quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Vivendo e aprendendo a jogar


Estou no meio do processo de seleção dos alunos que vão ingressar no mestrado em história na minha universidade. E vivemos a reta final do brasileirão. Duas coisas que não têm rigorosamente nada que ver uma com a outra. Mas tem algo comum às duas: quem perder vai gritar histericamente que foi roubado.
Uma das coisas que mais me aborrece no mundo em que vivemos é isso: ninguém dá conta de administrar seus fracassos. Não passou no mestrado? A banca favoreceu os puxa-sacos. Perdeu jogo? O juiz roubou. Não venceu um concurso para professor? Estava tudo armado. Seu candidato perdeu uma eleição? O povo é burro (se voce é de direita) ou a mídia enganou o povo (se voce for de esquerda). Foi reprovado porque teve 40 faltas em 60 possíveis? O professor é babaca. Ninguém nunca perde para um adversário. Perdemos para zés-ninguéns por sermos prejudicados.
Isso tem a ver com um post que escrevi há alguns dias, a coisa de "ser crítico". Os derrotados conseguem facilmente convencer pessoas de que foram prejudicados por duas razões. A primeira, claro, é que normalmente os que acreditam também são pessoas que não conseguem administrar seu próprios fracassos, então são propensas a acreditar em qualquer coisa desse tipo. A segunda é a tal questão da "criticidade". O tolo acha que "ser crítico" é perceber maquinações diabólicas onde não há nada aparente. Ao invés de pensar que a inexistência de algo aparente pode se dever simplesmente ao fato de não haver nada mesmo.
(Há outros tipos de razão também, os quais prefiro não comentar muito. Tipo os problemas de auto-estima que fazem a pessoa sequer conseguir lidar com a possibilidade do fracasso. Ou o fato de vivermos numa sociedade que cobra loucamente vitórias de todos nós, como se todos pudessem ganhar, e não apenas uma minoria, então não ser um vencedor é ser um fracasso para a vida toda, etc.)
Há 16 anos eu estava fazendo seleção de mestrado (parece que são 160 na verdade). Comentei com o pai de um amigo que eu estava muito nervoso. Ele disse uma coisa que é bem verdade: eu não estava apenas preocupado com a possibilidade objetiva de não passar, embora fosse em parte isso; o pior era o pânico do fracasso, de ser um derrotado e me ver assim. Ele disse que na entrevista, quando fatalmente eu receberia críticas, eu deveria segurar sempre meu projeto com as mãos, e pensar "não sou eu que estou sendo criticado, é esse projeto; uma eventual reprovação será destinada a ele, não a mim; se isso acontecer, não me sentirei um derrotado, avaliarei onde errei, farei outro projeto melhor".
Eu sei, parece irresistível rir do impacto de um conselho no melhor estilo "auto-ajuda" sobre mim naquele tão distante momento. Mas é que eu percebi que havia algo mais implícito nesse conselho: a melhor coisa a se fazer na hora do fracasso é aprender com ele, ao invés de procurar alguém para culpar. Isso me ajudaria fenomenalmente muitas vezes.
De lá pra cá fracassei em muita coisa. Todos os meus candidatos a presidente perderam, e eu aceitei isso como parte do jogo democrático. Meus times perderam trilhões de vezes, e eu tive de aceitar que, ainda que por vezes tenha sido prejudicado pela arbitragem, é impossível justificar essas derrotas apenas por isso. E como qualquer acadêmico que se preze, fui criticado muitas vezes pelo meu trabalho. Tanto o de professor quanto o de produtor de conhecimento.
Confesso que nada disso foi gostoso. Mas veja a diferença: meus candidatos perdem eleições, culpam a "mídia" e nem repensam seus discursos e práticas. Meu time perde jogos e diz que é culpa da arbitragem (está fazendo isso hoje mesmo, aliás). Quando fracasso, avalio profundamente onde errei, ou ao menos onde dei margem para que eu fosse atingido. Sempre é bom. Sempre ajuda.
Enfim, sei que quando a seleção acabar, os que não passarem sequer vão cogitar a possibilidade de que outros possam ter sido melhores do que eles; nem vão lembrar de que para cada aprovado necessariamente haveria outros dois que não conseguiriam (são 46 para 15 vagas). Vão dizer que nós, da banca, favorecemos os aprovados. Mesmo que nada indique isso. Um saco essa vida em que o trabalho honesto é atacado por gente descompensada que não dá conta de lidar com suas próprias dificuldades. Mas vamos lá.


