Até onde consigo distinguir, vejo três tipos diferentes de defensores da ditadura. O primeiro concorda com o discurso oficial do regime: o Brasil rumava para o comunismo e os militares nos salvaram desse triste destino a um preço relativamente baixo; os CRETINOS que acham o mesmo que o grupo anterior mas não têm coragem de assumir, então usam estratégias evasivas, tipo "ah mas os guerrilheiros também não eram lá essas coisas, né?"; finalmente os mais perigosos, aqueles que usam um argumento aparentemente despolitizado: no tempo da ditadura a vida era melhor.
Esse argumento é o mais perigoso por diversos motivos. Primeiro porque não tem o tom anacrônico do primeiro, que só fazia sentido no tempo da guerra fria. Segundo, traz implícito algo absolutamente perverso: "só teve problema quem mexia com política. quem só trabalhava estava bem". Como se "politizado" fosse sinônimo de vagabundagem, alcoolismo e promiscuidade, ao contrário dos trabalhadores decentes que acordam cedo todo dia. Mas talvez o pior de tudo seja a premissa de que se um governo é "bom", não importa que não haja democracia. A ideia de que a democracia é algo secundário é o tipo de coisa que me faz querer deitar e não levantar nunca mais.
Mas beleza, vejamos se a vida era boa naquela época.
Corrupção? Tinha à vontade. Halles, Coroa-Brastel, Capemi, diamantes do Abi-Ackel, o que não faltou foi escândalo de corrupção. Quem não sabe o que foram essas coisas, peça ajuda ao google, está tudo lá. Obviamente os inquéritos concluíam que não tinha acontecido nada (se fôssemos uma ditadura hoje o mesmo teria ocorrido com o mensalão), mas até onde sei, ditaduras são assim mesmo, né? Quantas pessoas você conhece que foram denunciadas por corrupção em ditaduras e foram parar em cana?
A economia ia bem? Hmmm, nos últimos anos tem ido muito bem também, né? Nos anos 50 também. Não precisa de ditadura para a economia ir bem. Mas será que a nossa foi essa glória toda nesse quesito? Bem, tivemos o milagre econômico. Mas ele durou apenas alguns anos, aproximadamente de 1969 a 1973, uma fração bem pequena da duração da ditadura. E há elementos a serem ponderados aí:
Pra começar, o Brasil vinha crescendo desde 1950 a uma média de 7% ao ano. Era a chamada "era de ouro do capitalismo". Todo mundo estava crescendo. O "milagre econômico" não foi nenhum ponto fora da curva. Na verdade foi apenas um aumento do crescimento verificado nos 20 anos anteriores. Causado pelo achatamento dos salários, que aumentou o lucro dos empresários, que tiveram mais capacidade de investimento. Essa a participação da ditadura no processo: silenciar os sindicatos e garantir que os salários se depreciassem. Por isso chamavam de "milagre": por não poderem dizer o real motivo do aumento do crescimento. Se você tem algum amigo economista, pergunte a ele se acredita em milagres na economia.
O legado da ditadura no campo econômico na verdade foi outro. Ao fim do regime o Brasil tinha uma inflação altíssima e uma dívida externa impossível de ser paga. Dois males que não existiam no dia 31 de março de 1964. Geisel e Figueiredo gastaram irresponsavelmente, inclusive em projetos esdrúxulos, como a Transamazônica, num cenário internacional completamente desafavorável, nos levando a isso. Resultado, em 1982 falimos, demos calote na dívida externa monumental que tínhamos e entregamos nossa soberania ao FMI para que eles nos salvasse. Isso porque os militares eram nacionalistas, claro.
Argumentam ainda que naquela época havia "ordem". Bem, havia guerrilhas no campo e na cidade, coisas que não existiam antes do regime. Havia um Estado que matava diretores de TV por não concordarem com suas atitudes (Vladimir Herzog), políticos que, por engano, eles achavam que era "perigoso" (Rubens Paiva, que a "inteligencia" militar concluiu erradamente ser um contato de Lamarca) ou quem só buscava justiça para o filho assassinado (Zuzu Angel). Isso é ordem em que planeta? O que tememos na violência urbana atual não é exatamente o medo de sermos atingidos por motivos aleatórios ou injustificáveis?
Sim, o caos urbano na época era menor que hoje. Mas era maior que nos anos 50. Que era maior que nos anos 20. Na verdade, esses problemas (violência, trânsito, etc.) não param de crescer. Por motivos estruturais. Como o modelo de desenvolvimento que escolhemos, e que os militares abraçaram com gosto: êxodo rural, explosão das cidades, carros em detrimento do transporte público, militarização do combate à pobreza, tudo isso está no nosso modelo, e aconteceu de forma acentuada no regime militar. Não foram os únicos culpados, mas ajudaram muito nisso. Não pense que quem vivia nos anos 70 se sentia tranquilo. Eu estava lá e me lembro muito bem: quem viveu aqueles anos se sentia inseguro. Pois não comparavam sua situação com a de hoje em dia (por motivos óbvios), mas com a dos anos 40 e 50, que na opinião dos adultos daquele tempo era bem melhor.
No fim eu encerro essa sequencia de posts sobre a ditadura. O tema é doloroso demais, e a data já passou. Mas fica uma pergunta: o que tivemos de bom nesse regime que não poderia ter sido conseguido numa democracia?
quinta-feira, 3 de abril de 2014
terça-feira, 1 de abril de 2014
50 anos do golpe. Ou: ando meio mal humorado
Muitos amigos tem reclamado do meu mal humor nos últimos dias. E eles têm razão. Estou mal humorado mesmo. Mas me desculpem: não me faltam razões para isso.
