mundo que deveria ser democrático. Mas não é. Não existe liberdade neste mundo cruel. Tadinhos de nós brancos, héteros, homens de classe média sulistas. Tudo é contra nós. Pelo menos temos a Sheherazade para dizer a verdade por nós... NÃO, PERA!
A questão toda é que, duzentos e tantos anos depois da Revolução Francesa e da Independência dos EUA essas pessoas ainda não entenderam minimamente o que é democracia. Desconheço qualquer pensador que tenha caracterizado a democracia como o sistema em que temos a liberdade de fazermos qualquer coisa que quisermos. Isso não existe. O nome disso não é democracia. É selvageria.
Na verdade os principais esforços dos criadores do liberalismo era exatamente: como garantir a liberdade sem cair na barbárie? Como um Estado poderia existir sem correr o risco de cair na tirania? Os melhores cérebros da época se dedicaram a essas delicadíssimas questões. Daí saiu o liberalismo político, regime sob o qual vivemos, gostemos disso ou não. Nele há uma espécie de contrato implícito: as leis colocam os limites à liberdade que a sociedade considera necessários, e o Estado garante seu cumprimento. Para além disso, somos livres para fazermos o que quisermos.
Ou seja, a criatura em questão não foi censurada. Ela perdeu seu emprego numa empresa privada, algo que acontece todos os dias. E é muito pouco, quase nada, perto do que ela fez. Ela cometeu um CRIME. Deveria estar respondendo na justiça por isso. Mas por incrível que pareça não falta quem ache que isso faz dela uma vítima. Pior ainda, talvez, acham que pessoas se mobilizarem para defender o que acreditam e lutarem para que ela seja punida pelo que fez é autoritarismo, quando isso nada mais é que um mecanismo clássico da democracia.
Incrível que a gente esteja conversando sobre isso em pleno 2014. Parece que estamos nos debates do século XIX, quando os fazendeiros achavam absurdo que quisesse tolher a liberdade deles de terem escravos. Sim, era exatamente dessa maneira. Por mais incrível que possa parecer, a abolição da escravidão era entendida por eles como um tolhimento injustificável à liberdade deles. Só a escravidão daria liberdade plena às pessoas. Imagine só.
Essa historinha ilumina bem o que temos hoje. Claro que quando essas pessoas falam em democracia e liberdade, estão pensando na liberdade DELAS fazerem o que quiserem, não importa as consequências que isso tenha para outras pessoas. Elas não querem que todos tenham os mesmos direitos. Estão preocupados só com a liberdade delas. Os outros que se danem. Ou seja: não entenderam NADA do que é democracia.
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