quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Brasil visto de fora



Quando vou para o exterior a coisa que mais faço é pensar no Brasil. Claro: mesmo que insconscientemente voce fica o tempo todo comparando tudo o que vê com aquilo que conhece. No meu caso, o resultado é que acabo por pensar muito nos problemas que temos. Não que o Uruguai, onde eu estive toda a última semana, seja melhor que o Brasil em tudo. Mas é que eu sei que assim que voltar poderei desfrutar novamente as coisas em que somos melhores, mas terei também de conviver com aquelas em que somos piores.
No caso o que mais me chamou a atenção foi a degradação total da vida nas nossas cidades. Montevidéu é a capital de um país, tem a população equivalente à de Porto Alegre ou Recife. Mas a violência é muito pequena, quase não há problemas de trânsito (na hora do rush, com mais carros na rua, o trânsito pode ficar um pouquinho mais lento, apenas isso), os jovens se sentam em praças noite adentro tomando vinho ou mate sem medo de serem incomodados. Nos fins de semana pode-se pegar ônibus novos e confortáveis ao preço de 1,75 real e viajar sem se sentir numa lata de sardinha ou ouvir música alta. Você pode ir a um dos vários parques públicos arborizados e fazer um programa familiar sem gastar quase nada. Nesses parques há programa para crianças, feiras de artesanato, enormes áreas onde se pode sentar e ver o tempo passar.
Ou seja, nada parecido com o Brasil. Em cidades médias e grandes nada disso existe. Todos vivem com pânico da violência, o trânsito é insuportável, sair à noite só em lugares cobertos e com muita segurança, fim de semana vamos voando para shoppings, nossas únicas opções de lazer, onde só podemos gastar, gastar e gastar. Transporte público nem pensar, vamos todos com nossos carros, colaborando para as cidades ficarem ainda mais intransitáveis.
Quando eu era criança essa era uma boa descrição para Rio e São Paulo, cidades com um tamanho que inviabiliza uma vida decente. Mas agora não é mais assim. Belo Horizonte, que sempre se orgulhou de ser uma metrópole com ar interiorano, já é uma cidade completamente saturada, com todos os problemas descritos acima. A deliciosa João Pessoa, que nem é tão grande, já tem um trânsito insuportável.
O que me surpreende nessa viagens para fora daqui é perceber que essas coisas todas, que para nós são absolutamente normais, na verdade são excrescências absurdas, que passamos a considerar absolutamente naturais. Veja como nos acostumamos com isso: nos últimos anos o Brasil melhorou em muitos aspectos, mas só piorou nesses. E nenhum de nós reclamou. Prova de que achamos tudo isso muito normal.
Aí eu fico preocupado. O pior não é o problema. O pior é não reconhecer o problema. Aparentemente consideramos a coisa mais normal do mundo ver as cidades como um verdadeiro inferno, no qual somos condenados a viver. Não vemos cenários alternativos. O que desobriga os gestores de pensarem em soluções para esses problemas. Afinal, se nem pensamos que poderia ser diferente, não vamos cobrar melhorias. Aí nossos políticos nem pensarão no assunto, fazendo com que tudo siga piorando. E nós aqui, felizes de sofremos barbaramente, mas dentro de um bom carro.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Libertadores: o que esperar



Não vou prever quem pode ou não ser campeão da Libertadores. As equipes ainda não mostraram a que vieram neste ano, e várias nem estrearam oficialmente. Sem falar que o emparelhamento da fase de mata-mata é imprevisível. Por ora, fiquemos com as projeções de cada grupo da primeira fase.

