domingo, 26 de fevereiro de 2012

Serra e 2014



Eleição municipal é uma espécie de campeonato estadual da política. Faz muita diferença para quem vive no lugar, mas não mexe quase nada no cenário mais amplo. Só serve mesmo para os oráculos da "análise política" da nossa imprensa fazerem previsões desastradas a partir do resultado dessas eleições. Me lembro que em 2008 li vários desses "jênios" decretando o fim de Geraldo Alckmin, que nem havia ido para o 2o turno das eleições paulistanas. Dois anos depois o mesmo Alckmin venceria as eleições para o estado de SP no primeiro turno.
Só que desta vez essa eleição pode ter alguma relevância para o cenário mais amplo: se Serra disputar e vencer as eleições para a prefeitura paulistana ficará fora das eleições de 2014. Ao menos que seja muitíssimo cara de pau. Afinal, em 2004 se elegeu assinando até documento se comprometendo a ficar até o fim, mas rasgou a promessa para se candidatar ao governo paulista 2 anos depois. Se for candidato agora terá de jurar um trilhão de vezes que desta vez não vai sair, e ficará horrorosamente mal se isso acontecer.
Os tucanos do Oiapoque ao Chuí rezam por essa candidatura. A verdade é que ninguém mais aguenta Serra dentro do partido. Sua liderança é autoritária, e utiliza métodos que incluem chantagem e intimidação. Não aceita nenhuma crítica de ninguém, nem opositores, os quais ataca com violência absurda. Assim, se disputar a eleição e vencer, todos julgam que ficarão livres dele, já que só poderia se candidatar a presidente em 2018, quando já terá 76 anos e talvez nem seja um candidato viável.
A grande verdade é que Serra foi absolutamente danoso para o PSDB. Se eu fosse tucano odiaria ele profundamente. Suas candidaturas presidenciais não buscaram defender seu partido, mas apenas seus projetos pessoais. Em 2002 escondeu FHC, seu grande aliado, temendo que a baixa popularidade do então presidente o contaminasse. Em 2010 tentou até se mostrar como o que melhor continuaria o maravilhoso governo de Lula, depois partiu para o ataque mais baixo contra a rival e terminou fazendo uma demagogia absurda, propondo coisas que jamais faria, como aumentar muito o salário mínimo. Em suma, nessas eleições pensou apenas nele, e não em seu partido. E os tucanos sentiram isso.
O PSDB sabe que terá uma situação complicada em 2014. Até agora Dilma tem conseguido manter altos níveis de popularidade, apesar dos ataques diários da imprensa. Aécio Neves, eleito como novo chefe do partido, tem adotado uma estratégia que não ajuda muito. Procura manter diálogo com os governistas, evitando o confronto, para tentar atrair setores da aliança governista para seu lado em 2014, caso a reeleição de Dilma esteja ameaçada. Mas como até agora Dilma vai bem, essa estratégia significou que o partido não confronta o governo e nem atrai os aliados dele.
Mas o partido não importa. Seja Alckmin ou Aécio o candidato em 2014, o que ninguém quer é Serra. Que deve ganhar as eleições paulistanas, já que o eleitor de lá não parece disposto a mudar, gosta de Serra e Lula está longe de ser muito popular na paulicéia, o que dificulta a tentativa de eleger um poste. Pra fechar o quadro, Serra terá toda a máquina estadual e municipal à sua disposição. É favoritíssimo. Se sua vitória se consolidar, é provável que o Brasil e o PSDB se livrem de vez desse nefasto. Apenas os paulistanos terão de o aturar, mas sem reclamar, já que por escolha própria.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Gente fina é outra coisa



