segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Paixão e futebol


A uma rodada do fim do brasileirão, e com o fim da série B, a vontade de falar de futebol fica maior que tudo. E é legal porque é a hora em que dá pra ver muito fácil quem gosta de futebol e quem gosta de um time específico.
São coisas distintas. Podem aparecer juntas numa mesma pessoa. Mas a maioria não gosta de futebol: gosta só do seu clube. Não entende nada de tática, não sabe quem joga nos outros times, e tem total certeza de que se seu time perdeu foi por azar ou porque foi roubado ou por alguma outra coisa desse tipo. Um tipo assim não gosta de futebol. É só um bobalhão que usa o futebol para dar vazão ao seu cérebro de minhoca.
Gostar de futebol é outra coisa. É admirar um grande jogador, mesmo que ele não jogue no seu time (ou seja, esse pessoal que insiste, contra todos os fatos, que Messi ou Cristiano Ronaldo não jogam nada não podem dizer que gostam de futebol). É vibrar com figuras interessantes do mundo do futebol, um Loco Abreu, com sua mentalidade vencedora, ou um Ronaldo, com sua quase infinita capacidade de renascer quando ninguém mais esperava.
Quem gosta de futebol vê a beleza das torcidas adversárias. Quando seu time vai mal reclama de sua diretoria, e não da imprensa ou do árbitro. Quem gosta de futebol sabe até onde seu time pode ir, e não tem exigências irreais, que quase sempre terminam em vaias descabidas a um time que nada mais fez do que ir até onde pôde.
Não conheço muitas pessoas que gostem de futebol. A maioria esmagadora só sabe falar sobre o próprio time, e desmerecer todas as conquistas dos outros (até porque em geral são tão ignorantes sobre o que não envolve o proprio time que nem conseguem dimensionar as conquistas alheias). E claro, ter aquela insuportável postura bipolar com seu time. Num momento, o time é perfeito, e se alguém disser outra coisa é porque é burro, imbecil, mal intencionado e torce pra outro time. No momento seguinte, todos os jogadores são horríveis, o técnico é um débil mental e a diretoria não vale nada.
Frequentemente vejo pessoas reclamando que a Globo só passa jogos do Corinthians e do Flamengo. E, na cegueira de quem só entende o futebol pela paixão clubistica, dizem que é porque a emissora "torce" para esses times. Amigo: empresa não torce. Empresa quer dinheiro. Se os brasileiros gostassem de futebol, ela sempre passaria o melhor jogo. A Globo passa jogos desses times apenas porque os brasileiros só querem ver jogo do seu time. Não gostam de futebol: gostam só do seu time. E a maioria das pessoas que reclama disso não tem direito de reclamar, já que eles próprios só querem ver seu time também. Então a queixa não é sobre o criterio de escolha dos jogos, pois eles proprios se pudessem escolheriam só ver jogo do seu time. A queixa fica vazia.
Quem só gosta de seu time se comporta como criança mimada: não sabe ganhar nem perder. Se perde inventa conspirações idiotas para explicar o óbvio. Se ganha, age feito um idiota, parecendo de fato acreditar que só o seu time é capaz de coisas como aquela ("olha nossa torcida comemorando, nenhuma outra do mundo faria isso!" hã?). Quem gosta de futebol sabe que é um esporte em que se ganha e se perde. Parece óbvio, mas repare quantas pessoas que voce conhece são capazes de reconhecer isso.
Quem gosta de um time mal vê os jogos, pois esta sempre nervoso, ensaiando um discurso absurdo, ilógico e irracional para justificar qualquer derrota. Quem gosta de futebol desfruta o jogo, aproveitando os momentos mágicos que só esse esporte pode proporcionar. Afinal, nós que gostamos do futebol conhecemos a sabedoria daquela velha frase: "futebol não é tudo na vida. é muito mais do que isso".

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Quem precisa de heróis?