terça-feira, 15 de novembro de 2011

25 anos de uma eleição chave


Há 25 anos os brasileiros iam às urnas para eleger seus governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Foi a eleição em que tivemos a hegemonia mais avassaladora de um partido. Catapultado pelo Plano Cruzado, o PMDB venceu em todos os estados, menos Sergipe. Uma eleição infame, com resultados de dimensões que não foram percebidas naquele momento.
A longo prazo parece claro que foi uma eleição chave. A última eleição da ditadura, a de 1982, havia sido polarizada entre os que defendiam o legado do regime militar e os que o atacavam. E a oposição teve vitórias importantíssimas. Tancredo Neves e Franco Montoro, que representavam a oposição liberal ao regime venceram facilmente em Minas e São Paulo. E em uma virada espetacular Leonel Brizola levou o governo do Rio, mesmo com a tentativa de fraude na apuração em que a Rede Globo teve ativa participação.
Em 1986 o quadro era outro. A ditadura tinha ido embora, entregando um país falido e com inflação descontrolada para os civis. O cenário começava a se reorganizar. E aí veio o Plano Cruzado, verdadeira fraude eleitoral que não apenas resolveu aquela eleição para o governo, mas que foi fundamental na definição de traços essenciais da política brasileira.
Na ditadura o campo direitista era preenchido pelos defensores do regime. O MDB (depois PMDB) representava a oposição legal. Ainda que basicamente formada por liberais centristas (Tancredo, Montoro, Ulisses, Itamar Franco, Pedro Simon, etc.), contava com fortes simpatias da esquerda, já que verbalizava as reivindicações democráticas. A esquerda propriamente passou a existir no fim dos anos 70, resultando na criação do PT e do PDT.
Em 1982 o PMDB se despediu da sua face progressista. 4 anos depois o partido era governo, comandado por um expoente do regime militar (José Sarney) e apoiado pelo PFL, totalmente formado por defensores do mesmo. O partido havia muito rapidamente jogado fora todo o capital acumulado em anos e anos de respeitável oposição à ditadura. Precisava de uma nova cara.
E essa nova cara foi assustadora. O partido se transformou no partido dos coronéis, o lar dos oportunistas que desembarcaram do PDS quando ficou claro que ninguém mais queria saber de ditadura. Basta ver que em 1986 Newton Cardoso e Orestes Quércia sucederam a Tancredo Neves e Franco Montoro. Nada mais sintomático para um partido que deixava de ser a voz do centrismo democrático e passava a ser o partido do oportunismo e do coronelismo (nao à toa, logo em seguida os que não gostaram da mudança saíram para formar o PSDB, que hoje é o legítimo herdeiro do MDB, com seu DNA liberal e democrático).
Assim a política brasileira se reconfigurava. De um lado os partidos de esquerda, com forte penetração nas grandes cidades. De outro, um conglomerado amorfo de partidos tendo como denominador comum o anti-esquerdismo, fundado nos reacionários urbanos e no coronelismo rural. Esse grupo não tinha líderes com real penetração popular a nível nacional, e por isso mesmo teve de aderir a um aventureiro em 1989. Esse grupo acabaria encontrando o rumo sob a liderança tucana, que trouxe respeitabilidade, discurso coerente e um programa político à aliança.
Mas em 1986 tudo isso ainda estava muito longe. O próximo round seria a eleição municipal de 1988, com vantagem clara da esquerda. Mas a batalha final ocorreria em dezembro de 1989. E quando esse confronto aconteceu, a direita estava nos postos chave, detendo todos os governos estaduais. Graças a isso venceu aquela eleição em boa parte devido aos votos dos rincões.
Assim, há 25 anos a direita tinha uma vitória absolutamente decisiva para aquela que seria a grande batalha. Aquela eleição também foi o início da configuração de um campo direitista no pós-ditadura. E o fim do PMDB como partido respeitável. Uma eleição de consequencias profundas para a política brasileira.