Vivemos um regime horroroso, de exceção. Liberdades suprimidas. Meu pai e meu tio, dois operários da Companhia Siderúrgica Nacional, foram presos em 1970. Nunca pegaram em armas. Não eram de nenhuma organização. Mas foram presos. Meu tio, arrimo de família desde os 15 anos, desde a morte do pai, ia trabalhar, e ficava um carro do exército na esquina da casa dele, matando de medo e terror suas seis irmãs (incluindo minha mãe), minha avó viuva e seu irmão menor. Todos em pânico que a qualquer momento a casa fosse invadida. Uma família vivendo um cotidiano de pânico e terror. Essas pessoas são minha família. Os conheço. Todos honestos, que acreditam em Deus, defendiam a liberdade, eram trabalhadores, ainda tentando se recuperar da morte precoce do meu avô. E eram perseguidos e aterrorizados pelos malditos representantes da ditadura. Bandos de filhos da puta. Miseráveis. Cretinos. Inferno é pouco pra essa gente.
Nasci em Porto Alegre, em 1972. Meu pai, minha mãe e meu tio não aguentaram mais o clima irrespirável, e foram buscar vida nova no sul do Brasil. Cresci de forma relativamente tranquila. Mas minha primeira lembrança de política é das eleições de 1978. Ninguém falava nada. Apareciam as fotos dos candidatos no horário eleitoral, e uma voz grave dizia seus nomes. Nada mais. Mais três anos, em 1981, estava na casa da minha avó e vi um programa eleitoral do PT. Lula criticava Delfim Neto e Ernane Galveas, responsáveis pela falência do Brasil no ano seguinte. Tremi de medo por imaginar que naquele momento o exército invadiria os estúdios da TV e o mataria. Um sentimento que nenhuma criança no universo deveria ter tido. Mas que eu tive. Afinal, cresci na ditadura. Todo dia cantava o hino nacional antes de assistir aula. Quem não cantasse tinha de decorar um monte de versículos da Bíblia para poder entrar em sala de aula. Tinha crescido naquele ambiente.
É uma história horrível, da qual nem tive coragem de contar as piores partes. Mas só o que relatei já fez gente que nunca viu ditadura cair no choro. Pense que para os padrões das ditaduras latino-americanas, essa história é suave. Nossa ditadura fez coisas infinitamente piores com outras famílias, e nem vamos falar do que houve na Argentina, no Chile, no Uruguai, no Paraguai, etc. O que contei é horrível mas é piada perto do que outros viveram naquela época. Nosso sofrimento é mais do que justo. Mas houve quem teve motivos ainda maiores para sentir.
Sinto muita raiva disso tudo. Um ressentimento que nunca vai passar. Ninguém no mundo tinha o direito de ter feito isso com minha família, que nunca fez mal a ninguém. Mas eu tenho uma grande diferença em relação ao que sinto na maioria dos que são contra isso também. Noto uma tendência a imputar toda a culpa aos militares. Aí eu discordo. Os militares prenderam, mataram, torturaram, estrupraram, fato. Mas e os outros?
E os empresários, que deram dinheiro e outros tipos de ajuda, lucraram fortunas incalculaveis com isso, e hoje posam de esteios da nação? E os veículos de imprensa, que hoje querem nos convencer que são baluartes da democracia mas que estavam ao lado dos que perpetravam essas barbaridades? E o filho da puta de classe média que achava bem feito que os comunistas (= qualquer um que eles não gostavam) saíssem de cena para sobrarem empregos? E os sindicalistas pelegos que foram colocados em lugares chave para impedir reclamações contra os enormes arrochos salariais do período e hoje estão aí, felizes da vida?
Por outro lado. E os favelados de hoje que são filhos do êxodo rural que a ditadura causou? E as gerações de crianças que tiveram uma educação de merda e foram submetidos em todos os seus anos formativos à ideia de que o que importava era ter religião e obedecer os donos do poder (sei exatamente como é, é a minha geração)? E as pessoas que perderam suas terras? E o monopolio dos meios de comunicação, que ainda nos causa tantos danos? E as pessoas que, movidas pela miséria, tiveram de abandonar a terra em que nasceram e em que seus ancestrais viviam, para virarem estatísticas da pobreza e violência urbana?
Minha família pagou um preço alto na ditadura. Outras pagaram ainda mais. Mas no fim das contas a maioria do Brasil se viu com uma conta altíssima nas mãos (nem falei da inflação e da dívida externa, isso fica pra outro dia). E os verdadeiros culpados estão todos aí. Não apenas os militares que fizeram o serviço sujo. Mas os que os apoiaram e se beneficiaram disso. Empresários, veículos de mídia, respeitaveis cidadãos de classe média cuja preocupação suprema era encher o tanque do seu fusca... todos aí. Enormes de gordos com a ditadura. Enquanto nosso país ainda paga por isso.
E ainda tem historiador formado, com doutorado e carreira consagrada, que acha que só guerrilheiros tiveram motivos para ter medo dos militares. O que de certa forma legitima a repressão ("só tinha medo quem aprontava") e deslegitima todas as outras experiências. Não é pra ficar mal humorado?
Vivemos um regime horroroso, de exceção. Liberdades suprimidas. Meu pai e meu tio, dois operários da Companhia Siderúrgica Nacional, foram presos em 1970. Nunca pegaram em armas. Não eram de nenhuma organização. Mas foram presos. Meu tio, arrimo de família desde os 15 anos, desde a morte do pai, ia trabalhar, e ficava um carro do exército na esquina da casa dele, matando de medo e terror suas seis irmãs (incluindo minha mãe), minha avó viuva e seu irmão menor. Todos em pânico que a qualquer momento a casa fosse invadida. Uma família vivendo um cotidiano de pânico e terror. Essas pessoas são minha família. Os conheço. Todos honestos, que acreditam em Deus, defendiam a liberdade, eram trabalhadores, ainda tentando se recuperar da morte precoce do meu avô. E eram perseguidos e aterrorizados pelos malditos representantes da ditadura. Bandos de filhos da puta. Miseráveis. Cretinos. Inferno é pouco pra essa gente.