Ao contrário da maioria dos meus colegas historiadores, não achei que o sucesso desse livro aí de cima é algo a ser deixado pra lá. Compartilho com eles a certeza de que é um livro muito ruim, totalmente equivocado e por várias vezes de evidente má fé. Mas não acho que possamos simplesmente descartar seu sucesso como sendo fruto da ignorancia alheia. Temos de tentar entender a mensagem que seu gigantesco público está tentando nos passar.
Pra começar há uma mensagem para nós, historiadores acadêmicos. Não adianta a gente passar raiva com os pavorosos livros históricos escritos por jornalistas. O fato é que sequer tentamos nos comunicar com um público mais amplo. Dizer que as pessoas compram esses livros porque são burras é imbecilidade da nossa parte. Se um dia oferecermos outra opção a eles, e eles continuarem os comprando, aí é outra história. Por ora, o fato de comprarem Narloch, Eduardo Bueno e outros quer dizer apenas que há espaço para livros de história acessíveis ao público médio e que nós solenemente desprezamos a possibilidade de dialogar com essas pessoas.
Mas há algo mais: creio que há um recado para a história ensinada nas nossas escolas. Após décadas repetindo a "história dos heróis" (ou seja, a glorificação de Duque de Caxias, Pedro I, etc.), as escolas brasileiras resolveram mudar. O problema é que passaram a criar novos heróis: agora qualquer um que tenha sido contra os "heróis oficiais" são os heróis "de verdade".
Tomemos dois exemplos. O primeiro é Antônio Conselheiro, um evidente beato ultra-reacionário que tinha a idade média como mundo ideal. Ora, ele e seus seguidores foram absurdamente massacrados, mas denunciar isso não significa transformar em modelo alguém que simplesmente não aceitava as conquistas mais importantes do Iluminismo e da modernidade. Outro exemplo é Lampião, simples bandido transformado em ícone do "protesto social", à custa de negar os mais elementares indícios históricos.
Nada disso justifica o absurdo livro de Narloch. A questão é que temos de pensar em que medida nós abrimos um flanco para esse tipo de ataque ao simplesmente substituirmos um panteão de heróis clássico por um novo, alternativo. Esse é meu ponto: substituir Tiradentes e Princesa Isabel por Conselheiro e Lampião não me parece ajudar muito na formação de uma visão mais complexa sobre porque nosso país é o que é.
E a propósito: por que diabos precisamos tanto de heróis, "modelos"? Manter essa busca por guias para a ação, gênios que "estavam á frente de seu tempo" (expressão ridícula que nega a própria idéia de historicidade) não vai nos ajudar em nada. Que tal prescidirmos desses heróis e começarmos a procurar humanos que viveram sua vida da melhor maneira que puderam? O dia em que isso ocorrer, os Narlochs da vida terão menos espaço para falar tanta besteira.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Freddie Mercury



Há 20 anos eu escutava a notícia da morte de Freddie Mercury. Um baita pecado, que eu senti excepcionalmente porque aconteceu precisamente na época em que eu mais curtia o Queen em toda a minha vida.
Nos anos 80 eu achava Queen uma porcaria. Naqueles anos eles tinham virado uma bandinha pop insuportável, com canções altamente diluídas e shows para 100 mil pessoas. Ninguém merecia aquilo. Algumas pessoas (principalmente meus primos) tentavam me convencer que eles nem sempre tinham sido daquele jeito, e que valia a pena escutar os discos antigos. Mas a imagem do Freddie Mercury tinha virado de tal maneira um ícone do mundinho pop que eu nem conseguia imaginar que pudesse ter sido diferente um dia.
Claro que isso acabou no dia em que eu botei pra rodar o A Night at the Opera pela primeira vez. Aquela jóia repleta de grandes músicas ("Death on two Legs", "Prophet's Song", "I'm in Love with my car", a monstruosa "Bohemian Rapsody") me subjugou de imediato. Até a chatíssima "Love of my life" em sua versão original naquele disco era muitissimo boa, outra musica.
Aí eu entendi. O Queen tinha sido uma excelente banda, não exatamente rock'n'roll, mas uma mistura disso com pop, e sempre aberto a novas experiências. Aquela banda melosa que eu conhecia era apenas o lado B da historia, os ultimos 10 anos em que eles haviam desistido de ser bons. Havia o lado A, os primeiros 10 anos, cheios de coisas muito boas.
Claro: a diferença toda era Freddie Mercury. Os outros membros da banda faziam coisas boas, mas sem seu líder teriam sido mais uma daquelas milhões de bandas do mesmo estilo que havia na Inglaterra setentista. Não que Mercury fosse perfeito, e na verdade tecnicamente falando está longe de ser meu cantor favorito. Mas era único.
Pra começar, não tinha nenhum medo do ridículo. Em nenhum sentido. Usava qualquer roupa, cantava qualquer música, e soltava a voz do jeito que achava melhor. Sem dó nem piedade. Atacava qualquer música com paixão total, e magnetizava o ouvinte. Podia não acertar sempre (e errava muito; mesmo os melhores discos do Queen tem musicas chatíssimas), mas sempre experimentava algo diferente. Quem ouve os discos setentistas do Queen sempre se surpreende. E quando acertavam...
Não conheco uma banda de rock que tenha feito música calcada em sonoridades japonesas ou árabes. Mas o Queen fez: "Let us Cling Togheter" e "Mustapha", duas peças inacreditáveis. São apenas dois exemplos que mostram a capacidade da banda de sempre tentar expandir seus limites, se arriscar sem medo. Essa na verdade era a grande virtude do Queen, o que se perdeu a partir do pavoroso Hot Space, de 1982.
E evidentemente nada disso teria sido possível sem o monstro Freddie Mercury. Sem um cantor, compositor, líder e performista tão único, uma banda como o Queen jamais poderia ter existido.