GRUPO 1 - Santos, Internacional, Juan Aurich e The Strongest.
Qualquer coisa que não for um predomínio completo das duas equipes brasileiras será zebra. Grupo fácil.
GRUPO 2 - Flamengo, Emelec, Lanus e Olimpia
Grupo imprevisível. O Lanus é o melhor dos estrangeiros, mas não tem nenhuma ambição e nem camisa. Entre esses três há equilíbrio. O Flamengo insere uma nota de total imprevisibilidade no grupo. Se jogar bem deve ser o primeiro, mas também pode ir mal e ser o último.
GRUPO 3 - Bolívar, Junior Barranquilla, Unión Española e Universidad Catolica.
Grupo fraco. Catolica e Junior são os mais fortes.
GRUPO 4 - Arsenal, Boca Juniors, Fluminense e Zamora.
Boca e Flu são favoritos disparados. Têm no máximo o direito de ter alguma dificuldade com o Arsenal, mas não muita. Têm de fazer ao menos 10 pontos contra os outros dois da chave e decidirem o campeão da chave no confronto direto.
GRUPO 5 - Alianza Lima, Libertad, Nacional-URU e Vasco.
Chave complicada para o Vasco. O Nacional está com um time bem decente, o Libertad deve endurecer e mesmo o Alianza não é tão fraco. Time de São Januário não poderá bobear sob o risco de rodar já nesta fase.
GRUPO 6 - Corinthians, Cruz Azul, Tachira e Nacional/PAR.
Corinthians deu muita sorte, o grupo é absolutamente simples. Timão tem obrigação de ser o líder disparado. Mexicanos e paraguaios disputam a segunda vaga.
GRUPO 7 - Chivas, Defensor, Deportivo Quito e Vélez Sarsfield.
Vélez é superior aos demais. Briga de foice pela segunda vaga.
GRUPO 8 - Godoy Cruz, Nacional/COL, Peñarol e Universidad de Chile
O grupo mais difícil de todos, absolutamente imprevisível. La U perdeu alguns jogadores, e mesmo tendo se reforçado deve cair um pouco. Peñarol tem um time razoável e a mística. Nacional tem um time difícil de enfrentar e Godoy Cruz é apenas mediano mas tem um par de bons jogadores. Vai valer a pena acompanhar a briga.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Violeta



Há 25 anos eu ouvi falar em Violeta Parra pela primeira vez, e da forma mais improvável que se possa imaginar: através de uma entrevista do Raul Seixas à revista Bizz. Dizia o velho rockeiro que tinha acabado de descobrí-la e estava maravilhado com o "feeling" das composições dela. Não entendi o que ele quis dizer, mas alma curiosa que sou, fiz uma anotação mental: "Violeta Parra", e coloquei a nota na gaveta imaginária com o título "quando tiver chance, vou escutar".
Não demorou muito para eu descobrir que ela era a autora de "Volver a los 17", cuja gravação feita por Mercedes Sosa e Milton Nascimento no disco Geraes sempre me pareceu uma das melhores coisas da história da música brasileira. Depois soube que ela era também a autora de "Gracias a la Vida", imortalizada em uma versão monstruosa de Mercedes Sosa. A descoberta definitiva foi: havia um disco inteiro de Mercedes Sosa só com músicas de Violeta Parra. Era bom demais pra ser verdade.
Fui descobrindo outras canções maravilhosas da compositora chilena, como a belíssima "Rin del Angelito". Mas me apaixonei também por sua visão de mundo. Esquerdista convicta, ela havia sido a grande divulgadora da cueca, o ritmo nacional chileno. Um gênero meio chatinho, mas que nas mãos dela virou uma coisa absolutamente maravilhosa. Nunca ouvi uma música dela que não gostasse. A maioria é ótima. Algumas são sublimes. O melhor: para ela, defender a cultura popular de seu país não era colocá-la em uma redoma, mas revigorá-la. Nada de condescendência com os "pobres bonzinhos e simpáticos dos quais podemos rir à vontade de suas tentativas de serem humanos", típica de gente como Ariano Suassuna. Ela queria que eles se organizassem e lutassem para mudar o mundo de exploração em que viviam.
Há 45 anos ela cansou das desilusões amorosas e profissionais e acabou com sua própria vida. Isso impediu que ela vivenciasse a monstruosidade patrocinada por Pinochet. Se converteu instantaneamente em ícone da esquerda latino-americana, ao lado de gente como Victor Jara, Atahualpa Yupanqui e Mercedes Sosa. Uma gigante.