O vídeo acima é uma das coisas mais inacreditáveis que já vi na vida. Nele, Boris Casoy culpa Lula pela morte da dona da Daslu. Sim, ela morreu de câncer. Mas o argumento é o seguinte: para desviar a atenção do mensalão, Lula mandou prender a pobre empresária, e isso a deixou tão tristinha que acabou morrendo.
Bem, claro que há algo de cômico nisso tudo. Afinal, até onde eu sei, não há indícios de que humilhação cause câncer. Se causasse, todos os lixeiros do Brasil teriam morrido depois que o mesmo jornalista se expressou de forma tão preconceituosa em relação a eles.
Naturalmente que um aspecto muito explorado pelos defensores do governo é a absurda parcialidade política do comentário acima. Afinal, não foi o Lula quem prendeu a referida empresária. Foi uma investigação da Polícia Federal em vários estados, autorizada pela Justiça e com participação do Ministério Público. Casoy faz o pobre telespectador ignorante achar que Lula telefonou a alguém e disse "prenda a fulana pra mim, por favor?". E não foi assim MESMO. A maracutaia foi comprovada. Mas o vilão da história é Lula, claro.
No entanto o que me incomoda mais é outra coisa. Para Casoy e uma parte imensa da mídia, a empresária é quase uma santa. Todos estão lamentando a morte dela. Isso porque ela foi condenada a quase CEM ANOS de prisão por uma cacetada de crimes. O melhor dos argumentos é "ela dava emprego às pessoas". Criminoso elogiado por empregar pessoas? Vamos elogiar os traficantes de drogas então?
Bem, claro que há um elemento de classe aí. A dona da Daslu era gente boa. Vivia na alta sociedade, circulava entre os milionários, vendia roupas a eles. Representava a "gente de bem". Prendê-la por roubar os cofres públicos foi uma coisa de muito mau gosto. Não se faz isso com pessoas como ela. A etiqueta recomenda que ricos da alta sociedade jamais sejam incomodados. As mesmas pessoas que são tão moralistas com os outros acham que empresário tem salvo-conduto para roubar a todos nós e ainda morrerem como santos.
Aposto que semana que vem a capa da Veja vai ter uma imagem dela retratada como uma espécie de Che Guevara do capitalismo. E talvez o Carlos Nascimento diga que já fomos mais inteligentes, pois essa coisa de prender rico é coisa de gentinha. E assim vamos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Que viva o Islã!



Recebi dia desses uma pergunta anônima no formspring com o seguinte teor: por que os muçulmanos odeiam tanto o ocidente?
Confesso que fiquei paralisado. Não soube o que responder. Tal ponto de vista viola a lógica mais elementar. O Brasil é repleto de imigrantes muçulmanos e seus descendentes. Muitos deles são figuras proeminentes da nossa sociedade: Pedro Simon, Tasso Jereissati, Garotinho, Paulo Maluf, etc. Você pode gostar deles ou não. Mas jamais os imaginará com uma arma na mão atirando em cristãos. Toda cidade brasileira de tamanho médio ou grande tem uma mesquita, e ninguém anda nas ruas com medo de seus frequentadores.
Claro que quem pergunta algo como o que mencionei está pensando nos atentados de 11 de setembro. Uma resposta possível seria na forma de outra pergunta. O que matou mais gente: os atentados comandados por Bin Laden ou as intervenções ocidentais no mundo islâmico? Some o imperialismo, as conquistas, as guerras fomentadas pelo ocidente (Irã-Iraque, por exemplo) e aquelas que tiveram cristãos como protagonistas (como as guerras do golfo), e certamente você concluirá que para cada cristão morto por um muçulmano, há centenas ou milhares de islâmicos mortos por cristãos.
Enquanto pensava nisso tudo não consegui deixar de pensar num dos maiores ídolos que já tive nesta vida: Cat Stevens, grande músico inglês que se converteu ao islamismo em 1978, e desde então abandonou a carreira, e é conhecido como Yussuf Islam. Botei seu nome no google e apareceu o verbete sobre ele na wikipédia, muito esclarecedor. Veja o que está escrito, e como termina. Me diga se depois de ler isso resta alguma dúvida sobre quem odeia quem:
"Seu pai é de origem greco-cipriota e sua mãe de origem sueca. Vendeu 40 milhões de álbuns, principalmente entre as décadas de 1960 e 1970. Em1971, escreveu uma música para o filme Harold and Maude (no Brasil: "Ensina-me a Viver"). Entre suas canções mais populares estão "Morning Has Broken", "Peace Train", "Moonshadow", "Wild World", "Father and Son" e "Oh Very Young".