terça-feira, 22 de novembro de 2011

MPB: o câncer da música brasileira


Antes de começar este post, permitam que eu diga o seguinte. Nada do que vier abaixo deve fazer com que se ache que eu não gosto de música brasileira. Pois não há quem não goste de música brasileira. Alguém que não goste de NADA na música brasileira tem sérios problemas. Junto com os EUA é a maior tradição músical da história humana. A existência de coisas maravilhosas em outros países (rock inglês, chanson francesa, musica folclorica latino-americana, candombe uruguaio) não muda isso. Assim como a existência de Eusébio, Bobby Charlton e Puskas não faz de Portugal, Inglaterra e Hungria países com mais tradição futebolística que o Brasil.
Isso posto, quero registrar o seguinte: detesto a idéia de "MPB". Mas detesto com muita força. Detesto há muito tempo: me lembro que há quase 15 anos eu e outro então jovem historiador discutíamos isso num congresso nacional da Anpuh. Eu mudei de assunto na minha carreira acadêmica, mas o cara, que se chama Marcos Napolitano, hoje é simplesmente o melhor historiador do brasil em termos de discussão sobre música. E desenvolvendo argumentos sobre esse assunto que eu compartilho até hoje.
Eu odeio o termo "MPB" por duas razões básicas:
1) O termo cria uma hierarquização que considero insuportável. Separa uma elite intelectual "culta" de uma massa "inculta" que curte musica popular brasileira "errada" e uma música "folclórica", que é propriedade dos mais pobres, coisa que a gente acha legal dizer que gosta, mas que na verdade não gosta. Em suma: se quiser ser "culto", "antenado" e "legal" basta dizer que curte Chico Buarque e sua turma. Basta para se diferenciar dos "burros" e dos "pobres".
2) Musicalmente o termo cria uma separação absolutamente inviável entre coisas que são parecidas. O exemplo clássico é entre a MPB e o rock. Qualquer pessoa que tenha escutado os baianos e os mineiros da "MPB" no fim dos 60 e inicio dos 70 sabe muito bem o que eles faziam: rock que dialogava com a música nacional. Sensacional! Mas como eles ao longo do tempo se consolidaram como "adultos" "responsáveis", mesmo aquela produção tão brilhante é tida como "MPB". Um saco. E uma violência ao mais básico senso comum.
Que fique claro: os ícones da MPB não tem grande responsabilidade nisso. O problema é dos que construiram a idéia de que rock é coisa de jovens irresponsáveis, música que toca na FM é para a massa inculta, música folclórica é para desdentado e a MPB é coisa isolada de todo o resto, sagrada e inegociável, sem nenhum diálogo com nada, pura e perfeita para adultos inteligentes e responsáveis.
Morte a isso tudo, a esse lixo careta. E todo meu respeito aos que fizeram rocks maravilhosos, e que ignoraram essa babaquice. Rockeiros que não esqueceram o país onde nasceram. Mitos.








