terça-feira, 8 de novembro de 2011

A USP e a "tropadeelitização" do Brasil



Ao contrário da maior parte das pessoas que vivem à minha volta, não me aborreci com a visão de mundo exposta no primeiro Tropa de Elite. Não que eu tenha concordado com ela. Claro que aquela visão é absurda. Pra começar, aquela visão da universidade não corresponde a nada que eu tenha visto nos meus 20 anos de vida acadêmica. Nunca ouvi, por exemplo, alguém dizer que traficantes são caras legais, com consciência social. E que dizer da idéia que se os estudantes pararem de fumar maconha o crime organizado acaba? Supondo que TODAS as drogas do mundo fossem consumidas por estudantes: se eles parassem os traficantes iriam virar honestos trabalhadores, tipo motoristas de ônibus ou balconista de padaria? Ou iriam se dedicar à outra atividade criminosa? (Sei lá, traficar armas, por exemplo).
Mas tem uma coisa: o filme expressa uma visão muito comum na nossa sociedade, incluindo nossos policiais. Eles acham mesmo que todo mundo ama bandido. Não entendem que o que queremos é apenas que eles cumpram a lei. Que achamos que se os policiais não cumprem a lei, nada os separa de bandidos. Não queremos criminosos soltos, nem os achamos legais. Apenas queremos que a lei seja cumprida: que sejam presos e submetidos a julgamento dentro da lei. Nada mais.
E tem mais: o filme foi muito honesto. Inteiramente narrado em primeira pessoa, esse narrador se mostra desde o começo, e é um capitão do BOPE. No filme, o tal BOPE é maravilhoso e perfeito, uma ilha de lucidez e honestidade num mundo de idiotas e corruptos. Mas veja: o filme te diz o tempo todo que isso é a visão do próprio BOPE. Você dá o desconto que quiser a essa visão e curte o filme (que é muito bom!).
No entanto, aparentemente as pessoas não são lá tão espertas. Muitas viram o filme como se ele "contasse a verdade" (hã?). Estudantes passaram a ser vistos como os grandes responsáveis por todos os males do mundo, "bandidos" (palavrinha duca, hein?) devem ser assassinados, e a polícia veio para nos resgatar da violência, que só existe por causa de traficantes escrotos e alunos babacas.
Agora a USP. Não sei muito bem o que acontece por lá. Qualquer coisa que eu disser será leviano. No entanto, gente que sabe ainda menos do que eu (ou seja, nada) decidiu comprar a idéia de que tudo aquilo é porque os caras querem fumar maconha. Estudantes estão armando aquela confusão toda para fumar maconha? Sério? Será mesmo que nossa universidade é tão maravilhosa e perfeita que a única coisa que um estudante pode se queixar é que não pode fumar maconha à vontade? Quem pode achar uma coisa dessas? O tipo que cola aquela imagem lá de cima no facebook. O que inclui muitos (mas muitos mesmo!) dos meus amigos.
Não sei muito do que ocorre na USP, mas o pouco que sei não me faz simpatizar muito com o que acontece. Mas me agrada muitíssimo menos ver que a sociedade sequer tentou entender o que estava acontecendo. Embarcou gostosamente na lógica "tropa de elite", decidiu que eles só queriam fumar maconha e pronto. Os desmandos dos nossos governos com a universidade pública, a escrotidão do reitor, tudo isso passa tranquilo.
Quem diz isso tudo, não liga para a educação, não quer entender nada. Só quer que o filme se transforme em realidade, e a polícia tenha o direito de sair enchendo quem quiser de porrada. Acham que isso vai fazer um mundo mais seguro, pois nessa visão a culpa da violência é toda de quem quer que a lei seja cumprida e de estudantes que fumam maconha.
A propósito: claro que a culpa de nada disso é do filme em si. Ele apenas contou uma história a partir de um ponto de vista definido muito honestamente. Tropa de Elite apenas serviu como catalisador de idéias que as pessoas já tinham. E ao dizer que estudantes merecem apanhar porque "só querem fumar maconha mesmo", essas pessoas nada mais fazem do que tentar realizar as fantasias de serem o capitão nascimento do mundo real e acabar com a violência no mundo. Quanta fantasia recalcada, hein?