domingo, 13 de novembro de 2011

A PM na USP vista de dentro


Se você tem um mínimo de inteligência se sentiu desconfortável com a idéia vendida pela mídia de que tudo o que aconteceu na USP foi fruto de estudantes querendo fumar maconha. Mas como ver as coisas de forma diferente se todas as fontes de informação diziam a mesma coisa? Aqui vai a visão de quem viveu tudo de dentro. Seu autor é Gabriel Lima, estudante de Letras da USP. Segundo o reitor da universidade, o governo do estado e os veículos da mídia, um vagabundo maconheiro inútil. Mas como você verá abaixo, é alguém que tem o que dizer. Você pode não concordar com o que ele pensa. É direito democrático. Mas dá o que pensar. Leia e dê o desconto que quiser. Mas veja como as coisas são mais complexas do que a grande imprensa tentou vender.

Diga aí Gabriel:

"Eis o senso comum: os estudantes que se manifestam na USP são baderneiros que não querem estudar e, portanto, precisam ser reprimidos. Além disso, a Cidade Universitária é insegura, logo, precisa de mais polícia. As manifestações são em prol de uma Universidade-bolha, alheia à sociedade; um parque de diversões onde pessoas de maior poder aquisitivo podem fazer o que querem, às custas dos impostos pagos pela sociedade. Esse discurso, facilmente encontrável em qualquer lugar (sobretudo na grande mídia), vai absolutamente de encontro à realidade do que está acontecendo na Universidade de São Paulo, hoje. É fácil adotá-lo quando se está entre a maioria esmagadora da população, que trabalha exaustivamente para manter as contas em dia e ainda tem que pagar para ter um diploma universitário. E é por isso que, em primeiro lugar, é importante ter em mente: quem faz parte desse grupo deveria estar estudando na USP. Deveria, mas foi barrado por um mecanismo de elitização e controle social chamado vestibular. O que é o vestibular? Uma forma de impedir que todos entrem na Universidade pública. Ele existe por um motivo simples: para abrir mais vagas, é necessário que o Governo invista seu dinheiro (proveniente dos impostos). Como o Governo não quer investir, é mais fácil criar um filtro que impeça a população de preencher as poucas vagas existentes. E este filtro, em São Paulo, se chama FUVEST.
Quando o estudante da Faculdade de Economia e Administração, Felipe Ramos de Paiva, foi assassinado no estacionamento de seu departamento, o Reitor da Universidade (João Grandino Rodas) assinou um convênio com a PM, permitindo que a mesma realize rondas rotineiras no Campus. Desde então, estudantes são enquadrados em frente à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas onde, historicamente, há mais resistência à privatização da Universidade. Muitos, inclusive, foram questionados por policiais armados com cassetetes sobre serem “contra, ou a favor da PM na USP”. Reflitamos, então: a Polícia Militar está na Cidade Universitária para garantir a segurança dos estudantes, ou para reprimir violentamente o Movimento Estudantil (como fez na última Terça-feira, em um espetáculo lamentável de força bruta absolutamente desmedida) e perseguir politicamente quem é contrário ao projeto privatizante da Reitoria? Não tenho dúvida em optar pela segunda alternativa. O Reitor da Universidade já afirmou, em entrevista à Veja, que “ensino público não é sinônimo de ensino gratuito”. Este mesmo reitor pretende reformular os currículos dos departamentos em base a uma suposta “demanda de mercado”, fechando habilitações de línguas pouco procuradas no curso de Letras (como Armênio e Hebraico), abrindo uma disciplina chamada “História Empresarial” no curso de História, bem como uma graduação paga (mensalidades em torno de 2.000 reais) de Economia e Administração, dentro do próprio Campus público. Por isso, ser contra a Polícia Militar na Universidade (obra deste mesmo Reitor) é ser contra a perseguição daqueles que são contra a privatização. E se partirmos do ponto de que a cobrança de mensalidades transforma a USP em uma bolha ainda mais excludente, logo, concluímos que ser contra a Polícia Militar na USP é ser contra a Universidade-bolha. É preciso superar a questão do consumo de drogas no Campus (que existe, assim como em toda a sociedade). Basta ler os manifestos da mobilização e notar que eles, em momento algum, falam em “maconha”, ou qualquer outro entorpecente. O Campus do Butantã é um lugar inseguro? Sim, e muito. Por isso, quem estuda na USP precisa de uma Guarda Universitária bem equipada e preparada, que seja capaz de atender estudantes agredidos (como o estudante que faleceu na FEA), ou que passam mal (como o estudante de Filosofia que morreu de insolação na Praça do Relógio, ano passado) em meio aos espaços inóspitos que existem entre os departamentos. Essa guarda precisa estar subordinada à comunidade acadêmica. Os estudantes precisam de um Campus mais iluminado, de árvores podadas e de mais ônibus. Não de uma polícia política que os obrigue a cobrir a cara toda vez que expressarem uma opinião divergente"
O texto do Gabriel me deixa algumas perguntas, que a grande mídia não fez:
1) A universidade é elitista por culpa dos alunos ou porque o Estado não permite uma universidade aberta para mais pessoas?
2) a PM dentro da USP fará com que essa universidade seja mais democrática e aberta aos jovens talentosos da classe baixa? como?
3) Sentar porrada nos que ocuparam a reitoria melhorará a USP de alguma forma? qual?
4) A universidade pública brasileira (e não apenas a USP) é tão perfeita que tem como maior problema alunos fumando maconha?
5) A PM paulista, que mata mais pessoas que as 52 polícias estaduais norte-americanas somadas, é a melhor saída para resolver os problemas da universidade pública brasileira?