domingo, 20 de novembro de 2011

Racismo sem racistas


"O Brasil não é para principiantes". Essa é uma das frases mais geniais já elaboradas sobre nosso país. E no dia da consciência negra, ela soa mais verdadeira que nunca. Afinal, nesse campo o Brasil inventou um dos fenômenos mais incríveis da história: o racismo sem racistas.
Até os anos 1980, a maioria esmagadora dos brasileiros acreditava que nosso país não era racista. O discurso era: a escravidão deixou os negros da parte debaixo da sociedade, e como o Brasil trata mal seus pobres, eles se deram muito mal. Não havia racismo, isso era coisa de americano. Na verdade muita gente na própria esquerda endossava isso.
Desde então muita coisa mudou, e hoje a idéia de que o Brasil é um país racista se fortaleceu, ganhando reconhecimento do próprio Estado. No entanto, apesar disso resistimos absurdamente a qualificar qualquer pessoa como "racista". Estrangeiros vá lá, mas brasileiros, jamais. Para exemplificar, aqui vão duas historinhas envolvendo o racismo no futebol. Bem parecidas, mas com resultado muito diferente.
Em 2005, o então saopaulino Grafite saiu de campo acusando o zagueiro argentino Leandro Desabato, então no Quilmes, de tê-lo xingado de "macaco". O jogador recebeu voz de prisão dentro de campo e passou duas noites na cadeia. Toda vez que se menciona o nome desse atleta até hoje vêm o comentário "é aquele Desábato racista".
No ano seguinte o zagueiro brasileiro Antonio Carlos proferiu o mesmo xingamento a Jeovanio, jogador do Gremio, e, diferente do caso anterior, com várias testemunhas. Nada aconteceu, e o jogador virou cartola, depois treinador. Todos consideram aquilo um "lamentável incidente", mas Antonio Carlos não foi punido nem recebeu qualquer estigma. A grande exceção foi a torcida do Vasco, que protestou bastante quando, recentemente, o ex-atleta estava prestes a ser contratado como treinador do clube. Argumentaram que a contratação era um crime contra a história do único clube grande carioca a nunca ter proibido negros de vestirem sua camisa. Mas fora isso, nada.
Não tenho formação jurídica nem conheço todos os detalhes das duas histórias. Mas me parece muito claro que nossa sociedade encarou as duas histórias tão parecidas de forma muito distinta. Uma virou um crime imperdoável, enquanto a outra não passou de uma infelicidade. Claro que isso se deu devido às nacionalidades dos agressores. Um é brasileiro legítimo. Outro é estrageiro, e ainda por cima argentino, povo visto pelos brasileiros como "racista" (como se nós não fôssemos).
Na última semana ocorreu outro fato na mesma direção. Pelé deu uma declaração meio idiota, como de costume, falando que "hoje qualquer coisa é racismo", e minimizando a existência do fenômeno no Brasil. Um jornalista do Sportv o criticou duramente pela declaração. Mas fui lembrado logo em seguida: o mesmo jornalista havia minimizado um ato racista de um jogador de futebol, dizendo que o agredido "devia deixar aquilo pra lá e apertar a mão dele (do agressor)".
Creio que isso fecha o quadro. Estamos plenamente abertos à idéia de que o Brasil é um país racista, mas não estamos preparados para aceitar o fato de que pessoas brasileiras o sejam. Aceitamos um racismo genérico, desidratado, sem culpados nem vítimas, e portanto sem necessidade de ações reparadoras. O Brasil é racista. Brasileiros não. Vá entender um país desses.

O Meu Marxismo


Alguns amigos que compartilham minha posição política esquerdista por vezes entram aqui no blog e se decepcionam. Acham que eu deveria botar pra quebrar nos tucanos e petistas e defender o socialismo. Mas essa não é nem será a postura deste blog por dois motivos.
O primeiro é que detesto blogs partidários. Eles até poderiam desempenhar uma função interessante, mas na prática a maioria nada mais é do que repetição ao infinito de textos que poderiam todos se chamar "somos perfeitos e todos os outros partidos são lixo". Tô fora. Além do mais já tem blog demais assim. O 171 é de análise.
Por outro lado, não vejo incoerencia entre meu marxismo e essa postura. Quem leu Marx sabe que ele era bem diferente desse "inimigo número 1 da burguesia" que muita gente pinta (exatamente por não tê-lo lido). Como muito bem mostrou Marshall Berman, o velho mestra via com imensa admiração as espetaculares realizações da burguesia. Lhe soava inacreditável como o capitalismo havia conseguido transformar o mundo tão rápido e tão profundamente. Além disso, Marx citava com muito respeito pensadores essenciais do capitalismo, como Adam Smith e David Ricardo.
A questão é que ele achava que essa revolução não terminaria por ali. Para Marx, a burguesia havia criado um mundo absolutamente revolucionário, em que "tudo o que é sólido desmancha no ar", e no fim das contas essa revolução permanente destruiria a ela própria. Era necessário, para ele, resolver problemas como a propriedade privada dos meios de produção, algo que era impossível dentro do capitalismo. Os pensadores liberais, muitos dos quais competentes, não percebiam isso porque estavam do lado vencedor, o que os fazia superestimar as maravilhas do capitalismo. Aqueles que viviam o lado derrotado deveriam perceber mais claramente que jamais conseguiriam viver bem naquele sistema, e trabalhar para derrubá-lo.
O grande erro que a esquerda cometeu, a meu ver, foi investir muito pouco em tentar reavaliar isso tudo. Marx morreu em 1883. O que ele chamava de "capitalismo" é muitíssimo diferente do que vivemos hoje. A idéia geral segue muito forte, mas há milhões de coisas que não fecham mais. O operário deixou de ser alguém que morre aos 30 anos e o pulmão cheio de fuligem, por exemplo. A velha estratégia não pode funcionar.
Mas voltando ao início, não acho que o fato de eu ver coisas positivas nos últimos dois governos me afaste do marxismo. Dizer, como um importantíssimo intelectual brasileiro fez, que FHC não teve nada a ver com o fim da inflação, e que ela terminou sozinha (?!) ou que o aumento na renda da população em geral do governo Lula "não quer dizer nada", isso tudo não é marxismo, é vontade de dar cabeçada na parede.
Me sinto perfeitamente confortável na minha posição marxista ao dizer o seguinte. FHC e os tucanos foram brilhantes ao terminar com a inflação, mas eles ficam muitíssimo satisfeitos com a desigualdade e exploração que temos hoje. Lula e o PT permitiram que muita gente entrasse no consumo, mas evidentemente isso é pouco. Um povo melhor alimentado e com melhor poder de compra não é um povo livre da exploração.
Os dois lados entregaram um país melhor do que receberam. Mas como estão do lado vencedor não percebem (ou não querem perceber; Marx mostrou que as duas coisas convivem muito bem) que ainda é pouco. Nos oito anos tucanos e nos oito anos petistas, o Brasil melhorou, mas nesse ritmo, ainda será o mesmo país em 100 anos. Melhor, mas com as mesmas características. Não pode. Tem de enfiar o pé no acelerador. Quem não mexe na exploração, na desigualdade, na porcaria de educação que temos, não vai mudar o país. E essa turma que está aí não tem a menor intenção de fazer nada disso.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Belo Monte: onde os ponteiros se encontram