Nasci em Porto Alegre, em 1972. Meu pai, minha mãe e meu tio não aguentaram mais o clima irrespirável, e foram buscar vida nova no sul do Brasil. Cresci de forma relativamente tranquila. Mas minha primeira lembrança de política é das eleições de 1978. Ninguém falava nada. Apareciam as fotos dos candidatos no horário eleitoral, e uma voz grave dizia seus nomes. Nada mais. Mais três anos, em 1981, estava na casa da minha avó e vi um programa eleitoral do PT. Lula criticava Delfim Neto e Ernane Galveas, responsáveis pela falência do Brasil no ano seguinte. Tremi de medo por imaginar que naquele momento o exército invadiria os estúdios da TV e o mataria. Um sentimento que nenhuma criança no universo deveria ter tido. Mas que eu tive. Afinal, cresci na ditadura. Todo dia cantava o hino nacional antes de assistir aula. Quem não cantasse tinha de decorar um monte de versículos da Bíblia para poder entrar em sala de aula. Tinha crescido naquele ambiente.
É uma história horrível, da qual nem tive coragem de contar as piores partes. Mas só o que relatei já fez gente que nunca viu ditadura cair no choro. Pense que para os padrões das ditaduras latino-americanas, essa história é suave. Nossa ditadura fez coisas infinitamente piores com outras famílias, e nem vamos falar do que houve na Argentina, no Chile, no Uruguai, no Paraguai, etc. O que contei é horrível mas é piada perto do que outros viveram naquela época. Nosso sofrimento é mais do que justo. Mas houve quem teve motivos ainda maiores para sentir.
Sinto muita raiva disso tudo. Um ressentimento que nunca vai passar. Ninguém no mundo tinha o direito de ter feito isso com minha família, que nunca fez mal a ninguém. Mas eu tenho uma grande diferença em relação ao que sinto na maioria dos que são contra isso também. Noto uma tendência a imputar toda a culpa aos militares. Aí eu discordo. Os militares prenderam, mataram, torturaram, estrupraram, fato. Mas e os outros?
E os empresários, que deram dinheiro e outros tipos de ajuda, lucraram fortunas incalculaveis com isso, e hoje posam de esteios da nação? E os veículos de imprensa, que hoje querem nos convencer que são baluartes da democracia mas que estavam ao lado dos que perpetravam essas barbaridades? E o filho da puta de classe média que achava bem feito que os comunistas (= qualquer um que eles não gostavam) saíssem de cena para sobrarem empregos? E os sindicalistas pelegos que foram colocados em lugares chave para impedir reclamações contra os enormes arrochos salariais do período e hoje estão aí, felizes da vida?
Por outro lado. E os favelados de hoje que são filhos do êxodo rural que a ditadura causou? E as gerações de crianças que tiveram uma educação de merda e foram submetidos em todos os seus anos formativos à ideia de que o que importava era ter religião e obedecer os donos do poder (sei exatamente como é, é a minha geração)? E as pessoas que perderam suas terras? E o monopolio dos meios de comunicação, que ainda nos causa tantos danos? E as pessoas que, movidas pela miséria, tiveram de abandonar a terra em que nasceram e em que seus ancestrais viviam, para virarem estatísticas da pobreza e violência urbana?
Minha família pagou um preço alto na ditadura. Outras pagaram ainda mais. Mas no fim das contas a maioria do Brasil se viu com uma conta altíssima nas mãos (nem falei da inflação e da dívida externa, isso fica pra outro dia). E os verdadeiros culpados estão todos aí. Não apenas os militares que fizeram o serviço sujo. Mas os que os apoiaram e se beneficiaram disso. Empresários, veículos de mídia, respeitaveis cidadãos de classe média cuja preocupação suprema era encher o tanque do seu fusca... todos aí. Enormes de gordos com a ditadura. Enquanto nosso país ainda paga por isso.
E ainda tem historiador formado, com doutorado e carreira consagrada, que acha que só guerrilheiros tiveram motivos para ter medo dos militares. O que de certa forma legitima a repressão ("só tinha medo quem aprontava") e deslegitima todas as outras experiências. Não é pra ficar mal humorado?
sábado, 29 de março de 2014
Um historiador consagrado fala sobre a ditadura
Este é um post que racionalmente eu sei que não deveria fazer. Mas há momentos na vida em que você simplesmente sabe que tem de fazer determinadas coisas. Profissionalmente eu sei que isso só pode me prejudicar. Também sei que estou dando voz a alguém que neste momento deveria ser ignorado, por mais importante que seja em sua área. Mas me perdoem. Há limite para tudo nesta vida.
Um historiador absolutamente excelente, chamado Ronaldo Vainfas, postou em sua página do facebook opiniões aterrorizantes sobre o regime militar. Na opinião dele, os historiadores e a mídia produzem relatos lamentáveis sobre o regime em questão. Dão voz a pessoas que invetam terem sido perseguidos. Faz os crimes da ditadura parecerem pequenos perto do nazi-fascismo. Diz que não existia censura ("censura zero", segundo ele, que só existia entre os historiadores "esquerdizantes, ignorantes", todos professando um marxismo esquemático (ele não se dá ao trabalho de explicar o que é isso). Lamenta a "bolsa-ditadura" que muitos desfrutam hoje, segundo ele, destinadas a "falsos perseguidos". E por aí vai.
Começo lamentando o silêncio de meus colegas sobre isso. Não de todos, mas da maioria deles. É um historiador muito importante na área de Colônia (com toda a justiça), tem trabalhos ótimos na área de historiografia e metodologia. Mas me dói ver pessoas que respeito imensamente, muitos dos quais são meus amigos, silenciarem sobre o assunto. Em parte por corporativismo. Provavelmente também por medo de afrontar uma estrelinha rodeada de puxa-sacos dispostos a aplaudir qualquer lixo que ele diga.