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Fim da Minha Geração

"Tenho nojo da nossa geração". Essa é talvez a frase central do filme Nós Que Nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola, um dos melhores filmes que já vi na vida. Em umas duas semanas estarei a 1 ano dos 40 anos. Sou da geração que nasceu dentro da ditadura, e quando começamos a acordar para a vida, concluímos que aquilo não era vida. Nada muito diferente do que viveram todas as gerações de adolescentes do mundo. Mas tínhamos algo muito interessante: alvos muito evidentes para nosso ódio.
Guerra Fria, corrida armamentista, ditadura militar, esposas assassinadas legalmente por maridos ciumentos... era muita coisa para ser odiada, e com razão. Coisas que ninguém aguentava mais, que eram carcomidas, e que para nós eram verdadeiramente intoleráveis.
Hoje eu encontro os amigos militantes da época. Gente que queria revolucionar o país, que sofreram comigo as grandes derrotas daquela década, como as diretas já e as eleições de 1989. São quase todos figuras patéticas. Quase todos são "quadros" petistas. Ou seja, são pessoas que trabalham para algum governo petista. Confortáveis com seus ótimos salários e posição social, gostam de dizer que estão ajudando a fazer a revolução pela qual o país passa. Eu respeitaria se eles dissessem: "sei que essa não é a revolução que sonhávamos, mas é o possível". Mas eles dizem outra coisa: "estamos fazendo a revolução que sonhávamos. Em alguns anos vamos acabar com a pobreza. Estamos levando o Brasil ao socialismo!". Tristes figuras.
Um reflexo disso é o que aconteceu com as bandas pop-rock daquela época. Bem ou mal, muitas delas verbalizavam maravilhosamente a raiva que sentíamos daquele mundo ridículo. Aí vejo para onde foram depois. Nenhuma sobreviveu à "síndrome do rockeiro adulto". No fim da década todas ficaram ser ter mais nada a dizer. Encerraram a carreira, e anos depois retornaram sob diferentes pretextos, mas na verdade apenas para tocar as velhas músicas, em versões absolutamente caretas e adocicadas.
O atestado de óbito da minha geração pra mim foi aquele "ei, Sarney, vá tomar no cu", do vocalista do Capital Inicial, no rock in rio. A raivosa banda censurada pelos militares havia se transformado no porta-voz dos alienados babaquinhas que acham que reclamar de corrupção é postura política. É um episódio sem importância, mas metaforicamente é muito poderoso. Me soou como o ponto final de uma geração que (como todas as outras) um dia quis mudar o mundo mas se contentou com um bom salário.