Nesse mundo em que tudo muda tão rápido, é impressionante como a cada 2 ou 3 dias um tema domina a pauta, mesmo que desapareça depois. Nos últimos dias o que tem predominado é a questão da usina de Belo Monte. Confesso que não entendo muito do assunto. Aliás, não entendo quase nada. Mas como tem gente que entende muito menos que eu dando opiniões fortes sobre o assunto, vamos lá.
Evidentemente há um debate muito sério aí: o do modelo energético que queremos. É uma pauta urgente e absolutamente necessária. Temos um país gigantesco que precisa de novas fontes de energia sob pena de voltar ao apagão dos tempos de FHC.
Mas você pode notar claramente que esse debate não está acontecendo. A esquerda, meio aos trancos e barrancos, tem atacado Belo Monte baseada essencialmente em argumentos ambientalistas, o que é extremamente válido, mas deixa relativamente intocada a questão do modelo de desenvolvimento energético. O que dá munição aos que nos acusam de sonhadores que acham que de uma hora pra outra vamos iluminar o país com painéis de energia solar.
Mas o que realmente me assusta é a postura de muita gente ligada ao governo, que adota o mesmíssimo discurso da direita mais escrota e reacionária. Você sabe, aquela coisa do "revolucionário de classe média" e da "ONG pilantra" protegendo "um punhado de índios" e indo "contra o desenvolvimento". Esse discurso, que é exatamente o da Veja e da direita mais putrefata e reacionária, tem sido evocada pela "esquerda" (leia-se: governo) para desqualificar os que lutam contra Belo Monte.
E esse papo é tão escroto, mas tão escroto, que usa o argumento "alá os atores globais contra a usina, tá vendo como ser revolucionário socialista é defender a usina, e ser contra ela é ser reacionário?". Amigo, isso é de uma desonestidade absurda. Nos velhos tempos, quando o PT era REALMENTE de esquerda, suas campanhas eleitorais eram ENTUPIDAS de atores globais. Em 1989 me lembro da Marilia Pera e da Claudia Raia no palanque do Collor. Todos os demais estavam com o PT. Então pela lógica atual, o Collor é de esquerda e o Lula-89 de direita, né?
Você é um governista honesto e acha que Belo Monte é uma boa? Beleza, argumente que a usina representa a melhor opção em termos de modelo energético e que os danos ambientais são pequenos, proporcionalmente a seu benefício. Mesmo que não concorde, vou te ouvir atentamente. Mas esse discurso "repito tudo o que a Veja fala mas sou de esquerda" que está se disseminando não dá. Usa todos os argumentos direitistas como se fossem de esquerda.
Basta ver uma coisa: a direita está participando da discussão? Que eu tenha visto, não. Afinal, o governo "esquerdista" defende exatamente a posição dela. Eles podem se preocupar com outras coisas.