Não é que eu tenha discordâncias ideológicas com o texto em questão. Fosse isso e este post nem existiria. Por mais que eu discorde, por mais que eu odeie os defensores do regime, eu acho que é possível debater. Eles acham que havia a ameaça real de um golpe comunista, e que estávamos em guerra contra essa ameaça. Discordo do início ao fim. Acho que estão completamente errados. Mas há possibilidades de conversar sobre o assunto em termos aceitáveis.
Mas o que o texto do historiador em questão propõe não é isso. Ele não discute minimamente o contexto. Não coloca em questão a violência do regime. O inimigo dele são os opositores do regime. Que ele não qualifica de comunistas, de violentos ou de equivocados. Ele simplesmente diz que eram pessoas que não tinham motivo para ter medo de nada, que inventam sofrimentos que viveram e que hoje se refastelam nas "bolsas-ditadura".
Bolsonaro também diz isso. Tudo bem. Mas no caso é um HISTORIADOR. E dos melhores que temos. Falando como se Vladimir Herzog não tivesse sido assassinado sem ser nenhum guerrilheiro, sendo apenas o diretor da TV Cultura. Argumentando que no auge das violações dos direitos humanos, todos pudessem ter certeza que bastava não ser militante da guerrilha que não havia nada a temer. O argumento é baseado apenas num item: ele era estudante da UFF na época e não viu motivo para sentir medo.
Caro Vainfas. Na minha família ninguém nunca pegou em armas. Eram trabalhadores tentando sobreviver. Mas vários enfrentaram a prisão ou a perseguição, inclusive o meu pai. Mas a questão nem é essa. Se tivessem pego em armas estariam certos também. Essa geração está lotada de pessoas que correram riscos enormes pelo que acreditavam. Ponto enorme, monumental para ela. Se você, como estudante, não teve medo, não ache que quem sentiu isso está mentindo. Morreu muita gente que não era guerrilheira: Herzog, Rubens Paiva e tantos outros. Você deve saber disso. Se sabe, é um cretino ao desenvolver esse argumento. Se não sabe, é um ignorante.
Vamos ao ponto seguinte. Segundo o historiador, não havia censura no Brasil. "censura zero", diz ele. Segundo Vainfas, a censura era privilégio da esquerda. Bem, estamos falando de uma ditadura de direita, num momento (ele fala dos anos 70) no qual a guerrilha de esquerda havia sido desbaratada, mas mesmo assim fala como se Stalin fosse o dono do poder de permitir o que poderia ser dito no Brasil. Melhor não discutir.
Chegamos ao dia de hoje. Na opinião do historiador, seus colegas e a imprensa fazem uma leitura lamentável do que aconteceu naqueles anos. E aí chegamos à grande questão. Há mais de 20 anos o Brasil é governado por pessoas que se criaram politicamente na oposição à ditadura: Itamar, FHC, Lula e Dilma. Todos tinham (e têm) defensores do regime como aliados, e nunca tiveram coragem de meter de fato o dedo na ferida.
Mas a questão é que, ao menos entre historiadores e jornalistas, reina o consenso de que a ditadura foi um lixo. Matou, torturou e exilou pessoas. Condenou inumeráveis famílias ao sofrimento. O professor Vainfas fica enojado com isso. Acha que é juiz do sofrimento alheio. Age como se tivesse o poder divino de decidir quem tem o direito de se considerar atacado. Contraria barbaramente, sem nenhuma cerimônia, algo que aprendemos no primeiro semestre de graduação: historiadores não são juízes do passado. Com o aplauso dos puxa-sacos e a conivência silenciosa dos que são progressistas mas não querem problemas com um historiador conhecido. "Vai que um dia eu preciso dele" usado como justificativa para o silêncio frente a um tema tão caro.
O Brasil segue tendo milhões de problemas e defeitos. Mas ter tanta gente rejeitando a ditadura NÃO é um deles. Por mais triste que seja, que o professor Vainfas se junte a gente como Danilo Gentili e Rafinha Bastos. O planeta do "posso falar merda a vontade, se me questionarem digo que estou indo contra a ideologia oficial e pronto". Que não tenhamos mais espaço para gente assim, para além dos minúsculos círculos dos reaças empedernidos.
quinta-feira, 27 de março de 2014
Mujica e Cristina, Deus e Diabo
Estive recentemente na Argentina, onde me dei conta de uma coisa curiosa. No nosso Brasil em que direita e esquerda se peleiam por temas que sequer estavam na nossa agenda até recentemente (Ucrânia, por exemplo), há duas raras unanimidades. Não importa a coloração política, os brasileiros amam Pepe Mujica e detestam Cristina Kirchner. De um lado, o vovô bonzinho que prega uma vida simples, doa 90% do salário para a caridade e legalizou a maconha. De outro, a velha louca que arruinou seu país e só virou presidente por causa do marido.
Eu não diria que essas percepções são idiotas, mas de fato estão muito descontextualizadas. O caso uruguaio é mais gritante. Conheço pessoas que chamam Dilma de terrorista e comunista e morrem de amores por Mujica, ex-líder dos Tupamaros, um dos mais ousados grupos guerrilheiros do continente (na verdade ele nem foi preso pela ditadura, já estava em cana no ano anterior, em função dos atos de seu grupo, e ficou por lá até a redemocratização).
A idolatria brazuca por Mujica é descontextualizada porque passa por cima do contexto local. O Uruguai historicamente é um país mais laico e liberal nos costumes que seus vizinhos. Um amigo diz, sem estar longe da verdade, que o país é uma espécie de Holanda sul-americana. Sua política para as drogas, aborto e homossexualismo nunca enfrentou a cerrada oposição que algum presidente brasileiro sofreria da bancada evangélica, algo que não existe por lá. Claro que houve oposição, mas de uma natureza bem distinta do argumento bíblico. Colocar em prática essas políticas lá não tem nada a ver com o que aconteceria por aqui.