Stevens se converteu ao Islão e abandonou a música em 1978. Desde então passou a se dedicar a atividades beneficentes e educacionais em prol da religião. Toma muito cuidado quanto ao uso de suas músicas. Muitas delas dissertam a respeito de temas de sua vida anterior à conversão, e Stevens não quer mais ser associado a eles. Não surpreende que nunca tenha permitido que qualquer de suas canções fosse usada em comerciais detelevisão. Apesar de estar há quase 30 anos afastado da indústria musical, os trabalhos anteriores como Cat Stevens continuam vendendo uma média de 1,5 milhão de discos por ano.

Criou seu próprio selo fonográfico, a Ya Records, pelo qual já produziu dez discos de música religiosa e espiritual. Fundou três escolas muçulmanas em Londres e uma organização sem fins lucrativos, Small Kindness, reconhecida pela ONU e através da qual presta ajuda aos órfãos de conflitos comoBósnia, Kosovo e Iraque.

Em 2004, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos impediu a entrada dele no país, após incluí-lo na lista de vigilância por atividades provavelmente relacionadas ao terrorismo.


Imagine se uma pessoa que dedicou décadas de vida ao catolicismo, protestantismo ou judaísmo fosse impedido de entrar em um país islâmico por suspeitas de terrorismo. O que acharíamos?


Blogueiros petistas: mais do mesmo



Pelo que li ontem, o jornalista Paulo Henrique Amorim foi condenado a pagar uma senhora indenização ao jornalista Eraldo Pereira, e ainda retratar-se em vários veículos de mídia. Foi muito bem feito e merecido. Em meio a um ataque violento a Pereira (algo que PHA ama fazer, normalmente de forma extremamente leviana), se referiu a ele como "negro de alma branca". Uma tremenda babaquice. Como se dissesse: "não estou falando mal dele porque é negro, tanto que pra mim a alma dele é de branco safado" (algo muito parecido ao que alguém do PT, acho que Erundina, falou sobre Celso Pitta).
Aproveito o episódio para uma reflexão. PHA é a face mais visível de toda uma estrutura de blogs que se criou para defender o governo. Não acho isso errado. Como disse no post de ontem, e qualquer um pode observar com facilidade, os grandes veículos de imprensa são majoritariamente oposicionistas. Atacam o governo o tempo todo, tentando impor sua própria agenda ao debate político. Do ponto de vista da estratégia política, essa rede de blogs é um grande acerto do governo. É uma forma eficaz de fornecer contra-argumentos ao que se vê na grande imprensa. É parte do jogo.
Meu problema é outro. Talvez seja ingenuidade minha, mas eu não esperava que essa rede petista tivesse rigorosamente os mesmos defeitos da grande imprensa. É o mesmo saco de gatos que mistura acadêmicos de renome defendendo suas boquinhas no governo, com jornalistas oportunistas querendo popularidade e proximidade com o poder, militantes alucinados e pessoas asquerosas produzindo ataques absolutamente desqualificadores.
Em suma, não há diferença entre Reinaldo Azevedo e Paulo Henrique Amorim, ou José Artur Gianotti e Emir Sader. São pessoas que mentem, distorcem, caluniam, tudo em nome de seu próprio interesse. E servem para alimentar os argumentos dos pobres coitados que compram apaixonadamente as versões governista ou oposicionista do mundo. No fim só servem para isso: produzir discursos que serão repetidos acriticamente por gente que se entrega voluntariamente ao papel de massa de manobra de um dos dois grupos que disputam o poder.
Que a Veja seja assim, estamos acostumados há décadas. Mas ver pessoas supostamente progressistas acreditando cegamente no mesmo tipo de estratégia quando ela defende seu lado, aí eu fico um pouco mais desiludido.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mídia: capitalismo é bom para os outros