domingo, 6 de novembro de 2011

A tal "nova esquerda": balanço


Quando eu acordei para o mundo, há uns 30 anos atrás, a esquerda tradicional era dada como enterrada. Os regimes socialistas eram evidentes fracassos e seus representantes no Brasil claramente tinham se mostrado incapazes de organizar a classe trabalhadora, com o desconto de que a guerra fria ter limitado tremendamente suas possibilidades de ação. Criticava-se também de forma ostensiva o fato de essa esquerda marxista jamais ter aberto espaço para questões como ambientalismo e movimentos de minorias.
Por outro lado, os antigos líderes da classe trabalhadora urbana eram rapidamente descartados como "populistas" (tão atacados que a palavra virou sinônimo de "demagogia" ou até "fascismo"). Assim, foram transformados em dinossauros. Pensar em Brizola ou Arraes como alternativa naquele tempo era algo como pensar em trazer D. Pedro II de volta do mundo dos mortos para nos governar. Mesmo que na época esses políticos fossem tão ou mais jovens que os atuais protagonistas do debate político, como Lula, Dilma e Serra.
Era consenso, por todos os lados, que era preciso criar uma "nova esquerda". No mundo acadêmico, historiadores e cientistas sociais desciam a lenha no comunismo, no marxismo e reabilitavam qualquer um que fosse um contraponto a eles: anarquistas viraram os profetas da tirania marxista, o liberal Tocqueville virou gênio, e até o ultraconservador Edmund Burke passou a ser visto como "sofisticado". Agora a Revolução Francesa não teve nada a ver com luta de classe e economia não explica mais nada.
Nas ruas nascia o "novo sindicalismo", que se opunha aos vínculos entre sindicatos e o estado (existentes tanto sob o populismo quanto no socialismo), e pregava a necessidade da autonomia dos movimentos sociais, que deviam se guiar por suas próprias agendas. Na política, o reflexo foi o nascimento do PT, incorporando esses novos movimentos sociais e acadêmicos, tentando criar uma nova forma de fazer política, condizente com essa "nova esquerda". Baseada no apoio dos movimentos sociais, mas longe da política tradicional, dos populistas e do comunistas, era a grande novidade política daquele tempo.
30 anos depois...
Aquela nova esquerda hoje se comporta exatamente como os velhos populistas que tanto criticava. É centrada em um grande nome idolatrado por uma população despolitizada, possui um leque de alianças sem nenhuma coesão ideológica, trouxe os movimentos sociais para o estado (a velha burocratização dos sindicatos, que os petistas acadêmicos tanto criticavam no populismo e no socialismo)...
Os movimentos de minorias têm um papel muito importante a desempenhar, mas não conseguiram sair de sua função de grupo de pressão para uma causa particular, sem desenvolver um novo projeto de sociedade. Os ambientalistas que tem mais visibilidade (Gabeira, Marina) estão cada dia mais próximos da direita. Os movimentos sociais não tem nenhuma agenda além de ser governo.
Os historiadores e cientistas sociais daquele tempo, que tanto marretaram o populismo e o socialismo hoje se dividem em dois grupos. Uma parte (a maior delas) se agarrou loucamente ao poder. Alguns no governo FHC, outros no governo Lula. Em comum, o fato de fazerem todo tipo de pirotecnia para tentar provar que seu amado governo havia finalmente realizado tudo que eles pediam décadas antes. Claro, sempre muito bem financiados por esses governos. Outros descambaram para o niilismo, e só escrevem sobre temas muitíssimo desidratados (tipo "houve modernismo literário no RJ"?).
Como se vê, quando a gente olha para o cenário atual e procura as contribuições que a "nova esquerda" nos deu, a gente fica com dificuldades. O PT nada mais é do que um partido populista velha-guarda, sem nada muito diferente do que Brizola e Arraes defendiam há 50 anos. Sua relação com os sindicatos é mais burocrática que a de Vargas, já que eles efetivamente se incorporaram ao Estado. A grande verdade é: o "novo sindicalismo", que nasceu para acabar com as relações entre sindicatos e Estado terminaram radicalizando essa relação, e hoje fazem parte do Estado.
Notem: não estou dizendo que a nova esquerda nada faz pelo país. A discussão não é essa. Muito menos o governo Lula, ou coisa do gênero. A minha discussão é: há 30 anos havia toda essa efervecência no campo da esquerda brasileira, em que se avaliava que esse campo deveria mudar radicalmente seus conceitos e práticas. Hoje, o que se vê é que esses grupos nada mais fizeram que neutralizar os velhos populistas e comunistas que dominavam o lado esquerdo da política brasileira, para em seguida fazer as mesmas coisas que eles.

sábado, 5 de novembro de 2011

Nossas forças armadas (?)