A questão da vida simples, do fusca velho e a doação do salário OBVIAMENTE tem muito mais a ver com um discurso moralista brazuca, que vê corrupção por todos os lados, do que com Mujica. Achar o presidente oriental o máximo por isso é dizer FORA SARNEY com outras palavras. O Uruguai é um país de 3 milhões de habitantes, em que não é raro cruzar com pessoas nacionalmente famosas nas ruas. Tudo é mais simples, e os políticos locais, na média, tem uma vida bem menos ostentatória e suntuosa que os nossos. Mujica é, no máximo, uma radicalização de um comportamento local.
Achar que Cristina é uma velha louca evidentemente tem a ver com o desconhecimento sobre a trajetória histórica da Argentina. Trata-se de um país que tem um longuíssimo histórico de radicalização política. Os argentinos não temem o confronto, e isso se manifesta em todos os aspectos da vida das pessoas. É um país altamente politizado, e o tema invade os debates sobre praticamente todos os temas. Cristina Kirchner é fruto legítimo da cultura política local.
E, claro, também há a campanha furiosa da imprensa brasileira contra ela por causa da Ley de Medios, que regulamenta o mercado de mídia. Com medo de uma lei dessas no Brasil, que feriria o monopólio que temos por aqui, nossa imprensa orquestrou um cerrado discurso de que a lei fere a liberdade de expressão e caracteriza uma ditadura. Quando nada mais é uma regulamentação. Você conhece algum setor não regulamentado que funcione bem para o consumidor? Está feliz com sua operadora de telefonia celular, por exemplo? Pois é...
Mujica e Cristina são basicamente versões locais do governo petista, em ambos os casos traduzidos pela cultura política local. Nada mais que isso. CFK soaria como louca na cultura política brasileira, marcada pela busca do consenso e em que tudo é negociável, mas nada como um peixe na cultura política argentina. Pode parecer radical ao ter enfrentado interesses de grupos de mídia que governo brasileiro algum enfrentaria, mas na cultura política confrontativa da Argentina isso não tem nada de excepcional.
Mujica não é um herói. Executou reformas liberais no campo do comportamento, um campo em que o Uruguai é historicamente mais liberal que o Brasil. Não me lembro, aliás, de ouvir de qualquer amigo defensor do governo, que sua vida simples é uma grande virtude. Isso chama muito mais a atenção dos brasileiros que dos uruguaios. Quem quiser gritar Fora Sarney ou Abaixo os Mensaleiros grite essas coisas, mas não grite Viva Mujica. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
segunda-feira, 10 de março de 2014
A oposição que o governo AMA
Nos anos 1980 eu vivia no interior do estado do Rio de Janeiro. Era uma época politicamente muito agitada. A ditadura estava em seus últimos suspiros, morreu, veio o pavoroso governo Sarney. Mal nos aguentávamos de vontade de finalmente votar para presidente. E no campo da esquerda o que era união contra a ditadura começou a se transformar em aberta divisão na luta para construir uma candidatura vitoriosa em 1989.
Eu vivia em um viveiro brizolista. Se o estado do Rio votou maciçamente em Brizola em 1989 (coisa de 50% dos votos válidos), em Volta Redonda era ainda pior. Tínhamos um sindicato dos metalúrgicos fortíssimo, nacionalmente conhecido pela sua combatividade, e comandado pelo deputado Juarez Antunes do PDT. Passávamos raiva de ver o pessoal do PT criticando o brizolismo pelo personalismo e pela facilidade em tecer alianças questionáveis (o que, pensando bem, é engraçado quando vemos onde o PT foi parar).
Nossa resposta era colar na testa do PT o lema "a esquerda que a direita gosta". O argumento era o seguinte. O PT era um partido sem viabilidade eleitoral. Mas com seu discurso radical, servia para unir a direita contra ele. Ou seja: era um partido que nunca ganharia eleições, e só servia como espantalho para a grande mídia assustar o eleitorado, empurrando-o para os conservadores (a longo prazo, o argumento se mostrou tão falho como o anterior. a história é a rainha da ironia).
Hoje temos a oposição que o governo gosta. Na verdade é mais do que isso. O Brasil tem uma oposição inteira que parece trabalhar pela reeleição de Dilma. Afinal, pensemos. Nas últimas três eleições os candidatos do PT tiveram algo como 45% dos votos no 1o turno e 55% no 2o. Assim, é óbvio que a oposição não tem escapatória: precisa roubar votos que vêm sido dados ao governo desde 2002. Matemática básica.
Mas o que a oposição faz para conseguir isso? Nada. Segue batendo nos mesmos temas de sempre: corrupção, necessidade de diminuir o tamanho do Estado, críticas ao que vê como demagogia do governo, associar o PT à Cuba e ao comunismo, coisas assim. Ou seja: o mesmo que não colou em 2002, 2006 e 2010 será oferecido novamente. A única mudança é que o tom é cada vez mais nervoso e histérico. O que adiantaria muito se cada pessoa pudesse votar quantas vezes quisesse, a depender de sua vontade. Aí sim: os eleitores da oposição, cada dia mais indignados com essa avalanche de ódio, votariam 1 milhão de vezes cada um e Aécio seria eleito. Infelizmente para eles, não é assim.
(parêntesis: essa escalada histérica no debate político não é privilégio da oposição. o governo faz exatamente o mesmo. falei da oposição no parágrafo anterior porque: 1) ela é o tema do post; 2) é ela quem precisa encontrar um novo discurso; o governo já tem o dele, o mesmo que funcionou nas últimas três disputas)
Na verdade ninguém resumiu melhor o problema da oposição do que um velho amigo meu, tucano desde que o PSDB existe: "enquanto a oposição fizer campanha pensando em 1% da população, o PT não vai sair do poder". É bem por aí. Moro em Pernambuco, um estado que deu a Dilma 77% dos votos no 2o turno em 2010. E não vejo nenhum dos temas que a oposição tanto ama explorar sequer fazer cócegas no eleitorado do estado. Simplesmente não diz respeito a eles.