sábado, 4 de fevereiro de 2012

Morte à universidade pública


Nas últimas 24 horas vi um monte de alunos postando essa coisa ridícula no facebook. E vou confessar: tive vontade de assinar a Veja. Porque se é isso o que meus alunos estão aprendendo a ser na universidade pública, melhor fechar mesmo.
Pois na minha opinião, a direita está completamente errada em atacar a universidade pública. Nos caracterizam como um bando de vagabundos que não fazem nada de útil para a sociedade, nada mais que um punhado de mauricinhos usando o dinheiro público para difundir ideologias esquerdistas. Bem, essa parte do esquerdismo só existe nos delírios deles. Nos muitos anos em que vivo na universidade o que mais ouço são discursos extremamente conservadores. Meu aluno padrão tem os mesmos preconceitos do resto da sociedade. E vivem xingando o PSTU e outras correntes socialistas, enquanto se mostram muito mais benevolentes com os assassinatos e tortura dos regimes militares do continente. Por exemplo, a homofobia corre solta na universidade, tanto pública quanto particular.
E ao postarem essa aberração no facebook mostram duas coisas. Primeiro, acham que estudar menos é uma vantagem. Vai lá, otário da particular, morra de estudar enquanto eu fico à tõa. Segundo, é um babaca elitista que se acha superior aos que não tiveram a oportunidade de estudar numa universidade pública. Algo que frequentemente tem mais a ver com oportunidade do que com capacidade.
O que a direita acha que é "esquerdismo" pra mim é senso crítico. A universidade pública não é de esquerda, mas pretende ser uma trincheira democrática, difundindo uma visão mais igualitária das coisas. Mas se o que estamos formando é gente que acredita nessas idiotices, então a direita está certa mesmo. Estamos formando babacas escrotos e elitistas. Com dinheiro público. Se é assim, melhor fechar. O que fazemos não tem mesmo qualquer sentido. Pra formar gente assim, melhor cobrar, e caro. Pena que os que postam isso frequentemente não poderiam pagar. Azar deles. Quem mandou ser burro?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Rock latino setentista




Uma geração de músicos que eu valorizo muito são os rockeiros setentistas latino-americanos. Pois se você pensar bem, tudo estava contra eles. Esses caras viviam em ditaduras, que frequentemente os censuravam por qualquer motivo. Essas bandas em geral não tinham como foco temas políticos, mas seu comportamento era visto como inaceitável pela caretice dominante. Para a maior parte da sociedade em que viviam, e para seus governos também, eles eram um bando de maconheiros despirocados, uma ameaça à ordem.
Só que ao mesmo tempo, as forças de oposição ao moralismo dominante tampouco lhes ofereciam abrigo. A genial geração de músicos latino-americanos dos anos 60 por essa época já estava convencida de que uma modernização da música tradicional de seus países era o caminho. Não é que odiassem rock, mas pouco viam de relevância nesse gênero. Assim, esses conjuntos tampouco podiam contar com o apoio integral daquele que poderia ser seu público.
E tampouco a história foi justa com eles. Uma vez que os bem pensantes do continente são inteiramente favoráveis à MPB e seus equivalentes nos países vizinhos, esse pessoal simplesmente não existe para a crítica musical. No longo prazo acabaram silenciados de uma forma que as ditaduras daquela época teriam adorado.
Tudo isso me faz sentir um carinho especial por esses caras. Certamente não tiveram a estatura de gente como Milton Nascimento, Mercedes Sosa ou Ruben Rada. Mas tiveram méritos indiscutíveis. Tentaram misturar o rock com a música de seus países, com uma ousadia que a maioria dos gênios da geração anterior não teve. E apesar de serem rejeitados por governos, sociedade, história e crítica musical, deixaram seu recado. A eles, toda a minha admiração.












Homens, esses imbecis



Não passo um dia sem ver no facebook alguma lição de relacionamento. O que tem de professor ensinando os outros a ser feliz em algumas linhas é uma grandeza. Um tipo muito frequente de "aula" é "como tratar uma mulher".
Você sabe do que estou falando. É uma coisa ridícula, que presume que todos os homens do planeta são versões pioradas do Homer Simpson. Só pensamos em ver MMA bebendo cerveja e peidando. Não temos cérebro, somos egoístas, não tentamos agradar nossas mulheres e sonhamos com um planeta lotado de loiras peitudas e QI zero.
Isso pode até ser engraçado. O Homer, por exemplo, é muito engraçado. Mas a coisa perde toda a graça quando constato, absolutamente surpreso, que muitas mulheres levam isso a sério. Compartilham com o maior entusiasmo esses links, comentam que o texto é perfeito, que homem é assim mesmo, blá-blá-blá.
Bem, se é pra levar isso a sério, então vamos lá. Esses textos claramente presumem o seguinte: mulheres são perfeitas, o que estraga o mundo é o fato de os homens serem idiotas. "não tem mais homem de verdade" é um comentário muito frequente nesses posts. Será? As mulheres são essa beleza toda mesmo? Todas são gênias honestíssimas perdidas num planeta de homens babacas? Será MESMO que elas nada têm a aprender, apenas a ensinar?
O que acho mais estranho é que essas mulheres parecem não ter aprendido nada com o feminismo. O objetivo desse movimento era que as mulheres pudessem ser o que desejassem. Astronautas, varredoras de rua, lésbicas, virgens, ninfomaníacas, donas de casa, empresárias. Tanto faz. O que importava era o exercício do próprio desejo. Que não houvesse barreiras sociais para que as mulheres construíssem suas vidas como achassem melhor.
O que há implícito nisso é o bom e velho individualismo iluminista. Cada pessoa é um mundo à parte. Cada indivíduo é absolutamente único e insubstituível. Assim, nada mais justo que todos possam dar vazão à sua subjetividade, até onde isso não prejudicar ninguém. As feministas simplesmente queriam que esse direito, até então exclusivamente masculino, fosse extendido às mulheres. Perfeito.
Aí vêm essas pobres coitadas projetar sua própria infelicidade nos outros. Suas vidas não estão bem, e ao invés de aceitar que momentos assim ocorrem com todos e tentar seguir em frente, preferem atacar o sexo oposto, culpando-o por todos os males do mundo. Presumem que todos os homens são iguais, ignorando a lição básica do feminismo, de que cada pessoa é um universo à parte.
E o pior de tudo: com essa postura repelem os caras legais, já que ninguém em sã consciência vai querer conversar com uma louca dessas. Só vão se aproximar os aproveitadores, que sabem muito bem que esse tipo de mulher está desesperada pra encontrar alguém. Aì ela sofre de novo, conclui que homem é tudo igual, e o jogo recomeça.
Não sou professor de relacionamentos. Mas o que eu diria é: fez uma escolha errada? Culpe a si próprio. Não ponha a culpa na metade da humanidade que pertence ao sexo oposto. Há homens e mulheres para todos os gostos. Se voce escolheu um(a) que não presta, a culpa é sua. Siga com a vida e escolha melhor na próxima vez.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Cuba: a ilha da fantasia