Conversava hoje com uma pessoa da aeronáutica, e confesso que fiquei meio assustado com o que ouvi. Segundo meu interlocutor, eles estão completamente sucateados, adquirindo equipamentos (incluindo aviões) usados, com até meio século (!) de uso. Me disse ainda que acha improvável que exército e marinha estejam melhores.
Nossa sociedade claramente tem medo de suas próprias forças armadas. E tem bons motivos para isso. Não satisfeitos em terem destruído o Brasil, eles cultivam com muito cuidado a versão de que a ditadura militar que tivemos foi um ato patriótico que salvou o país do comunismo. Isso é ensinado repetidamente nos colégios militares, o que indica que nos quartéis é a versão dominante ainda hoje, incluindo para pessoas que nasceram já sob a democracia. Ou seja, se é esmagadora entre os militares, a idéia de que a ditadura foi uma coisa maravilhosa, o que os impede de num outro momento acharem que devem fazer isso de novo? nada, né?
Há mais: a guerra fria nos tornou completamente desconfiados de investimentos em armamentos, que passaram a ser associados a imperialismo, e coisas do gênero. Some-se a isso o fato de nosso país não ser protagonista de uma guerra há 140 anos e não ter qualquer perspectiva de o ser novamente e pronto: ninguém liga para nossas forças armadas.
Eu acho isso um baita erro. Para começar, um erro de lógica: mesmo a mais fuleira das forças armadas consegue subjugar a população civil e desarmada de seu país, se assim desejar. Ter exército mal equipado não ajudará em nada a impedir a repetição dos tristes episódios que vivemos há algumas décadas.
Por outro lado, o Brasil é um país gigantesco, e tem enormes fronteiras desabitadas com países que, em alguns casos, tem problemas evidentes com guerrilhas e narcotráfico, e uma Amazônia com áreas enormes com pouca ou nenhuma presença do Estado. É indiscutível que há sentido para a existência do exército.
Mais que isso: um país indefeso é um país que sempre está a mercê dos outros. Eu sei, não há qualquer vaga perspectiva de risco concreto. Mas uma coisa que aprendi como historiador é que esse é o tipo de coisa que pode mudar em relativamente pouco tempo. Quer um exemplo?
No dia 11 de setembro de 1973 um golpe militar derrubou o presidente chileno Salvador Allende. Você certamente sabe disso. O que provavelmente você não sabe, é que os norte-americanos enviaram representantes de sua marinha para os limites das águas territoriais chilenas, caso fosse necessário intervir. Traduzindo: se as forças leais a Allende estivessem levando a melhor, o país seria invadido por unidades da marinha dos EUA. Que tal?
Outro exemplo: no final de 1978 os lunáticos da ditadura argentina quase empurraram o país para uma guerra absurda e sem sentido contra o Chile por conta de um pedaço da Terra do Fogo. A guerra foi abortada no último minuto graças à intervenção do Vaticano. Mas provavelmente pesou o fato de o exército chileno ser melhor equipado que o argentino, tornando a vitória muito difícil para a turminha de Videla.
Pode parecer algo quase impossível, mas não é. Neste século tivemos dois golpes militares (Venezuela e Honduras) no velho estilo, com apoio-norte-americano, da Igreja e dos empresários contra presidentes populares. O que mostra que os riscos de sempre não desapareceram, a despeito do triunfalismo de muitos que consideram esse tipo de coisa uma página virada.
Por outro lado, veja o Irã. O país é abominado pelo ocidente, deve ser o mais odiado pelos EUA atualmente. Agora me diga: os norte-americanos mexem com eles? Não, pois se acredita que eles tenham a bomba atômica ou estejam perto de tê-la. Por outro lado, se metem á vontade com países sem poder de fogo, tais como Líbia e Venezuela.
A grande verdade é: ninguém se mete com países que tenham forças armadas dignas do nome. Nenhum país jamais se protegeu graças à habilidade diplomática ou por ser modelo de democracia ou crescimento. Em política internacional, as armas são essenciais. Não é o mundo que eu gostaria de viver, mas é o mundo em que vivo. E o Brasil tem de acordar para isso.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Ser de direita e esquerda hoje