Corrupção? Qualquer idiota sabe que todos os partidos são iguais nesse quesito. Impostos altos? Em um país com tanta pobreza, quem liga para isso, se essas pessoas que mais precisam consideram que suas vidas melhoraram neste governo? Comunismo? Fora os leitores da Veja, quem liga pra isso em 2014? Diminuir o tamanho do Estado? Bem, boa sorte em convencer as classes D e E de que isso é bom para elas.
Um par de meses atrás ouvi um tucano dizendo: "o Haddad aumentou o IPTU dos ricos, e os pobres é que pagam. as lojas dos bairros ricos estão demitindo seus funcionários". Numa frase, a explicitação total da distância entre o discurso oposicionista e o Brasil. Afinal: 1) presume que a política fiscal da maior cidade do país deva ser guiada pelos interesses dos lojistas de classe alta; 2) seguindo o raciocínio, se nas áreas onde o IPTU subiu houve demissões (claro que não há dados dizendo isso, mas sigamos o raciocínio), então nas áreas pobres onde o IPTU diminuiu deveria haver contratações que as compensassem, certo? Não, na cabeça deles pobre não contrata. Só existem empreendedores nos Jardins e a função do governo é ajudá-los para que o Brasil cresça. Boa sorte tentando convencer moradores da periferia das grandes cidades e dos rincões do país de que a vida é assim.
PS: me antecipo dizendo que este não é um post governista falando mal da oposição. se eu fosse tucano o escreveria sem mudar uma vírgula. trato aqui da estratégia e da postura da oposição. e, como democrata que sou (e pra mim isso está acima de preferências político-partidárias), lamento que seja assim. Primeiro porque quanto mais o governo ganhar eleições com facilidade, menos se sentirá cobrado pela sociedade. Em segundo, porque democracia precisa de oposição e alternância de poder. Mas com essa oposição que está aí, esqueçamos isso tudo.
Eu vivia em um viveiro brizolista. Se o estado do Rio votou maciçamente em Brizola em 1989 (coisa de 50% dos votos válidos), em Volta Redonda era ainda pior. Tínhamos um sindicato dos metalúrgicos fortíssimo, nacionalmente conhecido pela sua combatividade, e comandado pelo deputado Juarez Antunes do PDT. Passávamos raiva de ver o pessoal do PT criticando o brizolismo pelo personalismo e pela facilidade em tecer alianças questionáveis (o que, pensando bem, é engraçado quando vemos onde o PT foi parar).
Nossa resposta era colar na testa do PT o lema "a esquerda que a direita gosta". O argumento era o seguinte. O PT era um partido sem viabilidade eleitoral. Mas com seu discurso radical, servia para unir a direita contra ele. Ou seja: era um partido que nunca ganharia eleições, e só servia como espantalho para a grande mídia assustar o eleitorado, empurrando-o para os conservadores (a longo prazo, o argumento se mostrou tão falho como o anterior. a história é a rainha da ironia).
Hoje temos a oposição que o governo gosta. Na verdade é mais do que isso. O Brasil tem uma oposição inteira que parece trabalhar pela reeleição de Dilma. Afinal, pensemos. Nas últimas três eleições os candidatos do PT tiveram algo como 45% dos votos no 1o turno e 55% no 2o. Assim, é óbvio que a oposição não tem escapatória: precisa roubar votos que vêm sido dados ao governo desde 2002. Matemática básica.
Mas o que a oposição faz para conseguir isso? Nada. Segue batendo nos mesmos temas de sempre: corrupção, necessidade de diminuir o tamanho do Estado, críticas ao que vê como demagogia do governo, associar o PT à Cuba e ao comunismo, coisas assim. Ou seja: o mesmo que não colou em 2002, 2006 e 2010 será oferecido novamente. A única mudança é que o tom é cada vez mais nervoso e histérico. O que adiantaria muito se cada pessoa pudesse votar quantas vezes quisesse, a depender de sua vontade. Aí sim: os eleitores da oposição, cada dia mais indignados com essa avalanche de ódio, votariam 1 milhão de vezes cada um e Aécio seria eleito. Infelizmente para eles, não é assim.
(parêntesis: essa escalada histérica no debate político não é privilégio da oposição. o governo faz exatamente o mesmo. falei da oposição no parágrafo anterior porque: 1) ela é o tema do post; 2) é ela quem precisa encontrar um novo discurso; o governo já tem o dele, o mesmo que funcionou nas últimas três disputas)
Na verdade ninguém resumiu melhor o problema da oposição do que um velho amigo meu, tucano desde que o PSDB existe: "enquanto a oposição fizer campanha pensando em 1% da população, o PT não vai sair do poder". É bem por aí. Moro em Pernambuco, um estado que deu a Dilma 77% dos votos no 2o turno em 2010. E não vejo nenhum dos temas que a oposição tanto ama explorar sequer fazer cócegas no eleitorado do estado. Simplesmente não diz respeito a eles.
Corrupção? Qualquer idiota sabe que todos os partidos são iguais nesse quesito. Impostos altos? Em um país com tanta pobreza, quem liga para isso, se essas pessoas que mais precisam consideram que suas vidas melhoraram neste governo? Comunismo? Fora os leitores da Veja, quem liga pra isso em 2014? Diminuir o tamanho do Estado? Bem, boa sorte em convencer as classes D e E de que isso é bom para elas.