A visita de Dilma a Cuba faz com que, desgraçadamente, o país vire tema central da nossa pauta política. E digo "desgraçadamente" por um motivo. A Cuba discutida não existe. É uma coisa irreal, mera projeção das fantasias de cada um. Porque entender o país de fato, ninguém quer.
Para a direita, Cuba é uma monstruosidade, um lugar onde cidadãos são aterrorizados por um regime assassino. E ainda por cima não conseguiu tirar o país da pobreza (ao contrário de vizinhos de perfil semelhante, como Haiti e Jamaica, que se mantiveram no capitalismo e são potências econômicas).
Para a esquerda, Cuba é uma autêntica democracia. Nesse argumento, muito mais importante do que votar em eleições com resultados pré-definidos pelo "sistema" é a população saber ler, escrever e ter acesso a um bom sistema de saúde pública (como se "democracia" e "bem estar" fossem termos excludentes). O corolário é: não existe ditadura, apenas terroristas financiados pelos EUA que tentam derrubar o regime contra a vontade popular.
E há um terceiro grupo, a meu ver o mais deprimente. É o pessoal do PT "roots", que defende aquele argumento "não tem importância fazermos tantas concessões à direita, o que importa é que estamos revolucionando o país". Para eles, uma visita como essa é uma festa. Afinal os amigos direitistas do governo estão preocupados demais em saquear os cofres públicos e agradar o eleitorado reacionário para se preocupar com política externa. Dilma pode elogiar Cuba, falar qualquer fanfarronada, e essa galera "esquerdista" fica feliz. Vêem nisso uma prova de que há imensas afinidades entre o lulo-petismo e o regime cubano. Para esse pessoal, geralmente profissionais muito bem pagos da classe média, o PT está acabando com a burguesia brasileira, assim como Fidel fez em Cuba.
O triste é que o Brasil teria muito a aprender com a experiência cubana, Tanto em termos do que se deve fazer quanto em termos do que não se deve fazer. Os indicadores sociais daquele país pobre são excepcionais em termos de América Latina, e só um imbecil pode argumentar a sério que não temos nada a aprender com eles em termos de políticas sociais de massa. Ainda mais um país tão desigual como o nosso. Não podermos nos dar ao luxo de nem tentar aprender com os cubanos.
Por outro lado, Cuba tem um mesmo governo há mais de 50 anos. Houve apenas uma mudança, entre irmãos e motivada por incapacidade física. Por mais que haja mesmo gente financiada de fora tentando destruir o regime (o que, sob qualquer ponto de vista, é uma traição nacional que nenhum governo toleraria), negar que a liberdade por lá é extremamente limitada seria outra tolice. Pensar em que medida um Estado tão grande pode criar condições para uma ditadura incontestável também seria importante. Algo em que os socialistas deveriam estar pensando sem parar há uns 20 anos pelo menos.
Em suma, seria fantástico se refletíssemos a sério sobre a experiência cubana, tentando aprender com seus acertos e erros. Mas pelo jeito vamos seguir nessa briga idiota que não interessa a ninguém. Ao menos ninguém que queira ser sério.