Uma coisa que acho importante fazer vez por outra é analisar o capitalismo nos termos dele próprio. Isso é importante, por mais que seja necessária a crítica externa ao capitalismo. Pois o argumento favorito dos liberais contra os sistemas não-capitalistas é que eles são utópicos. Não funcionam na prática e acabam degenerando em outra coisa, ao contrário do capitalismo, que conseguiu não apenas se adaptar como se moldar a novas realidades. Um argumento que tem lá sua validade, mas até que ponto?
O Brasil vive uma situação muito semelhante à de outros países latino-americanos. Um governo não-liberal, eleito dentro das normas democráticas, bastante popular mas execrado pela imprensa. Entenda: não estou aqui endossando aquela imagem do "tadinho do Lula, vítima do preconceito da mídia". Nem sou eleitor do PT, ainda que por vezes vote neles nos segundos turnos. Apenas observo algo que não dá para contestar. É um fato.
Aí eu penso no seguinte. Jornalistas e pessoas ligadas à mídia em geral têm pânico de qualquer forma de intervenção externa em seu trabalho. Dizem eles que isso tolhe a liberdade de pensamento e abre espaço para a censura. Reafirmam que nada melhor do que a auto-regulação e a saudável competição de mercado. Cada um ofereça seu produto à população e ela escolhe. O bom e velho capitalismo.
Mas é isso o que vemos na prática? Bem, todos os veículos líderes de segmento da mídia brasileira atacam ferozmente o governo. Isso não tem nada a ver com mercado. A população brasileira votou três vezes seguidas para eleger o lulo-petismo. Lula é o presidente mais amado da história do Brasil. Apesar de atacada, Dilma mantém um nível muito alto de aprovação.
Logo, as Vejas, Globos e Folhas que atacam o governo não o fazem para atrair a população, que simplesmente não aceita esse argumento, e demonstrou isso enfaticamente em todas as eleições recentes. É óbvio que não está acontecendo competição nenhuma. Todos estão oferecendo o mesmo, e pensam unica e exclusivamente em sua própria agenda, e não estão levando o gosto dos consumidores em conta.
Agora me diga aí: isso é capitalismo? Que raio de livre-concorrência é essa em que todos são obrigados a escolher entre veículos que dizem a mesma coisa, uma coisa que não é o que a maioria quer ouvir?
A questão é a seguinte. A mídia não acha que as regras do capitalismo valem para ela. Festejam quando o capital estrangeiro entra em todos os ramos da atividade econômica, mas não permitem que isso ocorra no mundo da imprensa. Afinal, as comunicações são estratégicas. Ao contrário do petróleo, da siderurgia, da telefonia, etc., né?
Isso também vale para a questão da regulação. Ninguém quer censurar ninguém. Quer apenas que haja regras. Todos os ramos da atividade econômica tem regras. Imagine se o curso de história da minha universidade resolve ensinar apenas coisas que os alunos não vão precisar depois que se formarem. Tudo bem? "deixa o mercado cuidar disso"? Claro que não. Ninguém concordaria com isso. Nós temos regras a seguir. Todos têm. Menos a imprensa. Para ela, eu, como professor, ter regras a seguir, é o normal. Eles terem regras é censura. Faz sentido, né?
Como sempre digo, amigo: capitalismo nos olhos dos outros é uma delícia!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Luis Alberto Spinetta, 1950-2012



Amo rock. Amo a Argentina. E detesto rock argentino. É um país que gosta muito do gênero, e o produz em grande quantidade. Mas a meu ver, com péssima qualidade. Não suporto aqueles vocais caretas, aquela cadência melosa, aquela montanha de teclados... É um suplício quando os amigos argentinos colocam aquelas bandas chatas e eu tenho de fingir que gosto, por achar que pode não cair bem um gringo falar mal da música deles.
O tal do Charly Garcia então... acho absolutamente insuportável. O Seru Giran, banda em que Garcia tocou, e que é vista pelos meus amigos argentinos como o supra sumo do rock deles, me parece uma chatice sem tamanho. Escutei um milhão de vezes o mais famoso rockeiro argentino em todas as suas fases. Me parece intragável.
Claro que há honrosas exceções. Gosto muito da fase em que Miguel Cantillo cantava com o Grupo Sur, embora depois sua carreira tenha sido decepcionante. Os porraloucas do Arco Íris também fizeram coisas boas, principalmente na fase em que eram comandados por Gustavo Santaolalla. Mas o grande nome do rock hermano para mim é Luís Alberto Spinetta, que morreu de câncer semana passada.
Spinetta teve bons momentos em diversas bandas, como Almendra e Invisible, bem como em sia carreira solo. Mas sua grande fase foi no Pescado Rabioso, na primeira metade dos anos 1970. Artaud, de 1973, talvez seja o melhor disco do rock argentino (na verdade um álbum solo de Spinetta, com o nome da banda sendo usado por questões meramente contratuais).
Claro que o Pescado Rabioso enfrentou um problema muito semelhante à outras boas bandas de rock latino-americanas daquele tempo. A saber, por diversos momentos soar como versões inferiores das grandes bandas inglesas e norte-americanas daquele tempo.
De fato essa geração de rockeiros latino-americanos se defrontou com uma situação muito complicada. Os originais do mundo anglo-saxônico eram verdadeiramente excepcionais, e igualá-los seria uma tarefa quase impossível. O resultado é que a maioria das bandas do nosso continente naquele momento realmente soavam como uma pálida tentativa de repetir a obra monumental do modelo original. Mas umas poucas bandas, as melhores, conseguiram fazer coisas muito boas, ainda que sem superar os gigantes da época. E o Pescado Rabioso sem dúvida foi uma delas.







quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Vivendo no caos



Outro dia escrevi sobre saudosismo. E hoje me dei conta de uma coisa engraçada. Nas minhas lembranças, as cidades brasileiras eram muito mais toleráveis quando eu era jovem. Mas aí lembrei que meu pai dizia a mesma coisa: aquele cenário que para mim parece idílico na época era tido como caótico pelos meus pais, em comparação com o que eles viveram em suas infâncias. O mesmo valendo para eles em relação a meus avós.
Nesse caso específico acho que estamos todos certos. Eu, meus pais e meus avós tínhamos mesmo razão de achar que quando éramos jovens, cada um em sua época viu uma vida urbana mais tolerável do que aquela com a qual se deparou em sua vida adulta. As cidades brasileiras estão chegando a um nível insuportável. Como há países em que as coisas não ocorrem com tamanha intensidade (vide post de ontem), fica claro que isso não é uma decorrência necessária nem da modernidade nem do desenvolvimento. Como chegamos nisso então?
Tenho pra mim que a origem de boa parte desses problemas é uma obsessão incontrolável que temos pelos carros. Em algum ponto ali por perto da metade do século passado decidimos que a coisa mais importante do mundo era ter um automóvel. Nossas cidades passaram a ter como prioridade máxima os carros. Ao contrário das preocupações estéticas e sanitárias do início do século (que também eram horrorosas), as grandes reformas dos anos 50/60/70 foram pautadas pela preocupação em abrir espaço para os automóveis. Parques, construções históricas, moradias populares, tudo ia abaixo para rasgar avenidas cada vez mais largas para os carros andarem em paz.
A adoção desse modelo norte-americano trouxe diversas consequencias lamentáveis, uma das quais de caráter cultural. Passamos a achar que a única maneira sensata de se deslocar é de carro. Ônibus, trem, bonde, bicicleta, caminhada, nada disso presta. Assim, nossas cidades não são feitas para quem quer caminhar ou andar de bicicleta, não há espaço para isso. Os bondes acabaram. Os usuários de ônibus são obrigados a pagar caro por um serviço horroroso. Metrô, praticamente não temos. Trens estão sucateados. Tudo aponta para o carro.
Resultado, estamos todos comprando carros. E não há rua que aguente. Chegamos a um ponto em que o trânsito nas cidades só vai melhorar se derrubarmos todas as construções. E veja: não estou falando só do trânsito. É um problema que gera um monte de outros problemas. Se todo espaço disponível é destinado aos carros, não há parque, não há espaços de convivência. Não há motivos para estar na rua sem ser dentro de um carro.
Evidentemente tudo isso desumaniza a cidade, que passa a ser visto como algo a ser temido, e não desfrutado. Achamos que rua é lugar para ladrão e transporte público é para pobre. A solução é entrar no seu carro e sair voando para um lugar fechado, climatizado, cheio de gente igual a você, com seguranças por perto. Se possível, morar num condomínio fechado com seguranças armados até os dentes do qual quase não seja necessário sair.
Dentro de mim existe uma certeza: não há como um ser humano ser feliz vivendo nesse modelo. Nele, todos são nossos inimigos, e a vida urbana é um sofrimento permanente. Mas pelo que entendo sou só eu. Está todo mundo feliz. No máximo preocupados querendo um carro melhor. Pois nessa perspectiva, ser feliz é ter um carro bom para sofrer muito dentro dele.