Um par de meses atrás ouvi um tucano dizendo: "o Haddad aumentou o IPTU dos ricos, e os pobres é que pagam. as lojas dos bairros ricos estão demitindo seus funcionários". Numa frase, a explicitação total da distância entre o discurso oposicionista e o Brasil. Afinal: 1) presume que a política fiscal da maior cidade do país deva ser guiada pelos interesses dos lojistas de classe alta; 2) seguindo o raciocínio, se nas áreas onde o IPTU subiu houve demissões (claro que não há dados dizendo isso, mas sigamos o raciocínio), então nas áreas pobres onde o IPTU diminuiu deveria haver contratações que as compensassem, certo? Não, na cabeça deles pobre não contrata. Só existem empreendedores nos Jardins e a função do governo é ajudá-los para que o Brasil cresça. Boa sorte tentando convencer moradores da periferia das grandes cidades e dos rincões do país de que a vida é assim.
PS: me antecipo dizendo que este não é um post governista falando mal da oposição. se eu fosse tucano o escreveria sem mudar uma vírgula. trato aqui da estratégia e da postura da oposição. e, como democrata que sou (e pra mim isso está acima de preferências político-partidárias), lamento que seja assim. Primeiro porque quanto mais o governo ganhar eleições com facilidade, menos se sentirá cobrado pela sociedade. Em segundo, porque democracia precisa de oposição e alternância de poder. Mas com essa oposição que está aí, esqueçamos isso tudo.
segunda-feira, 3 de março de 2014
Agora é a Ucrânia
A bola da vez é a Ucrânia. Depois de a Venezuela passar um tempo no centro das atenções de todo mundo, despertando opiniões definitivas e absolutamente radicalizadas da parte de um bando de gente que não sabe nada sobre o assunto (inclusive eu), agora a bola está com os ucranianos. E se a gente não sabe grande coisa sobre a Venezuela, imagine a Ucrânia. Mas as opiniões definitivas seguem aí: na TV, nos jornais, nos blogs, no facebook...
Pelo que vejo, a opinião predominante é favorável à derrubada do governo. O que em si já é tristemente surpreendente. Mostra o quanto a democracia não é levada muito a sério pela humanidade. Por que diabos tanta gente comemora a derrubada de um governo de um país distante e desconhecido, com língua inacessível e sobre o qual se sabe tão pouco? Só isso já me cheira mal. Mas enfim, vamos tentar pensar com alguma lógica, já que não temos muitas informações.
Pra começar, é notório que a figura detestável de Vladimir Putin funciona como um grande espantalho nos argumentos favoráveis à derrubada do governo. Não conhecemos o governo anterior, mas ele era apoiado por Putin. Que é um cretino. Logo, o governo deve ser uma droga. Melhor comemorar a vitória de um movimento com apoio norte-americano e europeu, pois são governos democráticos. Mas será que é assim que funciona?
LÓGICO que não. Em 1964 um governo democraticamente eleito no Brasil foi derrubado para ser substituído por uma tenebrosa ditadura. Com apoio dos EUA, um país democrático, e contra os desejos da URSS, uma ditadura. O mesmo aconteceu no Chile em 1973. A contradição só existe para quem acha que países formulam políticas externas a partir de boas intenções. Cada um apóia o que vai lhe favorecer. Imagino que pouco importa a Putin que diabos seja o governo ucraniano, desde que atenda a seus interesses. O mesmo valendo para Obama e a União Européia.
A lógica do espantalho fica definitivamente comprometida quando nos lembramos de algo absolutamente óbvio. Putin não era o governante da Ucrânia. Quem governava o país era um sujeito sobre o qual nada sabemos, e tenho certeza que nem o nome dele você sabe (eu não sei). Quem governa agora não é Obama nem Merkel, mas outro sujeito sobre o qual nem eu nem você sabemos nada (não menos importante: você acha mesmo que Obama e Merkel são "selos de qualidade"?). De novo vale lembrar: em 1964 o Brasil não saiu das mãos de Kruschev para as de Lyndon Johnson, mas de um presidente constitucional para um ditador.
Nisso tudo entra mais um componente muito estranho. A ideia de que Putin é o único agindo em interesse próprio na história. Ora, claro que ele está agindo no interesse russo e que se dane pra ele como ficarão os ucranianos. Mas sério, amigos: vocês acham MESMO que EUA e UE estão envolvidos nisso por motivos diferentes dos dele? Que Merkel e Obama se importam minimamente com a Ucrania? Claro que eles estão no mesmo jogo de Putin. Defendendo o que acreditam ser seus interesses.
E há um ponto a mais, que chega a ser surreal: os resquícios de guerra fria envolvidos na situação. Afinal, EUA e Russia estão de lados opostos novamente. Aí é como se um piloto automático fosse acionado, e a direita entrasse um clima "1964 forever", e apoiasse algo que mal sabe o que é só pra impedir que os russos (aqueles traiçoeiros que comem criancinhas) botassem as mãos no tesouro.
Não sabemos nada sobre a Ucrânia, é um país distante, com língua que ninguém que conheço saiba falar, com uma história peculiar, cenário político bastante complexo, divisões étnicas e linguísticas evidentes. Não dá pra ficar formando opiniões definitivas sobre o assunto a partir de algum "oráculo" que dá entrevistas como "especialista" no assunto mas que pode estar a serviço de interesses que desconhecemos. Não dá pra entrar num clima de Fla-Flu num cenário tão multifacetado a partir de tão poucas informações.
Quem quiser arriscar fique a vontade. Mas saiba que pode se dar conta que ficou superfeliz por comemorar um golpe de estado que colocou fascistas no poder. Ou que defende um governo de tons autoritários. Os riscos são muitos para quem entende, ainda mais para nós, que não somos do ramo. Melhor observar atentamente, ter cautela e resistir às certezas.
sábado, 1 de março de 2014
Justiça com as próprias mãos: quem é o ingênuo nessa história?
Se você é contra a lógica do "bandido bom é bandido morto", certamente está cansado de ser chamado de ingênuo. Os defensores do "olho por olho, dente por dente", cada dia mais visíveis, acham que a gente defende "direitos humanos para bandidos", perguntam, cheios de arrogância, "onde estão os defensores dos direitos humanos quando um trabalhador é assassinado?" e terminam concluindo que somos pobres ingênuos.