Muita gente acha que não existe mais direita e esquerda. E eu acho que eles estão completamente errados. Acho que quem diz isso se apóia em dois tipos de argumentos, ambos completamente falaciosos:
1) "não há ideologia, só interesse". Indefensável. Uma pessoa defender seus interesses, ou até ser corrupto, não a impede de forma alguma de acreditar em algo. Veja o caso do Brasil: é bastante evidente que em linhas gerais PT e PSDB tem diferenças ideológicas marcantes. Agora, se seus políticos são honestos ou não isso é outra história. Se não há ideologia, porque esses partidos administraram o país de forma tão diferente? Tanto mais que as administrações estaduais e municipais desses partidos seguem consistentemente essa diretriz? De resto, quando foi essa época em que não havia corrupção e interesse, permitindo "autênticas" esquerda e direita?
2) "depois do fim do socialismo essas idéias não fazem sentido". Errado de novo. Quem diz isso presume que ser de esquerda é ser defensor do socialismo soviético e o resto é direita. Nunca foi assim. O espectro político nunca foi polarizado entre esquerda e direita. Sempre houve um continuum, que começa nas posições de extrema-direita, passando por conservadores, liberais, social-democratas, socialistas, etc. O fim da experiência socialista não muda isso. Aliás essa mudança nem extinguiu o socialismo enquanto posição política. Em quase todos os países do mundo há partidos que seguem se definindo como "socialistas".
O que acontece, e é extremamente normal, é que essas posições vão se redefinindo. Elas nunca foram fixas, como alguns acham. Hoje, por exemplo, me parece bastante evidente que a linha que separa a esquerda da direita é a questão da intervenção estatal. Ou seja, os que acham que o Estado deve agir para minimizar os efeitos da desigualdade e os que acham que não, que o Estado não tem esse papel.
Dentro dessas duas posições possíveis, há muitas diferenças. Há uma esquerda moderada, que é a tendência predominante do atual governo, que acha normal os ricos se lambuzarem, desde que o Estado compense minimamente as necessidades dos mais pobres. Mais à esquerda temos os que acham que o Estado deve atuar mais agressivamente para forçar uma maior redistribuição de renda, inclusive impondo limites aos ganhos dos ricos. E no extremo desse lado do espectro temos os socialistas, que acham que a propriedade privada deve ser eliminada.
Há o lado da direita, que acha que o Estado não tem nada o que fazer em termos de atenuar as desigualdades. Claro que também há diferenças. Há os raivosos que pensam que todo pobre é vagabundo, e portanto não deve ser ajudado. Acham que isso é "estimular a vagabundagem". Há os que acham que ao menos se deve garantir que não morram de fome. E há os que vêem a necessidade de políticas (sempre muito modestas, claro) como as do governo FHC.
E essa diferença não é nada abstrata. É muito fácil de ser percebida no discurso dos dois lados. A direita não quer ouvir falar em impostos, empresas estatais e gastos públicos. A esquerda é o contrário: se arrepia só de ouvir falar em privatizações, corte de gastos, etc., já que acredita na função do Estado como regulador, fomentador do crescimento e redutor de desigualdades.
No aspecto cultural também é muito clara a diferença. A direita tende a achar abomináveis as políticas de ação afirmativa (acha uma intervenção intolerável do Estado naquilo que vêem como uma "meritocracia"), e em versões mais radicais pode achar linda a humilhação de mulheres, negros, gays, índios e nordestinos (vide o episódio Rafinha Bastos). Muito ao contrário, a esquerda, que acredita no Estado, crê que a intervenção para suprimir as históricas desigualdades de gênero, raça, etc. é indispensável.
Ou seja, em todos os parâmetros, é muito claro que temos o trio PT/PSB/PC do B como representantes típicos de uma esquerda moderada (com setores mais progressistas), o P-SOL como uma esquerda mais agressiva e o PSTU como uma esquerda radical. No outro campo, os democratas são exemplos evidentes da direita. E o PSDB? Pra mim é centríssimo (o que não é indecisão; ser "de centro" é uma posição, que os tucanos abraçam com convicção). Poderiam escolher entre ser a ala moderada de uma aliança de esquerda ou a facção progressista de uma aliança direitista (ficaram com a última). Afinal, combinam o neoliberalismo e privatizações com modestas políticas compensatórias, abertura da discussão sobre cotas e a promoção do "toda criança na escola" (e não é demais lembrar: digam o que disserem hoje, FHC não fez nenhum corte de impostos. muito pelo contrário: criou a CPMF e aumentou muito o imposto de renda, já que jamais corrigiu a tabela).
Vou repetir para me prevenir definitivamente de certos tipos de comentário. CLARO que isso não quer dizer que os partidos que identifiquei como "ideológicos" sejam formados por idealistas dispostos a morrer por uma causa. Achar que "ideologia" é isso é ser MUITO inocente. Quem acha isso vai ter de concluir nunca houve ideologia nenhuma em época nenhuma. O que é de um niilismo absurdo.
Em suma, não vejo razão nenhuma para se acreditar que não haja esquerda e direita, seja no mundo, seja no Brasil. É só olhar os discursos e práticas dos partidos ideológicos que temos e concepções de esquerda e direita ficam absolutamente evidentes.
O que não invalida o fato de que nosso sistema político tem uma gigantesca anomalia: a existencia de partidos que não tem nenhuma ideologia além de ser governo. PMDB, PTB, PP, PR, esses partidos estão em todos os governos, o que é prova evidente de que só querem mamar mesmo. E não tenho dúvidas: nem FHC nem Lula gostariam de se aliar com essa gente, que sabem muito bem serem uma corja. Mas como nós, os eleitores, colocamos dezenas de parlamentares desses partidos no congresso, obrigamos os dois governos a compor com eles. Não tem como evitar. A culpa aí é mais nossa do que dos últimos governantes.
E se você não se convenceu, aqui fica uma última pergunta: se PSDB e DEM só pensam em se dar bem, porque seguem na oposição a um governo popularíssimo, sendo que poderiam estar dentro dele, mamando nas tetas do Estado e pegando carona no lulismo? Porque nos anos 90 PT, PSB e PC do B pareciam caminhar para o suicídio ao ficar 8 anos fazendo oposição ao governo?
Simples, esses partidos acreditam em algo. Pode ser algo que voce odeie. Mas eles acreditam. Se dispuseram a sofrer a desgraça que é ser oposição no Brasil quando poderiam ser governo.
Esquerda e direita existem sim. Negar isso é fazer o jogo do poder. Quem está lá quer que voce acredite nisso. Fica mais fácil para eles dizer que são "o bem" e quem discorda deles é "o mal", se voce presumir que não existem diferenças significativas de ideologia.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Nelson Cavaquinho