sábado, 12 de novembro de 2011

A Beleza do Morto na MPB


Há uns 4 mil anos, quando eu era estudante de graduação, resolvi estudar a maravilhosa música brasileira dos anos 20, 30 e 40. Queria transformar esse assunto, que eu tanto apreciava, em uma pesquisa científica (no fim meu mestrado e doutorado não foram exatamente sobre isso, mas enfim...).
A primeira coisa que me surpreendeu: os intelectuais da época em sua maioria não davam a mínima para o samba e seus amigos. E certamente não por serem elitistas: nesse período a intelectualidade brasileira investiu furiosamente em construir a ligação entre "cultura popular" e "cultura brasileira". Os melhores cérebros daquela geração se dedicaram a estudar essas raízes populares da cultura nacional. E encontravam na rua com gênios da música brasileiríssima, pobres e negros, era perfeito. Por que diabos não ligavam pra isso?
Depois eu entendi. Esses caras queriam encontrar "autenticidade". Para eles a "boa música popular" era dos velhinhos perdidos na zona rural. Grosso modo, pra eles Ismael Silva e Cartola eram marginais que faziam música barulhenta com letras ridículas que só falavam de bandidagem.
EPA: eles viam esses gênios da mesma maneira que nós vemos hoje os funkeiros!
Basta analisar: os gênios que criaram as escolas de samba só foram reconhecidos como tais nos anos 60. Eram velhinhos com reumatismo. O samba se tornara respeitável. O desfile das escolas de samba passava na TV. Não faziam mal à ninguém. Cartola gravou seu primeiro disco aos SESSENTA E CINCO ANOS.
Nós, intelectuais de hoje, adoramos pobre. Desde que sejam velhos reumáticos e inofensivos. Vamos para a zona rural atrás de idosos que façam coisas à beira da extinção. Exatamente como os intelectuais de 80 anos atrás. E exatamente como eles, descartamos uma cultura cheia de vitalidade, que faz todo o sentido para as classes populares do nosso tempo, pois os achamos marginais fazendo música barulhenta com letras ridículas que só falam de bandidagem.
O que posso concluir é muito simples. Daqui a meio século os funkeiros, bregas e etceteras estarão velhinhos e inofensivos. O tipo de música que fazem não vai assustar ninguém. De jovens que agressivamente exigem seu lugar no mundo terão se transformado em vovozinhos reumáticos. Aí os universitários correrão atrás deles, suas músicas serão consideradas "autênticas" (em contraposição ao que os jovens de daqui a meio século fizerem), o Estado os pagará para não deixar suas manifestações morrerem.
Entenda-se: gosto musical é subjetivo. Ninguém tem de gostar de nada. Apenas aponto uma similaridade absolutamente óbvia entre a maneira pela qual os geniais músicos de outra época eram vistos pelos intelectuais com a maneira pela qual os intelectuais de hoje vêem as manifestações musicais à nossa volta. Não levamos essas pessoas a sério. E acho que estamos erradíssimos. O que eles dizem importa muito aos que estão ao redor deles. E isso deve despertar todo o interesse de quem quer compreender o mundo à sua volta.
E acho engraçado demais ver que essas músicas de hoje fazem essas pessoas "de esquerda" se transformarem na minha avó reacionária: essas músicas são "cheias de putaria", "barulhentas", "violentas"...
Não façamos como Mário de Andrade e seus amigos, que estavam tão preocupados com o passado que não viram o que estava à sua frente. Levemos a sério o que tanta gente se importa, e não o que nós eventualmente gostaríamos que elas gostassem.




sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Ser crítico é não brigar com o óbvio

Há muitos anos trabalho formando professores de história. Há muitos anos escuto meus colegas e alunos repetirem que a função do professor de história é formar cidadãos críticos. Mas sabe o que nunca ouvi? Explicarem que diabos é "cidadão crítico".
O resultado é que vejo meus alunos há muitos anos se perderem dando apoio a teorias conspiratórias vazias sobre qualquer coisa, e acreditando em qualquer coisa que ouvem, desde que seja difamatória a alguém. Acham que isso é ser crítico.
Não os culpo. Todos dizem a eles que devem ser críticos, mas ninguém explica que diabos é isso. E cada vez mais me convenço de algo muito simples: ser crítico é simplesmente não brigar com o óbvio.
Vou me explicar enunciando frases completamente óbvias:
Sob o governo FHC o Brasil se livrou da inflação, mas não cresceu.
Sob o governo Lula o Brasil cresceu, mas o governo petista não contrariou o interesse de ninguém.
O governo cubano teve um êxito espetacular no campo social, mas é uma ditadura.
Não fiz acima nada mais do que constatar o óbvio. No entanto, quem se guia pela visão de mundo de alguma corrente política vai me achar "comunista" (se for do PSDB), "de direita" (se for do PT) ou "reacionário" (se for de algum partido que defende o regime cubano).
Entendo que o discurso dessas correntes seja esse. São militantes políticos. Vivem de dizer que sua versão das coisas é perfeita e de atirar pechas desqualificantes em quem não concorda 100% com eles. Quem quer seguir alguma seita política não pode mesmo se dar ao luxo de ser crítico.
Mas se é pra ser crítico, fica inviável dizer, como alguns, que FHC não teve mérito no fim da inflação, que Lula não fez nada de útil ou que Cuba estar acima do Brasil em todos os indicadores sociais mesmo sendo bem mais pobre é irrelevante.
Ser crítico é bem simples. É só não repetir o que outros dizem antes de refletir sobre o assunto. Aceitar discursos que dizem que tal corrente está sempre certa e as outras sempre erradas é ótimo para um militante irracional. Infelizmente isso quase sempre significa brigar com o óbvio.
Não brigue com o óbvio. Não ignore os fatos mais evidentes. Você terá feito 90% do caminho para ser o tal cidadão crítico que tanto te aconselham a ser.
Aceitar sempre a versão que faz as pessoas saírem pior na foto não é ser critico, mas leviano; aceitar teorias conspiratórias não é ser crítico, mas paranóico; querer ter sempre opinião diferente da de todos não é ser crítico, apenas a expressão de um ego frágil querendo se afirmar.
Ser crítico é analisar as coisas usando a lógica e as informações disponíveis. Só isso. O resto é conversa fiada.
Use esse método e voce chegará a uma conclusão surpreendente: ser crítico frequentemente te leva a se dar conta de coisas absolutamente triviais, que a maioria não vê (tipo: gays são pessoas como as demais, nem todos os paulistas são malufistas reacionários, nem todo historiador é porralouca, argentinos adoram o Brasil, e assim por diante). Por incrível que pareça ser crítico não te faz ver além do óbvio. Te faz na maior parte dos casos ver o óbvio que a ignorancia e o preconceito costumam esconder.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A Reparação que o dinheiro não traz