Trata-se de um discurso muito fácil: sempre existiu e se cristalizou no filme Tropa de Elite, que nos pinta como um bando de riquinhos retardados que não sabem o que é a "vida real" (seja lá o que isso signifique). Bem, não é que eu defenda "direitos humanos para bandidos". Eu sou um democrata. Acho que todos tem os mesmos direitos. Isso inclui os criminosos. Se vivermos numa sociedade que acha que a lei não é importante, estamos à beira do caos. E é exatamente o que essas pessoas querem. Que a lei só valha para alguns.
Mas claro que essas pessoas não pensam em nada disso. Elas são movidas por um desejo absolutamente primitivo e irracional de vingança. Quem se lembra da lei quando o sangue ferve e você só quer que o outro pague na mesma moeda pelo que fez? Eu entendo. Tive um primo maravilhoso que nunca fez mal a ninguém assassinado barbaramente às vésperas de completar 24 anos, com uma vida toda pela frente. Passei semanas tomado pelo desejo de matar os caras. Até me dar conta: eu podia matar um milhão de pessoas. Meu primo não ia voltar. O desejo de vingança passou.
Mas aceitemos, apenas para efeito de raciocínio, essa lógica. Ok, Bolsonaro se elege presidente e garante que a justiça nunca recairá sobre aqueles que matarem criminosos. O que aconteceria? Bem, eu não ia matar ninguém. Nem você. A vida é dura demais, trabalhamos muito, temos gente pra cuidar, mal conseguimos passar algum tempo com as pessoas que amamos. Não íamos sair por aí trocando tiros com criminosos nas nossas horas vagas, certo?
E quem faria isso? Pessoas acostumadas a isso. Policiais desonestos, outros criminosos (exatamente o tipo de gente que amarrou aquele rapaz no poste). Rapidamente se formariam grupos dessas pessoas, especializados em matar "bandidos". Todo esse pessoal que gosta disso aplaudiria, acharia o máximo. Mas claro que essas pessoas não fariam isso pelo bem da sociedade. Fariam para ter alguma vantagem. Matariam o cara que estuprou uma garota de 12 anos, seriam idolatrados e correriam uma sacolinha "para ajudar a gente a garantir a segurança de voces".
Aí vocês já sabem onde isso termina. A matança cresceria, os critérios pareceriam menos e menos razoáveis, até chegar ao ponto em que até aquela apresentadora do SBT desconfiaria profundamente que na verdade os caras estão matando por interesse próprio, incluindo pessoas de ficha impecável. Mas você teria de continuar dando dinheiro assim mesmo, com medo de ser o próximo. Os caras ficariam mais e mais poderosos, diversificariam seus negócios e virariam mafiosos que reinariam em suas comunidades.
Em suma, meu simpático amigo defensor do assassinato de "bandidos perigosos", você está simplesmente dando o primeiro passo para ter uma milícia controlando a sua vida. Quem é o ingênuo agora?
Trata-se de um discurso muito fácil: sempre existiu e se cristalizou no filme Tropa de Elite, que nos pinta como um bando de riquinhos retardados que não sabem o que é a "vida real" (seja lá o que isso signifique). Bem, não é que eu defenda "direitos humanos para bandidos". Eu sou um democrata. Acho que todos tem os mesmos direitos. Isso inclui os criminosos. Se vivermos numa sociedade que acha que a lei não é importante, estamos à beira do caos. E é exatamente o que essas pessoas querem. Que a lei só valha para alguns.
Mas claro que essas pessoas não pensam em nada disso. Elas são movidas por um desejo absolutamente primitivo e irracional de vingança. Quem se lembra da lei quando o sangue ferve e você só quer que o outro pague na mesma moeda pelo que fez? Eu entendo. Tive um primo maravilhoso que nunca fez mal a ninguém assassinado barbaramente às vésperas de completar 24 anos, com uma vida toda pela frente. Passei semanas tomado pelo desejo de matar os caras. Até me dar conta: eu podia matar um milhão de pessoas. Meu primo não ia voltar. O desejo de vingança passou.
Mas aceitemos, apenas para efeito de raciocínio, essa lógica. Ok, Bolsonaro se elege presidente e garante que a justiça nunca recairá sobre aqueles que matarem criminosos. O que aconteceria? Bem, eu não ia matar ninguém. Nem você. A vida é dura demais, trabalhamos muito, temos gente pra cuidar, mal conseguimos passar algum tempo com as pessoas que amamos. Não íamos sair por aí trocando tiros com criminosos nas nossas horas vagas, certo?
E quem faria isso? Pessoas acostumadas a isso. Policiais desonestos, outros criminosos (exatamente o tipo de gente que amarrou aquele rapaz no poste). Rapidamente se formariam grupos dessas pessoas, especializados em matar "bandidos". Todo esse pessoal que gosta disso aplaudiria, acharia o máximo. Mas claro que essas pessoas não fariam isso pelo bem da sociedade. Fariam para ter alguma vantagem. Matariam o cara que estuprou uma garota de 12 anos, seriam idolatrados e correriam uma sacolinha "para ajudar a gente a garantir a segurança de voces".
Aí vocês já sabem onde isso termina. A matança cresceria, os critérios pareceriam menos e menos razoáveis, até chegar ao ponto em que até aquela apresentadora do SBT desconfiaria profundamente que na verdade os caras estão matando por interesse próprio, incluindo pessoas de ficha impecável. Mas você teria de continuar dando dinheiro assim mesmo, com medo de ser o próximo. Os caras ficariam mais e mais poderosos, diversificariam seus negócios e virariam mafiosos que reinariam em suas comunidades.
Em suma, meu simpático amigo defensor do assassinato de "bandidos perigosos", você está simplesmente dando o primeiro passo para ter uma milícia controlando a sua vida. Quem é o ingênuo agora?
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