Originalmente eu ia fazer um post sobre o que é ser de "direita" e "esquerda" hoje em dia. Mas vai ter de ficar para amanhã. Pois eu simplesmente atinei para algo muitíssimo mais importante: no fim de semana passado completamos 100 anos de nascimento do cracaço Nelson Cavaquinho.
O samba ter parado há décadas de criar músicos talentosos já seria triste. Ainda pior é ver que esse espaço foi tomado pelos zeca pagodinho da vida, com aqueles pagodes melosos engana-trouxa. Ou seja, está cheio de gente aí achando que ser sambista é encher o rabo com propaganda de ceveja, ficar por aí bancando o "engraçado" e fazendo letrinha alegrinha.
Nada disso meu amigo. Os grandes sambistas do passado eram muito amargos em suas letras. Escute Ismael Silva, Assis Valente ou Cartola. As músicas deles eram dolentes, sofridas. O mundo foi cruel com todos eles. Não tinha essa de contrato com grande gravadora, DVD cheio de frescura. Se eles entrassem numa de "deixa a vida me levar" eles iriam se dar mal.
Veja: não sou contra sambista se dar bem na vida. Eu adoraria que o Ismael Silva não tivesse passado anos na cadeia e morrido pobre, que o Assis Valente não tivesse se matado ou que o Cartola tenha sido pobre em 90% de sua vida. Eu amaria que eles tivessem tido a vida que esses picaretas têm hoje. O que é ridículo é ver esses riquinhos cantando música porcaria, aguada, e dando uma de "malandros" ("ah, eu morava em Cordovil há 983 anos"), e vivendo uma vida que os gênios do samba nunca puderam sonhar em ter. O que me mata é a injustiça de o Ismael Silva morrer pobre e o Zeca Pagodinho nadar em dinheiro.
Nelson Cavaquinho era dessa estirpe monumental de negros pobres e sofridos que passaram a vida sendo pobres e cantando músicas pessimistas. Talvez poucos tenham sido tão amargos em seus sambas como ele. E essas letras eram acompanhadas por melodias absolutamente inspiradas, excelência instrumental (o proprio Nelson tocava um violão absurdo) e a voz única do gênio.
E, segundo a opinião unânime dos sambistas que conheci, um tipo absolutamente hilariante. Simultaneamente desligadíssimo e boemio incontrolável, protagoniza inúmeras histórias do folclore do mundo do samba. A maioria é absolutamente impublicável, claro. Uma das que eu gosto, e que pode ser contada aqui é lembrada pelo Sérgio Cabral.
Segundo ele, Tom Jobim estava vendo um show de Nelson Cavaquinho. Curtiu tanto que subiu ao palco e tocou flauta em várias músicas. Ao fim Nélson mandou essa: "Sérgio, muito bom aquele menino tocando flauta, quem é?".
Folclore à parte, Nelso Cavaquinho era um monstro. Compòs músicas sensacionais, algumas conhecidas (sem que a maioria saiba o autor) outras não. Mas sempre vale a pena ouvir. Nunca ouvi uma música nota 7 deles. É tudo muitíssimo bom. Clique abaixo e se delicie.