Quarta-Feira estive numa das mesas redondas mais legais que já participei na vida (aliás, parabéns aos estudantes da UFRPE por terem organizado), tendo como tema a abertura de todos os arquivos sobre a ditadura militar. Tive o imenso prazer de ouvir dois antigos militantes que foram presos e barbaramente torturados falarem sobre sua experiencia. Não se vangloriaram, não expressaram ódio de ninguém. Mas mostraram toda a convicção e dignidade do mundo. A garotada da platéia ouvia em silêncio total. Eu segurava as lágrimas sabe-se Deus como, contendo duramente a vontade de sair gritando pela rua.
E eu pensava sabe em que? Nessas indenizações que o governo brasileiro tem pago aos que sofreram com prisões, torturas e exílio. Nada a reclamar disso (ainda que haja casos em que me pareça haver injustiças, mas a idéia geral está correta), mas há algo envolvido que me desagrada muito. Hoje em dia me parece mais claro que nunca que esse dinheiro nada mais foi, do ponto de vista dos nossos governantes, do que um cala-boca. Uma forma de reparar monetariamente um dano que extrapola completamente a questão financeira.
Que sob Sarney e Collor essa revisão não tenha acontecido é algo óbvio, já que, como diria o velho Brizola, ambos engordaram sob a ditadura. Mas há quase 20 anos somos governados por opositores da ditadura: primeiro Itamar, expoente da oposição política, depois FHC, cruelmente aposentado pelo regime antes dos 40 anos de idade (sim, depois ele se deu muito bem na vida, mas aí é outra história, mérito dele), aí Lula, que chegou a ser preso e construiu sua carreira na oposição aos militares, e finalmente Dilma, ex-guerrilheira e torturada.
E nada foi feito nesses quatro governos para responsabilizar os culpados por toda essa barbárie. O motivo é óbvio: os culpados estiveram em todos esses governos, muitos são parlamentares, governadores, grandes empresários, etc. Aí dá-lhe indenização, como forma de mostrar que estão fazendo algo. Mas aí é que está: o tipo de dano que essas pessoas sofreram não tem nada (ou muito pouco) a ver com dinheiro. Você faz idéia do que é ser covardemente agredido pelo próprio Estado que deveria te proteger? De ter danos físicos e psicológicos permanentes? De não poder enterrar seus filhos?
Entre trilhões de histórias que conheço sobre gente que sofreu com isso tudo, conto uma, que escutei na mesa-redonda citada. Uma senhora de 83 anos, mãe de desaparecido político, mora ainda hoje na mesma casa que há 40 anos. Não aguenta mais subir as escadas, mas não muda, com a esperança que seu filho por milagre tenha sobrevivido às torturas e esteja por aí, procurando sua casa. Dá pra fazer idéia do que é isso?
O Brasil ainda tem algo como 150 pessoas desaparecidas daquele tempo. E os sobreviventes vêem seus carrascos muito bem de vida, com ótimos empregos e uma velhice tranquila. E veja: encontrar esses corpos e punir os assassinos é só o primeiro (e indispensável) passo. Mas há muito mais. Essa enorme máquina assassina foi apoiada por muita gente. Muitos desses ainda hoje são membros respeitáveis da sociedade. Vários posam de democratas.
Já ouvi de sobreviventes que um respeitabilíssimo periódico, desses que se consideram "defensores da liberdade", na época emprestava seus veículos para o transporte de prisioneiros políticos. Já ouvi gente me contar que olhou nos olhos de pessoas que hoje são políticos importantíssimos (incluindo um que foi ministro) mas na época eram agentes civis da ditadura. O inominável Cabo Anselmo (que entregou sua namorada, grávida de um filho dele próprio, para morrer torturada) ainda é sustentado hoje por empresários, que ninguém sabe quem são. Um dos mais célebres dedo-duros, que entregou um dos mais importantes líderes da guerrilha para a morte, hoje ocupa um cargo altíssimo em uma poderosa multinacional, e ganha por mês mais que ganho em 2 anos.
Tudo isso tem de ser investigado. É coisa demais para varrer debaixo do tapete em troca de dinheiro. Essas pessoas todas merecem muito mais do que dinheiro. Merecem ver justiça. Não é "revanchismo", pois ninguém quer matar ou torturar ninguém. Queremos só a aplicação da lei. As sequelas, traumas e pesadelos que essas pessoas ainda sofrem precisam ao menos ser mitigadas com a divulgação do que aconteceu e a punição dos que merecem.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