terça-feira, 1 de novembro de 2011

A "traição" petista


O post anterior gerou um comentário que me fez reler o que escrevi, e de fato concluí que o leitor tinha razão. O texto efetivamente sugere que Lula e o PT foram "obrigados" a se unir a grupos políticos que antes repudiavam e moderar tanto a prática quanto o discurso. Não foi o que eu quis dizer, mas de fato há margem para essa interpretação. Então quero aproveitar e falar um pouco desse tema tão relevante.
Reconheço que os oito anos de Lula tornaram o Brasil um país melhor. No entanto, pro meu gosto essa melhora foi pequena. O Brasil tem problemas demais para ficarmos satisfeitos com tão pouco. E se o país não melhorou mais é porque o lulo-petismo estava compromissado demais com as elites tradicionais para mexer em seus privilégios. Acho que discordar dessas coisas é dar cabeçada na parede. Não vejo como pensar de outra forma.
Por outro lado, há algo mais que não vejo como discordar. Lula não teria vencido essas eleições sem fazer essas concessões. Nós da esquerda temos de admitir: vivemos num país em que a população não quer um presidente de esquerda. O que eles querem é participar do capitalismo, e amam Lula porque acreditam que ele deu isso a eles.
Eu sei: ao invés de simplesmente mudar o rumo, o PT poderia ter tido um projeto de longo prazo, de conscientização, etc., a fim de mudar essa percepção da população, e aí lutar pra vencer de verdade. Era uma possibilidade, e certamente é a que eu preferia que eles tivessem escolhido.
Por outro lado, eu não recrimino a escolha petista. Entendo que no segundo governo FHC eles perceberam que havia espaço para um projeto que mantivesse as conquistas daquele governo (sem inflação, estabilidade, etc.) mas trouxesse desenvolvimento suficiente para inserir as massas no maravilhoso mundo do consumo. E é claro: partidos querem chegar ao poder. Outro grupo poderia ocupar esse espaço, chegar ao poder, executar o mesmo projeto que tivemos com Lula e roubar inclusive a base que o PT já tinha. Era um dilema dificil mesmo, e não podemos negar que havia a possibilidade que o "longo prazo" citado antes não chegasse nunca.
Em suma, lamento a opção petista, mas a compreendo. Perderam o meu voto mas ganharam milhões de outros. Do ponto de vista deles, não fizeram tudo o que sonharam, mas fizeram mais do que poderiam se passassem o resto da vida na oposição. Consigo entender a lógica.
O grande problema aí foi a perda terrível que tivemos: deixamos de ter um partido de esquerda com autêntica inserção nas massas. Os partidos que ex-petistas montaram têm tido seríssimas dificuldades de se fortalecer, já que o projeto no poder cooptou a maioria dos movimentos sociais. Além disso, muitos antigos esquerdistas do PT estão (por algum motivo, nem sempre idôneo) convencidos de que o lulo-petismo de fato está revolucionando o país. E as pessoas que estão dentro do lulo-petismo mas desejosos de empurrá-lo para a esquerda estão todos cagando de medo de que isso leve à perda de votos mais conservadores. Aí acham que criticar Lula e Dilma pela esquerda é "fazer o jogo da direita". Xingam quem critica os pontos em que o lulo-petismo simplesmente não andou como se fôssemos trouxas fazendo o jogo da direita (obviamente quem está fazendo isso são eles, que acham que o certo é ficar quietos vendo a direita dominar a aliança governista).
Em suma, discordo mas entendo a opção petista. Não acho que foi uma traição. Um partido tem o direito de fazer alianças que levem a compromissos programáticos para chegar ao poder. A curto e médio prazo o PT não chegaria lá de outra forma. Mas que falta faz um discurso de esquerda com sólida base popular! Essa sim, foi uma perda que eu realmente lamento.