40 anos de um álbum que dispensa comentários


Nesta semana estamos completando 40 anos do lançamento do disco popularmente famoso como Led Zeppelin IV (no rótulo só vinha escrito o nome da banda; na capa nem isso). Não tenho a mais vaga dúvida em dizer: é o maior disco da história do rock.
Como muitos amantes do bom e velho rock, acho o Led a melhor banda da história. Mas infelizmente durou relativamente pouco: apenas 12 anos. Nos últimos 5 anos gravou um disco ao vivo sem brilho, um de estúdio razoável (com duas músicas fabulosas se sobressaindo: "Acchiles Last Stand" e "Tea For One") e um último disco que é tão constrangedor que melhor nem lembrar.
Nos primeiros álbuns a banda, como é muito comum, ainda buscava seu som ideal, navegando um tanto indecisa entre o blues e folk, até descobrir finalmente que seu lugar não era nem um nem outro, mas um cozidão tendo ambos como base. Aí foi o auge da banda, que durou exatamente três álbuns. Infelizmente no Houses of the Holy eles inventaram de fazer uma música de cada gênero diferente, e nem o Led no auge daria conta de ser genial em oito gêneros distintos.
Sobram o montruoso Physical Graffiti e o Led IV, que sem dúvidas é o mais famoso álbum da banda. Afinal, lá está o hit supremo da banda, "Stairway to Heaven"; dois rockaços, daqueles que não podem faltar em setlist nenhum, "Black Dog" e "Rock'n'Roll"; um folk absolutamente chapante, o melhor que eles fizeram, "Tha Battle of Evermore"; e um lado B que acabou obscurecido, mas que entra fácil em qualquer disco que voce quiser (destaque para "When the Levee Breaks").
Em suma, o disco perfeito. Nenhuma música fraca, nenhum deslize. Nada. Há pessoas que gostam de se desfazer do álbum, procurando defeitos nele. Mas é pura vontade de discordar do senso-comum. Mas é preciso reconhecer: há casos em que as coisas se transformam em senso-comum pelo simples fato de serem verdade. Taí um caso. Não há álbum de rock melhor que esse.